{"id":1050,"date":"2009-06-22T02:57:52","date_gmt":"2009-06-22T02:57:52","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1050"},"modified":"2009-06-22T02:57:52","modified_gmt":"2009-06-22T02:57:52","slug":"o-futebol-na-base-do-tecido-social-brasileiro-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1050","title":{"rendered":"O Futebol na base do tecido social brasileiro"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/campodarocinha.jpg\" title=\"Em jogos como este, se refor\u00e7am os la\u00e7os sociais e nos redescobrimos como povo e classe - Foto:\" alt=\"Em jogos como este, se refor\u00e7am os la\u00e7os sociais e nos redescobrimos como povo e classe - Foto:\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Em jogos como este, se refor\u00e7am os la\u00e7os sociais e nos redescobrimos como povo e classe<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:<\/small><\/figure>\n<p>20 de junho de 2006, Vila Setembrina dos Farrapos de Viam&atilde;o, Continente do Rio Grande de S&atilde;o Sep&eacute;<\/p>\n<p>Seguimos falando de futebol, porque somos brasileiros, latino-americanos e cultivadores da mesma paix&atilde;o. N&atilde;o &eacute; clich&ecirc;, &eacute; cren&ccedil;a mesmo. Este artigo &eacute; o segundo da trilogia, onde abordamos temas ligados ao mundo da bola. O primeiro tratou de pol&iacute;tica com p mai&uacute;sculo e min&uacute;sculo. O segundo, este, da presen&ccedil;a do esporte nos tecidos sociais mais fragilizados do pa&iacute;s. No terceiro, abordaremos a triste constata&ccedil;&atilde;o que nos faltam pol&iacute;ticas p&uacute;blicas, tanto para o esporte mais querido, como para as demais modalidades.<\/p>\n<p>A bola &eacute; fator de motiva&ccedil;&atilde;o e associativismo nas camadas mais pobres e com menos poder de decis&atilde;o da sociedade brasileira. Uma sociedade em frangalhos como a nossa, sempre se escora nos h&aacute;bitos e costumes populares, para ag&uuml;entar mais um pouco. Padr&otilde;es b&aacute;sicos de socializa&ccedil;&atilde;o passam pelo esporte. Especificamente, pelo futebol amador praticado de norte a sul do pa&iacute;s. &Eacute; este o motor da paix&atilde;o pelo time canarinho; e gra&ccedil;as a estes an&ocirc;nimos ainda aturamos a propaganda ufanista do Galv&atilde;o Bueno e os desmandos do cons&oacute;rcio de transnacionais e empresas associadas, que gerenciam a CBF de Ricardo Teixeira.<\/p>\n<p>Compondo as bases de um sem n&uacute;mero de institui&ccedil;&otilde;es sociais &#8211; formais e informais &ndash; est&aacute; uma infinidade de times de pelada. Na v&aacute;rzea, na quadra p&uacute;blica, nos campos de ch&atilde;o batido, no arei&atilde;o com pedra, no futebol de areia de praia, jogando de 11, so&ccedil;aite ou futsal, milh&otilde;es de brasileiros se encontram e se divertem todos os dias. H&aacute;bitos como estes, garantem a socializa&ccedil;&atilde;o b&aacute;sica, ultrapassando as barreiras do dia-dia, dentre elas a ditadura da intermedia&ccedil;&atilde;o da m&iacute;dia.<\/p>\n<p>Embora sejam pouco aproveitados como fator de c&acirc;mbio social, uma das &uacute;ltimas trincheiras contra o individualismo absurdo &eacute; a associa&ccedil;&atilde;o livre e amadora para fazer aquilo que se gosta e todos sabem um pouco. Isto, somado a virtudes m&iacute;nimas, tais como conectividade, solidariedade, confian&ccedil;a e um pouco de altru&iacute;smo, comp&otilde;em os ingredientes daquilo que a academia chama de Capital Social. Esta defini&ccedil;&atilde;o foi sacada do artigo escrito para este blog por meu amigo Dejalma Cremonese, professor da Uniju&iacute; e especialista no tema. Recordando conversas que tivemos, me explicava o professor de origem camponesa, da import&acirc;ncia que via nas peladas semanais com professores e t&eacute;cnicos administrativos de seu local de trabalho. Valia, era compensador, fazendo-o at&eacute; abstrair das botinadas e da canela roxa de toda 2&ordf; de manh&atilde;.<\/p>\n<p>Particularmente, nada tenho contra este conceito, muito pelo contr&aacute;rio. Ainda assim, prefiro a id&eacute;ia oriunda de movimentos populares do Rio da Prata, denominando as institui&ccedil;&otilde;es sociais mais de base, como aquelas que comp&otilde;em o tecido social. Tecido ou Capital social, o efeito &eacute; o mesmo, e a defini&ccedil;&atilde;o quase id&ecirc;ntica. Recurso final contra a individualiza&ccedil;&atilde;o extrema, o aumento do estoque deste Capital ben&eacute;fico &eacute; fator essencial para o desenvolvimento da sociedade. Uma constata&ccedil;&atilde;o &eacute; simples: o associativismo volunt&aacute;rio no Brasil tem seus bancos de escola nos rateios para a compra de jogos de camisa. Entre rach&otilde;es, varzeanos, ligas de areia ou simples pelada dos com camisa contra sem camisa, nos damos conta que precisamos de outros seres para viver e compartilhar as desgra&ccedil;as ou alegrias da vida coletiva.<\/p>\n<p>Infelizmente, tamanho potencial n&atilde;o passa desapercebido pelos agentes e atores, cuja meta &eacute; desorganizar para usurpar seu potencial de auto-representa&ccedil;&atilde;o. Quem pensou no mais obscuro cabo eleitoral, distribuindo uniforme com a cara e o n&uacute;mero do vereador ou deputado, acertou. O mesmo se d&aacute; nas &ldquo;copas&rdquo; com nome de fulano ou beltrano. Estas, somadas &agrave;s &ldquo;festas&rdquo; com o apoio de algum pol&iacute;tico ou candidato, e j&aacute; est&aacute; maculado o esfor&ccedil;o social. Se ficasse apenas na baixa classe pol&iacute;tica, seria menos ruim. Mas n&atilde;o &eacute;. De uns quinze anos para c&aacute;, tornou-se costume o patroc&iacute;nio para times de pelada. Nomes tradicionais, associados a um bairro, rua, loteamento, termos folcl&oacute;ricos ou turma de amigos, v&atilde;o sendo substitu&iacute;dos por times batizados com marcas de drogarias, tele-entregas de pizza ou mercadinhos de vilas ou periferias.<\/p>\n<p>Tamanho esfor&ccedil;o de apadrinhamento n&atilde;o &eacute; &agrave; toa. Muitas vezes um campeonato de primeira divis&atilde;o estadual tem as arquibancadas do est&aacute;dio vazias, e ao mesmo tempo, v&aacute;rias canchas de bairros est&atilde;o lotadas. Duas ruas acima e quadras de aluguel de futsal tem uma longa fila de espera. Por momentos, temos mais de 100 pessoas compartilhando o gin&aacute;sio do bairro e outras 500 est&atilde;o acompanhando os primeiros e segundos quadros do time da beira da sanga contra a equipe do p&eacute; do morro. Ao longo da malha perif&eacute;rica, muitas vezes os nomes das canchas denominam tamb&eacute;m o bairro. No entorno do campo de v&aacute;rzea as pessoas foram ocupando &aacute;reas verdes, terrenos baldios e construindo suas casas. Diamantina, Monte Alegre, &Iacute;ndio Jar&iacute;, Florescente, Vila Para&iacute;so, Vila Augusta, dentre outras vilas e periferias. Ao largo do campinho, bares, padarias, postos de sa&uacute;de, cabines policiais, associa&ccedil;&otilde;es de moradores, igrejas de diversos matizes v&atilde;o sendo erguidas. Estes exemplos foram trazidos para o texto atrav&eacute;s de simples observa&ccedil;&atilde;o do bairro onde resido e do seu entorno. Sem maiores conjecturas, podemos imaginar que o mesmo se d&ecirc; por todo o pa&iacute;s.<\/p>\n<p>Como diz um outro amigo, residente na cidade de Gua&iacute;ba, do outro lado do Lago de mesmo nome: &ldquo;T&atilde;o bom quanto o Gre-Nal &eacute; a final do varzeano daqui. Por vezes &eacute; at&eacute; mais emocionante!&rdquo;<\/p>\n<p>Me recordo de outro exemplo, este do Rio de Janeiro, especificamente em uma determinada comunidade de favela. Muitas vezes, a esvaziada turma de alfabetiza&ccedil;&atilde;o de adultos tinha na sala central da associa&ccedil;&atilde;o de moradores uma barulhenta presen&ccedil;a de vizinhos. Sede lotada, o assunto era s&eacute;rio. Tratava-se da aprova&ccedil;&atilde;o do regulamento do campeonato de futebol so&ccedil;aite daquela comunidade. Inscritos, 35 times, todos completos, com titular e banco de reserva, uniforme de jogo e de treino. Toda a sociedade local estava mobilizada e representada por times. Tanto neo-pentecostais participavam como a &ldquo;rapaziada do movimento&rdquo; tinha duas equipes. As regras, como sempre, s&atilde;o adapt&aacute;veis a cada realidade.<\/p>\n<p>Al&eacute;m das tabelas, escala&ccedil;&atilde;o dos ju&iacute;zes e premia&ccedil;&otilde;es com trof&eacute;us, tr&ecirc;s assuntos graves foram decididos. Como no morro &eacute; proibido brigar, o mesmo teria de valer para o jogo. Assim, por pior que fosse a falta, ningu&eacute;m podia apelar. Quem mandava era o &aacute;rbitro e todos tinham de respeitar, fosse ou n&atilde;o do &ldquo;contexto&rdquo;. Segundo, se o morro fosse ocupado, o campeonato seria suspenso, at&eacute; que os homens da lei sa&iacute;ssem da comunidade. Terceiro, em caso de invas&atilde;o repentina, os times da &ldquo;farm&aacute;cia&rdquo; n&atilde;o seriam punidos com WO. Assim, a partida seria adiada at&eacute; que a situa&ccedil;&atilde;o &ldquo;acalmasse&rdquo;. Nada disso ouvi falar, mas vi com meus pr&oacute;prios olhos. Detalhe, todas as regras foram cumpridas &agrave; risca.<\/p>\n<p>Como podemos observar, do lado certo ou errado da vida, o futebol em suas mais variadas vers&otilde;es &eacute; tijolo e alicerce da sociabilidade b&aacute;sica do brasileiro. Deste caldo de cultura apaixonado, brota a for&ccedil;a motora que faz com que nos esque&ccedil;amos das imbecilidades b&aacute;sicas ditas em in&uacute;meras entrevistas de campo e coletivo. Esta for&ccedil;a social, pouca ou nenhuma rela&ccedil;&atilde;o tem com a cobertura ostensiva de r&aacute;dios AMs e a transmiss&atilde;o sem fim, que gera uma overdose de futebol na TV aberta e por assinatura.<\/p>\n<p>Estes costumes s&atilde;o muito mais fortes e importantes do que os desmandos da cartolagem, a aliena&ccedil;&atilde;o das estrelas e as manipula&ccedil;&otilde;es do cons&oacute;rcio gestor da canarinho. Nos sagrados rach&otilde;es da v&aacute;rzea, nos encontramos com o melhor de n&oacute;s mesmos como povo e classe. Vamos assim alimentando uma paix&atilde;o que costura o tecido social brasileiro.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em jogos como este, se refor\u00e7am os la\u00e7os sociais e nos redescobrimos como povo e classe Foto: 20 de junho de 2006, Vila Setembrina dos Farrapos de Viam&atilde;o, Continente do Rio Grande de S&atilde;o Sep&eacute; Seguimos falando de futebol, porque somos brasileiros, latino-americanos e cultivadores da mesma paix&atilde;o. N&atilde;o &eacute; clich&ecirc;, &eacute; cren&ccedil;a mesmo. 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