{"id":10418,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=712"},"modified":"2023-03-13T21:22:23","modified_gmt":"2023-03-14T00:22:23","slug":"azaleia-sem-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10418","title":{"rendered":"Azal\u00e9ia sem flores"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/britto.jpg\" title=\"\n\n<p>Britto exemplifica com fatos a vig\u00eancia da teoria. <\/p>\n<p> &#8211; Foto:&#8221; alt=&#8221;<\/p>\n<p>Britto exemplifica com fatos a vig\u00eancia da teoria. <\/p>\n<p> &#8211; Foto:&#8221; class=&#8221;image&#8221;><figcaption class=\"fig-caption\">\n<p>Britto exemplifica com fatos a vig\u00eancia da teoria. <\/p>\n<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >Viam\u00e3o, 9\/12\/2005<\/p>\n<p >Na <?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>\u00faltima 2\u00aa feira, dia 6 de dezembro, uma das cinco maiores empresas de cal\u00e7ados do mundo fez uma importante contribui\u00e7\u00e3o <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/>para o \u201cdesenvolvimento\u201d das for\u00e7as produtivas. O Grupo Azal\u00e9ia, sob o comando do ex-governador do Rio Grande do Sul, Ant\u00f4nio Britto, fechou uma de suas f\u00e1bricas com 25 anos de funcionamento ininterruptos. Localizada em S\u00e3o Sebasti\u00e3o do Ca\u00ed, apenas esta f\u00e1brica representava 800 empregos diretos.<\/p>\n<p ><?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>Pegos de surpresa, os quase mil oper\u00e1rios se desesperaram. At\u00e9 a sexta-feira anterior a diretoria da unidade negava o fechamento. Diziam que era tudo <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/>boato, negavam a correla\u00e7\u00e3o entre a abertura de duas novas unidades em Sergipe e o fechamento desta unidade e de outra h\u00e1 seis meses atr\u00e1s. Sem estas duas f\u00e1bricas, o munic\u00edpio perder\u00e1 pelo menos 1 em cada 4 reais que o estado retornava aos cofres da prefeitura atrav\u00e9s do ICMS. <\/p>\n<p >As marcas da Azal\u00e9ia s\u00e3o t\u00e3o fortes que chegam <st2:hm>impressionar<\/st2:hm> aos mais desavisados. A f\u00e1brica fechada produzia as prestigiosas marcas Olympikus e Asics. Agora, os port\u00f5es da unidade tem apenas os restos de jalecos queimados, forte estopim para <st2:hdm>produzir<\/st2:hdm> outros funerais, tanto de f\u00e1bricas como de gente. <\/p>\n<p >Para quem n\u00e3o est\u00e1 informado do tema, os n\u00fameros s\u00e3o de <st2:hm>arrepiar<\/st2:hm>. Embora conflitantes, as demiss\u00f5es com perda de empregos diretos no setor oscilam em torno de 20.000 postos de trabalho. Enquanto a associa\u00e7\u00e3o patronal afirma terem fechado 22.000 postos de trabalho, os sindicatos do couro e do sapato publicam a cifra de 15.000 demitidos. Levando-se em conta que cada emprego direto gera quatro indiretos, temos nos vales do Rio dos Sinos e do Rio Ca\u00ed a marca de 80.000 pessoas que perderam quase a totalidade de sua renda, apenas em 2005. Tomando o n\u00famero b\u00e1sico de quatro pessoas por unidade familiar, as cifras alarmam qualquer indicador de seguran\u00e7a p\u00fablica e coes\u00e3o social. Nestas duas micro-regi\u00f5es lindeiras da Regi\u00e3o Metropolitana, com \u00edndices de emprego e renda sempre positivos se comparados com outras partes do Rio Grande, a perda da renda de forma direta e indireta pela quebra do setor atinge a 320.000 pessoas. Vale <st2:hdm>lembrar<\/st2:hdm>, estamos falando de munic\u00edpios com voca\u00e7\u00e3o industrial e onde o setor coureiro-cal\u00e7adista \u00e9 o principal. <\/p>\n<p >No dia 30 de setembro deste ano, o oper\u00e1rio sapateiro Jair Ant\u00f4nio da Costa foi assassinado pela Brigada <st2:hm>Militar<\/st2:hm> (PM ga\u00facha). Jair, casado e pai de dois filhos, tinha dez anos de trabalho ininterrupto na Cal\u00e7ados Beira Rio e era dirigente do sindicato de sapateiros de Igrejinha. Participava junto a outros 3.000 sapateiros de Rolante, Igrejinha, Sapiranga, Campo Bom e Novo Hamburgo em um protesto contra as demiss\u00f5es no setor. Terminou atacado por todo um pelot\u00e3o do 32\u00ba BPM, com o tenente-coronel Jos\u00e9 Paulo Silva \u00e0 frente. Foi literalmente assassinado com traumatismo cervical, asfixia mec\u00e2nica e contus\u00e3o hemorr\u00e1gica, fruto de golpes e chaves aplicados pelos policias-militares com suas tonfas.<\/p>\n<p >N\u00e3o foi o primeiro e ao que parece n\u00e3o ser\u00e1 o \u00faltimo. Em 30 de setembro de 1986 um outro dirigente sindical e oper\u00e1rio cal\u00e7adista morria assassinado em Sapiranga. Carlos Dorneles Rodrigues, 20 anos, voltava da assembl\u00e9ia que encerrava uma greve de nove dias no setor cal\u00e7adista. Terminou sua jornada com tiros de calibre 38 na cabe\u00e7a. A \u00fanica diferen\u00e7a era o momento hist\u00f3rico. Naquele ano, a CUT n\u00e3o era governo e empurrava mais de 1000 greves em todo o pa\u00eds. J\u00e1 o setor coureiro-cal\u00e7adista, ia de vento em popa, iniciando a moderniza\u00e7\u00e3o de seu parque industrial.<\/p>\n<p >Por ironia da hist\u00f3ria, sen\u00e3o por trag\u00e9dia, em 1986 Ant\u00f4nio Britto era deputado federal pelo PMDB ga\u00facho. Vinha de <st2:hm>ser<\/st2:hm> rep\u00f3rter da RBS, depois da Globo em rede nacional, at\u00e9 <st2:hdm>ganhar<\/st2:hdm> notoriedade como porta-voz de Tancredo Neves. Da al\u00e7a do caix\u00e3o voou para a carreira pol\u00edtica. Quando eleito governador do Rio Grande, regou os jardins da Azal\u00e9ia com dinheiro sem fim vindo do Fundopem e dos recursos do estado. Duas derrotas eleitorais depois e Britto se encontra na cadeira de diretor-presidente de um grupo econ\u00f4mico que tem muito mais desempenho e capital do que o pr\u00f3prio governo sub-nacional que tanto o ajudou. <\/p>\n<p >Mas nem tudo s\u00e3o espinhos para este grande grupo econ\u00f4mico. Al\u00e9m das duas f\u00e1bricas inauguradas j\u00e1 neste ano em Sergipe, mais duas est\u00e3o por <st2:hm>vir<\/st2:hm>. Al\u00e9m destas quatro, Sergipe conta com outra a mais e a Bahia tem 18 plantas do grupo. No Rio Grande do Sul, estado de origem, restam apenas cinco plantas e ningu\u00e9m sabe at\u00e9 quando. Al\u00e9m das f\u00e1bricas implantadas no nordeste, esta pot\u00eancia \u201cnacional\u201d agora produz na China. Produz n\u00e3o, p\u00f5e selos de seus produtos nos cal\u00e7ados feitos no p\u00f3lo de Dong Huan. A m\u00e3o de obra quase escrava chinesa passa cola de sapateiro no desemprego dos oper\u00e1rios ga\u00fachos. Sal\u00e1rios miser\u00e1veis, nenhum beneficio nem amparo social, jornadas de trabalho de 12 horas ou mais s\u00e3o um atrativo para os \u201ccapitais nacionais\u201d. <\/p>\n<p >Voltando ao que ocorre dentro do territ\u00f3rio brasileiro, os motivos da transfer\u00eancia s\u00e3o simples. Benef\u00edcios, incentivos fiscais, doa\u00e7\u00e3o de terrenos e infra-estrutura e tudo aquilo que alimenta a guerra fiscal e corr\u00f3i o pacto federativo. O resultado desta disputa insana e subserviente os moradores de Alvorada, munic\u00edpio da Regi\u00e3o Metropolitana com 50% de desemprego e com o t\u00edtulo de mais violento do estado, j\u00e1 sabem. Na beira da carcomida RS-118, um corredor de estrada cortando os fundos da metr\u00f3pole ga\u00facha, h\u00e1 um terreno beneficiado, com terraplanagem, instala\u00e7\u00e3o para luz, \u00e1gua, saneamento e concreto para caminh\u00f5es. Est\u00e3o a espera da Dell Computer, empresa que talvez um dia se instalasse naquele munic\u00edpio. H\u00e1 pouco mais de um m\u00eas, o prefeito Jo\u00e3o Carlos Brum (PTB) desenganou a popula\u00e7\u00e3o, revelando que a Dell n\u00e3o vai mais para onde nunca foi.<\/p>\n<p >Benef\u00edcios e guerras fiscal entre os estados, isen\u00e7\u00e3o de impostos, doa\u00e7\u00e3o para a iniciativa privada e outros desvios de recursos de forma direta e indireta s\u00e3o um tema de fundo. O que se sabe, e disto sabemos todos, \u00e9 que n\u00e3o \u00e9 abrindo m\u00e3o de sua capacidade decis\u00f3ria que o governo central ou estadual defende suas cadeias produtivas. Tamb\u00e9m n\u00e3o ser\u00e1 com arrocho impositivo nem d\u00e1divas gentis para os grandes grupos econ\u00f4micos como Azal\u00e9ia e Gerdau que o Rio Grande vai se <st2:hm>reerguer<\/st2:hm>. Um estado que sequer paga em dia o 13\u00ba sal\u00e1rio de seus funcion\u00e1rios n\u00e3o deveria <st2:hm>carregar<\/st2:hm> na paleta toda esp\u00e9cie de latif\u00fandio e monocultura. Mas carrega, assim como financia e re-financia qualquer complexo industrial ou agro-exportador pertencente ou chegado \u00e0 oligarquia sulina. <\/p>\n<p >A classe pol\u00edtica ga\u00facha anda t\u00e3o generosa, que al\u00e9m de <st2:hm>doar<\/st2:hm> recursos p\u00fablicos termina por <?xml:namespace prefix = st3 ns = \"schemas-houaiss\/verbo\" \/><st3:infinitivo>reciclar<\/st3:infinitivo> seus dirigentes derrotados como CEOs de empresas. Enquanto Ant\u00f4nio Britto cumpre sua fun\u00e7\u00e3o de classe, fechando f\u00e1bricas e migrando capitais destinados por ele mesmo para a iniciativa privada, o Rio Grande do Sul termina o ano com crescimento zero. Resta <st2:hm>saber<\/st2:hm> quantos funerais oper\u00e1rios mais ser\u00e3o necess\u00e1rios at\u00e9 esta gente <st2:hm>acordar<\/st2:hm>. O \u00fanico consolo, \u00e9 que quando isto vier a <st2:hm>acontecer<\/st2:hm>, talvez j\u00e1 seja tarde demais.<\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10418","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10418","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10418"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10418\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11467,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10418\/revisions\/11467"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}