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ISSN 0033-1983
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As fundações de “apoio” e o canto da sereia – 2


O ex-reitor da UnB Timothy Mulholland e sua lixeira de quase R$1.000,00 é o exemplo vivo da banalização do ambiente de dinheiro fácil entre os cérebros mais valiosos – embora nem tão valorizados – do país do analfabetismo funcional endêmico.



Dando seqüência da nota da semana anterior, quando discorri sobre os efeitos das fundações de apoio e o exagero de liquidez na interna do campo acadêmico brasileiro, proponho uma reflexão de maior fôlego.

Não há como debater um tema complexo e sob a égide dos países produtores de conhecimento “científico” sem antepor a visão de mundo. Traduzindo; os acadêmicos brasileiros, em todas as pontas e posições nas carreiras universitárias e nos postos-chave do campo precisam se orientar. Existem valores e pontos de vista, visões de mundo e posicionamentos não são “objetivos”, são simplesmente posicionamentos.

As coisas não são como são por si mesmas. As coisas são fruto da incidência dos homens e mulheres que sobre estas realidades atuam. A mudança de mentalidade, a loucura de produzir texto após texto, publicar como um alucinado e buscar se referendar no interior de cada sub-campo, sub-área, operando a epistemologia administrativa é o outro lado da mesma moeda que atua a partir das fundações de “apoio”.

Quando tudo é volume e não conteúdo, quando os tempos de produção do campo da grande área dos saberes humanos são pautados pelo pretenso rigor cientificista, reproduzimos no interior dos campi uma relação de filial e matriz. O pior não é isso, o mais triste é a informalidade, onde os centros de excelência do país escondem no estica e puxa de departamentos e colegiados, os interesses mais individualizados e escusos.

Uma fundação de “apoio” com 400 projetos circulando no submundo das terceirizações e sistemistas, é o lado B de uma espiral louca de editais de Cnpq, Capes, Fundação Ford e etc. Não há problema em concorrer por recursos extras. O problema de comportamento se dá na ausência de recursos fixos sem ter de concorrer entre iguais ou quase iguais. Se para uma simples bolsa de iniciação científica dificilmente se vê um concurso universal e ilibado, que dirá para uma vaga de docente, ou pesquisador, ou doutorando. Não há um professor, pesquisador ou pós-graduando brasileiro que não tenha uma história triste ou obscura para contar a respeito de uma seleção injusta ou “pouco republicana”.

Um passinho mais à direita e caímos no dinheiro circulando por debaixo da asa quebrada do Estado, escrevendo normas com seu braço direito e movido por ressentimentos como: “eu me esforcei por toda a vida e nunca obtive o reconhecimento e a compensação financeira do país ou da sociedade!”

Não precisa ter livre docência para compreender que o passo seguinte é entrar em algum “esquema” tipo Fatec, Fundae, Finatec e as mazelas da Faurgs sem licitação. Porque simplesmente não tem licitação para todo e qualquer tipo de serviço prestado? Porque os mesmos que geram discursos para justificar a democracia de mercado, precisam da compensação financeira para o fim de toda e qualquer utopia. O ser humano precisa de recompensas, de tipo moral e material. Na ausência do retorno moral, na gangorra dos afetos e emoções, o reforço vem da forma material. Depois tudo acaba num inquérito sem fim de CPIs e da PF e os agentes da bandalheira se indignam perante as câmaras da TV Assembléia do Parlamento do Rio Grande.

Nada disso surpreende embora não deixe de indignar!

Esta nota foi originalmente publicada no portal do jornalista Claudemir Pereira.

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