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Crime histórico e farsa política no México (D.F), parte 3: uma crítica ao Museu Trotsky


Trotsky tinha uma série de voluntários tanto para sua guarda pessoal como para o trabalho político. Mas ao contrário do que estamos acostumados no anarquismo, o ex-dirigente bolchevique trabalhava em um quarto próprio enquanto sua base em outra sala.

03 de março de 2016, Bruno Lima Rocha

Nesta última postagem a respeito do crime histórico e da farsa política no México trago algumas observações do Museu Trotsky, onde estive em fevereiro de 2016 durante viagem absolutamente turística e curta, portanto, sem finalidades militantes, embora nunca se consiga fugir do dever. Nesta casa onde viveu o camarada Lev Bronstein, cujo nome de guerra era León Trotsky. O centro de memória funciona neste local no tradicional bairro Coyoacán, e tem como entidade cobertura o Instituto de Direito de Asilo e segundo me informaram no local, trata-se de uma instituição coordenada pelos familiares descendentes do ex-comandante do Exército Bolchevique.

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Em termos de farsa histórica realmente observei uma, constando no material chamado de Linha do Tempo. Para ampla difusão, este era vendido a um preço de 10 pesos, equivalente a R$ 2,50 reais. O material faz uma analogia temporal entre a história política do México e a trajetória do próprio León, incluindo os percalços dos militantes socialdemocratas até se formarem como elite dirigente no território do Império Russo.

Nesta linha do tempo são citados Ricardo e Enrique Flores Magón por três vezes. Ao reconhecerem o papel dos dois militantes libertários, ignoram que os mesmos são anarquistas assim como seus correligionários. Ignorar a ideologia dos ideólogos da Revolução Mexicana é muito grave. Mas tem mais.

No ano de 1921 aparecem dois levantes camponeses durante a Guerra Civil russa em seus últimos meses assim como a revolta do Soviet do Kronstandt. Nenhuma linha sobre o massacre deste último e menos ainda que o próprio León deu a ordem de “abatam-nos como perdizes”. Assim como não fala de seu próprio crime não citam em nenhuma passagem a luta dos camponeses da Ucrânia – através do reconhecido Exército Insurrecional dos Camponeses da Ucrânia – e a traição contra a cavalaria negra (esquadrão de vanguarda desta força de orientação anarquista), cuja ordem também fora dada pelo próprio Bronstein.

Nada de se espantar só se revoltar. Mas percebemos a vocação autoritária na disposição de sua casa. Trotsky tinha uma série de voluntários tanto para sua guarda pessoal como para o trabalho político. Mas ao contrário do que estamos acostumados no anarquismo, o ex-dirigente bolchevique trabalhava em um quarto próprio enquanto sua base em outra sala. A dimensão do dirigismo burocrático autoritário se nota nestes detalhes. No anarquismo isso não acontece e falo com a experiência de quem conheceu a rotina de veteranos militantes com trajetória semelhante em relevância.

Para completar a farsa da desinformação sobre os irmãos Magón, o Kronstandt e a luta na Ucrânia, é curioso observar um quadro pintado em 1962 em plena União Soviética de Kruschov. O quadro retrata uma sessão do comitê central do Partido Bolchevique e neste o único não retratado é Trotsky. O pintor deixou seu gorro do Exército Vermelho sobre a cadeira, burlando a censura pós-stalinista (mas com o mesmo estilo) e dando memória ao fundador da 4a Internacional.

O veneno stalinista atinge o próprio Bronstein quando o mesmo é vítima e algoz mudando de posição com Stalin, tendo teses diferentes, mas o idêntico estilo de trabalho e forma de conduzir.

Não quero atirar toda a trajetória trotsquista na vala comum, pois temos raras e saudáveis exceções, como o POUM espanhol e Hugo Blanco na América Latina. Mas é preciso reconhecer que o próprio León como seus familiares e curadores do Museu operam a mentira e a desinformação em nome de uma ideologia com pretensões científicas e práticas de religião atéia. Este suporte de crenças e mais o fetiche da liderança como elite dirigente e a auto – proclamação de partido de vanguarda e massivo formam um grande problema e um perigo para as sociedades que por ventura venham a ser governados por qualquer partido que se pretenda único e com delegação divina para “conduzir” massas.

Seria apenas uma pena se não representasse o assassinato de milhares de militantes na Ucrânia e no Kronstandt. Fico à disposição de seguir este debate em bom nível com @s militantes das várias linhas da 4a Internacional a quem respeito.






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