{"id":10321,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=98"},"modified":"2023-03-13T21:46:33","modified_gmt":"2023-03-14T00:46:33","slug":"o-estado-novo-e-sua-nova-ordem-uma-visao-critica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10321","title":{"rendered":"O Estado Novo e sua nova ordem, uma vis\u00e3o cr\u00edtica"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/foto_bras_greve_17.jpg\" title=\"\n\n<p >A classe operaria realizou em 1917, no Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Porto Alegre, radicais e s\u00e9rios exerc\u00edcios de duplo poder. A moderniza\u00e7\u00e3o do Estado foi uma contra-resposta a esta vontade pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p> &#8211; Foto:&#8221; alt=&#8221;<\/p>\n<p >A classe operaria realizou em 1917, no Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Porto Alegre, radicais e s\u00e9rios exerc\u00edcios de duplo poder. A moderniza\u00e7\u00e3o do Estado foi uma contra-resposta a esta vontade pol\u00edtica e social.<\/p>\n<p> &#8211; Foto:&#8221; class=&#8221;image&#8221;><figcaption class=\"fig-caption\">\n<p >A classe operaria realizou em 1917, no Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo e Porto Alegre, radicais e s\u00e9rios exerc\u00edcios de duplo poder. A moderniza\u00e7\u00e3o do Estado foi uma contra-resposta a esta vontade pol\u00edtica e social.<\/p>\n<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p>Vila Setembrina dos Farrapos (Santa Isabel, Viam&atilde;o\/RS), outubro de 2002<\/p>\n<p>Ao ler este ensaio, espero que os leitores e cr&iacute;ticos desta p&aacute;gina tenham o esp&iacute;rito livre para compreender uma outra forma de ver e fazer a Hist&oacute;ria.<\/p>\n<p>A nova ordem pol&iacute;tica\/econ&ocirc;mica\/social e cultural implantada nos anos 30<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Gostaria de desenvolver o tema procurando observar aspectos pouco retratados ou que n&atilde;o costumam ser abordados na literatura acad&ecirc;mica. Para tanto, parto do referencial exposto por Hobsbawn, que considera aos Estados fortes ent&atilde;o surgindo na Europa como uma sa&iacute;da para as crises do p&oacute;s-1&ordf; Guerra Mundial e do crack da Bolsa de Valores de Nova York em 1929. Um sistema internacional inteiro que ru&iacute;a, encontrando aqui no Brasil, efeitos complementares da crise da pol&iacute;tica dos governadores. Duas seriam as causas estruturais para o surgimento do Estado forte na Europa. Para este marco, podemos tomar como refer&ecirc;ncia primeira ao golpe fascista de Mussolini na It&aacute;lia em 1922:<\/p>\n<p>&#8211; uma tem a rela&ccedil;&atilde;o com o capitalismo concorrencial em escala europ&eacute;ia, uma das sa&iacute;das para a disputa por mercados e col&ocirc;nias e posteriormente sua crise produtiva;<\/p>\n<p>&#8211; a outra tem que ver diretamente com o surgimento das massas urbanas como atores pol&iacute;ticos e as disputas de distintas sa&iacute;das autorit&aacute;rias para exercer o controle e o ordenamento sobre elas.<\/p>\n<p>Nunca &eacute; demais recordar que a 1&ordf; Rep&uacute;blica passou por duas Guerras Camponesas de car&aacute;ter de classe e motiva&ccedil;&atilde;o messi&acirc;nica, al&eacute;m de Greves Gerais no Rio de Janeiro, S&atilde;o Paulo,Porto Alegre e uma Insurrei&ccedil;&atilde;o Oper&aacute;ria (1917 e 1918, respectivamente). No que diz respeito das disputas intra-elites, ou de setores que vieram a compor um setor de elite &#8211; como os tenentes de 1922 e 1924, interventores e administradores do Estado ap&oacute;s 1930 &#8211; vivia-se um per&iacute;odo em que a contesta&ccedil;&atilde;o armada era a linguagem pol&iacute;tica.<\/p>\n<p>Apenas para citar de mem&oacute;ria: o Levante dos 18 do Forte em 1922; o Levante de S&atilde;o Paulo em 1924; a Coluna Prestes-Costa desta data at&eacute; 1927. No campo da pol&iacute;tica estadual, duas guerras civis ga&uacute;chas: 1893\/1895, 1923\/1925. Al&eacute;m destas, dezenas de interven&ccedil;&otilde;es federais nos estados mais fracos da Uni&atilde;o. Outro dado importante, nestes mesmos estados mais fracos, o pa&iacute;s era recortado por regi&otilde;es onde os mandos locais eram semi-aut&ocirc;nomos. Um exemplo disto &eacute; o Coronel Hor&aacute;cio de Matos, da Chapada Diamantina-Bahia, e sua guerra contra o governo estadual. Some-se a isto a cumplicidade de coron&eacute;is coiteiros e os bandos de cangaceiros, afora os ex&eacute;rcitos de jagun&ccedil;os aos seus servi&ccedil;os.<\/p>\n<p>Quanto a crise do modelo pol&iacute;tico, podemos apontar como a primeira mais grave no governo Artur Bernardes (que exerceu o mandato basicamente sob estado de s&iacute;tio), apontava sa&iacute;das de ruptura com o pacto olig&aacute;rquico, justo aquilo galvanizado pela Alian&ccedil;a Liberal. Isto tem um significado profundo. Pactos n&atilde;o-declarados por vezes t&ecirc;m valor de lei e normas de fato, e o jogo real da pol&iacute;tica muitas das vezes prescinde da teoria constitucional. Somando-se a estas sa&iacute;das de ruptura do sistema pol&iacute;tico, os tenentes da chamada Revolu&ccedil;&atilde;o de 30.<\/p>\n<p>Podemos sim, considerar como pano de fundo, a Crise do Caf&eacute; como decorr&ecirc;ncia da superprodu&ccedil;&atilde;o brasileira agravada com o Crack da Bolsa. Em decorr&ecirc;ncia disto, algumas sa&iacute;das de modelo pela via direita foram experimentadas. Foram elas, tentativas de controle social sobre novos atores pol&iacute;ticos; pensamento pol&iacute;tico marcado por vieses modernizadores, autorit&aacute;rios e nacionais, com base de classe m&eacute;dia para cima. Todos teriam suas chances na d&eacute;cada de 30. Destas chances e oportunidades, vou expor uma vis&atilde;o de que o Estado Novo representara a sa&iacute;da poss&iacute;vel para uma nova etapa de consolida&ccedil;&atilde;o do Estado brasileiro, dentro daquilo que as elites conseguiram consolidar.<\/p>\n<p>Se parto da inten&ccedil;&atilde;o de ressaltar as mudan&ccedil;as ocorridas tomando em conta a percep&ccedil;&atilde;o das massas e a id&eacute;ia de povo como ator pol&iacute;tico, preciso iniciar atrav&eacute;s deste &acirc;ngulo meu argumento. N&atilde;o desejo partir de uma base estrutural, reconhecendo que o jogo pol&iacute;tico tem mais vari&aacute;veis do que as determinantes econ&ocirc;micas. Ainda assim tenho que reconhecer uma evid&ecirc;ncia: a crise de 1929 marcou a crise do modelo agro-exportador. Isto implicava na necessidade da transi&ccedil;&atilde;o para um modelo de substitui&ccedil;&atilde;o de importa&ccedil;&otilde;es, defesa dos pre&ccedil;os agr&iacute;colas no mercado externo e a transi&ccedil;&atilde;o para um sistema de economia industrial (Furtado, 1999). Esta transi&ccedil;&atilde;o implicava necessariamente em uma pol&iacute;tica de Estado por sobre a m&atilde;o de obra oper&aacute;ria. N&atilde;o bastava mais dizer que a quest&atilde;o social &eacute; um caso de pol&iacute;cia, e apenas baixar a repress&atilde;o sobre as organiza&ccedil;&otilde;es de trabalhadores. Era fundamental, al&eacute;m de seguir reprimindo, iniciar um amplo e complexo mecanismo de controle do Estado sobre a classe oper&aacute;ria. Nunca &eacute; demais lembrar que ent&atilde;o mais de 2\/3 da popula&ccedil;&atilde;o brasileira vivia no campo, sendo as grandes cidades brasileiras mais pass&iacute;veis de consolidar habitus de solidariedade de classes. Um dos fatores explicativos &eacute; o fato de serem pequenas, ainda recebendo ciclos de imigra&ccedil;&atilde;o, sendo que o in&iacute;cio de grande migra&ccedil;&atilde;o interna veio apenas na metade dos anos &rsquo;30.<\/p>\n<p>Ao iniciar o atendimento e as bases de direitos que foram reivindica&ccedil;&otilde;es de d&eacute;cadas (no m&iacute;nimo 30 anos) com o Minist&eacute;rio do Trabalho em 1932, simultaneamente vieram os mecanismos de controle (a identifica&ccedil;&atilde;o na carteira do trabalhador), a exist&ecirc;ncia de sindicatos oficiais (com a incorpora&ccedil;&atilde;o dos sindicatos amarelos e a alian&ccedil;a t&aacute;tica com o PCB, o chamado bloco pelego-stalinista ou pelego-marxista) e uma repress&atilde;o sistem&aacute;tica aos organismos n&atilde;o-oficiais (os chamados sindicatos livres). Observa-se assim uma mudan&ccedil;a na ordem social, onde se reconhecem os direitos dos trabalhadores, abrem-se canais oficiais de gest&atilde;o destes direitos (no Minist&eacute;rio do Trabalho) e ao mesmo tempo se opera com repress&atilde;o sistem&aacute;tica e progressiva a todos os setores que trabalham neste terreno.<\/p>\n<p>Primeiro foram os sindicatos livres de hegemonia anarquista, no segundo momento e j&aacute; na composi&ccedil;&atilde;o policlassista da Alian&ccedil;a Nacional Libertadora (ANL, frente de massas do PCB) ilegalizada, a repress&atilde;o vai de encontro aos demais ativistas n&atilde;o-oficiais (os militantes do PCB no meio oper&aacute;rio; tamb&eacute;m aos poucos militantes independentes ou de grupos menores). Posteriormente, no ano de 1941, Vargas forte e est&aacute;vel no comando do Estado Novo volta-se para a classe oper&aacute;ria e trabalhadora como sujeito e ator pol&iacute;tico. Na aus&ecirc;ncia de oposi&ccedil;&atilde;o no meio oper&aacute;rio, posteriormente com as CLTs (Consolida&ccedil;&atilde;o das Leis do Trabalho), d&aacute;-se a condi&ccedil;&atilde;o para criar ao mito do pai dos pobres, demarcando uma base social, incluindo as futuras bases eleitorais galvanizadas pelo ditador. Se considerarmos como agravante as leis dos nacionais, que obrigava &agrave;s empresas a contratar um percentual de trabalhadores nascidos no Brasil, podemos inferir o que esta mesma fra&ccedil;&atilde;o de classe (trabalhadores brasileiros atingidos e beneficiados por esta lei) p&ocirc;de significar em termos de suporte e apoio.<\/p>\n<p>Abordando o tema sob outro &acirc;ngulo, faz parte do pensamento pol&iacute;tico autorit&aacute;rio de ent&atilde;o duas orienta&ccedil;&otilde;es. A primeira &eacute; a teoria da flor ex&oacute;tica, que associa ao elemento estrangeiro (imigrante) id&eacute;ias que supostamente nada tinham a ver com a sociedade brasileira, dita pacata e ordeira (1). Este fator legitima as leis celeradas (ainda nos anos 1920) para ca&ccedil;ar estes militantes. A segunda pode ser compreendida como resposta &agrave; primeira, &eacute; a chamada id&eacute;ia de harmonia entre as classes. No que diz respeito da vida republicana, esta harmonia policlassista e nacional-modernizante vem do positivismo do &uacute;ltimo quarto do s&eacute;culo XIX. Mas em se tratando de controle sobre os trabalhadores urbanos, esta matriz de pensamento tem origem no romeno Manoilesco (um dos primeiros te&oacute;ricos do corporativismo), e ter&aacute; profundo impacto na vida social brasileira. Podemos (para esta influ&ecirc;ncia comprovar) apenas inferir as bases de motiva&ccedil;&otilde;es de Oliveira Vianna (seguidor e admirador de Manoilesco), atuante como assessor jur&iacute;dico do Minist&eacute;rio do Trabalho (de <st1:metricconverter productid=\"1932 a\" w:st=\"on\">1932 a<\/st1:metricconverter> 1940) e o impacto destas motiva&ccedil;&otilde;es sobre as pol&iacute;ticas p&uacute;blicas decretadas para a classe trabalhadora atrav&eacute;s deste &oacute;rg&atilde;o. Gostaria de marcar que, neste caso, parte dos debates e buscas por sa&iacute;das das elites nos anos 1920, resultaram justo em alternativas concretas nos anos 1930 e em pol&iacute;ticas de Estado forte e centralizado a partir do Estado Novo.<\/p>\n<p>Gostaria de fazer uma segunda abordagem, agora da renova&ccedil;&atilde;o da ordem cultural, tomando por base e origens a Semana de Arte Moderna de 1922 e culminando no Estado Novo. Se a Semana de 1922 e particularmente os membros da 1&ordf; fase do modernismo, buscavam ra&iacute;zes e bases culturais do Brasil, tamb&eacute;m &eacute; verdade que as motiva&ccedil;&otilde;es e buscas por posi&ccedil;&otilde;es de cargo p&uacute;blico e reconhecimento (na &eacute;poca, auto-reconhecimento por parte das elites que eles mesmos eram filhos\/as com perda de condi&ccedil;&otilde;es e status) pelo Estado como poss&iacute;vel e futuro patrono das artes, tamb&eacute;m fora alcan&ccedil;ado. Passemos para outra infer&ecirc;ncia:<\/p>\n<p>&#8211; Qual intelectual\/artista do modernismo se predispunha e\/ou teve not&oacute;ria participa&ccedil;&atilde;o na imprensa oper&aacute;ria da &eacute;poca?<\/p>\n<p>&#8211; Como se produziam as tais belas artes no Brasil urbano, anterior a 1930, sen&atilde;o sob a forma do patronato privado?<\/p>\n<p>N&atilde;o me parece nenhum exagero dizer que ao buscar um brasileirismo modernizante, os artistas\/intelectuais da 1&ordf; gera&ccedil;&atilde;o modernista falavam aos seus pares.<\/p>\n<p>As clivagens dentro desta gera&ccedil;&atilde;o se dariam tamb&eacute;m sob impulsos modernizantes. &Eacute; n&iacute;tida, reconhecida e not&oacute;ria a influ&ecirc;ncia do futurismo italiano de Marinetti sobre os pares de Pl&iacute;nio Salgado. Era o in&iacute;cio do reconhecimento da ordem trazida pela modernidade, a futura necessidade da disciplina sobre as massas fabris e a descoberta de algo &ldquo;emotivo e irracional&rdquo; como parte da comunica&ccedil;&atilde;o social num mundo urbano. Uma outra corrente do futurismo, o sovi&eacute;tico do ColectCult e outros grupos, tendo como expoentes Eisenstein, Vertov, Maiakowski, entre outros; pouco se fez presente.<\/p>\n<p>Mas, a op&ccedil;&atilde;o foi pelo Estado, seja como forma de emprego, reconhecimento da fun&ccedil;&atilde;o do intelectual na sociedade, aprimoramento t&eacute;cnico dos bens simb&oacute;licos do governo e o consenso elitista de que o povo precisa ser educado. Esta &uacute;ltima se manifestou tanto no grupo mais &agrave; direita (Verde-Amarelo e Escola da Anta), como no mais liberal (o Pau-Brasil e o Antropof&aacute;gico). Em muitas grossas linhas, uma parcela consider&aacute;vel desta 1&ordf; assim como da 2&ordf; gera&ccedil;&atilde;o do modernismo (1930-<st1:metricconverter productid=\"1945, a\" w:st=\"on\">1945, a<\/st1:metricconverter> do romance regionalista) veio a compor respectivamente a A&ccedil;&atilde;o Integralista Brasileira e o Minist&eacute;rio Capanema (da Educa&ccedil;&atilde;o, Cultura e Sa&uacute;de P&uacute;blica, 1934-1945).<\/p>\n<p>E quais seriam os tra&ccedil;os marcantes desta gest&atilde;o no Minist&eacute;rio Capanema e seus efeitos sobre a ordem social brasileira? Uma vez que o povo passa a ser sujeito da hist&oacute;ria oficial, &eacute; preciso educ&aacute;-lo, gerar e fabricar consensos em torno de s&iacute;mbolos e identidades nacionais salvaguardadas por um governo forte, criados, recriados e incorporados por intelectuais e artistas a servi&ccedil;o do Estado. Se nos ativermos apenas &agrave; incorpora&ccedil;&atilde;o, j&aacute; atrav&eacute;s do governo municipal do DF (Rio de Janeiro) com Pedro Ernesto, dos desfiles de Escola de Samba, observamos que muito pouco de contestat&oacute;rio poderia sobreviver a uma encampa&ccedil;&atilde;o oficial. Nunca &eacute; demais recordar a sabedoria pol&iacute;tica de Vargas, tendo rela&ccedil;&otilde;es com babalorix&aacute;s do candombl&eacute; baiano e transformando a capoeiragem em gin&aacute;stica nacional. Mais do que inventar, as pesquisas folcloristas dos intelectuais dos anos 1920 viraram discurso legitimador do Estado Novo. Ainda que caricato, o Sistema S (Senai-Sesi-Senac-Sesc) de qualifica&ccedil;&atilde;o do trabalhador era incentivado por um bem simb&oacute;lico, como no samba o (ex: o Bonde de S&atilde;o Janu&aacute;rio), uma verdadeira ode a incorpora&ccedil;&atilde;o de m&atilde;o de obra treinada (e disciplinada) no esfor&ccedil;o econ&ocirc;mico para o crescimento interno e a convers&atilde;o ao sistema industrial. Com Vargas e o Estado Novo tornou-se claro a op&ccedil;&atilde;o entre o que &eacute; negro-regional-popular tornar-se nacional (caso isto fortale&ccedil;a o ide&aacute;rio de na&ccedil;&atilde;o do regime) ou ent&atilde;o se mant&ecirc;m como ilegal (conforme o marco de classe).<\/p>\n<p>Os dois temas j&aacute; abordados, da altera&ccedil;&atilde;o da ordem social e cultural poderiam ser mais profunda e exaustivamente abordados. Tamb&eacute;m poderia considerar o cen&aacute;rio pol&iacute;tico-partid&aacute;rio do chamado ciclo populista, montados dois partidos em torno da presen&ccedil;a e do legado de Vargas (PSD e PTB) e onde a UDN tinha a no&ccedil;&atilde;o de que suas chances seriam muito reduzidas caso n&atilde;o alterasse o quadro partid&aacute;rio (como ajudou a fazer colaborando com o Golpe de 1964). Mais especificamente gostaria de abordar a nova conforma&ccedil;&atilde;o do Estado na Era Vargas.<\/p>\n<p>Embora tenha sido no Estado Novo que com o auto-golpe se consolida toda uma capacidade de investimento, recursos, gera&ccedil;&atilde;o de bens simb&oacute;licos e capacidade repressiva; os marcos de in&iacute;cio de todos estes fatores j&aacute; se iniciam por volta de <st1:metricconverter productid=\"1932. A\" w:st=\"on\">1932. A<\/st1:metricconverter> capacidade de interven&ccedil;&atilde;o do Estado na economia, a s&iacute;ntese de seguran&ccedil;a nacional\/Estado policial (iniciada pelo general G&oacute;is Monteiro), a transfer&ecirc;ncia para setores ou departamentos do Estado de diverg&ecirc;ncias e representa&ccedil;&otilde;es de interesses privados e o advento do planejamento (econ&ocirc;mico-administrativo, por conseguinte de uma nova categoria social, a tecnocracia), todos estes s&atilde;o atributos da Era Vargas, consolidados no Estado Novo e presentes ao menos at&eacute; 1985.<\/p>\n<p>Uma ideologia do planejamento j&aacute; come&ccedil;aria a se formar a partir de dois fatores. A presen&ccedil;a dos tenentes e suas respectivas interventorias nos estados (ap&oacute;s a tomada do poder, junto da Alian&ccedil;a Liberal, em 1930) e a entrada no governo dos pensadores de matriz autorit&aacute;ria. Basta tomar a Oliveira Vianna como exemplo j&aacute; dado, pessoa a quem o general Golbery do Couto e Silva chamava de mestre, para observarmos esta continuidade. Um outro padr&atilde;o interessante a ser comparado &eacute; o do Departamento Aut&ocirc;nomo do Servi&ccedil;o P&uacute;blico (DASP) e os chamados DASPinhos estaduais. Pois &eacute; justamente nestes espa&ccedil;os onde as elites locais de estados fortes, manifestam suas posi&ccedil;&otilde;es e posturas de for&ccedil;a com e dentro do governo. Todo regime autorit&aacute;rio cria e necessita de canais comunicantes org&acirc;nicos ao menos com os setores que o ap&oacute;iam, e modernamente, vasos comunicantes com fra&ccedil;&otilde;es significativas da sociedade que esteja fora do regime. Os ramos dos DASPs estaduais, da Justi&ccedil;a do Trabalho, das Corpora&ccedil;&otilde;es, dos Conselhos Tripartites, a rela&ccedil;&atilde;o do DIP com os meios de comunica&ccedil;&atilde;o da &eacute;poca, todos foram marcos de funcionamento de perfil estatal-corporativa e que, em boa medida, foram reproduzidos e adaptados pela Ditadura Militar (1964-1985).<\/p>\n<p>Outro marco essencial da Era Vargas &eacute; um padr&atilde;o de pol&iacute;tica repressiva que implica uma s&iacute;ntese da corpora&ccedil;&atilde;o militar, o Ex&eacute;rcito, e sua predomin&acirc;ncia nos poderes estaduais. A Lei de Seguran&ccedil;a Nacional, a que me refiro, &eacute; de 1935 e tinha trabalho em conjunto com outros poderes jur&iacute;dicos e do ramo militar e policial do Executivo. Buscar uma base legal da ordem repressiva &eacute; uma caracter&iacute;stica de toda a complexidade-jur&iacute;dico-administrativa do Estado Novo, tamb&eacute;m reproduzida e adaptada pelo regime militar (este por si, tamb&eacute;m jur&iacute;dico-corporativo). Junto com o aumento da infra-estrutura, o esfor&ccedil;o industrial, a incorpora&ccedil;&atilde;o das massas e o crescimento econ&ocirc;mico tendo o Estado como agente; a centralidade repressiva e defesa interna (conceito adjunto do de seguran&ccedil;a nacional) tiveram seu in&iacute;cio na Era Vargas (at&eacute; 1945) e continuada na &uacute;ltima Ditadura Militar (1964-1985).<\/p>\n<p>Para apontar uma breve conclus&atilde;o, compreendo que os anos 30 marcaram o advento das massas como ator pol&iacute;tico moderno e urbano. Ainda que estas mesmas massas fossem reprimidas nos seus intentos de representa&ccedil;&atilde;o e de se auto-organizar, as elites disputavam e terminaram por forjar\/impor um ordenamento sobre elas. Quanto mais importantes eram consideradas, mais controle e amparo haveria. Nada disso fora de gra&ccedil;a, e o custo de 30 anos de reivindica&ccedil;&otilde;es terminou sendo transmitido como sendo uma conquista sob tutela e controle do Estado.<\/p>\n<p>Tal complexidade n&atilde;o ficou apenas restrita no controle social, se fez acompanhar de discursos e bens simb&oacute;licos por fra&ccedil;&otilde;es de classe dominante (os intelectuais), tecnificados na comunica&ccedil;&atilde;o e est&eacute;tica. O legado est&eacute;tico e art&iacute;stico do Estado Novo se conhece, mas foi na complexidade do Estado como agente da economia e propulsor de c&acirc;mbios e infra-estruturas sociais o seu maior legado. Ao final do ciclo populista (1946-1964), as bases deste mesmo Estado que interv&ecirc;m, controla, reprime as classes subalternas, mas tamb&eacute;m flerta com o nacionalismo, seria reeditado. O 2&ordm; ciclo de industrializa&ccedil;&atilde;o viria com for&ccedil;a no governo Geisel, o tenente interventor de Get&uacute;lio na Para&iacute;ba nos anos 1930. Os mesmos limites de um desenvolvimento dependente e tutelado, com uma elite industrial que se recusa a ser protagonista do pr&oacute;prio crescimento voltariam a se repetir.<\/p>\n<p>Talvez estejamos vendo agora em <st1:metricconverter productid=\"2002, a\" w:st=\"on\">2002, a<\/st1:metricconverter> vit&oacute;ria no s&eacute;culo XX do capital financeiro internacional por sobre os resultados dos embates e consolida&ccedil;&otilde;es da d&eacute;cada de 1930.<\/p>\n<p>Bibliografia B&aacute;sica:<\/p>\n<p>AMARAL, Azevedo O Estado Autorit&aacute;rio e a Realidade Nacional. Jos&eacute; Olympio, Rio de Janeiro, 1938<\/p>\n<p>BOMENY, Helena (org.) Constela&ccedil;&atilde;o Capanema. EdFGV, Rio de Janeiro, 1999<\/p>\n<p>D(ARAUJO, Ma. Celina (org.) As Institui&ccedil;&otilde;es Brasileiras da Era Vargas. EdFGV, Rio de Janeiro, 1999<\/p>\n<p>FURTADO, Celso Forma&ccedil;&atilde;o Econ&ocirc;mica do Brasil. Ed. Nacional, S&atilde;o Paulo, 1999<\/p>\n<p>HOBSBAWN apud ERIBON, Didier Le Nouvel Observateur, No. 1895, <st1:metricconverter productid=\"1 a\" w:st=\"on\">1 a<\/st1:metricconverter> 7 de mar&ccedil;o de 2001, Paris<\/p>\n<p>LAMOUNIER, Bol&iacute;var Forma&ccedil;&atilde;o de um Pensamento Autorit&aacute;rio na 1( Rep&uacute;blica, in, Hist&oacute;ria Geral da Civiliza&ccedil;&atilde;o Brasileira, O Brasil Republicano, Tomo III (2)<\/p>\n<p>MICELI, S&eacute;rgio Intelectuais e Classe Dirigente no Brasil, Difel, S&atilde;o Paulo, 1979<\/p>\n<p>SOUZA, Ma. do Carmo Campello de, A Democracia Populista, 1945-1964: bases e limites, in, ROUQUI&Eacute;, Alain e outros (orgs.) Como Renascem as Democracias, Brasiliense, S&atilde;o Paulo, 1985<\/p>\n<p>PANDOLFI, Dulce (org.) Repensando o Estado Novo, EdFGV, Rio de Janeiro, 1999<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p>1 &Eacute; sempre bom lembrar que a tomada do poder por parte dos fascistas foi logo ap&oacute;s a derrota da classe numa Greve Geral que parou a It&aacute;lia. Errico Malatesta e a ala federalista da Uni&atilde;o Sindical Italiana (USI) tiveram forte presen&ccedil;a nesta Greve Geral. O que tamb&eacute;m levou a uma reflex&atilde;o, que o momento de uma greve &eacute; importante, mas que ela por si s&oacute; n&atilde;o susetenta um processo insurrecional. Malatesta preconizava ser necess&aacute;ria uma organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica espec&iacute;fica dos anarquistas, com um programa revolucion&aacute;rio e uma inser&ccedil;&atilde;o social dentro da classe <st1:personname productid=\"em luta. O\" w:st=\"on\">em luta. O<\/st1:personname> &uacute;nico processo de transforma&ccedil;&atilde;o social vi&aacute;vel implicaria na destrui&ccedil;&atilde;o do Estado atrav&eacute;s de uma revolu&ccedil;&atilde;o social.<\/p>\n<p><st1:metricconverter productid=\"2 A\" w:st=\"on\">2 A<\/st1:metricconverter> grosso modo, as solu&ccedil;&otilde;es autorit&aacute;rias para o controle da cidade de massa oper&aacute;ria, durante a d&eacute;cada de 20 eram: o corporativismo, o fascismo, o nazismo e a militariza&ccedil;&atilde;o do trabalho via leninismo (atrav&eacute;s do modelo do NEP, partido &uacute;nico e fim dos soviets)<\/p>\n<p>3 Um caso cl&aacute;ssico de pacto formal n&atilde;o-declarado era a rota&ccedil;&atilde;o dos 3 grandes setores do PRI mexicano. Ao final do governo Salinas de Gortari (1994-1995), com o assassinato de seu irm&atilde;o (candidato interno do PRI a presidente do M&eacute;xico) por setores rivais ligados ao Cartel do Golfo do Texas (narcotraficantes e milicos de alta patente), este pacto foi quebrado. A partir de ent&atilde;o as elites mexicanas manifestaram publicamente suas divis&otilde;es O PRI vem a perder as elei&ccedil;&otilde;es &uacute;ltimas para o PAN (igualmente de direita) tamb&eacute;m por causa de sua fragmenta&ccedil;&atilde;o interna.<\/p>\n<p>4 Ou seja, o modelo econ&ocirc;mico da &eacute;poca, o agro-exportador, fazia &aacute;gua e estava acabado. Esta mudan&ccedil;a de modelo produtivo dentro do capitalismo em geral d&aacute; em situa&ccedil;&otilde;es de crises (conjunturais ou sist&ecirc;micas como em 1929). Fazendo uma analogia com o momento atual, o modelo neoliberal foi pro ralo, e h&aacute; um risco de crise sist&ecirc;mica pelo fato da moeda circulante perder o lastro. &Eacute; a chamada insensatez financeira, quando a moeda virtual e especulativa gira 10 vezes mais que o conjunto de capital aplicado na produ&ccedil;&atilde;o em escala mundial.<\/p>\n<p>5 Basta comparar a trajet&oacute;ria pol&iacute;tca, art&iacute;stica e cultural com a trajet&oacute;ria de qualquer um da 1( e 2( gera&ccedil;&otilde;es do modernismo com a postura de Lima Barreto. O companheiro Lima Barreto participava e colaborava ativamente dos jornais oper&aacute;rios e libert&aacute;rios de seu tempo. Vivia a vida no cotidiano de trabalhador que era, colaborava com a milit&acirc;ncia classista e combativa al&eacute;m de ser anarquista declarado e convicto.<\/p>\n<p>6 Nunca &eacute; demais lembrar que Golbery foi o criador do Sistema e do Servi&ccedil;o Nacional de Informa&ccedil;&otilde;es (SISNI e SNI), conspirador do Golpe de 1964 e emin&ecirc;ncia parda dos governos dos generais Castello Branco, Geisel e metade do governo do general Figueiredo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10321","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10321","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10321"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10321\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11732,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10321\/revisions\/11732"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10321"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10321"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10321"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}