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Azaléia sem flores


Britto exemplifica com fatos a vigência da teoria.



Viamão, 9/12/2005

Na última 2ª feira, dia 6 de dezembro, uma das cinco maiores empresas de calçados do mundo fez uma importante contribuição para o “desenvolvimento” das forças produtivas. O Grupo Azaléia, sob o comando do ex-governador do Rio Grande do Sul, Antônio Britto, fechou uma de suas fábricas com 25 anos de funcionamento ininterruptos. Localizada em São Sebastião do Caí, apenas esta fábrica representava 800 empregos diretos.

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Pegos de surpresa, os quase mil operários se desesperaram. Até a sexta-feira anterior a diretoria da unidade negava o fechamento. Diziam que era tudo boato, negavam a correlação entre a abertura de duas novas unidades em Sergipe e o fechamento desta unidade e de outra há seis meses atrás. Sem estas duas fábricas, o município perderá pelo menos 1 em cada 4 reais que o estado retornava aos cofres da prefeitura através do ICMS.

As marcas da Azaléia são tão fortes que chegam impressionar aos mais desavisados. A fábrica fechada produzia as prestigiosas marcas Olympikus e Asics. Agora, os portões da unidade tem apenas os restos de jalecos queimados, forte estopim para produzir outros funerais, tanto de fábricas como de gente.

Para quem não está informado do tema, os números são de arrepiar. Embora conflitantes, as demissões com perda de empregos diretos no setor oscilam em torno de 20.000 postos de trabalho. Enquanto a associação patronal afirma terem fechado 22.000 postos de trabalho, os sindicatos do couro e do sapato publicam a cifra de 15.000 demitidos. Levando-se em conta que cada emprego direto gera quatro indiretos, temos nos vales do Rio dos Sinos e do Rio Caí a marca de 80.000 pessoas que perderam quase a totalidade de sua renda, apenas em 2005. Tomando o número básico de quatro pessoas por unidade familiar, as cifras alarmam qualquer indicador de segurança pública e coesão social. Nestas duas micro-regiões lindeiras da Região Metropolitana, com índices de emprego e renda sempre positivos se comparados com outras partes do Rio Grande, a perda da renda de forma direta e indireta pela quebra do setor atinge a 320.000 pessoas. Vale lembrar, estamos falando de municípios com vocação industrial e onde o setor coureiro-calçadista é o principal.

No dia 30 de setembro deste ano, o operário sapateiro Jair Antônio da Costa foi assassinado pela Brigada Militar (PM gaúcha). Jair, casado e pai de dois filhos, tinha dez anos de trabalho ininterrupto na Calçados Beira Rio e era dirigente do sindicato de sapateiros de Igrejinha. Participava junto a outros 3.000 sapateiros de Rolante, Igrejinha, Sapiranga, Campo Bom e Novo Hamburgo em um protesto contra as demissões no setor. Terminou atacado por todo um pelotão do 32º BPM, com o tenente-coronel José Paulo Silva à frente. Foi literalmente assassinado com traumatismo cervical, asfixia mecânica e contusão hemorrágica, fruto de golpes e chaves aplicados pelos policias-militares com suas tonfas.

Não foi o primeiro e ao que parece não será o último. Em 30 de setembro de 1986 um outro dirigente sindical e operário calçadista morria assassinado em Sapiranga. Carlos Dorneles Rodrigues, 20 anos, voltava da assembléia que encerrava uma greve de nove dias no setor calçadista. Terminou sua jornada com tiros de calibre 38 na cabeça. A única diferença era o momento histórico. Naquele ano, a CUT não era governo e empurrava mais de 1000 greves em todo o país. Já o setor coureiro-calçadista, ia de vento em popa, iniciando a modernização de seu parque industrial.

Por ironia da história, senão por tragédia, em 1986 Antônio Britto era deputado federal pelo PMDB gaúcho. Vinha de ser repórter da RBS, depois da Globo em rede nacional, até ganhar notoriedade como porta-voz de Tancredo Neves. Da alça do caixão voou para a carreira política. Quando eleito governador do Rio Grande, regou os jardins da Azaléia com dinheiro sem fim vindo do Fundopem e dos recursos do estado. Duas derrotas eleitorais depois e Britto se encontra na cadeira de diretor-presidente de um grupo econômico que tem muito mais desempenho e capital do que o próprio governo sub-nacional que tanto o ajudou.

Mas nem tudo são espinhos para este grande grupo econômico. Além das duas fábricas inauguradas já neste ano em Sergipe, mais duas estão por vir. Além destas quatro, Sergipe conta com outra a mais e a Bahia tem 18 plantas do grupo. No Rio Grande do Sul, estado de origem, restam apenas cinco plantas e ninguém sabe até quando. Além das fábricas implantadas no nordeste, esta potência “nacional” agora produz na China. Produz não, põe selos de seus produtos nos calçados feitos no pólo de Dong Huan. A mão de obra quase escrava chinesa passa cola de sapateiro no desemprego dos operários gaúchos. Salários miseráveis, nenhum beneficio nem amparo social, jornadas de trabalho de 12 horas ou mais são um atrativo para os “capitais nacionais”.

Voltando ao que ocorre dentro do território brasileiro, os motivos da transferência são simples. Benefícios, incentivos fiscais, doação de terrenos e infra-estrutura e tudo aquilo que alimenta a guerra fiscal e corrói o pacto federativo. O resultado desta disputa insana e subserviente os moradores de Alvorada, município da Região Metropolitana com 50% de desemprego e com o título de mais violento do estado, já sabem. Na beira da carcomida RS-118, um corredor de estrada cortando os fundos da metrópole gaúcha, há um terreno beneficiado, com terraplanagem, instalação para luz, água, saneamento e concreto para caminhões. Estão a espera da Dell Computer, empresa que talvez um dia se instalasse naquele município. Há pouco mais de um mês, o prefeito João Carlos Brum (PTB) desenganou a população, revelando que a Dell não vai mais para onde nunca foi.

Benefícios e guerras fiscal entre os estados, isenção de impostos, doação para a iniciativa privada e outros desvios de recursos de forma direta e indireta são um tema de fundo. O que se sabe, e disto sabemos todos, é que não é abrindo mão de sua capacidade decisória que o governo central ou estadual defende suas cadeias produtivas. Também não será com arrocho impositivo nem dádivas gentis para os grandes grupos econômicos como Azaléia e Gerdau que o Rio Grande vai se reerguer. Um estado que sequer paga em dia o 13º salário de seus funcionários não deveria carregar na paleta toda espécie de latifúndio e monocultura. Mas carrega, assim como financia e re-financia qualquer complexo industrial ou agro-exportador pertencente ou chegado à oligarquia sulina.

A classe política gaúcha anda tão generosa, que além de doar recursos públicos termina por reciclar seus dirigentes derrotados como CEOs de empresas. Enquanto Antônio Britto cumpre sua função de classe, fechando fábricas e migrando capitais destinados por ele mesmo para a iniciativa privada, o Rio Grande do Sul termina o ano com crescimento zero. Resta saber quantos funerais operários mais serão necessários até esta gente acordar. O único consolo, é que quando isto vier a acontecer, talvez já seja tarde demais.

Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat






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