{"id":10427,"date":"2008-03-13T19:42:10","date_gmt":"2008-03-13T22:42:10","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=768"},"modified":"2023-03-13T21:17:31","modified_gmt":"2023-03-14T00:17:31","slug":"governabilidade-e-outros-temas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10427","title":{"rendered":"Governabilidade e outros temas"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/rio_uruguai.jpg\" title=\"Nestas barrancas, o povo do Rio Grande desenvolveu tecnologia e conceitos operacionais, postos em pr\u00e1tica contra nossos maiores inimigos de ent\u00e3o.\n\n - Foto:\" alt=\"Nestas barrancas, o povo do Rio Grande desenvolveu tecnologia e conceitos operacionais, postos em pr\u00e1tica contra nossos maiores inimigos de ent\u00e3o.\n\n - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Nestas barrancas, o povo do Rio Grande desenvolveu tecnologia e conceitos operacionais, postos em pr\u00e1tica contra nossos maiores inimigos de ent\u00e3o.<\/p>\n<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p >3\u00aa, 28 de novembro de 2006, Vila Setembrina dos Farrapos, Continente de S\u00e3o Sep\u00e9<\/p>\n<p >O Brasil tem a triste sina de reproduzir, atrav\u00e9s da ind\u00fastria de signos e sentidos chamada grande m\u00eddia, uma s\u00e9rie de conceitos perfeitamente falsific\u00e1veis. Um deles, sempre em voga quando se negociam postos e fun\u00e7\u00f5es no sistema de esp\u00f3lio p\u00f3s-eleitoral, \u00e9 o famoso conceito de \u201cgovernabilidade\u201d. Esta seria, em tese muito distante da realidade, um equil\u00edbrio de for\u00e7as dentre os agentes do sistema pol\u00edtico. <\/p>\n<p >Seguindo a governabilidade dentro do ambiente estritamente pol\u00edtico &#8211; como se isto fosse poss\u00edvel \u2013 viria um segundo equil\u00edbrio. Isto \u00e9, uma distribui\u00e7\u00e3o mais ou menos eq\u00fcidistante de possibilidades entre os interesses representados e as institui\u00e7\u00f5es correlatas do Estado e da sociedade. Em termos chulos, a governabilidade \u00e0 la brasileira se caracteriza por duas fun\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p >&#8211; a capacidade de \u201ccanetear\u201d uma lei, ou medida-provis\u00f3ria, ou qualquer interesse direto transformado em algo mais ou menos legal;<\/p>\n<p >&#8211; a guaiaca forrada, os bolsos cheios; ou seja, a dota\u00e7\u00e3o or\u00e7ament\u00e1ria. <\/p>\n<p >A segunda capacidade se aplica na correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as na interna do ambiente brasileiro e restringida pelos devidos contingenciamentos proporcionados pelo governo do Copom e o dono da chave do cofre do caixa \u00fanico do Tesouro Nacional. Este, mantendo o padr\u00e3o hist\u00f3rico, segue aberto aos juros promovidos pelas institui\u00e7\u00f5es financeiras assim como os ingleses no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX abriram nossos portos para as \u201cna\u00e7\u00f5es amigas\u201d.<\/p>\n<p >Na origem de tudo, est\u00e1 a mentalidade colonizada. A pol\u00edtica brasileira incorpora ciclicamente os jarg\u00f5es advindos do receitu\u00e1rio conceitual aplicado nos pa\u00edses de capitalismo central. In\u00fameros conceitos chegam aqui da mesma forma que as caravelas e os navios negreiros. Como \u00e9 sabido, nem os invasores lusos nem os seq\u00fcestrados africanos vieram para a Terra de Santa Cruz a passeio. Com a carga conceitual \u201cimportada\u201d, o procedimento \u00e9 o mesmo. <\/p>\n<p >O que se produz de \u201ccient\u00edfico\u201d nos pa\u00edses centrais tem a capacidade de impor-se como \u201cuniversal\u201d. J\u00e1 os saberes incorporados na universidade da periferia e semi-periferia do sistema mundo \u00e9 taxado pela metr\u00f3pole de: regional, local, conte\u00fado \u201ccomplementar\u201d, ex\u00f3tico dentre outras caracteriza\u00e7\u00f5es colonialistas. <\/p>\n<p >Ao incorporar conceitos de forma indiscriminada, as elites dirigentes e acad\u00eamicas nacionais proporcionam o aumento da esquizofrenia de nosso sistema pol\u00edtico. Afinal, o conceito s\u00f3 \u00e9 conceito se for operacional. Como j\u00e1 afirmei aqui seguidas vezes, o conjunto do corpo conceitual pode ser comparado a uma caixa de ferramentas. Estas t\u00eam de ser sempre apropriadas \u00e0s manualidades e a t\u00e9cnica, que aplicadas nas necessidades, geram a primeira forma de tecnologia.<\/p>\n<p >Se uma ferramenta n\u00e3o serve para trabalhar, ent\u00e3o qual ser\u00e1 sua serventia? Seguindo na analogia, se um conceito n\u00e3o se aplica em nenhum caso de nossas sociedades brasileiras, para que incorpor\u00e1-lo como forma de an\u00e1lise? A resposta, por incr\u00edvel que seja, \u00e9 o fato do conceito n\u00e3o existir para ser conceito e sim como afirma\u00e7\u00e3o de elemento de discurso. <\/p>\n<p >Desenvolvendo esta id\u00e9ia, imaginemos um aparato tecnol\u00f3gico sem condi\u00e7\u00f5es de ser aplicado no parque industrial de nosso pa\u00eds. Mas, ao mesmo tempo, esta forma do estado da arte da tecnologia espec\u00edfica, tem como fun\u00e7\u00e3o b\u00e1sica de quem o produziu afirmar a dist\u00e2ncia entre centro e periferia do sistema mundo. Assim, o tipo-ideal \u00e9 marcado pelas idealiza\u00e7\u00f5es de terceiros, outros, n\u00e3o por coincid\u00eancia, os maiores interessados e respons\u00e1veis de nosso pr\u00f3prio atraso tecnol\u00f3gico.<\/p>\n<p >Os reprodutores desta idealiza\u00e7\u00e3o desej\u00e1vel s\u00e3o aqueles com a mentalidade de metr\u00f3pole, atuando como \u201cmaquiadores\u201d do pensamento central nos pa\u00edses receptores da \u201cci\u00eancia\u201d. Em um trabalho cl\u00e1ssico de Guerreiro Ramos, ele pr\u00f3prio um dos troncos de sociologia aut\u00f3ctone, caracterizava estes \u201cs\u00e1bios\u201d de esquizofr\u00eanicos. Segundo Guerreiro, a esta parcela de elite local cabe cumprir um duplo papel. Numa das pontas, eles e suas redes de lealdades e interesses fazem o elo entre os mundos. Trazendo em alto e bom som, no idioma e na l\u00f3gica ling\u00fc\u00edstica do invasor, a mentalidade a ser incorporada. Na ponta de l\u00e1, s\u00e3o meros reprodutores de terceiro escal\u00e3o, \u00fateis em \u00e1reas de interesses dos capitais transnacionais cruzados e suas ag\u00eancias e fontes de financiamento. <\/p>\n<p >Na ponta de c\u00e1 a fun\u00e7\u00e3o \u00e9 de coronelismo e feitoria do pensamento brasileiro e latino-americano. Reproduzindo uma a uma das id\u00e9ias-guia do novo pensamento \u00fanico, repetindo em todo o momento a m\u00e1xima de Dama de Ferro, Margaret Thatcher: \u201cN\u00e3o h\u00e1 alternativa!\u201d, dizia a 1\u00aa ministra do Partido Conservador ainda em 1979. <\/p>\n<p >Estes operadores intelectuais defendem a morte a inser\u00e7\u00e3o subordinada do Brasil e da Am\u00e9rica Latina ao sistema mundo. Afirmando isto, manifestam sua pr\u00f3pria caracter\u00edstica de pensamento dual, subordinados fora do pa\u00eds e subordinantes em territ\u00f3rios j\u00e1 antes invadidos por Borba Gato, Jer\u00f4nimo Leit\u00e3o, Nicolau Barreto, Domingos Jorge Velho, Bartolomeu Bueno da Veiga (o Anhanguera) dentre outros \u201cher\u00f3is\u201d do Brasil bandeirante. <\/p>\n<p >Como nem tudo \u00e9 derrota para os brasileiros, os bandeirantes de Domingos Calheiros foram derrotados na batalha fluvial de Mboror\u00e9, nas 11 voltas do Rio Uruguai. Comandava a guerra o cacique guarani In\u00e1cio Abiaru, usando tecnologia pr\u00f3pria, adequando os canh\u00f5es n\u00e3o ao ferro fundido, mas nos troncos de urundi.<\/p>\n<p >Na mesma l\u00f3gica das bandeiras de cors\u00e1rios nas entradas al\u00e9m Tordesilhas funciona a aplica\u00e7\u00e3o das m\u00e1ximas do pensamento \u00fanico no Brasil atual. O acionar \u00e9 o de saquear a riqueza local e transformar nossas identidades pr\u00f3prias em complexos de bastardos. Isto ocorre ao aplicar sem senso cr\u00edtico algum a toda a bula das especialidades referenciadas no neoliberalismo nas \u00e1reas da pol\u00edtica, gest\u00e3o p\u00fablica, economia pol\u00edtica, pol\u00edtica econ\u00f4mica e tudo o que tiver rela\u00e7\u00e3o com a \u201cgovernabilidade\u201d.<\/p>\n<p >Por momentos a pol\u00edtica brasileira cansa o analista. Mais estimulante \u00e9 oferecer vara, cani\u00e7o e rede do que fazer um arrast\u00e3o de peixes a cada semana. A analogia conceitual e a discuss\u00e3o de governabilidade s\u00e3o decorrentes da postura de Luiz In\u00e1cio em promover um \u201cgoverno de coaliz\u00e3o\u201d. Convido a todos a continuar a ler o Noblat e se informar em detalhes das manobras de bastidores dos quatro PMDBs nacionais que se movem \u00e0 espreita do botim do Planalto. Ou, ainda nesta mesma fonte, saber se o sal\u00e1rio dos ju\u00edzes do STF j\u00e1 atingiu os R$ 30.000,00 mensais.<\/p>\n<p >Quanto aos temas de fundo e de f\u00f4lego, antes de iniciar o debate \u00e9 preciso desconstruir as \u201cid\u00e9ias pens\u00e1veis\u201d do receitu\u00e1rio de baboseiras neoliberais que poluem nossas mentes. O artigo acima \u00e9 parte deste esfor\u00e7o de pensamento nativista e popular. <\/p>\n<p >Artigo originalmente publicado no blog de Ricardo Noblat<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nestas barrancas, o povo do Rio Grande desenvolveu tecnologia e conceitos operacionais, postos em pr\u00e1tica contra nossos maiores inimigos de ent\u00e3o. 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