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NIEG •
Núcleo Interdisciplinar de Estudos sobre a Globalização Transcultural e a Cultura do Capitalismo •

Análise do filme “Caixa Dois”, de Bruno Barreto

cranik.com

O termo caixa dois em geral refere-se a recursos não declarados, de origem duvidosa, ou não tributados, ou desviados de seu destino de origem e finalidade. O título do filme opera a partir da inspiração em financistas a operar o cassino da moeda, assim como demais formas de manipular – e muitas vezes desaparecer – com os recursos alheios e coletivos.

Texto coletivo do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Globalização Transnacional e da Cultura do Capitalismo (NIEG)

O cinema brasileiro, sob forte apoio de leis de responsabilidade fiscal, produz muito conteúdo audiovisual. Alguns são os que conseguem sair da produção para a distribuição e veiculação Brasil afora. Ainda muito poucos são os que conseguem alcançar marcas significativas de público, mesmo que com elenco, co-produção e divulgação da Rede Globo de Televisão.

O filme que analisaremos na coluna desta semana traz uma das características que marcam os longa-metragens nacionais pós-Retomada. Utilizando o humor para abordar temas como desemprego, corrupção e ética, o filme Caixa Dois (2007), dirigido por Bruno Barreto, é uma sátira social que pode trazer questionamentos importantes ao expectador.

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Nessa comédia de costumes, Luiz Fernando (Fúlvio Stefanini) é um poderoso banqueiro que através de uma transação com precatórios recebe uma grande quantia em dinheiro: 50 milhões de reais. Como o doleiro que geralmente presta serviços de lavagem de dinheiro a ele está em coma, Luiz Fernando se vê obrigado a encontrar um “laranja”. A solução é usar sua secretária Ângela (Giovana Antonelli) para tal ação.
O primeiro ponto que podemos relacionar com o que ocorre com os agentes financeiros em nível mundial se dá através do privilégio de acesso às informações. Luiz Fernando ganha muito dinheiro por saber o que vai acontecer com a aprovação judicial de precatórios.

No outro núcleo do filme vemos mais questionamentos sociais: Roberto (Daniel Dantas) é um bancário dedicado, que foi demitido com mais de 500 funcionários do banco de Luiz Fernando, devido à informatização da empresa. Casado com uma professora trabalhadora e honesta, Angelina Barbosa (Zezé Polessa), Roberto desacredita que, após 25 anos de dedicação ao banco, foi descartado sem a mínima consideração mesmo sendo “amigo” do banqueiro, a quem passou a manteiga num café de um evento organizado pela empresa.

Isso se dá também por conta da imagem que o banqueiro Luiz Fernando constrói de si mesmo: alguém que venceu vindo de baixo, lutando de forma honesta e agradecida aos seus funcionários. No filme, ele acaba de conseguir, através de lobby político, a possibilidade de financiar imóveis para as pessoas através dos seus fundos de aposentadoria. Do mesmo jeito do que deu início ao que viria a ser o boom imobiliário nos Estados Unidos, que ocorreu sob decisão do presidente George W. Bush e dos asseclas do capital financeiro dentro do Executivo, para movimentar recursos no mercado pós-11 de setembro.

Os dois núcleos do filme se vêem frente a frente quando, por um equívoco, o dinheiro que deveria ser depositado na conta da secretária Ângela vai parar, na verdade, na conta da mulher de Roberto.
Dos temas principais, a corrupção é o destaque do filme. As cenas em que Luiz Fernando negocia suas transações e lavagens de dinheiro são imorais, apesar do clima de humor. O banqueiro corrupto é um homem que se utiliza de subornos, abuso de poder e intimidação para conseguir o que quer. Durante todo o desenrolar da história, vemos que mais pessoas participam dos atos ilícitos, como a secretária e o assessor de Luiz Fernando, a fim de garantir ganhos extras ou um futuro melhor.

O assessor do banqueiro, Romeiro (Cássio Gabus Mendes), traz nova relação com o que vemos em nível mundial no capital financeiro. Formado numa das mais conhecidas universidades do mundo, Harvard, ele é questionado por várias personagens durante todo o filme que se intrigam em entender como alguém com a formação dele trabalha para um “picareta”. Um exemplo, claro que em menor escalar e em tom de comédia, da utilização da Academia para a formação de profissionais que deverão servir para os agentes financeiros, sem qualquer receio para além de querer parte dos “bônus” conquistados.

Outro tema abordado pelo filme é o desemprego. Quando o bancário Roberto se vê descartado da empresa após anos de dedicação, podemos constatar o quão explorado ele foi durante todo aquele tempo. Em nenhum momento o banco reconhece os esforços de Roberto, que acreditava, até então, em possíveis valores morais de uma instituição que o acionista principal ainda guarda com orgulho a enxada que servira como instrumento de trabalho.

O longa de Bruno Barreto expõe de maneira clara o que autores contemporâneos da Crítica à Economia Política apontam como uma nova “divisão internacional do trabalho”. A justificativa do empresário para o corte de empregos seria uma necessária informatização, que na verdade aponta um corte de custos com o pessoal de trabalho para gerar mais lucro para o banco. Empresas de “consultoria” são contratadas apenas para, com fórmulas que ninguém entende, justificar esses cortes. Do mesmo jeito que poucos entendem que uma agência de ratings do mercado financeiro dê boas notas a ações de um banco de investimentos internacional que irá falir no dia seguinte...

A ética também é outra questão levantada pelo filme, tanto pelas ações do banqueiro rico como pelos atos da família do funcionário desempregado. Com 50 milhões de reais em jogo, os personagens se veem questionando valores éticos como honestidade e moralidade.

O que o filme mostra, de forma geral, é uma realidade que todos já sabemos: que a desigualdade social, aliada à corrupção, gera atos imorais e muitas vezes criminosos. Numa análise apurada sobre um “despretensioso” audiovisual que trata com humor determinadas características criadas para a sociedade brasileira, percebemos que temos muito mais em comum com os agentes do capital financeiro e a “farsa com o nome de crise” criadas por eles.

Este artigo foi originalmente publicado no blog do Instituto Humanitas Unisinos (IHU), na data de 02 de maio de 2012

Como participar: as pessoas interessadas em participar do Núcleo Interdisciplinar de Estudos da Globalização Transnacional e da Cultura do Capitalismo (NIEG) podem nos encontrar todas as 5as, a partir das 18 horas, na sala do Grupo de Pesquisa Cepos (ao qual o Núcleo pertence), 3ª 318, 3º andar do centro 3 (prédio A), ciências da comunicação, Unisinos. O telefone de contato é o geral da Unisinos (51 3591 1122) no ramal 1320, pedindo para falar com Bruno, Anderson, Ivan ou Dijair, sempre a partir das 14 horas (2ª a 6ª). Ressaltamos que todos os textos desta coluna são de autoria coletiva, sendo responsabilidade do conjunto dos membros do NIEG-CEPOS. E-mail: nieg.cepos@gmail.com – www.grupocepos.net






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