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Sobre História •
História, memória e historiografia. •

CINE, TEATRO e CIRCO: AOS MENOS FAVORECIDOS DA FORTUNA

Acervo do autor.

Apresentção da pesquisa e lançamento do livro, no Museu Julio de Castilhos, em Porto Alegre.

Em Alegrete, no período da República Velha, ocorreu uma disputa entre duas concepções sobre os bens culturais. Uma ideia que defendia a cultura para poucos e outra que defendia a cultura para todos.

Texto publicado: CORRÊA, Anderson R. Pereira. Cine-teatro-circo: acessível aos menos favorecidos da fortuna. In: Casas de Espetáculo/Circulo de pesquisas literárias; Org.:Hilda A.H.Flores e Lotário Neuberger. – porto Alegre: Ediplat, 2012. p.09-18.

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Prof. Me. Anderson Romário Pereira Corrêa

São Francisco de Borja, 17 de outubro de 2016.

1. Introdução:

Segundo Peter Burke, a História Cultural deve ter contato com a economia e com a sociedade, não deve ignorar as contradições sociais. (BURKE, 2005.p.36) O objetivo deste trabalho é compreender a luta pela construção e manutenção de “O Colosseo” - um espaço físico para apresentações artísticas em Alegrete no final da década de 1920. A análise do material empírico indicou uma disputa pelos meios de produção/reprodução de formas de manifestações artísticas e culturais. Optou-se por utilizar os conceitos de “economia moral”, de E.P. Thompson, versus a “economia de mercado”, teorizada por Adam Smith. Procurou-se não fazer referência à disputa entre liberais e positivistas (e suas variantes: castilhismo e borgismo), pois extrapolariam os limites deste modesto trabalho. As principais fontes de informação são a imprensa local, basicamente obtidas em dois jornais: Meu Jornal (1926 -1927) e A Notícia (1926-1928). A estratégia argumentativa segue os seguintes passos: identificar as “casas de espetáculo”, ou seja, os espaços físicos onde aconteciam as apresentações teatrais na cidade de Alegrete; analisar a “luta” pela construção e manutenção do “O Colosseo” através da análise dos discursos produzidos e das práticas registradas nas fontes.

 

2. O Teatro em Alegrete

Nos primeiros anos do povoado que deu origem a cidade de Alegrete, já em 1818, foi registrada uma encenação teatral realizada pelos índios guaranis. Estes primitivos habitantes do povoado da Capela de Alegrete realizaram a encenação da morte e ressurreição de Cristo (Paixão de Cristo). (OLIVEIRA {1818}: 1842) Lotar Hessel (1999, p.113-116), além de escrever sobre as peças teatrais apresentadas e os grupos de teatro em Alegrete até a década de 1930, escreveu também sobre os prédios dos Teatros: Teatro Rio Branco, Teatro Rainha Vitória - Cinema Ipiranga e o Cine-Teatro-Circo “O Colosseo”. O Teatro Rio Branco foi construído em 1862 e teve o primeiro nome: Teatro Independência; chamou-se ainda, no Império, Teatro São Luiz e, mais tarde, Teatro 13 de Maio. Por volta de 1915, teve seu nome mudado novamente para Teatro Rio Branco. Localizava-se na Praça 15 de Novembro (atual GetúlioVargas), no local onde mais recentemente funcionou o FÓRUM da cidade. (HESSEL, 1999: p.113) De acordo com Lothar Hessel, o Teatro Rainha Vitória e Cinema Ipiranga existiram na Rua Ipiranga (atual Gaspar Martins, primeira quadra à esquerda). O prédio serviu tanto para teatro quanto para cinema. (HESSEL, 1999, p.114) Nenhum dos prédios referidos acima existe atualmente. Sobre o Cine-Teatro- Circo “O Colosseo”, não encontramos nenhuma fotografia do prédio. Localizava-se na Rua dos Andradas, no local onde tradicionalmente se armavam os circos que frequentemente passavam por Alegrete. “O Colosseo” foi idealizado e projetado pelo médico italiano Tito Marengo. Ele foi o primeiro presidente da Sociedade Ltda. “O Colosseo” e faleceu em 1928, em Alegrete. (A Noticia. 29/08/1928)

 

3. Cultura: “Para a mais seleta e culta” plateia ou “ao alcance de todos.”

Será analisada a partir de agora a oposição de concepções sobre a cultura no discurso e na prática dos “agentes” promotores da arte e entretenimento em Alegrete na década de 1920. Primeiro será abordada a luta no campo dos discursos e, em seguida,a prática. Sabe-se que pode haver diferença entre o que se diz e o que se faz.

 

3.1 O Teatro nos jornais: analise dos discursos

Em 1927, no dia 25 de janeiro, esteve em Alegrete o escritor Henrique Maximiliano Coelho Netto. Ele fez uma palestra no Teatro 13 de Maio. A imprensa destaca que o escritor foi visitado “pelo que de mais seleto tem a nossa sociedade.”Sobre a conferência, o mesmo jornal escreve que encantou “a mais seleta e culta plateia da sociedade alegretense.” Nota-se a preocupação do jornal em distinguir uma “elite” cultural na cidade. (CORRÊA, 2010.p.40) No final da década de 1920, a imprensa destaca a presença de uma “elite” que frequenta o Teatro.No dia 31 de outubro de 1926, ao relatar as atividades do Teatro Rainha Vitória, o “Meu Jornal”enfatiza a presença de duas jovens filhas de famílias da elite política e econômica da cidade. Em outra edição, ao escrever sobre a organização de um festival, assim se expressa: “Está marcada para sexta-feira próxima, dia 14 do corrente, no Ypiranga, a realização do festival da mocidade, promovido por um grupo de jovens da nossa elite.” (Meu Jornal. 09/01/1927.p.02)O festival não aconteceu na data prevista; e, em outra edição, o mesmo jornal informa que o espetáculo não aconteceu e que foi transferido,e reafirma: “espetáculo organizado por um grupo de jovens da nossa elite social.” Mais adiante acrescenta: “Os números dos atos de variedade serão dedicados a diversas senhorinhas de nosso set.”(Meu Jornal. 16/01/1927.p.02) Existem indícios que colaboram para uma interpretação de que o Cinema e o Teatro eram atividades culturais para um grupo que se distinguia na sociedade. Ao menos, a imprensa fazia questão de destacar uma “elite” ou “seleta” plateia. Frequentar esse espaço poderia ser um sinal de distinção social. Não se encontraram informações sobre o número de pessoas que cabiam no Teatro Rainha Vitória, mas sabe-se que era um espaço “pequeno”. Isso será demonstrado nas discussões que serão relatadas mais adiante. Já o Teatro Rio Branco possuía espaço para aproximadamente 400 pessoas. (CORRÊA, 2010.p.40) É anunciado pela imprensa, com o titulo “Uma grande empresa”, o lançamento do projeto do Cine-Teatro-Circo “O Colosseo”. Nesse projeto, prevê-se “segurança, conforto, capacidade e beleza de estética, até o preço da entrada, acessível ao menos favorecidos da fortuna.” (Meu jornal, 29/6/1926) Aparece, assim, a preocupação em tornar o teatro mais “popular” e não somente para uma minoria. No dia 23 de julho de 1926, realizou-se na União Operária de Alegrete uma conferencia com o Sr. Dr. Tito Marengo, momento em que ele expôs os fundamentos do projeto do Cine, teatro e circo “O Colosseo”. Após a exposição do projeto, o autor foi muito aplaudido. A assembleia foi unânime em apoiar o projeto e pagou pela publicação de uma nota em anexo no jornal “A Noticia”, com a seguinte expressão no início da matéria: “o voto das classes trabalhadoras de Alegrete a favor da pronta realização do popular projeto (...)”. (A Noticia. 24/07/1926). As justificativas do apoio das “classes trabalhadoras” reunidas na União Operária ao projeto “O Colosseo” foram as seguintes: “(...) Considerando que a forma cooperativa, baseada no humanitário lema “um por todos e todos por um”, é a única que permite a cada sócio de ser, ao mesmo tempo, cliente usufrutuário e co-interessado dirigente; Considerando que, por esse sistema, o público se emancipa das famigeradas empresas individuais, cujo hábito de insaciável avidez (...) egoísmo e inconsiderada rapacidade, é por demais notório a todos os públicos do novo e velho mundo; (...)” (A Noticia. 24/07/1926. Anexo) Acrescenta ainda a justificativa que esse projeto constitui num honroso título de progresso moral, material e econômico para o povo; que elimina a concorrência de caráter monopolizador e considera um novo e poderoso elemento de harmonia, comodidade e economia social. (Idem) O órgão de imprensa “Meu Jornal” também divulgou a conferência e o lançamento do projeto “O Colosseo” na União Operária. (Meu Jornal.25/07/1926) O discurso de justificativa de apoio “das classes trabalhadoras” ao projeto do “O Colosseo” foi um discurso, pode-se dizer, pautado nos preceitos da “Economia moral” de E.P. Thompson em oposição à “economia de mercado” defendida por Adam Smith. Thompson, ao analisar os “motins da fome” na Inglaterra do século XVIII, desenvolveu o conceito de “economia moral dos pobres ou das multidões”. Segundo ele: “(...) essas queixas operavam dentro de um consenso popular a respeito do que eram práticas legítimas e ilegítimas na atividade do mercado (...). Isso, por sua vez, tinha como fundamento uma visão consistente e tradicional das normas e obrigações sociais das funções econômicas peculiares a vários grupos na comunidade, as quais, consideradas em conjunto, podemos dizer que constituem a economia moral dos pobres.” (THOMPSON, 1998.p.152) A ideia é que a atividade econômica deveria existir para a sociedade e não o contrário. Segundo Thompson, certas autoridades reconheciam esses princípios tradicionais de economia, pois esse modelo existia no corpo desgastado da lei estatutária, bem como no direito consuetudinário e no costume. (THOMPSON,1998.p.155) As autoridades reconheciam esse modelo principalmente nas épocas de crise. O vínculo das autoridades na defesa desse modelo foi chamado por Thompson de “paternalismo”. (Idem) O modelo da economia de mercado é o mesmo “teorizado” por Adam Smith na obra “A Riqueza das Nações”; essa teoria defendia a ideia de que o mercado deve ser autorregulado pela lei da oferta e da procura, defendendo total liberdade econômica de produção e comercialização, sem a interferência de imperativos morais, paternalistas e do Estado. (THOPSON, 1998. p.160s.) Thompson escreve que os princípios da “Economia moral” sofreram uma metamorfose e foram transmitidos a outras gerações por outras formas e sistemas (modelos): “A economia moral da multidão levou mais tempo para morrer: é adotada pelas primeiras cooperativas de moinhos de farinha, por alguns socialistas owenitas, e continuou a existir durante anos nas entranhas da Sociedade Cooperativa de Vendas por Atacado (...)” (THOMPSON, 1998.p.202.) Ao analisar o livro “Gênese do Estado Moderno no Rio Grande do Sul (1889-1929), de Gunter Axt, percebeu-se que não era possível, antes de maiores estudos, relacionar as possíveis ações de benefício aos trabalhadores ou aos menos favorecidos como elementos programáticos do positivismo, castilhismo e borgismo de “incorporação do proletariado a sociedade”. Optou-se por utilizar o conceito de “Economia moral” de Thompson e dizer que “elementos” ideológicos desse modelo - e não o modelo em si - podem colaborar para compreender os discursos dos promotores do “O Colosseo” e no apoio da “União Operária”. Algumas das pessoas que colaboraram na execução do projeto “O Colosseo” podem ser identificadas nesse grupo de acionistas que reuniu-se no Club Casino Alegretense, sob a presidência do Dr. Tito Marengo. Foram nomeadas três comissões de propaganda: 1º - Simplício Jacques de Freitas Valle, João Venâncio Nunes e Orfilo dos Santos; 2º - João de Deus Peres, Rufino Pires e Mateus Ricciardi; 3º - Otavio Campos, Dorval Schaman e Jarbas Marques Figueira. Já haviam levantado 2/3 do capital necessário, ou seja, 70.000$000 dos 100.000$000 necessários. Os idealizadores e coordenadores do projeto “O Colosseo”, além de reunirem-se com os operários, também realizaram reunião de “organização” no club social da elite econômica da cidade – o Club Casino Alegretense. Eram membros da elite que lutavam por uma política cultural não elitista! Segundo a imprensa, os organizadores do “novo” teatro esperavam o intendente Oswaldo Aranha retornar para que, a partir do apoio dele, fossem removidos os únicos empecilhos para que entre em funcionamento “O Colosseo”. (Meu Jornal. 16/01/1927.p.03) Por trás desse modelo de “economia moral”, pode estar a defesa da interferência do Estado na economia. Essa característica poderia indicar aquilo que Thompson define como um “modelo paternalista”.Axt Gunter fala em Estado Intervencionista em oposição ao Estado Liberal. (2011, p.414) Quanto mais avança a execução do projeto “O Colosseo”, acirram-se os ânimos na imprensa. O “Meu Jornal”,ao informar que foi cancelada a última apresentação da “Troupe Cancella”, escreve que o fracasso se deu porque o reduzido público que frequenta o teatro esta cansado dos gêneros e tipos desses espetáculos. Segundo esse jornal, a cidade carece de um teatro com relativo conforto e a visita de companhias mais baratas.(Meu Jornal, 21/11/1926. p.03) Outro jornal publica a resposta do empresário que administra o Cine Ipiranga e Teatro Rainha Vitória. Com o título “Porque não veio a Alegrete a companhia de Revistas Nacionais Sarah Nobre?”, o editor do jornal escreve que os leitores pedem explicações sobre o desagradável aspecto que apresenta esta casa de espetáculos. Diz o jornal que, antes de fazer qualquer denúncia, solicitou que o empresário Pedro Dia Marco se manifestassesobre o que foi feito. Diz o empresário que administra o Teatro: “Reconheço a necessidade de uma limpeza completa em meu teatro, de mais ainda, de uma completa transformação, e como tenciono introduzir ali grandes melhoramentos, é que ainda não fiz a pintura que o amigo, em nome da população, reclama.” Pedro Dia Marco promete que, “nesse próximo verão”, fará reformas ampliando o espaço do palco etc. (A Notícia. 15/12/1926) Na mesma matéria, o empresário demonstra o descontentamento em relação a um outro jornal da cidade, que, segundo ele, mal informado e que “alimenta uma injustificável má vontade contra a empresa da qual sou proprietário.” O empresário Pedro Dia Marco explica que a Companhia de Revistas Sarah Nobre não veio à cidade de Alegrete porque suas condições e exigências eram absurdas e não por causa das condições do Teatro Rainha Vitória. Ele demonstra quais eram as exigências da Companhia: (...) o representante da mencionada companhia fez-me propostas quase absurdas como sejam 1:500$ de garantia em cada noite de espetáculo; além disso, tinha eu de pagar as despesas de passagens e frete da equipagem da companhia de Bagé aqui, mais 300$ para treze músicos, e 70% da renda bruta. Não podendo aceitar essa proposta quase absurda, propus-lhe alugar o teatro com luz, serviço de bilheteria e programas por 200$000 por noite o que não foi por ele aceito. (A Noticia. 15/12/1926) A discussão acima demonstra o aspecto econômico e de investimento que girava em torno do “negócio” do entretenimento. O empresário não falou em nenhum momento em sua margem de lucro, nem em números de pessoas que frequentam e os valores dos ingressos. A matéria termina assim: “Veja, pois, disse-nos o senhor Pedro Marco, que temos a melhor boa vontade com esse generoso público alegretense e se mais não fizemos é porque a situação não permite.” (Idem) Dois anos depois, com o título “Melhoramentos num Teatro”, o jornal “A Noticia” destacava que “O Teatro Rainha Vitória e Cine Ipiranga estão passando por importantes reformas na parte térrea, onde estão localizadas a confeitaria e a sala de café.” (A Noticia. 27/11/1928. p.03) A imprensa parece ter se dividido. Enquanto o “Meu Jornal” só fez críticas ao Teatro Ipiranga ou Rainha Vitória, o jornal “A Noticia” apresentava matérias onde o empresário se defendia das críticas e anunciava melhorias neste referido Teatro. No dia 17 de janeiro de 1927, o “Meu Jornal” publicou: “Parece certa a organização de uma sociedade para a instalação de um novo e elegante cinema nessa cidade.” Mais adiante, acrescenta: “(...) Alegrete ficara dotado de uma casa de diversões de primeira ordem, quer pelo asseio absoluto, que será observado, quer pelo conforto e distinção que prometem seus organizadores.”Quando relatava a apresentação de Maria Luiza Schamberg, o editor do “Meu Jornal” se referiu assim ao Teatro Ipiranga: “(...) o nosso antiestético Teatro Ipiranga (...)” (Meu Jornal, 13/03/1927.p.02) Na analise dos discursos fica nítida a diferença nos conceitos e propósitos. O discurso do empresário do Teatro Rainha Vitória com uma visão economicista e de mercado e o discurso dos defensores do projeto “O Colosseo”, com conceitos de economia social, cooperativismo e, enfim, uma economia moral da cultura. Na defesa do “O Colosseo” aparece a defesa de uma concepção de cultura não como mercadoria e lucro, mas de subsistência – de um “bem-viver”.

 

3.2 A diferença no valor dos ingressos:

Os preços dos ingressos no Cine Ipiranga e Teatro Rainha Vitória eram os seguintes: “preços populares – camarotes 20$000, cadeiras 4$ e geral 1$.” (A Noticia, 22/05/1926. p.04) Já no “O Colosseo”, a entrada para uma família com sete membros, o casal e cinco filhos, custava 2$500. (A Notícia, 14/01/1928.p.02) Vejam a diferença nos valores. A descrição dos valores dos ingressos no “O Colosseo” era assim: cadeiras R$800, bancadas adultos R$ 500 e bancadas para crianças R$300. (A Notícia. 21/01/1928) O Cine-teatro-circo “O Colosseo” possuía Camarotes que eram reservados aos sócios acionistas. É nítida a diferença de preços entre as duas casas de espetáculos. No caso das cadeiras, o “O Colosseo” era mais de quatro vezes mais barato. No caso da “geral” ou “bancadas”, o valor cobrado no “O Colosseo” era três vezes mais em conta. Em resumo, uma família (com sete pessoas) no Teatro Ipiranga gastaria no mínimo 7$000 para todos assistirem a uma programação artística. No “O Colosseo”, poderiam gastar no mínimo 2$500, bem menos da metade do custo do Ipiranga. A propaganda de estreia do “O Colosseo” anunciava que o novo espaço de espetáculos possuía 46 metros de comprimento, 26 metros de largura e 13 metros de altura. Afirmava ser totalmente ensolarado e ventilado. Sobre as acomodações: 1.200 cadeiras, 2.500 bancadas e 50 camarotes para acionistas. “A diversão ao alcance de todos. Os espetáculos caros nunca serão populares. Onde começa o sacrifício, cessa a diversão.” Em março de 1928, ocorreu uma conferência com aproximadamente três mil (3.000) pessoas no “O Colosseo”. (A Noticia. 21/03/1928) Até 1933, existem várias notícias na imprensa sobre os espetáculos com casa lotada no “O Colosseo”. O Teatro Ipiranga ou Rainha Vitória não deixou de funcionar nesse período.

 

4. Conclusão

O Teatro é uma atividade cultural recorrente na cidade de Alegrete: desde sua origem, há quase 200 anos, já conta com apresentações teatrais. Foi possível compreender que a luta pela construção e manutenção do “O Colosseo” fazia parte da disputa entre duas concepções de sociedade: uma que vê na cultura uma “mercadoria” lucrativa e outra concepção que vê a cultura como uma “atividade” de subsistência (bem-viver de todos). Por trás dessa disputa, evidenciou-se uma luta política, social e de classes. Sabe-se que a organização de uma “associação” é uma luta coletiva. Porém é sabido também que, na sociedade, existem aquelas pessoas que são “militantes” de causas e ideais. Talvez Dr. Tito Marengo tenha sido uma dessas pessoas que fazem parte do que chamamos de “vanguarda” ou “minoria ativa”. A luta de Tito Marengo era para que os menos favorecidos da fortuna tivessem acesso às manifestações culturais mais aprimoradas de sua época. Fica para outra oportunidade ou para outros pesquisadores explorarem outros aspectos que não foram possíveis: relacionar a luta pelo “O Colosseo” com a disputa política (PL x PRR); analisar a participação do movimento operário nessa questão; também o aprofundamento conceitual e teórico das práticas do paternalismo, populismo e trabalhismo que podem estar evidenciadas por trás do projeto “O Colosseo”.

Bibliografia:

A Notícia. (1926-1928) AXT, Gunter. Gênese do Estado Moderno no Rio Grande do Sul (1889-1929). Porto Alegre: Paiol, 2011.

BURKE, Peter. O que é História Cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.

CORRÊA, Anderson R. Pereira. Escrita da História: “O Município de Alegrete”. (1908-2008).Porto Alegre: Deriva, 2010.

HESSEL, Lothar. Teatro no Rio Grande do Sul. Porto Alegre: Ed. Universidade/UFRGS, 1999. Meu Jornal. (1926 – 1927).

OLIVEIRA, José Joaquim Machado de. Episódio de um diário das campanhas do Sul [1818]. In: Revista Trimensal de História e Geographia ou Jornal do Instituto Histórico Geographico Brasileiro. Rio de Janeiro: Typographia de D.L. dos Santos, 1842, tomo quarto, pp. 331-349.

THOMPSON, E.P. Costumes em comum. São Paulo: Companhia das Letras,1998.






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