{"id":10419,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=715"},"modified":"2023-03-13T21:22:23","modified_gmt":"2023-03-14T00:22:23","slug":"democracia-de-soma-zero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10419","title":{"rendered":"Democracia de Soma Zero"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/sebastiao salgado mst.jpg\" title=\"\n\n<p>Se eles tivessem todas as verdadeiras op\u00e7\u00f5es, que escolha fariam?<\/p>\n<p> &#8211; Foto:&#8221; alt=&#8221;<\/p>\n<p>Se eles tivessem todas as verdadeiras op\u00e7\u00f5es, que escolha fariam?<\/p>\n<p> &#8211; Foto:&#8221; class=&#8221;image&#8221;><figcaption class=\"fig-caption\">\n<p>Se eles tivessem todas as verdadeiras op\u00e7\u00f5es, que escolha fariam?<\/p>\n<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >Viam\u00e3o, 27 de <?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>dezembro de 2005<\/p>\n<p >O ano de 2005 se encerra como o <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/>\u00e1pice da institucionalidade democr\u00e1tica neste pa\u00eds. Ao completarmos 20 anos de transi\u00e7\u00e3o do col\u00e9gio eleitoral que elegera Tancredo Neves e terminara por <st2:hm>empossar<\/st2:hm> a Sarney, passando por momentos de crises como o impedimento de Collor, a emenda da reelei\u00e7\u00e3o de FHC e a posse de Luiz In\u00e1cio, a democracia brasileira mostrou-se consolidada. Ao menos, esta forma de \u201cdemocracia\u201d. Neste artigo, aproveitando a semana embalada pelo ritmo da convocat\u00f3ria especial do Congresso, usaremos este precioso tempo para uma reflex\u00e3o mais aprofundada. Pedimos assim, um m\u00ednimo de isen\u00e7\u00e3o e esp\u00edrito sereno para esta leitura.<\/p>\n<p >De <?xml:namespace prefix = st1 ns = \"schemas-houaiss\/mini\" \/>certa <?xml:namespace prefix = st2 ns = \"schemas-houaiss\/acao\" \/>forma, o artigo da semana passada chamava para o debate os leitores interessados em formas e formatos democr\u00e1ticos. Continuamos pois no tema sem vincular-nos com o problema da reelei\u00e7\u00e3o. O pano de fundo deste texto \u00e9 uma chamada para refletirmos quanto a real capacidade de representa\u00e7\u00e3o que o modelo e o modus operandi da pol\u00edtica em nosso pa\u00eds e continente nos habilita a <st2:hm>viver<\/st2:hm>.<\/p>\n<p >O primeiro passo para entrarmos no tema n\u00e3o \u00e9 um regresso aos cl\u00e1ssicos da democracia grega, em especial a ateniense. Nem tampouco <st2:hm>buscar<\/st2:hm> em Arist\u00f3teles a nega\u00e7\u00e3o desta forma de democracia que vivemos, segundo ele pr\u00f3prio, nada mais que uma oligarquia. Mas sim, <st2:hm>buscar<\/st2:hm> respostas para uma intrigante e presente d\u00favida que assola aos latino-americanos. Em pesquisa feita pelo Latinobar\u00f4metro, datada de 1995, a maioria dos cidad\u00e3os da Am\u00e9rica Latina dizia n\u00e3o <st2:hdm>ter<\/st2:hdm> prefer\u00eancia por qualquer regime pol\u00edtico, se liberal-democr\u00e1tico ou ditadura c\u00edvica ou <st2:hm>militar<\/st2:hm>. Sempre ressalvando o fato de que este regime proporcionasse um melhor padr\u00e3o de vida. Dez anos depois, e os indicativos s\u00e3o os mesmos. E porque?<\/p>\n<p >Um argumento elitista, mais um entre v\u00e1rios, diria que \u201cos povos s\u00e3o burros, ignorantes e n\u00e3o valorizam as institui\u00e7\u00f5es que temos\u201d. Outro, poderia simplesmente <st2:hm>afirmar<\/st2:hm> que qualquer democracia \u00e9 melhor do que qualquer regime de exce\u00e7\u00e3o, e disto estamos todos de acordo. Mas, aponto uma outra interpreta\u00e7\u00e3o para estes dados t\u00e3o alarmantes.<\/p>\n<p >O que as maiorias dizem o tempo todo \u00e9 o fato de n\u00e3o aceitarem mais a id\u00e9ia de um jogo de soma zero. Ou seja, n\u00e3o aceitarem as regras do jogo democr\u00e1tico onde s\u00f3 existem benef\u00edcios e vantagens para as minorias associadas \u00e0s estruturas de <st2:hm>poder<\/st2:hm> transnacionais. Com maior ou menor volume, sejam os esqu\u00e1lidos venezuelanos, a p\u00e1tria financeira Argentina, a oligarquia uruguaia, a elite criminal-militar paraguaia, os cambas bolivianos, os crudos peruanos, os cart\u00e9is colombianos, os capitais costeiros e da serra equatoriana, incluindo-se a\u00ed as dezenas de oligarquias e cons\u00f3rcios econ\u00f4mico-pol\u00edticos do Brasil e do M\u00e9xico, a maior parte dos habitantes da Am\u00e9rica Latina j\u00e1 n\u00e3o suporta mais esta forma de <st2:hm>viver<\/st2:hm>.<\/p>\n<p >Qualquer pessoa com um m\u00ednimo de boa vontade n\u00e3o pode <st2:hm>concordar<\/st2:hm> com o fato de somente a Argentina <st2:hdm>produzir<\/st2:hdm> alimentos para mais de 300 milh\u00f5es de habitantes e este mesmo pa\u00eds tem mais de 50% dos seus 33 milh\u00f5es compatriotas passando fome. N\u00e3o h\u00e1 como <st2:hm>fazer<\/st2:hm> jogo de soma zero l\u00facido quando se sabe que a capacidade produtiva e desenvolvimento de nossos pa\u00edses n\u00e3o est\u00e1 nem a 1\/5 de sua pot\u00eancia m\u00e1xima. O jogo de soma zero t\u00e3o elogiado pelos \u201cespecialistas\u201d como fator essencial para a \u201cestabilidade\u201d de regimes de altern\u00e2ncia de <st2:hm>poder<\/st2:hm> significa em si mesmo, a aus\u00eancia de altern\u00e2ncia real de <st2:hm>poder<\/st2:hm>. Quando isto ocorre, e por vezes termina por <st2:hdm>ocorrer<\/st2:hdm> como na Venezuela p\u00f3s-Caracazo, a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 o lock out e os intentos de golpe.<\/p>\n<p >O tal jogo de soma zero, em outras \u00e9pocas n\u00e3o t\u00e3o distantes, tinha o nome de domina\u00e7\u00e3o estrutural. Infelizmente, a essa teoria de infra-estrutura completava-se uma id\u00e9ia de superestrutura, posi\u00e7\u00e3o esta onde justamente se encontrava o jogo democr\u00e1tico de altern\u00e2ncia de <st2:hm>poder<\/st2:hm> limitado atrav\u00e9s da competi\u00e7\u00e3o pelo voto. Optamos por outro padr\u00e3o de an\u00e1lise te\u00f3rico, onde os n\u00edveis estruturais s\u00e3o interdependentes, atuando com peso <st2:hm>complementar<\/st2:hm> tanto o pol\u00edtico, como o ideol\u00f3gico e o econ\u00f4mico. Traduzindo para o cotidiano, esta representa\u00e7\u00e3o da realidade implica na constata\u00e7\u00e3o \u00f3bvia que n\u00e3o h\u00e1 capacidade de decis\u00e3o igual sem forma\u00e7\u00f5es sociais s\u00f3lidas, distribui\u00e7\u00e3o de riquezas elementares, gera\u00e7\u00e3o de bens simb\u00f3licos compartilhados e de rela\u00e7\u00f5es produtoras de ideologias mais solid\u00e1rias. Ou seja, n\u00e3o h\u00e1 democracia vi\u00e1vel com mais de 50% de uma popula\u00e7\u00e3o sendo pobre ou miser\u00e1vel e cuja economia formal n\u00e3o corresponde nem a 30% da for\u00e7a de trabalho. Menos ainda quando neste mesmo pa\u00eds os bancos batem recorde atr\u00e1s de recorde de lucratividade e onde 80% da m\u00eddia pertence a n\u00e3o mais que 11 fam\u00edlias. Sim, estamos falando no Brasil. <\/p>\n<p >Haveria de se <st2:hd>perguntar<\/st2:hd> porque uma gera\u00e7\u00e3o de militantes, quando incorporados \u00e0s regras do jogo democr\u00e1tico-liberal, sempre acaba por <st2:hm>gerar<\/st2:hm> outras novas elites pol\u00edticas?! Especificamente, como e porque a gera\u00e7\u00e3o de ativistas sa\u00edda das lutas de massa do per\u00edodo da Abertura torna-se um recurso mais do pr\u00f3prio sistema e perde qualquer capacidade contestat\u00f3ria?! V\u00e1rias respostas operam para esta d\u00favida, mas tr\u00eas compreens\u00f5es s\u00e3o essenciais. <\/p>\n<p >A primeira \u00e9 <st2:hm>verificar<\/st2:hm> que os h\u00e1bitos e costumes dos quadros m\u00e9dios e altos deste partido de \u201cesquerda\u201d, pouco ou nada diferem dos profissionais liberais recrutados ou recrut\u00e1veis pelas elites econ\u00f4micas contra as quais eles diziam <st2:hm>combater<\/st2:hm>. Segundo, a ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas pol\u00edticas parecidas sob o argumento do realismo pol\u00edtico. Neste aspecto tamb\u00e9m opera a aus\u00eancia de objetivo estrat\u00e9gico. Quando tudo \u00e9 t\u00e1tica, a pol\u00edtica n\u00e3o passa de formas diversificadas de oportunismo. Terceiro, a vis\u00e3o de estrutura. H\u00e1 luta de <st2:hm>poder<\/st2:hm> nesta democracia, luta ferrenha por parcelas e fragmentos de <st2:hm>poder<\/st2:hm> sem necessariamente <st2:hm>haver<\/st2:hm> a <st2:hdm>lutar<\/st2:hdm> por mudan\u00e7as estruturais. A \u201cesquerda\u201d tolerada \u00e9 aquela que aceita <st2:hdm>disputar<\/st2:hdm> partes de um <st2:hm>poder<\/st2:hm> que n\u00e3o controla. A esquerda intoler\u00e1vel aponta para outra forma de gera\u00e7\u00e3o de <st2:hm>poder<\/st2:hm> e de controle social. <\/p>\n<p >Quando as pesquisas de opini\u00e3o apontam um n\u00famero cada vez maior de latino-americanos, brasileiros inclu\u00eddos, que cada vez mais desconfiam ou s\u00e3o indiferentes do jogo democr\u00e1tico, \u00e9 preciso aten\u00e7\u00e3o. O descr\u00e9dito \u00e9 sobre a \u201cdemocracia\u201d onde as pe\u00e7as se movem sobre um tabuleiro de soma zero, onde em tudo pode se <st2:hm>tocar<\/st2:hm> menos naquilo que \u00e9 estrutural para o pr\u00f3prio jogo. Incluem-se nestes itens intoc\u00e1veis a d\u00edvida e o modelo econ\u00f4mico integrado e subserviente. Sobre este modelo operam partidos de intermedia\u00e7\u00e3o, institui\u00e7\u00f5es estas em crises cada vez maiores de legitimidade e intera\u00e7\u00e3o com outras for\u00e7as sociais. <\/p>\n<p >\u00c9 esta a \u201cdemocracia\u201d de soma zero que est\u00e1 em crise. A outra forma, onde os recursos s\u00e3o muito maiores embora n\u00e3o infinitos; onde o mandato representativo n\u00e3o \u00e9 um cheque em branco; isto dentre outras mudan\u00e7as estruturais, ainda est\u00e1 por <st2:hm>vir<\/st2:hm>. Esta DEMOCRACIA, por milh\u00f5es defendida em todo o continente, sequer foi experimentada.<\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-10419","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10419","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10419"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10419\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11468,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10419\/revisions\/11468"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10419"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10419"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10419"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}