{"id":101,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=101"},"modified":"2023-03-13T20:44:14","modified_gmt":"2023-03-13T23:44:14","slug":"os-militares-e-a-politica-no-brasil-republicano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=101","title":{"rendered":"Os militares e a pol\u00edtica no Brasil republicano"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/dutra.jpg\" title=\"A presen\u00e7a pol\u00edtica dos militares, atrav\u00e9s do ex-presidente Eurico Gaspar Dutra (foto) e do General G\u00f3is Monteiro, \u00e9 considerada como o marco de transi\u00e7\u00e3o para a hegemonia da pol\u00edtica dos militares. O avan\u00e7o do conceito militar-corpora\u00e7\u00e3o deu a tranquilidade necess\u00e1ria para o desenvolvimento profissional das For\u00e7as Armadas no Brasil. - Foto:Governo do Brasil\" alt=\"A presen\u00e7a pol\u00edtica dos militares, atrav\u00e9s do ex-presidente Eurico Gaspar Dutra (foto) e do General G\u00f3is Monteiro, \u00e9 considerada como o marco de transi\u00e7\u00e3o para a hegemonia da pol\u00edtica dos militares. O avan\u00e7o do conceito militar-corpora\u00e7\u00e3o deu a tranquilidade necess\u00e1ria para o desenvolvimento profissional das For\u00e7as Armadas no Brasil. - Foto:Governo do Brasil\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">A presen\u00e7a pol\u00edtica dos militares, atrav\u00e9s do ex-presidente Eurico Gaspar Dutra (foto) e do General G\u00f3is Monteiro, \u00e9 considerada como o marco de transi\u00e7\u00e3o para a hegemonia da pol\u00edtica dos militares. O avan\u00e7o do conceito militar-corpora\u00e7\u00e3o deu a tranquilidade necess\u00e1ria para o desenvolvimento profissional das For\u00e7as Armadas no Brasil.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Governo do Brasil<\/small><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoPlainText\">Viam&atilde;o\/RS, setembro de 2002<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoPlainText\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoPlainText\">Desenvolverei o tema, por op&ccedil;&atilde;o, de forma pouco ortodoxa. Compreende-se, genericamente falando, dentro da literatura pol&iacute;tica produzida no Brasil (e sobre o pa&iacute;s), duas posi&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas. Estas s&atilde;o citadas por Stepan no seu estudo pr&eacute;-golpe e at&eacute; o governo M&eacute;dici. As duas posi&ccedil;&otilde;es seriam: os militares na pol&iacute;tica e a pol&iacute;tica dos militares.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoPlainText\">&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoPlainText\">Embora n&atilde;o descarte a validade destes conceitos, chamo a aten&ccedil;&atilde;o de que a literatura j&aacute; produziu extensivos e excelentes trabalhos a respeito do tema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; margin: 0cm 0cm 0pt\" class=\"MsoPlainText\">&nbsp;<\/p>\n<p>Tomo portanto a ousadia de desenvolver este tema sob uma &oacute;tica da pol&iacute;tica em sentido amplo. Analisamos aqui a presen&ccedil;a castrista na pol&iacute;tica atrav&eacute;s da observa&ccedil;&atilde;o do continuum da rela&ccedil;&atilde;o do regime vigente e das For&ccedil;as Armadas (FFAA) no ambiente pol&iacute;tico do pa&iacute;s. Trabalhos como o de Jorge Zaverucha (2000, professor da UFPE) tra&ccedil;am esta rela&ccedil;&atilde;o naquilo que este professor chama de Fr&aacute;gil Democracia, na correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a entre a corpora&ccedil;&atilde;o militar e o liberalismo pol&iacute;tico. Se ampliarmos o conceito, o das prerrogativas militares para a manuten&ccedil;&atilde;o da ordem interna (aquilo que a ideologia do planejamento denominou seguran&ccedil;a nacional), podemos verificara incid&ecirc;ncia de interven&ccedil;&otilde;es cont&iacute;nuas. Isto se inicia a partir do pr&oacute;prio nascimento do Ex&eacute;rcito do Brasil (EB), posteriormente da Guarda Nacional (GN) e no marco estrito de um Golpe de Estado, quando da proclama&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica. <\/p>\n<p>Quero com isto marcar que, ao contr&aacute;rio de situa&ccedil;&otilde;es idealizadas de liberalismo pol&iacute;tico, as FFAA no Brasil republicano foram e s&atilde;o um dos fatores decisivos para a manuten&ccedil;&atilde;o ou queda de regimes. Mas em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, s&atilde;o o &uacute;ltimo recurso para a defesa interna da ordem social. Para cumprir este objetivo, necessariamente tem de ser consolidada sua exist&ecirc;ncia como corpora&ccedil;&atilde;o. Ou seja, n&atilde;o se discute a inger&ecirc;ncia ou interven&ccedil;&atilde;o das FFAA no cen&aacute;rio pol&iacute;tico, mas sim as vari&aacute;veis desta forma de interven&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Se partirmos de uma an&aacute;lise de fundo estrutural, as duas interven&ccedil;&otilde;es mais marcantes da 1&ordm; Rep&uacute;blica n&atilde;o foram aquelas em que as for&ccedil;as do governo central eram utilizadas para intervir, junto ao candidato a governador apoiado pelo presidente, em interven&ccedil;&otilde;es federais nos estados. No que diz respeito da manuten&ccedil;&atilde;o da ordem interna, na defesa interna do interesse de classe, o EB foi empregado em grandes campanhas nas guerras camponesas de Canudos e Contestado. Nos primeiros anos da Rep&uacute;blica, parte da motiva&ccedil;&atilde;o positivista do Ex&eacute;rcito foi aplicada no combate de uma rebeli&atilde;o sertaneja com tra&ccedil;o ideol&oacute;gico messi&acirc;nico. Por mais que houvessem rivalidades e dist&acirc;ncias de concep&ccedil;&otilde;es entre os oficiais republicanos e coron&eacute;is baianos (titulares da GN, latifundi&aacute;rios e pol&iacute;ticos), houve uma verdadeira alian&ccedil;a de classes dominantes para defender a ordem social no interior do sert&atilde;o nordestino. <\/p>\n<p>Seguindo um racioc&iacute;nio l&oacute;gico, nestes mesmos cen&aacute;rios de sert&atilde;o (regi&atilde;o Nordeste, Norte de Minas, na &eacute;poca o Nordeste de Goi&aacute;s &#8211; hoje Tocantins), seguidas vezes coron&eacute;is com capacidade beligerante pr&oacute;pria se enfrentaram e confrontaram ao governo local. Esses senhores de terra e guerra tinham controle sobre ex&eacute;rcito de jagun&ccedil;os, redes de coiteiros e coron&eacute;is menores, semi-autonomia de mando nos seus territ&oacute;rios de influ&ecirc;ncia e capacidade de enfrentar os poderes oficiais constitu&iacute;dos no n&iacute;vel local, micro-regional e estadual. Se considerarmos as rivalidades (estados x governo central) e potencial b&eacute;lico das pol&iacute;cias-militares comparando com as for&ccedil;as federais e as disputas entre as fra&ccedil;&otilde;es de classe nos estados e o governo central, Canudos simplesmente implica em uma alian&ccedil;a de classe dominante para a manuten&ccedil;&atilde;o do dom&iacute;nio e do controle social no sert&atilde;o nordestino. <\/p>\n<p>A afirmativa que havia autonomia nos estados na 1&ordm; Rep&uacute;blica &eacute; relativa ao n&iacute;vel de amea&ccedil;a que as disputas nos estados representavam. Isto sem contar as rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a entre os estados mais fracos, que dependiam diretamente do poder central. Exemplo franco disso &eacute; o caso do Cear&aacute; e do Amazonas, que sofreram seguidas interven&ccedil;&otilde;es na Rep&uacute;blica Velha. Afirmo isto para validar que a dicotomia poder central-autonomia dos estados &eacute; sempre relativa ao grau de risco que envolvia os conflitos nestes lugares. Pouca ou nenhuma interven&ccedil;&atilde;o houve da parte do governo federal nas duas guerras civis ga&uacute;chas (1893-1895 e 1923-1925) e foi justo o oposto o que aconteceu na Guerra do Contestado. A literatura e a historiografia muitas vezes afirmam que Contestado, assim como Canudos, eram rebeli&otilde;es pr&eacute;-pol&iacute;ticas.<\/p>\n<p>Dizem isto porque nestas revoltas populares haviam motiva&ccedil;&otilde;es e impulsos de pensamento m&aacute;gico, sendo sua coes&atilde;o ideol&oacute;gica de base messi&acirc;nica. Se era assim, por que ent&atilde;o o maior contingente de tropas federais foi posta em combate contra um ex&eacute;rcito de pe&otilde;es, jagun&ccedil;os, mateiros e caboclos fronteiri&ccedil;os? &Eacute; poss&iacute;vel admitir uma irracionalidade do Estado-Maior do EB ao empregarem enorme contingente numa guerra pr&eacute;-pol&iacute;tica? Entendo justamente o oposto, parto do princ&iacute;pio das prerrogativas das FFAA para a manuten&ccedil;&atilde;o da ordem interna (ainda v&aacute;lidas na Constitui&ccedil;&atilde;o de 1988), que nos dois casos citados foram aplicadas para o fim &uacute;ltimo das For&ccedil;as Armadas. Ou seja, as FFAA s&atilde;o o &uacute;ltimo recurso para a manuten&ccedil;&atilde;o da ordem social. Entre a estrutura de classes e o regime pol&iacute;tico, o regime &eacute; t&aacute;tico e a estrutura de domina&ccedil;&atilde;o estrat&eacute;gica. Isto, em detrimento at&eacute; mesmo do regime pol&iacute;tico, como foi o caso de 1964.<\/p>\n<p>Assim, o primeiro conceito da rela&ccedil;&atilde;o dos militares, leia-se, as For&ccedil;as Armadas federais na Rep&uacute;blica Velha, Ex&eacute;rcito e Marinha, e ap&oacute;s a 2&ordf; Guerra, tamb&eacute;m com a presen&ccedil;a da For&ccedil;a A&eacute;rea Brasileira, FAB, &eacute; o de interven&ccedil;&atilde;o na defesa interna da ordem social. Esta seria a rela&ccedil;&atilde;o de fundo, org&acirc;nica e permanente, para a qual as FFAA se voltam quando necess&aacute;rio. Se considerarmos as interven&ccedil;&otilde;es internas do ponto de vista da an&aacute;lise estrat&eacute;gica em sentido amplo, esta forma de intervir &eacute; o marco estrat&eacute;gico da defesa interna. <\/p>\n<p>Toda interven&ccedil;&atilde;o militar na esfera pol&iacute;tica; isto no que diz respeito especificamente &agrave;s inger&ecirc;ncias nas formas de governo, partidos, regime e modelo de Estado; estar&aacute; condicionada a manuten&ccedil;&atilde;o &uacute;ltima da ordem social, objetivo estrat&eacute;gico e de longo prazo da defesa interna. Partindo desse conceito, &eacute; que se pode ter uma vis&atilde;o apropriada das outras duas varia&ccedil;&otilde;es: os militares na pol&iacute;tica e a pol&iacute;tica dos militares. Antes de passar a este ponto, me parece interessante real&ccedil;ar outros dois epis&oacute;dios. <\/p>\n<p>A &uacute;nica an&aacute;lise concreta da Insurrei&ccedil;&atilde;o Oper&aacute;ria do Rio de Janeiro (18 de novembro de 1918) &eacute; do professor do ICFH da UFF, Carlos Addor (2&ordf; edi&ccedil;&atilde;o, Achiam&eacute;, Rio\/RJ, 2000). Nela se retrata uma opera&ccedil;&atilde;o de ordem t&eacute;cnica, mas que marca a atua&ccedil;&atilde;o das FFAA no controle social do pa&iacute;s. A pol&iacute;cia brasileira, j&aacute; se reestrutura quando da forma&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica e especializara se&ccedil;&otilde;es pol&iacute;tico-sociais sob o comando do professor Elyzeo de Carvalho entre 1898 e 1904 (Revista do Arquivo P&uacute;blico do Rio de Janeiro e Beaklini, 2001). Fica a quest&atilde;o ent&atilde;o de como e porque fora um tenente do Ex&eacute;rcito (EB) o agente infiltrado no comando da Insurrei&ccedil;&atilde;o e que denunciara os planos e n&atilde;o um agente de pol&iacute;cia pol&iacute;tica do DF (na &eacute;poca, cidade do Rio de Janeiro)? Se a forma&ccedil;&atilde;o do aparelho de intelig&ecirc;ncia do EB &eacute; de 1958 (CIE), como a For&ccedil;a Terrestre j&aacute; tinha capacidade de infiltra&ccedil;&atilde;o no movimento oper&aacute;rio, particularmente no Conselho Pol&iacute;tico da Federa&ccedil;&atilde;o Oper&aacute;ria do Rio de Janeiro (FORJ)? Embora ignorada pela literatura, a Insurrei&ccedil;&atilde;o de 1918, que seria um putsch ao Pal&aacute;cio do Catete comandado por uma organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica revolucion&aacute;ria hegem&ocirc;nica naFedera&ccedil;&atilde;o Oper&aacute;ria, atrav&eacute;s de ataques e subleva&ccedil;&otilde;es de quart&eacute;is da capital, n&atilde;o pode ser chamada de pr&eacute;-pol&iacute;tica. Ainda que a literatura e a historiografia em grande parte desconsiderem este evento (assim como os j&aacute; citados Canudos e Contestado), os mesmos n&atilde;o passaram desapercebidos do comando das FFAA. <\/p>\n<p>&Eacute; preciso fazer uma ressalva antes de prosseguir. Pela dimens&atilde;o, capacidade de incorporar novos membros, perfil de classe e necessidade de elementos com maior forma&ccedil;&atilde;o t&eacute;cnica, boa parte das compara&ccedil;&otilde;es entre Marinha e Ex&eacute;rcito n&atilde;o s&atilde;o equivalentes. Ainda assim, outra miss&atilde;o estrat&eacute;gica da corpora&ccedil;&atilde;o &eacute; se manter intacta enquanto tal. Embora tenha sido uma rebeli&atilde;o de ordem interna, com menos capacidade de articula&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica do que o tenentismo, a Revolta da Chibata representou uma quebra da hierarquia e contou com elementos de controle e disputa racial. A marujada de maioria negra e a oficialidade de origens aristocr&aacute;ticas estavam em franca disputa de classe. Sendo a miss&atilde;o da corpora&ccedil;&atilde;o, antes que nada, se manter intacta e com suas prerrogativas de controle interno (conforme observou Stepan no seu estudo sobre o Golpe de 1964), a Revolta da Chibata significou uma poss&iacute;vel quebra de padr&atilde;o da ordem corporativa. Este fato foi observado pelo general G&oacute;is Monteiro e o citaremos mais adiante. Embora contando com elementos (pr&eacute;-pol&iacute;ticos, teve signific&acirc;ncia no associativismo dos pra&ccedil;as, motivando o que ocorreu na chamada Revolta dos Marinheiros, no ano de 1964 (anterior e uma das alega&ccedil;&otilde;es para o Golpe de 1&ordm; de abril de 1964). <\/p>\n<p>No que diz respeito aos militares na pol&iacute;tica, observamos resumidamente dois padr&otilde;es. Um deles diz respeito ao jogo pol&iacute;tico entre os agentes pol&iacute;ticos, atores individuais e fra&ccedil;&otilde;es de classe nos governos federais (pr&eacute;-golpe de 1964) e que se aproximam e utilizam das prerrogativas militares para compor ou recompor este ou aquele governo. Este padr&atilde;o se verifica nas interven&ccedil;&otilde;es federais na Rep&uacute;blica Velha em estados com pol&iacute;cias-militares fracas e fora da centralidade do poder. Ou seja, todos os demais estados que n&atilde;o S&atilde;o Paulo &#8211; Minas Gerais &#8211; Rio Gande do Sul. Tamb&eacute;m no ciclo populista (1945-1964) ocorreram fen&ocirc;menos parecidos. Neste outro per&iacute;odo, j&aacute; tomavam forma os partidos militares, o chamado facciosismo militar (tomo por refer&ecirc;ncia ao texto de Jos&eacute; Murilo de Carvalho em Institui&ccedil;&otilde;es Brasileiras da Era Vargas, 1999, FGV\/EdUERJ). Dentro do EB havia duas ou tr&ecirc;s fac&ccedil;&otilde;es claramente estabelecidas, de acordo com o momento, isto al&eacute;m das posi&ccedil;&otilde;es consolidadas da FAB, atrav&eacute;s da influ&ecirc;ncia do brigadeiro Eduardo Gomes. Se houvesse o protagonismo do soldado-profissional ou da n&atilde;o-interven&ccedil;&atilde;o (tomando por refer&ecirc;ncia ao mesmo CARVALHO, livro 2&ordm;, Cap. V, Hist&oacute;ria Geral da Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira) dentro da corpora&ccedil;&atilde;o castrense, o fato &eacute; que estas interven&ccedil;&otilde;es n&atilde;o ocorreriam. A prerrogativa do uso das for&ccedil;as federais valeu para as interven&ccedil;&otilde;es nos estados durante a Rep&uacute;blica Velha, quando a centralidade do poder foi se consolidando como uma op&ccedil;&atilde;o. Esta op&ccedil;&atilde;o era especialmente &uacute;til na correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as com os chamados ex&eacute;rcitos estaduais, na &eacute;poca chamados de pol&iacute;cia militar ou for&ccedil;a p&uacute;blica. Uma outra concep&ccedil;&atilde;o, &eacute; a do soldado-corpora&ccedil;&atilde;o. Esta concep&ccedil;&atilde;o corporativa &eacute; o que marca o padr&atilde;o das interven&ccedil;&otilde;es de cunho moderador, cuja quebra de padr&atilde;o seria o 1&ordm; de Abril de 1964 e a inaugura&ccedil;&atilde;o teria sido o 15 de novembro de 1889. <\/p>\n<p>Outro padr&atilde;o de militares na pol&iacute;tica pode ser visto na concep&ccedil;&atilde;o mais filos&oacute;fica do que pol&iacute;tica de soldado-cidad&atilde;o. O 2&ordm; tenentismo (o dos anos 1920) pode ser visto com este perfil reformador, com padr&atilde;o elitista e de reconstru&ccedil;&atilde;o estatal. Uma quebra de interven&ccedil;&atilde;o do tenentismo fora sem d&uacute;vida a rebeli&atilde;o interna, dentro do EB, pelo uso da viol&ecirc;ncia (for&ccedil;a) como linguagem pol&iacute;tica. Tendo como &aacute;pice a Coluna Prestes-Costa, pode se observar que ao longo dos dois anos e alguns meses da campanha, a Coluna n&atilde;o interveio na ordem latifundi&aacute;ria. Suas posi&ccedil;&otilde;es eram reformadoras e apontavam idealisticamente para: &#8211; um liberalismo pol&iacute;tico que funcionasse; &#8211; um regime fora dos par&acirc;metros de corrup&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica Velha e; &#8211; a constru&ccedil;&atilde;o do Estado. A motiva&ccedil;&atilde;o do 2( tenentismo come&ccedil;ou por temas ligados ao corporativismo militar, tomou contornos de reivindica&ccedil;&otilde;es reformistas e com a Alian&ccedil;a Liberal de 1930, essa (rebeli&atilde;o( promoveu a mudan&ccedil;a nos postos-chave do EB. <\/p>\n<p>As cis&otilde;es internas do Ex&eacute;rcito, a divis&atilde;o entre tenentes e capit&atilde;es para com a maioria nos postos de major para cima, promoveria em 1930 profundas mudan&ccedil;as no interior do EB. A ades&atilde;o dos tenentes, levada a cabo por motiva&ccedil;&otilde;es reformadoras, veio a consolidar o conceito do soldado-corpora&ccedil;&atilde;o. Na passagem comissionada de sargentos para tenentes e de tenentes para oficiais superiores e oficiais-generais, se cria uma competi&ccedil;&atilde;o direta pelo poder dentro da For&ccedil;a Terrestre, desta para o Estado e consequentemente para o pa&iacute;s. <\/p>\n<p>Podemos resumir que o soldado-corpora&ccedil;&atilde;o &eacute; um conceito que prev&ecirc; o fortalecimento castrense (e o controle sobre as for&ccedil;as estaduais), a profissionaliza&ccedil;&atilde;o militar (e a&iacute; se alia com o conceito de soldado-profissional), a manuten&ccedil;&atilde;o da hierarquia (consenso no sistema de oficiais, em acordo com a Marinha, cujo modelo &eacute; dualista: oficiais-pra&ccedil;as) e a miss&atilde;o nacional das FFAA (onde abre margem para as concep&ccedil;&otilde;es e disputas dentro das fac&ccedil;&otilde;es militares). Tamb&eacute;m podemos afirmar, sem muita margem de erro, que o conceito de militar-corpora&ccedil;&atilde;o abre as perspectivas da pol&iacute;tica dos militares. Sobre esta perspectiva apontamos as conclus&otilde;es deste &uacute;ltimo padr&atilde;o de correla&ccedil;&atilde;o e presen&ccedil;a pol&iacute;tica castrense na pol&iacute;tica brasileira. <\/p>\n<p>A presen&ccedil;a pol&iacute;tica dos militares, atrav&eacute;s do bin&ocirc;mio G&oacute;is Monteiro e Eurico Gaspar Dutra, pode ser considerada como a transi&ccedil;&atilde;o para a hegemonia da pol&iacute;tica dos militares. Neste caso, havendo a hegemonia do conceito militar-corpora&ccedil;&atilde;o, este habilita a tranquilidade necess&aacute;ria para o desenvolvimento profissional da corpora&ccedil;&atilde;o. Hierarquia, avan&ccedil;o tecnol&oacute;gico, proje&ccedil;&atilde;o do governo central (por vezes do poder do Estado nas rela&ccedil;&otilde;es exteriores), uma FFAA composta por oficiais de carreira e pra&ccedil;as conscritos (e assim marcando boa parte das camadas subalternas da sociedade brasileira) e a dificuldade para o estabelecimento dos sargentos como categoria organizada. Estas seriam algumas das caracter&iacute;sticas que o conceito de soldado-corpora&ccedil;&atilde;o implica na organiza&ccedil;&atilde;o interna castrense. <\/p>\n<p>A corpora&ccedil;&atilde;o agindo como tal para que a disputa na interna das FFAA, a fac&ccedil;&atilde;o hegem&ocirc;nica controlar&aacute; a dire&ccedil;&atilde;o da mesma. De sua parte, os agentes e atores pol&iacute;ticos ao convocarem frequentemente as FFAA para a atua&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica interna, as valida tamb&eacute;m como agentes pol&iacute;ticos. O controle interno do governo da Uni&atilde;o (o centralismo) implica necessariamente no controle das for&ccedil;as de repress&atilde;o no n&iacute;vel estadual. Foi justo o que ocorreu em 1937 e posterior e definitivamente em 1967. As doutrinas de seguran&ccedil;a e desenvolvimento iniciadas na marca do planejamento estrat&eacute;gico (ESG-IPES). <\/p>\n<p>Podemos concluir que a hegemonia na rela&ccedil;&atilde;o com a pol&iacute;tica se d&aacute; na concep&ccedil;&atilde;o corporativa, &agrave;quela que aponta a pol&iacute;tica dos militares. AS fac&ccedil;&otilde;es (partidos militares) disputam a hegemonia das FFAA (notadamente o EB) a partir da pr&oacute;pria concep&ccedil;&atilde;o corporativo-castrense. A maioria profissional e\/ou constitucionalista mant&ecirc;m-se neutra (ou ap&aacute;tica) delegando aos mandos pol&iacute;ticos dos militares a responsabilidade de lhes permitir desenvolver-se profissionalmente. Situa&ccedil;&otilde;es de crise aguda, sendo que a amea&ccedil;a da ordem social &eacute; mais gritante do que a descontinuidade do regime pol&iacute;tico, e um cen&aacute;rio que vislumbre a possibilidade de quebra de hierarquia e\/ou guerra civil. Uma possibilidade de guerra interna nasce a partir da influ&ecirc;ncia de esquerda e os v&iacute;nculos sociais do associativismo dos pra&ccedil;as, somadas &agrave; quebra do pacto federativo atrav&eacute;s das lealdades estaduais das PMs e a presen&ccedil;a de organiza&ccedil;&otilde;es de ruptura com algum poder beligerante. Todas estas pr&eacute;-condi&ccedil;&otilde;es, existentes em maior ou menor medida antes do golpe do 1&ordm; de abril de 1964, tendem a unificar toda a corpora&ccedil;&atilde;o sob suas lideran&ccedil;as pol&iacute;ticas. Assim, as FFAA mantiveram as prerrogativas castrenses durante a rep&uacute;blica. Isto em parte ocorreu em 1937 e de fato em 1964. <\/p>\n<p>O padr&atilde;o Moderador neutral foi derivando a partir de 1937, consolidando em 1964 (e v&aacute;lido ainda hoje) como de autonomia burocr&aacute;tica dos oficiais-generais para manterem suas prerrogativas. Esta modalidade &eacute; um constructo pol&iacute;tico da transi&ccedil;&atilde;o de regime brasileiro. As FFAA continuam sendo um agente pol&iacute;tico e ainda uma op&ccedil;&atilde;o vigilante perante possibilidades de ruptura de ordem (ainda que alternem seu modus operandi). Vale citar que uma das mesas-redondas da Associa&ccedil;&atilde;o Brasileira de Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica (ABCP, encontro nacional de Niter&oacute;i\/RJ, julho de 2002) tinha o t&iacute;tulo: Seguran&ccedil;a P&uacute;blica e Seguran&ccedil;a Nacional. Este debate contaria com a presen&ccedil;a do militar que mais acumula fun&ccedil;&otilde;es desde G&oacute;is Monteiro,o general Alberto Cardoso (titular do GSI, ex-Casa Militar, de 1&ordm; de janeiro de 1995, primeiro dia de governo de FHC, a 31 de dezembro de 2002, &uacute;ltimo dia de Fernando Henrique). Alberto Cardoso n&atilde;o foi, mas deixou sua mensagem nas entrelinhas, na pr&aacute;tica de autocensura vinda da pr&oacute;pria dire&ccedil;&atilde;o eleita da ABCP. Verifica-se assim o in&iacute;cio de um novo padr&atilde;o de rela&ccedil;&atilde;o monitorada com a vida pol&iacute;tica republicana, mantendo-se este fiel &agrave;s prerrogativas do jogo real de manuten&ccedil;&atilde;o da ordem social e da defesa interna. <\/p>\n<p><strong>Bibliografia B&aacute;sica <\/strong><\/p>\n<p>ADOR, Carlos A Insurrei&ccedil;&atilde;o Oper&aacute;ria no Rio de Janeiro, Achiam&eacute;, Rio de Janeiro, 2000 <br \/>\nCARVALHO, Jos&eacute; Murilo de, For&ccedil;as Armadas na 1( Rep&uacute;blica: o poder desestabilizador, in, Hist&oacute;ria Geral da Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, O Brasil Republicano, Tomo III (2) <br \/>\nCARVALHO, Jos&eacute; Murilo de, A Forma&ccedil;&atilde;o das Almas, Cia. das Letras, S&atilde;o Paulo, 2000 <br \/>\nCARVALHO, Jos&eacute; Murilo de, Vargas e os Militares: Aprendiz do Feiticeiro, EdFGV, Rio de Janeiro, 1999 <br \/>\nCASTRO, Celso, Os Militares e a Rep&uacute;blica, Jorge Zahar, Rio de Janeiro, 1995 <br \/>\nFAUSTO, B&oacute;ris, A Revolu&ccedil;&atilde;o de 1930, Cia. das Letras, S&atilde;o Paulo, 2000 <br \/>\nLESSA, Renato, A Inven&ccedil;&atilde;o Republicana, V&eacute;rtice, S&atilde;o Paulo, 1988 <br \/>\nSTEPAN, Alfred, Os Militares na Pol&iacute;tica, ArteNova, Rio de Janeiro, 1975 <br \/>\nZAVERUCHA, Jorge, Fr&aacute;gil Democracia, Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, Rio de Janeiro, 2000<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A presen\u00e7a pol\u00edtica dos militares, atrav\u00e9s do ex-presidente Eurico Gaspar Dutra (foto) e do General G\u00f3is Monteiro, \u00e9 considerada como o marco de transi\u00e7\u00e3o para a hegemonia da pol\u00edtica dos militares. 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