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ISSN 0033-1983
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Artigos •
Para jornais, revistas e outras mídias •

A política entre sanguessugas e bandidos


Um instrumento de socorro de vidas humanas torna-se um investimento de apropriação do dinheiro público no país do estelionato eleitoral



Esta marcante legislatura, com abundantes escândalos e assumidas imoralidades, teve uma característica própria. A hiper-exposição do Congresso Nacional, desta vez sob o jugo e a vigília do jornalismo eletrônico, capitaneado pelo Blog do Noblat, senão revelou, trouxe à tona o perfil real do parlamentar mediano brasileiro. Realmente, não faz sentido repetirmos aqui os nomes e legendas de gente recém exposta em pleno Jornal Nacional. Para aportar nestes debates, vejamos algumas inferências explícitas.

Ao contrário do que propagam os sábios da engenharia política, as inferências iniciadas na observação óbvia, nos oferecem uma mescla incendiária se bem fundamentadas com conceitos operacionais e não necessariamente normativos. Estamos no país da impunidade, do hiato da representação política, e justo por isso devemos observar a gritaria da mídia – da grande mídia, pois mídia também fazemos – a respeito do PCC e compará-la com a cobertura real do parlamento criado por Bonifácio de Andrade. Para não chegarmos tão longe, fiquemos somente com a criminalidade violenta da Região Sul do Brasil.

Se analisarmos a carreira criminal de um homem tido como hoje o “bandido No. 1” do Rio Grande, conhecido pela alcunha de Seco, o montante expropriado por ele e seu bando na chegaram a R$ 8 milhões de reais. Comparados os volumes, a máfia das sanguessugas teria manipulado um monto de R$ 180 milhões de reais apenas na última legislatura. Isto, com níveis de risco muito menores que aqueles vividos por gente como Seco, Melara e Papagaio. Não se arriscaram em perseguições policiais, arrancando com carros roubados e motores 2.0, sem tiroteios em locais públicos nem nada por estilo. Operações de inteligência, manipulando informação privilegiada, tratando a coisa pública como investimentos em aplicações de baixo risco são algumas destas características.

Ou seja, como forma de apropriação sistemática de bens alheios, privados ou coletivos, a política profissional torna-se a materialização dos cartéis. Não basta acusar às elites políticas que adquiriram mentalidade de classe com grau de autonomia, e menos ainda aos eleitores, intimados a participarem a cada 2 anos em pleitos eletrônicos. Como se diz, o buraco é mais embaixo, indo além das estruturas e chegando à interdependência das esferas políticas-econômicas-ideológicas em um capitalismo sem lastro e criminalizado. Os quase 100 parlamentares bebedores de sangue dos cofres da União e do SUS, são a prova viva desta interdependência de um sistema desviante pela própria natureza.

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