{"id":10461,"date":"2009-06-08T13:57:30","date_gmt":"2009-06-08T13:57:30","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1016"},"modified":"2009-06-08T13:57:30","modified_gmt":"2009-06-08T13:57:30","slug":"sobre-representacao-e-eufemismos-na-mp-da-grilagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10461","title":{"rendered":"Sobre-representa\u00e7\u00e3o e eufemismos na MP da grilagem"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/katiaabreu_cna.jpg\" title=\"A senadora pelo DEM do Tocantins e presidente da CNA, K\u00e1tia Abreu, simboliza a defesa dos interesses de um setor de classe dominante, passando por cima de qualquer planejamento de longo prazo para o bem geral da na\u00e7\u00e3o.  - Foto:pagina rural\" alt=\"A senadora pelo DEM do Tocantins e presidente da CNA, K\u00e1tia Abreu, simboliza a defesa dos interesses de um setor de classe dominante, passando por cima de qualquer planejamento de longo prazo para o bem geral da na\u00e7\u00e3o.  - Foto:pagina rural\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">A senadora pelo DEM do Tocantins e presidente da CNA, K\u00e1tia Abreu, simboliza a defesa dos interesses de um setor de classe dominante, passando por cima de qualquer planejamento de longo prazo para o bem geral da na\u00e7\u00e3o. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:pagina rural<\/small><\/figure>\n<p>8 de junho de 2009, do Rio Grande outrora altaneiro, Bruno Lima Rocha <\/p>\n<p>A noite de quarta-feira, dia 3 de junho, o Senado da rep&uacute;blica deu uma aula de an&aacute;lise pol&iacute;tica. N&atilde;o foi uma li&ccedil;&atilde;o de atitude republicana, tampouco defesa da cidadania e nem do interesse nacional. O que se viu foi a materializa&ccedil;&atilde;o de dois conceitos: o de sobre-representa&ccedil;&atilde;o e o do eufemismo como arma do discurso. O primeiro conceito se encontra na &ldquo;sinceridade&rdquo; da senadora K&aacute;tia Abreu (DEM-TO) que acumula o mandato pelo novo estado e tamb&eacute;m &eacute; presidente da Confedera&ccedil;&atilde;o Nacional da Agricultura (CNA). O segundo, o eufemismo, se encontra nas palavras da nobre e ilibada senadora, ao afirmar que uma Medida Provis&oacute;ria de sua autoria, a MP 458, vai &ldquo;dar seguran&ccedil;a jur&iacute;dica&rdquo; para a Amaz&ocirc;nia Legal.<\/p>\n<p>Para quem tem como lida e labuta a an&aacute;lise do grande jogo do poder no Brasil, ter um conceito materializado &eacute; uma chance de demonstrar de modo did&aacute;tico as teias de rela&ccedil;&otilde;es reais e n&atilde;o formais da pol&iacute;tica brasileira. Ou &ldquo;conceito com carne&rdquo; descortina para um p&uacute;blico ampliado as tens&otilde;es do exerc&iacute;cio do mando sem as barreiras de uma linguagem rebuscada. Neste quesito, sou obrigado a ser justo. Tr&ecirc;s bancadas atuam de modo &ldquo;sincero&rdquo; com bastante freq&uuml;&ecirc;ncia, e n&atilde;o por acaso, exercem a sobre-representa&ccedil;&atilde;o na defesa de seus interesses diretos. S&atilde;o elas, a da bola (com a cartolagem &agrave; frente), a dos concession&aacute;rios de radiodifus&atilde;o (sendo que um em cada tr&ecirc;s congressistas s&atilde;o donos ou s&oacute;cios de r&aacute;dio e\/ou TV) e a ruralista. <\/p>\n<p>Este termo, &ldquo;ruralismo&rdquo;, por si s&oacute; j&aacute; &eacute; um eufemismo, pois remonta a sigla da extrema direita agr&aacute;ria dos anos &rsquo;80. Para quem n&atilde;o se recorda, a luta pelo exerc&iacute;cio do direito constitucional do acesso &agrave; terra como fator de produ&ccedil;&atilde;o com destina&ccedil;&atilde;o social, confrontava com a Uni&atilde;o Democr&aacute;tica Ruralista (UDR). Esta entidade &ldquo;democr&aacute;tica&rdquo;, que ca&iacute;ra em perfil baixo nos &uacute;ltimos anos, d&aacute; a marca da bancada de mesmo nome. Pois foi uma das l&iacute;deres da bancada da agricultura em larga escala, aplicando o conceito que transforma o alimento em commodity, que escreveu o texto da nova medida legal. <\/p>\n<p>Na sua origem, esta MP serviria para assentar os pequenos posseiros nas terras utilizadas para subsist&ecirc;ncia e agricultura para comercializar localmente. Seguindo o modus operandi da pol&iacute;tica brasileira, o novo texto altera a inten&ccedil;&atilde;o inicial, aumentando o tamanho da extens&atilde;o de terras a ser regularizada e a forma de sua titularidade. Na reda&ccedil;&atilde;o da presidente da CNA, as terras griladas com extens&atilde;o de 400 a 1500 hectares podem ser vendidas ap&oacute;s tr&ecirc;s anos, e tamb&eacute;m podem ser propriedade de empresas e prepostos dos propriet&aacute;rios. Se n&atilde;o for vetada pelo presidente Luiz In&aacute;cio, a nova MP vai liberar tanto a grilagem de terras da Uni&atilde;o como o uso de laranjas como escudeiros legais dos latifundi&aacute;rios. <\/p>\n<p>A lista de absurdos n&atilde;o p&aacute;ra por a&iacute;. Se a regra autoriza o grileiro a vender sua terra ap&oacute;s a legaliza&ccedil;&atilde;o da mesma no prazo de tr&ecirc;s anos, o posseiro e o pequeno propriet&aacute;rio que for beneficiado com o t&iacute;tulo de extens&otilde;es de 100 a 400 hectares, s&oacute; poder&aacute; vend&ecirc;-la ap&oacute;s 10 anos. &Eacute; a mesma injusti&ccedil;a distributiva dos impostos aplicados no Brasil. Desonera-se o capital, garante-se a livre circula&ccedil;&atilde;o de t&iacute;tulos, pap&eacute;is e carteiras e a carga impositiva despenca em cascata sobre o sal&aacute;rio e o consumo. Na chamada &ldquo;economia real&rdquo; ocorre algo semelhante. De cada dez empregos diretos formais, sete s&atilde;o gerados pelos micro e pequenos empreendimentos. Ao mesmo tempo, estes s&atilde;o muito onerados pelo Estado que beneficia a fundo perdido as grandes corpora&ccedil;&otilde;es. Trata-se de mais eufemismo com o destino privado dos recursos coletivos. No setor prim&aacute;rio j&aacute; regularizado, quem planta para o consumo interno e direto tem piores condi&ccedil;&otilde;es de produzir do que a escala absurda do chamado agro-neg&oacute;cio. Com a MP 458, o senado da rep&uacute;blica manteve o padr&atilde;o de contra sensos brasileiros. <\/p>\n<p><u>N&atilde;o h&aacute; desenvolvimento sem preserva&ccedil;&atilde;o <br \/>\n<\/u><br \/>\nComo se sabe, a medida &eacute; pol&ecirc;mica e provocou um racha na base do governo e na oposi&ccedil;&atilde;o. De sua parte, o presidente j&aacute; assinala com uma manobra diversionista. Diz que a conta a ser paga pela preserva&ccedil;&atilde;o tamb&eacute;m &eacute; dos pa&iacute;ses ricos. Embora isso seja correto, se aplica em escala mundial e n&atilde;o na vida cotidiana da Amaz&ocirc;nia Legal e da biodiversidade brasileira. Cobrar o cumprimento do Protocolo de Kyoto e agir de forma incisiva contra a pesca da baleia pelos pesqueiros japoneses &eacute; leg&iacute;timo. J&aacute; mandar a conta de uma pol&iacute;tica interna que atravessa as possibilidades de manuten&ccedil;&atilde;o da soberania nacional na Amaz&ocirc;nia, n&atilde;o &eacute;. N&atilde;o h&aacute; controle sem sustenta&ccedil;&atilde;o, e o Estado brasileiro tem de assegurar a cobertura vegetal e a biodiversidade em mais da metade de seu territ&oacute;rio. <\/p>\n<p>Ao contr&aacute;rio do senso comum e das id&eacute;ias difundidas pela grande m&iacute;dia, n&atilde;o h&aacute; conflito entre preserva&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento. Preservar n&atilde;o &eacute; atraso e nem custo, mas sim garantia de retorno de longo prazo. &Eacute; &oacute;bvio que dentro do modelo de devastar para a agro-exporta&ccedil;&atilde;o, isto pare&ccedil;a uma barreira para o desenvolvimento do neg&oacute;cio. Na verdade, o contra senso &eacute; apostar em um modelo que n&atilde;o se sustenta e nem assegura os maiores valores futuros. A maior riqueza da humanidade no s&eacute;culo que adentra &eacute; a diversidade gen&eacute;tica e o patrim&ocirc;nio natural. Assim, n&atilde;o h&aacute; nenhuma possibilidade de desenvolver a Amaz&ocirc;nia sem a floresta em p&eacute; e o curso de seus rios. E o pior, com a destrui&ccedil;&atilde;o do meio, os povos amaz&ocirc;nicos tendem a migrar, inchando as capitais da regi&atilde;o e aumentando o desespero social. <\/p>\n<p>O mesmo se d&aacute; no Rio Grande do Sul. N&atilde;o teremos desenvolvimento algum com o exterm&iacute;nio da pampa, a cobertura por eucaliptos vindos da Austr&aacute;lia, a polui&ccedil;&atilde;o do Rio Uruguai e o assoreamento de rios antes naveg&aacute;veis, como o Santa Maria e o Ibicu&iacute;. A quest&atilde;o-chave aqui &eacute; afirmar a preserva&ccedil;&atilde;o do meio ambiente, fixando o homem na terra e gerando novas cadeias de valor a partir das soberanias alimentar e ambiental. Mas, para isso, o pa&iacute;s ter&aacute; de confrontar suas escolhas de desenvolvimento e produ&ccedil;&atilde;o no setor prim&aacute;rio. Do contr&aacute;rio, tudo n&atilde;o passar&aacute; de um paliativo ornado com uma perigosa ilus&atilde;o de que &ldquo;se est&aacute; fazendo alguma coisa&rdquo;. Fazer algo &eacute; assegurar o futuro coletivo e n&atilde;o o imediatismo dos grupos de press&atilde;o sobre-representados no Congresso. <\/p>\n<p>Com a MP 458 os senadores for&ccedil;am o pa&iacute;s a caminhar atrav&eacute;s da mesma trilha que levou a aprova&ccedil;&atilde;o das sementes transg&ecirc;nicas atrav&eacute;s do fato consumado. Oficializando a grilagem e permitindo o desmatamento, ficamos a merc&ecirc; da insanidade do agente econ&ocirc;mico devastador e inescrupuloso. O futuro coletivo e a soberania do pa&iacute;s exigem o veto desta Medida. <\/p>\n<p>Este artigo foi originalmente publicado no portal do <a href=\"http:\/\/www.unisinos.br\/ihu\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=22931\">Instituto Humanitas da Unisinos. <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A senadora pelo DEM do Tocantins e presidente da CNA, K\u00e1tia Abreu, simboliza a defesa dos interesses de um setor de classe dominante, passando por cima de qualquer planejamento de longo prazo para o bem geral da na\u00e7\u00e3o. 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