{"id":10417,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=707"},"modified":"2023-03-13T21:22:17","modified_gmt":"2023-03-14T00:22:17","slug":"espionagem-e-politica-a-tragedia-sistematica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10417","title":{"rendered":"Espionagem e Pol\u00edtica, a trag\u00e9dia sistem\u00e1tica"},"content":{"rendered":"<p >Viam\u00e3o\/RS, 4 de <?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>novembro de 2005 <\/p>\n<p >Quando a hist\u00f3ria se repete ciclicamente, ela \u00e9 considerada como farsa. Ou, como disse um ex-petista <?xml:namespace prefix = st3 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/><st3:dm>l\u00facido<\/st3:dm> e limpo e a quem conheci, a hist\u00f3ria das burocracias partid\u00e1rias e sindicais n\u00e3o \u00e9 farsa mas sim tr\u00e1gica. Analisando mais friamente, a hist\u00f3ria repetida seguidas vezes \u00e9 farsa quando a dizem inovada. Tr\u00e1gica <st3:dm>pois<\/st3:dm> afoga esperan\u00e7as e desejos de <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/dicionario\" \/><st2:sinonimos>mudan\u00e7a<\/st2:sinonimos>. Estrutural, porque faz parte do sistema de domina\u00e7\u00e3o brasileira. Sim, estamos falando de espionagem pol\u00edtica, mais conhecida na m\u00eddia como arapongagem.<\/p>\n<p >H\u00e1 <?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>todo um arsenal de t\u00e9cnicas e servi\u00e7os que podem <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/><st2:hm>ser<\/st2:hm> prestados para os contratantes (clientes no jarg\u00e3o profissional) de um servi\u00e7o ou ag\u00eancia (privada ou estatal) de espionagem. Dentre os mais usuais est\u00e3o amea\u00e7as veladas ou quase-expl\u00edcitas, escutas telef\u00f4nicas (t\u00e9cnica corriqueira e banal), seguimento em locais p\u00fablicos, fotos mais ou menos discretas al\u00e9m de boataria indiscriminada. Todas estas t\u00e9cnicas s\u00e3o apenas parte da imensa vari\u00e1vel de possibilidades de agentes de campo orientados por bons analistas, coletando com precis\u00e3o e processando informa\u00e7\u00e3o com velocidade, visando alvos de investiga\u00e7\u00e3o (pessoas, corpora\u00e7\u00f5es, setores, partidos, etc.) alcan\u00e7\u00e1veis. Est\u00e1 quase tudo ao alcance, dependendo da capacidade de investimento e de contatos precisos.<\/p>\n<p >Novembro de 2005 marca o sexto m\u00eas de crise pol\u00edtica consecutiva deflagrada justamente por uma entre tantas opera\u00e7\u00f5es executadas por terceirizados da ABIN. E, parece que a capacidade de <st2:hm>gerar<\/st2:hm> fatos pol\u00edticos a <st2:hm>partir<\/st2:hm> de opera\u00e7\u00f5es de vigil\u00e2ncia pouco discretas e intimidat\u00f3ria \u00e9 infind\u00e1vel. Sobre a classe pol\u00edtica, n\u00e3o haveria de <st2:hm>ser<\/st2:hm> diferente. Quem primeiro levantou a lebre foi o presidente da CPI dos Correios, senador pelo PT de Mato Grosso do Sul, o empres\u00e1rio e ex-tucano, Delc\u00eddio Amaral. Depois do aviso, a gritaria vem de pol\u00edticos com papel central no ambiente de Bras\u00edlia. Em comum, quase todos pertencem a oposi\u00e7\u00e3o ou est\u00e3o mantendo uma postura geradora de, no m\u00ednimo, embara\u00e7os ao governo de Lula. <\/p>\n<p >Vejamos a <st2:hm>seguir<\/st2:hm> uma lista que aumenta a cada dia. Ricardo Izar (PTB-SP), presidente do Conselho de \u00c9tica e Decoro <st2:hdm>Parlamentar<\/st2:hdm>, encontrara um grampo telef\u00f4nico em seu gabinete em S\u00e3o Paulo. O neto de ACM, deputado federal baiano pela legenda de seu av\u00f4, Ant\u00f4nio Carlos Magalh\u00e3es Neto tamb\u00e9m disse <st2:hdm>ter<\/st2:hdm> sido grampeado. O deputado Osmar Serraglio (PMDB-PR), at\u00e9 o inicio da crise amigo de <?xml:namespace prefix = st3 ns = \"schemas-houaiss\/dicionario\" \/><st3:sinonimos>Z\u00e9<\/st3:sinonimos> Dirceu e relator da CPI dos Correios confirmou a suspeita e jogou a rede: \u201cEstamos todos sendo monitorados\u201d disse o advogado paranaense. O tucano do Rio, deputado federal fluminense Eduardo Paes, tamb\u00e9m integrante da CPI dos Correios, afirma que todos seus telefones s\u00e3o ciclicamente grampeados. <\/p>\n<p >Fugindo ao padr\u00e3o, a deputada \u00c2ngela Guadagnin (PT-SP) tamb\u00e9m se disse amea\u00e7ada e sob vigil\u00e2ncia. N\u00e3o haveria motivo aparente para isso, a n\u00e3o <st2:hm>ser<\/st2:hm> que, na hip\u00f3tese de um distanciamento cada vez maior entre Dirceu e Lula, o presidente autorizasse a vigil\u00e2ncia sobre a ex-prefeita de S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, fiel defensora de Dirceu. Entenda-se, Jos\u00e9 Dirceu e seu aparelho pol\u00edtico est\u00e3o cada vez mais distantes e at\u00e9 mesmo antag\u00f4nicos da presid\u00eancia e do n\u00facleo duro de Lula. Em clima de paran\u00f3ia total, esta possibilidade n\u00e3o pode <st2:hm>ser<\/st2:hm> descartada.<\/p>\n<p >Voltando a oposi\u00e7\u00e3o, o caso que aparenta <st2:hm>ser<\/st2:hm> mais gritante, \u00e9 o de seguimento \u201cindiscreto\u201d, portanto percept\u00edvel e constrangedor, da fam\u00edlia do senador Arthur Virg\u00edlio (PSDB-AM). Supostamente, Virg\u00edlio tem a toda sua fam\u00edlia sob vigil\u00e2ncia e chegou a <st2:hdm>ligar<\/st2:hdm> para o Planalto para <st2:hdm>tomar<\/st2:hdm> satisfa\u00e7\u00f5es. O alvo de sua desconfian\u00e7a, conforme foi difundido em diversas reportagens, \u00e9 Wagner Caetano Oliveira, sub-secret\u00e1rio de Estudos e Pesquisas Pol\u00edtico-Institucionais da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Um dirigente da For\u00e7a Sindical, por ironia da hist\u00f3ria batizado Carlos Lacerda, o teria avisado que Caetano era o elo de liga\u00e7\u00e3o da espionagem. Ou seja, a acusa\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 algo corriqueira. Supostamente, um homem com cargo de confian\u00e7a na Presid\u00eancia seria o controlador (pelo jarg\u00e3o profissional) de um policial aposentado contratado para <st2:hdm>levantar<\/st2:hdm> a vida da fam\u00edlia do senador tucano. Virg\u00edlio, normalmente desafiador em seus pronunciamentos, chamou para o confronto f\u00edsico at\u00e9 o presidente Lula.<\/p>\n<p >Para <st2:hm>piorar<\/st2:hm> o clima, ACM neto tamb\u00e9m se disse disposto a <st2:hdm>tomar<\/st2:hdm> satisfa\u00e7\u00f5es e se preciso for, agira como seu av\u00f4 e <st2:hm>ir<\/st2:hm> \u00e0s vias de fato. Por\u00e9m, h\u00e1 uma pequena diferen\u00e7a entre os dois. Virg\u00edlio embora fale muito e quase sempre em tom desafiador, n\u00e3o \u00e9 um fanfarr\u00e3o, mas um lutador experimentado. Faixa-preta de jiujitsu, \u00e9 respeitado no meio da luta e treina com bastante const\u00e2ncia. Conforme j\u00e1 hav\u00edamos dito neste artigo, estas opera\u00e7\u00f5es quando percept\u00edveis, s\u00e3o uma fonte sem fim de fatos pol\u00edticos nada respeit\u00e1veis.<\/p>\n<p >Uma vez que a lista de casos aumenta a cada dia e os fatos s\u00e3o de uso p\u00fablico, parto da premissa que os leitores deste artigo j\u00e1 tem mais detalhes dos ocorridos. Cabe portanto a an\u00e1lise e as rela\u00e7\u00f5es de <st2:hm>poder<\/st2:hm> sist\u00eamicas por tr\u00e1s dos fatos. Esta, na minha opini\u00e3o, acertando ou errando, \u00e9 o papel do analista.<\/p>\n<p >Fora o lado pitoresco da hist\u00f3ria, h\u00e1 dois debates para serem feitos. O primeiro \u00e9 bem pr\u00e1tico e tem rela\u00e7\u00e3o direta com a famosa governabilidade. Qual a rela\u00e7\u00e3o direta da ABIN com esses eventos? Em tese, o cliente preferencial (embora n\u00e3o o \u00fanico) da Ag\u00eancia \u00e9 o presidente. Portanto, se estas opera\u00e7\u00f5es existirem de fato, e essa probabilidade \u00e9 grande, h\u00e1 uma chance real delas serem executadas pela ABIN. Caso isto se concretize, o \u00fanico espanto \u00e9 o fato da Ag\u00eancia e o GSI, ou seja, a parcela mais vis\u00edvel da comunidade de informa\u00e7\u00f5es, <st2:hm>estar<\/st2:hm> se portando fielmente ao governo de Lula. <\/p>\n<p >\u00c9 at\u00e9 uma hip\u00f3tese plaus\u00edvel, mesmo porque a estrutura de comando do GSI foi indicada pela caserna e n\u00e3o pelo PT. Este grau de respeito \u00e9 bem visto pela comunidade e sempre rende bons frutos. Depois da queda do delegado da Pol\u00edcia Civil de S\u00e3o Paulo, Mauro Marcelo Lima e Silva, assume o cargo de diretor-geral da espionagem brasileira um homem de dentro. M\u00e1rcio Paulo Buzanelli \u00e9 profissional de carreira, opera na estrutura do SNI desde meados da d\u00e9cada de \u201970 e antes de <st2:hm>assumir<\/st2:hm> a dire\u00e7\u00e3o da ABIN era assessor do general Jorge Armando F\u00e9lix, ministro do GSI. Embora conste como analista de informa\u00e7\u00f5es, depois de 30 anos no \u00f3rg\u00e3o, o servidor j\u00e1 fez e conhece de tudo um pouco. Sem d\u00favida, a indica\u00e7\u00e3o do paulista M\u00e1rcio Buzanelli foi uma \u201csinaliza\u00e7\u00e3o\u201d mais que positiva para os mandos militares que ainda comandam e gerenciam quase todos os \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia da Uni\u00e3o. Resta <st2:hm>saber<\/st2:hm> se foi suficiente para que o GSI arrisque a \u201csua Ag\u00eancia\u201d para <st2:hdm>ajudar<\/st2:hdm> o governo de Luiz In\u00e1cio. <\/p>\n<p >Se e caso n\u00e3o for a ABIN a coordenadora da vigil\u00e2ncia intimidat\u00f3ria, ent\u00e3o o n\u00facleo duro est\u00e1 terceirizando m\u00e3o de obra e contratando esquemas paralelos. \u00c9 sabido, contatos e empresas nunca faltam para esse tipo de servi\u00e7o. O maior problema \u00e9 chamar gente limpa, que n\u00e3o vai vazar informa\u00e7\u00e3o ou vender fita de conversa grampeada. Uma vez que os partidos de apoio ao governo, o segundo escal\u00e3o da alian\u00e7a (PP, PTB, PL e setores do PMDB) j\u00e1 acumularam v\u00e1rios governos estaduais, n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil imaginar a contrata\u00e7\u00e3o de gente que servira nos \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia das secretarias de seguran\u00e7a, assim como nas pol\u00edcias civis e militares. <\/p>\n<p >Na opini\u00e3o deste analista, esta hip\u00f3tese \u00e9 um pouco mais plaus\u00edvel do que a primeira. Nunca \u00e9 demais lembrar que o pessoal concursado da ABIN n\u00e3o totaliza 8% de seu contingente. Embora sejam mais que habituados a vigil\u00e2ncia pol\u00edtica, estes agentes vem de uma longa e duradoura gest\u00e3o em democracia. Por oito anos o general Alberto Cardoso esteve \u00e0 frente da intelig\u00eancia de FHC, concluindo seu governo com a estrutura GSI-ABIN montada. Ao mesmo tempo que os militares indicaram ao general Jorge F\u00e9lix para o GSI, Alberto Cardoso assegura o prolongamento de sua gest\u00e3o na forma indireta, garantindo a professora Marisa Almeida Del\u2019Isola e Diniz na dire\u00e7\u00e3o-geral da ABIN. J\u00e1 o pessoal dos estados \u00e9 mais abundante, e por isso mesmo, menos control\u00e1vel. Mesmo assim, com ou sem agentes da ABIN operando na vigil\u00e2ncia de parlamentares, a conjuntura \u00e9 grave.<\/p>\n<p >O segundo debate \u00e9 sabermos quais os limites do jogo pol\u00edtico. N\u00e3o nos referimos ao que consta na lei, muito menos nos mandamentos do liberalismo cl\u00e1ssico, aquele famoso dos tr\u00eas poderes e da imprensa livre. Se a falta de limite dos operadores da pol\u00edtica e das grandes corpora\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas atuando no Brasil tem pouco ou nenhum limite, ent\u00e3o porque se esperar um limite para seu modus operandi?! O maior problema desta id\u00e9ia t\u00e3o simples e pr\u00e1tica, \u00e9 que a mesma implica na incorpora\u00e7\u00e3o de um conceito. Isto \u00e9, analisar a pol\u00edtica a partir de seu Jogo Real. Ou seja, tudo aquilo que os operadores far\u00e3o, dentro de um determinado constrangimento da estrutura e das conting\u00eancias. Lembramos, este contingenciamento tem pouca ou nenhuma rela\u00e7\u00e3o com os limites legais. Admitir isso, embora seja mais realista, \u00e9 passarmos a contar que a pol\u00edtica brasileira \u00e9 um simples vale-tudo. Pior at\u00e9, \u00e9 muito mais perigoso do que as lutas com esse mesmo nome, at\u00e9 porque a modalidade desportiva tem algumas regras e limites. Limites estes cada vez menos percept\u00edveis na pol\u00edtica brasileira. <\/p>\n<p >Uma das poucas chances deste entrevero se resolver seria a interven\u00e7\u00e3o da PF, entrando com peso e apurando tudo. Considerando o papel de membro do n\u00facleo duro que o ministro da Justi\u00e7a M\u00e1rcio Thomaz Bastos vem exercendo, a probabilidade disto ocorrer \u00e9 m\u00ednima. Se o clima est\u00e1 quente agora, em novembro de 2005, ficar\u00e1 insuport\u00e1vel em agosto de 2006. Como se pode perceber, a corrida atr\u00e1s de arapongas e dossi\u00eas j\u00e1 come\u00e7ou. <\/p>\n<p >A hist\u00f3ria da pol\u00edtica brasileira torna a repetir-se, como farsa democr\u00e1tica e trag\u00e9dia para os anseios populares.<\/p>\n<p >Este artigo foi originalmente mente publicado no blog de Ricardo Noblat, no dia 4 de novembro de 2005 (6\u00aa feira). Na vers\u00e3o desta p\u00e1gina, aumentei pouco mais de 2 par\u00e1grafos da primeira vers\u00e3o. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Viam\u00e3o\/RS, 4 de novembro de 2005 Quando a hist\u00f3ria se repete ciclicamente, ela \u00e9 considerada como farsa. 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