{"id":10426,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=759"},"modified":"2023-03-13T21:21:17","modified_gmt":"2023-03-14T00:21:17","slug":"o-debate-presidencial-e-a-compreensao-popular","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10426","title":{"rendered":"O debate presidencial e a compreens\u00e3o popular"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/vale-tudo_debate.gif\" title=\"Embora seja prefer\u00edvel um debate de id\u00e9ias a uma luta sem regras; a modalidade brasileira de luta de competi\u00e7\u00e3o, o chamado Vale Tudo, \u00e9 bem mais franco e direto do que um debate presidencial. - Foto:\" alt=\"Embora seja prefer\u00edvel um debate de id\u00e9ias a uma luta sem regras; a modalidade brasileira de luta de competi\u00e7\u00e3o, o chamado Vale Tudo, \u00e9 bem mais franco e direto do que um debate presidencial. - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Embora seja prefer\u00edvel um debate de id\u00e9ias a uma luta sem regras; a modalidade brasileira de luta de competi\u00e7\u00e3o, o chamado Vale Tudo, \u00e9 bem mais franco e direto do que um debate presidencial.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9, 10 de outubro de 2006<\/p>\n<p >O debate pol\u00edtico e p\u00fablico \u00e9 inerente \u00e0 democracia. A lida implica em fazer compreender seus pontos de vista, gerando empatia por uma proposta. Quanto maior a capacidade cognitiva, mais necess\u00e1ria se faz sanar a equa\u00e7\u00e3o: vontade \u2013 possibilidade. Ao inv\u00e9s de fazer an\u00e1lise de marketing pol\u00edtico, gostaria neste artigo de, perdoem a redund\u00e2ncia, debater o debate em si. <\/p>\n<p >Uma das d\u00favidas que ocupa a mente de quem faz pol\u00edtica no Brasil \u00e9 a dimens\u00e3o da propaganda e do debate p\u00fablico. Isto porque, embora o ensino fundamental j\u00e1 tenha quase 100% de oferta no pa\u00eds, convivemos com a triste condi\u00e7\u00e3o do analfabetismo funcional. Os dados mais conservadores apontam o montante de 74% da popula\u00e7\u00e3o brasileira como analfabeta funcional. Ou seja, o pouco manejo do idioma baixa a capacidade de express\u00e3o letrada e absor\u00e7\u00e3o cognitiva. <\/p>\n<p >Isto impede, por exemplo, que a maioria do povo possa fazer uma leitura acurada e cr\u00edtica dos principais jornais. Recordo de haver feito uma interven\u00e7\u00e3o neste sentido em um semin\u00e1rio acad\u00eamico. Reconhe\u00e7o que minha fala resultou em uma ducha de \u00e1gua fria no debate, mas entendo que era necess\u00e1ria. O tema em pauta era a participa\u00e7\u00e3o popular e o quanto de especializa\u00e7\u00e3o seria necess\u00e1rio para materializar as vontades pol\u00edticas das maiorias.<\/p>\n<p >\u00d3bvio que o tema e os fundamentos conceituais estavam longe demais da realidade da vila vizinha ao campus, onde se desenvolvia a peleia intelectual. E, a maioria das interven\u00e7\u00f5es vinha de gente que defendia a profissionaliza\u00e7\u00e3o de uma burocracia \u201cparticipativa\u201d. Minha quest\u00e3o veio em sentido contr\u00e1rio. Associei o sucesso de um regime de democracia participativa \u00e0 capacidade cognitiva, que geraria a redu\u00e7\u00e3o dos custos e do processamento da informa\u00e7\u00e3o. Afirmei ser essencial para a democracia brasileira uma cruzada nacional pela erradica\u00e7\u00e3o do analfabetismo funcional, incluindo neste esfor\u00e7o, outras formas did\u00e1tico-participativas da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p >Isto porque, para a maioria dos brasileiros, a leitura de um grande jornal (impresso ou eletr\u00f4nico) \u00e9 algo parecido com grego arcaico. J\u00e1 as falas e pol\u00eamicas conceituais t\u00edpicas da academia brasileira, com seu h\u00e1bito de falar para si, \u00e9 t\u00e3o compreens\u00edvel como o aramaico dos textos b\u00edblicos originais. Resumindo, ningu\u00e9m compreende muito, n\u00e3o h\u00e1 prova material das acusa\u00e7\u00f5es, e menos ainda, conseq\u00fc\u00eancia entre possibilidade real e inten\u00e7\u00e3o conceitual. Assim, \u00e9 como se em campanha, cada operador pol\u00edtico tivesse de se comunicar em v\u00e1rias linguagens, usando o mesmo idioma. <\/p>\n<p >Este debate que aqui trago, infelizmente, n\u00e3o tem origem na forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica da \u201cci\u00eancia\u201d pol\u00edtica. Tem sim outra raiz, tanto da preocupa\u00e7\u00e3o como das solu\u00e7\u00f5es. Tenho a felicidade de conviver com um dos muitos lutadores an\u00f4nimos contra esse problema estrutural no pa\u00eds: o analfabetismo funcional que ajuda a fortalecer ao analfabetismo pol\u00edtico. Trata-se de um padre de sand\u00e1lias, oblato de S\u00e3o Francisco de Sales, veterano dos primeiros coletivos de forma\u00e7\u00e3o do MST, ga\u00facho de Palmeira das Miss\u00f5es e de nome Paulo Cerioli.<\/p>\n<p >A sabedoria deste homem, ele mesmo filho de agricultores, ajudou a ver este problema de fundo. Em seus trabalhos, an\u00f4nimos e sem assinatura, Cerioli busca a associa\u00e7\u00e3o cognitiva, combinando diversos elementos e recursos. Tudo importa e \u00e9 feito para facilitar a absor\u00e7\u00e3o de um volume de conceitos e cargas de informa\u00e7\u00e3o indigestas para quem n\u00e3o est\u00e1 habituado na pol\u00edtica. E, ainda assim, mesmo com todos estes cuidados, muitas vezes se absorve no m\u00e1ximo 30% daquilo que entra em pauta. <\/p>\n<p >Considerando o narrado acima, fica uma profunda d\u00favida de qual o real impacto para a democracia de um debate como o de domingo \u00faltimo? Ressalto que defendo a import\u00e2ncia dos debates diretos e tenho a opini\u00e3o de que a presen\u00e7a dos candidatos deveria ser obrigat\u00f3ria. Ainda assim, a inc\u00f3gnita continua no ar.<\/p>\n<p >Isto porque, sem a absor\u00e7\u00e3o dos n\u00fameros, das acusa\u00e7\u00f5es com ou sem provas emp\u00edricas e materiais, das obras feitas, inconclusas ou sequer iniciadas, tudo fica no ar. N\u00e3o podendo provar nada, o efeito do debate deriva para a teatraliza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica. E, em se tratando de emo\u00e7\u00f5es, mais vale o afeto do que a id\u00e9ia realiz\u00e1vel, por mais que as id\u00e9ias sejam movidas por paix\u00f5es.<\/p>\n<p >Indo al\u00e9m da pirotecnia de Luiz In\u00e1cio da Silva e de Geraldo Alckmin, a bem da verdade, o primeiro debate teve tudo menos conte\u00fado ideol\u00f3gico. N\u00e3o falo isso com regozijo e sim com l\u00e1stima. Fora da ideologia, das ideologias, s\u00f3 resta \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica das id\u00e9ias pr\u00e9-concebidas por outros. Ou seja, fora do debate ideol\u00f3gico aplic\u00e1vel, s\u00f3 resta \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o das ideologias j\u00e1 existentes, dotadas de ares de verdades irrevers\u00edveis.<\/p>\n<p >Na pol\u00edtica como na vida real, toda verdade irrevers\u00edvel nada mais \u00e9 do que uma etapa a ser superada, ou ent\u00e3o, uma estrutura a ser rompida. O debate pirot\u00e9cnico \u00e9 pr\u00f3prio da democracia delegativa, indireta e representativa. A discuss\u00e3o ideol\u00f3gica franca e direta necessita de bases sociais mobilizadas como for\u00e7a motriz. Portanto, este debate pertence \u00e0 outra modalidade de regime pol\u00edtico democr\u00e1tico, participativo, direto e deliberativo.<\/p>\n<p >Ao desligar a TV domingo \u00e0 noite, me dei conta, mais uma vez, de quanto estamos longe desta outra forma de democracia. <\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora seja prefer\u00edvel um debate de id\u00e9ias a uma luta sem regras; a modalidade brasileira de luta de competi\u00e7\u00e3o, o chamado Vale Tudo, \u00e9 bem mais franco e direto do que um debate presidencial. 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