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ISSN 0033-1983
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A “ajuda humanitária” que chega com a 4ª Frota do Império

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Ocupação do Império ou da ONU, o uso da força contra civis e suspeitos em geral é a marca. Os assassinados pelos capacetes azuis sob comando militar do Exército Brasileiro, os periquitos de Caxias, fortaleceram a condição de poder sem governo da oligarquia herdeira dos Duvalier.

23 de janeiro de 2010, de São Sebastião do Rio de Janeiro, Bruno Lima Rocha

No momento em que este artigo é lido, é possível que o presidente Obama e a pró-cônsul do Império Hillary Diane Rodham Clinton já tenham consolidado o país chamado Ayití no idioma kreyol (créole francês) como campo de provas para mais uma ocupação de tipo protetorado. Toda comparação histórica é meio forçosa, mas não há como negar a visão do Caribe como o atual Mare Nostrum estadunidense. Os EUA operam nas águas antilhanas e caribenhas como os romanos operaram com suas galés no Mediterrâneo.

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A declaração de 21 de janeiro de 2010, vinda da Casa Branca, alocaria uma Divisão inteira de armas combinadas do Comando Sul para a “ajuda” humanitária do Haiti. O contingente anunciado chegaria a 20.000 homens e mulheres em armas ou no apoio ao combate. Mesmo se considerarmos as estatísticas mais apavorantes, de 1 milhão e meio a 2 milhões de haitianos sem casa, ou seja, 1 em cada 4 moradores do país vivendo nas ruas, a presença de tropas leais a Washington (ainda que sob contrato mercenário) já é por si só um exagero.

De sua parte, o secretário-geral da ONU Ban Ki-Moon convocara os países que compõem as forças conjuntas de ocupação do país mais pobre das Américas, MINUSTAH, a receberem o reforço de mais 3.500 soldados profissionais (entre combatentes e policiais). Assim, a ONU que em tese promove uma “ocupação do Bem na terra dos Duvalier (o finado Papa Doc e seu filho Baby Doc), estaria tentando ampliar o volume de tropas para continuar fazendo a sua função pela metade.

Mesmo não podendo comparar a ação unilateral dos EUA, que a nada respeitam, nem sequer aos organismos multilaterais globalizados os quais eles fazem parte, com a MINUSTAH, é preciso repetir que não há ocupação militar boa no mundo! A ONU entrou para evitar também o desgaste do Império que promovera a invasão em 1994, com o pretexto de restauração de ordem constitucional que o próprio Império ajudara a derrubar. É a ONU que desde 2004 ocupa o país após um golpe de tipo institucional haver derrubado novamente e evadido do país ao ex-padre e então presidente Jean Bertrand Aristide.

Sejamos francos, o absurdo da ocupação das Nações Unidas cujo comando militar ao Brasil pertence está em consolidar uma oligarquia herdeira política dos Duvalier isto implicando em todas as suas conseqüências. Até o terremoto os capacetes azuis eram o Exército do país, e a polícia local um braço auxiliar. O controle político era dividido com a presença dos descendentes dos Makoutes (em seus escalões mais baixos), reciclados como gangues de favelas tomando a noite os bairros empobrecidos. Enfim, uma ocupação militar cujo modelo de estabilidade foi manter as estruturas centrais em seu lugar e não abrir margem para a contestação.

O Brasil foi e é cúmplice disso. Embora de forma menos brutal que o extinto Exército do país, as tropas da ONU chegaram a reprimir protestos estudantis, sindicais e camponeses, inclusive com mortos. O fuzil azul do multilateralismo opera de forma a evitar o “banho de sangue” da rebelião popular, e com isso, assegura a elite mulata - porque no Haiti a pobreza é de pigmentação mais intensa, de pele mais escura – a sua forma de vida e o comportamento de predador e sanguessuga para com os aportes que vêm de fora.


A “nova era” chegou na 4ª Frota

Agora isso mudou. Após o terremoto de 13 de janeiro, logo seguido de outro em escala menor, a prepotência estadunidense e as pretensões políticas de Hillary Clinton diante de um Barack Obama mais enfraquecido, elevam a temperatura na região e, de fato, subordinam às demais forças estrangeiras ali presentes. Os absurdos narrados pelos Médicos Sem Fronteiras no controle do aeroporto e nas aterrisagens frustradas de aviões lotados de equipamentos hospitalares e pessoal especializado revelam o início da “nova era”. Nesta era, retornamos a 1915, quando os EUA também ocupam a parcela francófona da Ilha de Hispaniola e de lá saem somente em 1934, deixando a sociedade tradicional em frangalhos.

Entendo que o mínimo a ser feito é condenar tanto a ocupação dos estadunidenses como a da MINUSTAH e, reforçar de todas as formas possíveis o que restar de auto-organização social haitiana. Neste item, a retomada da produtividade no setor agrícola do país é fundamental, e neste quesito, por sorte, é possível uma ação solidária entre camponeses. Se aceitarmos, ao menos como opinião pública latino-americana, a ocupação da ONU antes e dos EUA a partir de agora, ideologicamente estaremos naturalizando a presença da 4ª Frota nos portos e costas do Continente.

Pouco importa se o Big Stick veio travestido de “ajuda” humanitária, é ocupação militar e repressão sobre os civis do mesmo jeito. Os navios de guerra dos EUA tanto transportam pessoal e equipamentos (como o hospital embarcado); como protegem os cruzeiros turísticos nas águas do Mar do Caribe e asseguram o espalhar do medo e da sensação de ordem vindo de fora para os famélicos haitianos.

A solução para o Haiti e para qualquer povo sob flagelo é a reorganização social e identitária de si mesmo. Assim, o orgulho kreyol e afro-caribenho da independência de 1804 é a arma mais perigosa para as gangues de Tonton Makoutes, para a oligarquia mulata e corrupta e para os dois exércitos invasores (da ONU sob comando brasileiro e estadunidense respondendo a Obama e Hillary). Um exemplo disso é a coalizão denominada de Plataforma Haitiana pela Defesa de um Desenvolvimento Alternativo – PAPDA (Plateforme Haïtienne de Plaidoyer pour un Développement Alternatif – www.papda.org. Parte de seu programa (encontrado no portal de internet), difundido pelo membro e professor Camille Chalmers e enviado a mim pelo brilhante historiador e ativista libertário chileno José Antonio Gutiérrez D. é a prova viva dos argumentos expostos acima.


Este artigo foi originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas da Unisinos (IHU)






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