{"id":10473,"date":"2009-07-06T11:55:04","date_gmt":"2009-07-06T11:55:04","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1064"},"modified":"2009-07-06T11:55:04","modified_gmt":"2009-07-06T11:55:04","slug":"honduras-a-america-latina-na-encruzilhada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10473","title":{"rendered":"Honduras: a Am\u00e9rica Latina na encruzilhada"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/protesta en honduras.jpg\" title=\"As entidades de base hondurenhas demonstram suas for\u00e7as atrav\u00e9s de mobiliza\u00e7\u00e3o e m\u00e1rtires da Contra travestida de ex\u00e9rcito nacional. - Foto:habla honduras\" alt=\"As entidades de base hondurenhas demonstram suas for\u00e7as atrav\u00e9s de mobiliza\u00e7\u00e3o e m\u00e1rtires da Contra travestida de ex\u00e9rcito nacional. - Foto:habla honduras\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">As entidades de base hondurenhas demonstram suas for\u00e7as atrav\u00e9s de mobiliza\u00e7\u00e3o e m\u00e1rtires da Contra travestida de ex\u00e9rcito nacional.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:habla honduras<\/small><\/figure>\n<p>06 de julho de 2009, Bruno Lima Rocha, do Rio Grande outrora altaneiro <\/p>\n<p><u>Retomando o debate depois do v&ocirc;o de retorno frustrado de Zelaya <br \/>\n<\/u><br \/>\nEscrevo este curto artigo mais reflexionando conceitos e passagens hist&oacute;ricas de golpes, anti-golpes e linhas de a&ccedil;&atilde;o em momentos limites de nossa Am&eacute;rica. Ainda nesta semana, retorno &agrave; an&aacute;lise retroativa aos primeiros dias ap&oacute;s o Golpe de Estado em Honduras e suas conseq&uuml;&ecirc;ncias imediatas. Isto porque, qualquer predi&ccedil;&atilde;o conclusiva agora seria puro palpite. Outros analistas, de envergadura bem superior a minha j&aacute; o fizeram no in&iacute;cio da semana posterior ao Golpe e deram com burros n&rsquo;&aacute;gua. Como se diz na ro&ccedil;a, &ldquo;jogo &eacute; jogado e lambari &eacute; pescado&rdquo;; e, como se sabe nas entranhas do Continente, a guerra &eacute; guerra e se ganha ou perde nos campos de batalha. Vamos &agrave;s modestas palavras que seguem.<\/p>\n<p>No momento que escrevo estas linhas, o v&ocirc;o que levava o presidente deposto Manuel Zelaya j&aacute; passou pelo aeroporto de Tegucigalpa e, gra&ccedil;as ao bloqueio da pista de parte dos militares ali presentes, o avi&atilde;o venezuelano onde voava teve que ir-se. Passou por Man&aacute;gua (Nicar&aacute;gua) para reabastecimento indo em seguida para San Salvador (El Salvador). A intensidade repressiva das tropas ostensivas tamb&eacute;m era esperada. Alguns veteranos dos &rsquo;70 comentaram-me que Toncont&iacute;n (nome do Aeroporto Internacional da capital hondurenha) ia ser como a Ezeiza dos centro-americanos. <\/p>\n<p>Sim, se algu&eacute;m sup&otilde;e que me refiro &agrave; aterrissagem do general Per&oacute;n, acertou. Em 20 de junho de 1973 a juventude argentina se depara com a p&aacute;tria peronista acompanhada de mercen&aacute;rios franceses acima do palco onde se ia celebrar &ldquo;no dia do reencontro nacional&rdquo;. O que passou foi um massacre, um princ&iacute;pio de div&oacute;rcio p&uacute;blico de algo j&aacute; vis&iacute;vel para um observador de fora do contexto complexo da &ldquo;interna&rdquo; que era guerra a morte entre as forma&ccedil;&otilde;es especiais e as 62 organiza&ccedil;&otilde;es. A direita peronista ia alimentar a Triple A, o Comando da Organiza&ccedil;&atilde;o, a Guarda de Ferro e outras excresc&ecirc;ncias de tipo fascista. O povo que ali estava mudou seu papel no espet&aacute;culo da pol&iacute;tica. De multid&atilde;o mobilizada esperando seu l&iacute;der popular foi feito de alvo dos fuzis, pistolas e metralhadoras. <\/p>\n<p>Mas, os ent&atilde;o jovens &ndash; la muchachada hab&iacute;a cambiado &#8211; j&aacute; n&atilde;o eram os mesmos. As respostas n&atilde;o demoraram a chegar, encontrando seu destino em gente como Jos&eacute; Ignacio Rucci, herdeiro de Augusto Timoteo Vandor entre outros tantos mafiosos mais, mandando-os para o inferno. Essa era a diferen&ccedil;a: ter capacidade de se organizar e estar &agrave; altura do desafio que se apresentava naquele momento hist&oacute;rico. Isso &eacute; o que, desde longe, algu&eacute;m modestamente percebe como o que est&aacute; passando em Honduras. H&aacute; vontades e capacidade de mobiliza&ccedil;&atilde;o, mas se o momento do Golpe chegou, isto se deu porque as for&ccedil;as do povo e o governo de turno, neo aliado da ALBA, n&atilde;o souberam antever a situa&ccedil;&atilde;o. Poderia ser poss&iacute;vel que, ainda que com toda a an&aacute;lise de antecipa&ccedil;&atilde;o, se pudesse fazer algo. Pode ser que n&atilde;o. Mas, ao n&atilde;o ter um dispositivo anti-golpe, o governo do oligarca convertido Manuel Zelaya se entregou ao ocaso. <\/p>\n<p>Passamos por algo assim e o sofremos no Brasil por 21 anos de ditadura. Houve chance real de rea&ccedil;&atilde;o entre o 31 de mar&ccedil;o e o 1&ordm; de abril de 1964 (no Brasil) e o ent&atilde;o presidente Jo&atilde;o Goulart (Jango) reagiu pouco ou nada. Havia um mito circulante, o da antimili, grupo de militares leais a Lu&iacute;s Carlos Prestes dentro das For&ccedil;as Armadas (FFAA), mas este n&atilde;o atingiu para frear uma conspira&ccedil;&atilde;o vis&iacute;vel que se iniciasse abertamente em 1961. No Chile, n&atilde;o faltaram avisos ao m&eacute;dico Salvador Allende. A Guarda T&eacute;cnica era insuficiente e assim foi em seu momento decisivo. E, sem nenhum equ&iacute;voco podemos dizer o mesmo de abril de 2002. Se n&atilde;o fosse pelo valente povo de Caracas, hoje ter&iacute;amos um governo esqu&aacute;lido e vende-p&aacute;tria na terra de Ezequiel Zamora. Se assim se sucedesse, portanto seria irrefre&aacute;vel o processo de integra&ccedil;&atilde;o for&ccedil;ada pela ALCA, na &eacute;poca em fase de pr&eacute;-acordo realizado por Bush Jr. e Lula. N&atilde;o digo com isso que o processo de mudan&ccedil;a social na Venezuela passa pelo Pal&aacute;cio Miraflores (casa de governo) e nem menos ainda pela conviv&ecirc;ncia mediada com a democracia liberal ao mesmo tempo em que avan&ccedil;a a participa&ccedil;&atilde;o popular. Estes passos t&ecirc;m limites, e a li&ccedil;&atilde;o veio de Honduras. <\/p>\n<p><strong>O Plano Puebla-Panam&aacute; revive com o golpe <br \/>\n<\/strong><br \/>\nO Imp&eacute;rio tem perdido seu rumo interno, mas &eacute; certo que os bra&ccedil;os pol&iacute;ticos do Complexo Industrial-Militar, agora se somando com as empresas de guerra privada, n&atilde;o o perderam. Sim, refiro-me ao Departamento de Estado, ao Pent&aacute;gono e especificamente ao Comando Sul. &Eacute; preciso recordar o papel fundamental que vem cumprindo o territ&oacute;rio de Honduras e o para-militarismo interno como cabe&ccedil;a de ponte para a Contra centro-americana dos &rsquo;80. O que hoje representa a Col&ocirc;mbia para Sul-am&eacute;rica o foi o pa&iacute;s que sofre o golpe para a Am&eacute;rica Central. H&aacute; que recordar que em 2002, pouco antes do golpe e o contra golpe em Venezuela, j&aacute; se tinha como &ldquo;situa&ccedil;&atilde;o consumada&rdquo; a integra&ccedil;&atilde;o capitalista da Am&eacute;rica Central como plataforma de exporta&ccedil;&atilde;o e planta de montagem (maquilladora) gigante para os EUA ent&atilde;o rec&eacute;m saindo do choque do 11 de setembro e da crise da bolha das empresas ponto.com. Naquele momento ainda estava por vir a pol&iacute;tica externa mais agressiva da ALBA e a mega fraude do capitalismo financeiro atrav&eacute;s da borbulha imobili&aacute;ria yankee. <\/p>\n<p>Se em 2002 havia pouca alternativa para um pa&iacute;s com a economia brasileira, poucos anos depois uma na&ccedil;&atilde;o empobrecida como Honduras, que tem a marca de exportar 70% de seu com&eacute;rcio exterior para os EEUU (todo composto por produtos prim&aacute;rios n&atilde;o industrializados) e importar do Imp&eacute;rio a 55% do que entra, tinha pouca ou nenhuma sa&iacute;da. Temos de compreender que na pol&iacute;tica, quem decide pode mudar suas lealdades em fun&ccedil;&atilde;o de um projeto de poder razo&aacute;vel e pr&oacute;prio. Esta seria uma explica&ccedil;&atilde;o plaus&iacute;vel para a aproxima&ccedil;&atilde;o de Zelaya com Ch&aacute;vez. A situa&ccedil;&atilde;o interna, controlada por dois partidos olig&aacute;rquicos ocupando gravita&ccedil;&atilde;o central em um sistema pol&iacute;tico montado por um acordo da elite do pa&iacute;s, somando-se a a&ccedil;&atilde;o da Contra (e a alian&ccedil;a destes com os narcotraficantes), teria de ser de estrangulamento do presidente eleito. Se existe novidade, &eacute; a forma de dar o golpe, compondo uma sa&iacute;da com m&aacute;scara institucional e n&atilde;o mais a viol&ecirc;ncia aberta como se deram os golpes nos &rsquo;60 e &rsquo;70. Neste caso, o Partido Nacional de Honduras, como porta-voz e forma organizativa tradicional, cumpre um papel fundamental. A partir de rela&ccedil;&otilde;es interdependentes da pol&iacute;tica, a economia, a hierarquia militar, o lugar no mundo que conforma uma ideologia colonizada da elite local, somadas a um controle de meios e as rela&ccedil;&otilde;es carnais da alta hierarquia castrense com a Escola das Am&eacute;ricas, a tomada de decis&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es por parte de altos comandos do Congresso, do Corte Suprema, o Alto Comando das FFAA, e as c&uacute;pulas partid&aacute;rias, n&atilde;o foi t&atilde;o dif&iacute;cil. <\/p>\n<p><strong>ALBA e mecanismo plebiscit&aacute;rio: iniciam-se os preparativos do golpe <\/p>\n<p><\/strong>Quando a partir de janeiro de 2008 um homem do sistema termina de romper parcialmente com sua classe de origem e assina a entrada de Honduras, Zelaya declara a guerra frontal ao Imp&eacute;rio e &agrave;s vi&uacute;vas de Reagan e Bush pai em seu pa&iacute;s. Repito essa senten&ccedil;a para que compreendamos, pois Manuel Zelaya &eacute; um homem de dentro, n&atilde;o foi um l&iacute;der pol&iacute;tico recrutado em bairros populares nem nada por estilo. Ele por sinal vem do mesmo partido que o golpista Roberto Micheletti, o Partido Liberal. Com sua aproxima&ccedil;&atilde;o a uma sa&iacute;da econ&ocirc;mica mais interessante em seu pa&iacute;s, para diminuir o abismo social, conseguindo com a Venezuela um pre&ccedil;o razo&aacute;vel pelo custo da energia atrav&eacute;s do petr&oacute;leo, iniciou-se uma corrida contra o rel&oacute;gio para derrocar a Zelaya. <\/p>\n<p>Com o dito acima, ficaria um tema mais para abordar, que &eacute; o limite da democracia de ritos e procedimentos ao ver-se adiante da outra democracia. No domingo 28 ia iniciar-se um processo de institucionaliza&ccedil;&atilde;o da nova legitimidade. Ou seja, com a consulta popular, atrav&eacute;s de um referendo n&atilde;o vinculante, os hondurenhos iam deixar expl&iacute;cita sua vontade de n&atilde;o aceitar uma constitui&ccedil;&atilde;o escrita (em 1982) como pacto pol&iacute;tico ap&oacute;s a ditadura que termina em 1981. Ao promover o golpe em um dia de consulta p&uacute;blica, manda-se uma mensagem a todos os latino-americanos. De que os poderes de fato e o Imp&eacute;rio est&atilde;o mais que atentos &agrave;s movidas pol&iacute;ticas que possam p&ocirc;r em xeque a institucionalidade da democracia de tipo liberal-burguesa. Tamb&eacute;m &eacute; verdadeiro afirmar que est&atilde;o mais que alertas &agrave; capacidade dos povos latino-americanos de destruir esta legitimidade tanto por parte de um l&iacute;der carism&aacute;tico (sendo este convertido ou aut&ecirc;ntico) como por parte de um avan&ccedil;o na organiza&ccedil;&atilde;o do tecido social, chegando a est&aacute;gios de poder popular constitu&iacute;dos, como foi o caso da APPO no estado de Oaxaca, M&eacute;xico. <\/p>\n<p>Neste momento, pelas raz&otilde;es que expus acima, Honduras e seu povo conformam o epicentro da possibilidade de democracia social na Am&eacute;rica Latina. Defender o contra golpe popular, portanto, n&atilde;o &eacute; ter um alinhamento simb&oacute;lico imediato e total com Zelaya e sua trupe. Ao contr&aacute;rio, &eacute; tra&ccedil;ar redes de apoio pela luta social, atrav&eacute;s de entidades de base conectadas atrav&eacute;s da m&iacute;dia eletr&ocirc;nica de baixo custo, e compreender que a democracia participativa se constr&oacute;i nos momentos limites. A semana anterior e os dias que seguem marcam uma batalha a ser peleada entre os latino-americanos em movimento contra o Imp&eacute;rio e seus oligarcas. <\/p>\n<p>Hoje, a Batalha de Potos&iacute; (1825) &eacute; em Tegucigalpa.<\/p>\n<p>&nbsp;<a href=\"http:\/\/www.unisinos.br\/ihu\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=23705\">Artigo originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas da Unisinos (IHU)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As entidades de base hondurenhas demonstram suas for\u00e7as atrav\u00e9s de mobiliza\u00e7\u00e3o e m\u00e1rtires da Contra travestida de ex\u00e9rcito nacional. 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