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ISSN 0033-1983
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Os revolucionários ineficazes de Hobsbawm: reflexões críticas de sua abordagem do anarquismo

skoob

O livro “Revolucionários”, do historiador inglês Eric Hobsbawm recebe a crítica pelo ponto de vista libertário através da análise de Rafael Viana

parte 1 de 5


Rafael Viana da Silva [1]


“A ineficácia das atividades revolucionárias anarquistas
poderia ser amplamente documentada em todos os países onde
essa ideologia teve um papel importante na vida política”.[2]
Eric Hobsbawm


Este artigo pretende debater criticamente os textos “O Bolchevismo e os Anarquistas”, “Reflexões sobre o Anarquismo” e em menor grau, “O Contexto Espanhol”, todos integrantes do livro Revolucionários, de Eric Hobsbawm.[3] Servimo-nos, principalmente, dos pressupostos conceituais de Michael Schmidt e Lucien van der Walt, organizados no livro Black Flame. O trabalho de Schmidt e van der Walt, fruto de uma pesquisa de 10 anos sobre o anarquismo internacional, possui o mérito de debater e revisar substancialmente os estudos sobre o anarquismo, produzindo instrumentos conceituais e históricos que possibilitam uma visão global desta ideologia. Este texto também está, de certo modo, inserido numa tradição recente de pesquisas sobre o anarquismo que procura complexificar as análises e desmistificar determinados estereótipos, a partir de certos referenciais teóricos.

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O autor e o foco deste artigo

O historiador marxista Eric Hobsbawm, considerado por muitos um dos maiores historiadores do século XX dispensaria apresentações. Todavia, conhecer brevemente a trajetória do autor e o contexto de sua obra é fundamental para traçarmos alguns elos com suas análises teóricas e historiográficas. Dono de uma vasta produção acadêmica, Hobsbawm foi membro do grupo de historiadores marxistas do Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCGB), reunidos até 1956, tendo se debruçado sobre a análise de distintos contextos históricos.[4] O conjunto de sua obra é extenso e marcado, principalmente, pela teoria marxista de análise da história.

Em 1973, um conjunto de ensaios e artigos de Hobsbawm tornou-se um livro. O título é sugestivo: Revolucionários, sendo dividido em cinco capítulos: 1.) Comunistas, 2.) Anarquistas, 3.) Marxismo, 4.) Soldados e Guerrilhas e 5.) Rebeldes e Revoluções. O tema que será objeto de nossa discussão é o segundo capítulo, no qual Hobsbawm faz uma análise crítica do anarquismo e de sua presença em determinados acontecimentos históricos. Concentraremo-nos no artigo intitulado “Reflexões sobre o Anarquismo”, que julgamos ser o mais problemático, ainda que os outros dois, que compõem o segundo capítulo, também mereçam um debate analítico aprofundado.[5]


Contexto da produção de Hobsbawm

Com exceção do artigo “O Contexto Espanhol”, que trata da presença anarquista na Guerra Civil Espanhola, iniciada em 1936, os dois outros textos foram escritos em 1969, um ano emblemático para as esquerdas. A ebulição do fenômeno político do Maio de 68 francês se deu num contexto de crise do stalinismo e da burocracia soviética, que contou com uma enxurrada de críticas e oposições por parte da esquerda ao regime estabelecido na URSS.

Naquele contexto, não é de se espantar que havia uma preocupação com o retorno do “fantasma” representado pelo antigo “rival” ideológico do marxismo. Determinada historiografia, a qual julgava que as mudanças estruturais e conjunturais haviam resolvido definitivamente o problema do anarquismo, buscou responder, ainda que minimamente, essas críticas da esquerda.

O ressurgimento do anarquismo parecia um “fenômeno curioso e à primeira vista inesperado. Há dez anos atrás teria parecido sumamente improvável”.[6] Esse interesse “ressurgido” pelo anarquismo, que parece improvável a Hobsbawm, não pode, entretanto, ser encarado com tanto espanto, ainda que devamos reconhecer que os anarquistas, naquele período, não tinham a força política das décadas anteriores. Apesar de sua intervenção política ter sofrido um decréscimo considerável em toda a Europa no pós-guerra, as décadas de 1940 e 1950, a despeito do contexto de reorganização dos anarquistas, ainda convivem com sua presença. Com base em fontes documentais, podemos afirmar que, nesse período, o anarquismo está presente, mesmo que timidamente, em diversos países.[7]

Não há dúvida que a Guerra Fria traça contornos nítidos entre as forças políticas predominantes naquele contexto (bloco soviético e capitalista). Não pretendo relativizar a influência predominante dos partidos comunistas ao redor do mundo nesse período, que me parece inegável, e nem exagerar ao interpretar a força política dos anarquistas. O que é completamente discutível é o fato de encararmos o retorno do anarquismo como algo completamente dissociado do contexto político e social que antecede a crise do Maio de 68 francês, o que parece ser infactível. O anarquismo, nesse contexto, não ressurge de maneira “inesperada”; estudos de base histórica apontam que há permanência das práticas políticas anarquistas em diversas regiões nesse período.[8]

O trabalho paciente (ou clandestino) dos anarquistas prosseguiu nas décadas de 1940 e 1950 em diversos países. Na França, a presença da Federação Anarquista francesa atesta que o anarquismo jamais desapareceu completamente. Esta organização, baseada na síntese anarquista[9], a despeito das crises internas que puseram em questão seu funcionamento, estabilizou sua atuação[10] em 1953. Ela esteve presente nos acontecimentos do Maio de 68 francês[11], ainda que seus militantes reconheçam os limites da política preconizada pelos anarquistas neste período e alguns historiadores também. O que sustentamos aqui é que, mesmo com as dificuldades típicas que os anarquistas enfrentaram no pós-guerra, houve continuidades – restritas às condições e singularidades dos diferentes países –, que fizeram com que o anarquismo prosseguisse pela trajetória de seus militantes e se readaptasse aos distintos contextos. Tomar em conta essa presença parece óbvio aos historiadores que têm lidado com a trajetória política dos anarquistas no pós-guerra, principalmente aqueles que recusam o que Michael Schmidt chama de “mito dos cinco grandes momentos”[12] do anarquismo, o qual terminou reduzindo a periodização da análise historiográfica dos anarquistas a apenas cinco momentos-chave.

Por essas questões, retomar esse contexto é, também, esbarrar em questões conceituais e metodológicas sobre o anarquismo que precisam ser adequadamente debatidas para a qualificação das pesquisas sobre o tema.

Lembremos que “Reflexões sobre o Anarquismo”, de Hobsbawm, está inserido num contexto mais amplo, de resposta stalinista[13] aos acontecimentos do Maio de 68, a qual articulava a defesa das críticas que corroíam a burocracia e o monolitismo do comunismo no pós-guerra. Após o relatório de Kruschev, que denunciou os crimes de Stálin, a maioria dos historiadores do Partido Comunista da Grã-Bretanha (PCGB) optou pelo rompimento; Hobsbawm, ao contrário, permaneceu no partido. Se há certa margem de “liberdade”, os artigos de Hobsbawm contra o anarquismo, neste período, não fazem nada mais do que reproduzir a linha “justa” de crítica stalinista às correntes de esquerda que se contrapunham ao monolitismo de então. Não estamos reduzindo a produção do autor ao seu “contexto”, mas ressaltando as tensões e continuidades de seus argumentos dentro do quadro da tradição marxista e de suas guinadas teóricas. Se suas obras não podem ser reduzidas aos “ditames” do bureau central do Partido Comunista Britânico, o texto aqui estudado reproduz elementos críticos ao anarquismo que são constitutivos da tradição marxista em seu núcleo mais “duro” e portanto, mais ortodoxo.

Além disso, precisaremos confrontar certos problemas historiográficos e metodológicos mais amplos em sua abordagem, que nos parecem passíveis de reflexão. Tais questões merecem um debate mais aprofundado, que será realizado nos próximos parágrafos.


Notas da Parte 1

1. Graduado em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, membro do Núcleo de Investigação Social (NIS) e do Instituto de Teoria e História Anarquista (ITHA).

2. HOBSBAWM, Eric. Revolucionários. 2ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 92.

3. Este artigo foi escrito antes da morte de Eric Hobsbawm. Entretanto, antes de sua revisão e publicação, soubemos de seu falecimento. Seguindo a tradição de crítica como homenagem, segue nossa modesta contribuição.

4. Como os séculos XVII e XIX: Era das Revoluções, 1789-1848, Era do Capital, 1848-1875 e Era dos Impérios, 1875-1914. Escreveu também uma extensa obra de História Social sobre o século XX, intitulada Era dos Extremos.

5. Para uma fulminante crítica ao artigo Contexto Espanhol podemos nos servir das instigantes reflexões contidas no livro do pesquisador Michel Suárez. Cf. SUÁREZ, Michel. Considerações críticas sobre a Revolução Espanhola (1936-1937). Rio de Janeiro: Achiamé, 2012.

6. HOBSBAWM, Eric. Reflexões sobre o Anarquismo In Revolucionários. 2ª edição. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985, p. 90.

7. Um jornal em que podemos “mapear” grupos e práticas anarquistas no mundo inteiro nas décadas de 40 e 50 é o jornal Ação Direta. Cf. SILVA, Rafael Viana da. Indeléveis Refratários: As Estratégias Políticas Anarquistas e o Sindicalismo Revolucionário no Rio de Janeiro em Tempos de Redemocratização (1946-1954). Orientadora: Maria Paula Nascimento Araújo. Rio de Janeiro: UFRJ / IFCS / Departamento de História, 2011. Monografia (Bacharelado em História).

8. SCHMIDT, Michael; VAN DER WALT, Lucien. Global Fire: 150 fighting years of international anarchism and syndicalism. Oakland: AK Press, no prelo.

9. A polêmica internacional do anarquismo na década de 30 gira em torno dos modelos de organização anarquista. Um modelo é a síntese anarquista, o outro, a plataforma. A Federação Anarquista francesa, fundada em 1945 sob o modelo da síntese, teve um impacto central nas subseqüentes discussões. Entrevista : Federação Anarquista Francesa. Disponível em <http://www.ainfos.ca/01/feb/ainfos00073.html>. Acessado em 28/11/2012.

10. SAMIS, Alexandre. “Prefácio” In COELHO, Plínio Augusto. Maio de 68: Os Anarquistas e a Revolta da Juventude. São Paulo: Imaginário; Faísca, 2008.

11. Sobre a presença dos anarquistas no Maio de 68 francês, há um relato interessante de Maurice Joyeux. “Foi após o show organizado pelo grupo Louise Michel, no Palais de la Mutualité, no qual pela primeira vez Léo Ferré cantou sua canção Les anarchistes, que os militantes anarquistas seguiram para a rua Gay-Lussac onde travaram batalha por toda a noite ao lado dos estudantes. Vimos a Federação Anarquista com suas bandeiras negras à frente da imensa passeata que atravessou Paris da Praça da República a Denfert-Rochereau. Durante a ocupação da Sorbonne, nossos militantes instalaram-se em prédios que davam para a rua Saint-Jacques. Estavam presentes na noite em que o C.R.S. tentaram asfixiar os ocupantes, e aqueles que lá se encontravam recordam-se de Suzy Chevet e dos nossos militantes lançando baldes de água no pátio para precipitar o gás. Estiveram nas barricadas, estavam na Bolsa de Valores quando esta foi incendiada, encontravam-se em Charléty... No que me concerne, eu participava de inúmeros meetings anarquistas, em Assas com Morvan Lebesque e Maurice Laisant, na Sorbonne, em Censier, etc.” JOYEUX, Maurice. “A Federação Anarquista e a Revolta da Juventude” In COELHO, Plínio Augusto. Maio de 68: Os Anarquistas e a Revolta da Juventude. São Paulo: Imaginário; Faísca, 2008, pp. 67-69.

12. Optamos por traduzir “five highlights”, expressão utilizada por Schmidt, como “cinco grandes momentos”. Esses grandes momentos seriam: os episódios que envolveram a luta pelas oito horas de trabalho em Chicago, nos Estados Unidos, e os Mártires de Chicago, em 1886-1887; a fundação da Confederação Geral do Trabalho (CGT) francesa, em 1895, e sua famosa Carta de Amiens, de 1906, que teriam inaugurado o sindicalismo revolucionário; a Revolta de Kronstadt, em 1921, no contexto da Revolução Russa; a Revolução Espanhola de 1936-1939 e sua luta contra o franquismo e o estalinismo; a revolta francesa do Maio de 1968, principalmente na luta dos estudantes. Cf. SCHMIDT, Michael. Cartography of Revolutionary Anarchism. Oakland: AK Press, no prelo, tradução nossa.

13. Os dissidentes formaram a New Left Review.






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