{"id":10503,"date":"2010-08-20T17:49:41","date_gmt":"2010-08-20T17:49:41","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1283"},"modified":"2010-08-20T17:49:41","modified_gmt":"2010-08-20T17:49:41","slug":"mesquita-em-chamas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10503","title":{"rendered":"Mesquita em chamas"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/salman_hamdani.jpg\" title=\"Salman Hamdani, filho da primeira gera\u00e7\u00e3o de imigrantes paquistaneses em busca da sobreviv\u00eancia e da realiza\u00e7\u00e3o do sonho americano; este mu\u00e7ulmano estadunidense foi duplamente morto. Primeiro, no socorro das v\u00edtimas dos ataques de 11 de setembro, proferidos pela rede wahabita composta por ex-aliados dos EUA; depois, pela direita midi\u00e1tica que difamou seu nome e o de sua fam\u00edlia.  - Foto:Altmuslim.com\" alt=\"Salman Hamdani, filho da primeira gera\u00e7\u00e3o de imigrantes paquistaneses em busca da sobreviv\u00eancia e da realiza\u00e7\u00e3o do sonho americano; este mu\u00e7ulmano estadunidense foi duplamente morto. Primeiro, no socorro das v\u00edtimas dos ataques de 11 de setembro, proferidos pela rede wahabita composta por ex-aliados dos EUA; depois, pela direita midi\u00e1tica que difamou seu nome e o de sua fam\u00edlia.  - Foto:Altmuslim.com\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Salman Hamdani, filho da primeira gera\u00e7\u00e3o de imigrantes paquistaneses em busca da sobreviv\u00eancia e da realiza\u00e7\u00e3o do sonho americano; este mu\u00e7ulmano estadunidense foi duplamente morto. Primeiro, no socorro das v\u00edtimas dos ataques de 11 de setembro, proferidos pela rede wahabita composta por ex-aliados dos EUA; depois, pela direita midi\u00e1tica que difamou seu nome e o de sua fam\u00edlia. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Altmuslim.com<\/small><\/figure>\n<p>20 de agosto de 2010, coluna semanal de Amy Goodman <\/p>\n<p>Salman Hamdani faleceu em 11 de setembro de 2001. O assistente de pesquisa da Universidade Rockefeller tinha 23 anos e era graduado em bioqu&iacute;mica. Tamb&eacute;m tinha forma&ccedil;&atilde;o de t&eacute;cnico em medicina de emerg&ecirc;ncia e era cadete (novato) do Departamento de Pol&iacute;cia de Nova York. Mas nesse dia nunca chegou ao seu trabalho. Hamdani, um mu&ccedil;ulmano estadunidense, foi um dos primeiros socorristas a chegar naquele dia. Correu para a Zona Zero do WTC para salvar a outros. Seu ato de altru&iacute;smo custou-lhe a vida.<\/p>\n<p>Hamdani, mais tarde, recebeu uma distin&ccedil;&atilde;o como her&oacute;i pelo Presidente George W. Bush e seu nome foi mencionado na Lei Patriota dos Estados Unidos. Mas n&atilde;o foi dessa forma que os meios de comunica&ccedil;&atilde;o o descreveram imediatamente ap&oacute;s o 11 de setembro. Em outubro daquele ano seus pais foram &agrave; Meca rezar por seu filho. Enquanto estavam fora do pa&iacute;s, o New York Post, assim como outros ve&iacute;culos, descrevia a Hamdani como um dos poss&iacute;veis terroristas que haveria escapado. A chamada de capa do New York Post anunciava em letras garrafais: &ldquo;DESAPARECIDO OU ESCONDIDO? O MIST&Eacute;RIO DO CADETE PAQUISTAN&Ecirc;S DA POL&Iacute;CIA DE NOVA YORK&rdquo;. O artigo sensacionalista dizia que algu&eacute;m muito parecido com a descri&ccedil;&atilde;o dada de Hamdani tinha sido visto cerca do T&uacute;nel Midtown um m&ecirc;s ap&oacute;s o 11 de setembro. Sua fam&iacute;lia foi interrogada, e agentes da ordem pesquisaram as p&aacute;ginas navegadas por ele na Internet e tamb&eacute;m as inclina&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas de Hamdani. <\/p>\n<p>Seus pais, Talat e Saleem Hamdani, o tinham procurado desesperadamente nos hospitais, logo ap&oacute;s o 11 de setembro, checando as listas de falecidos e de feridos. &ldquo;S&oacute; o que faz&iacute;amos era busc&aacute;-lo, sem parar, em cada canto onde havia hospitais. Fomos &agrave; Nova Jersey, fomos a todos os hospitais. Alguns pacientes tinham perdido a mem&oacute;ria&rdquo;, disse sua m&atilde;e, Talat. &ldquo;T&iacute;nhamos a esperan&ccedil;a de que ele fosse um deles e de que pud&eacute;ssemos o identificar&rdquo;. <\/p>\n<p>Os sinistros relat&oacute;rios sobre Salman Hamdani foram caracter&iacute;sticos da crescente e aberta intoler&acirc;ncia contra os &aacute;rabes-estadunidenses, os mu&ccedil;ulmanos-estadunidenses e as pessoas de ascend&ecirc;ncia sul-asi&aacute;tica. Talat, que naquele momento trabalhava como professora prim&aacute;ria, me contou que os meninos de sua fam&iacute;lia tiveram que mudar seus nomes pr&oacute;prios por nomes anglo-sax&otilde;es para evitar ser discriminados: <\/p>\n<p>&ldquo;Temos sobrinhas e sobrinhos. Estavam no segundo grau. E, creiam-me, mudaram seus nomes. Armeen passou a chamar-se Amy, e um sobrinho passou a se chamar Mickey e o outro Mikey e o quarto passou a se chamar Adam. E perguntamos-lhes, &rsquo;Por que mudaram seus nomes?&rsquo; E disseram &rsquo;porque n&atilde;o queremos que nos chamem terroristas na escola&rsquo;&rdquo;. <\/p>\n<p>Em 20 de mar&ccedil;o de 2002, a fam&iacute;lia Hamdani recebeu a not&iacute;cia de que o DNA de Salman tinha sido achado na Zona Zero, e que por tanto era oficialmente uma das v&iacute;timas dos ataques. Em seu funeral, realizado no Centro Comunit&aacute;rio Isl&acirc;mico, localizado na rua 96, zona Leste de Manhattan, falaram o Prefeito Michael Bloomberg, o Chefe de Pol&iacute;cia Ray Kelly e o congressista Gary Ackerman. <\/p>\n<p>O que nos leva &agrave; atual pol&ecirc;mica sobre a proposta de construir um centro comunit&aacute;rio isl&acirc;mico, projetado no n&uacute;mero 51 de Park Place na zona do Baixo Manhattan. Vale aclarar que o lugar n&atilde;o &eacute; uma mesquita, e n&atilde;o &eacute; na Zona Zero (est&aacute; a umas quadras de dist&acirc;ncia). A Iniciativa C&oacute;rdoba, o grupo sem fins lucrativos que impulsiona o projeto, o descreve como um &ldquo;centro comunit&aacute;rio, muito parecido com a Associa&ccedil;&atilde;o Crist&atilde; de Mo&ccedil;os ou ao Centro Comunit&aacute;rio Judeu, onde as pessoas de qualquer f&eacute; podem utilizar suas instala&ccedil;&otilde;es. Al&eacute;m de um gin&aacute;sio, a Casa de C&oacute;rdoba ter&aacute; uma piscina, um restaurante, um audit&oacute;rio para 500 pessoas, um monumento comemorativo do 11 de setembro, uma capela para diferentes religi&otilde;es, um espa&ccedil;o de escrit&oacute;rios e salas de confer&ecirc;ncias e um espa&ccedil;o para rezar&rdquo;. <\/p>\n<p>A oposi&ccedil;&atilde;o ao centro comunit&aacute;rio come&ccedil;ou em blogs marginais de direita, e desde ent&atilde;o tem chegado aos meios massivos de comunica&ccedil;&atilde;o. Enquanto os multi-milhon&aacute;rios agentes da especula&ccedil;&atilde;o imobili&aacute;ria discutem o que fazer na Zona Zero, o oco, o vazio que ali ficou ainda nem foi preenchido. Por outro lado, o costumeiro vazio de not&iacute;cias durante o m&ecirc;s de agosto (ver&atilde;o no hemisf&eacute;rio norte) foi preenchido com a pol&ecirc;mica da &ldquo;Mesquita da Zona Zero&rdquo;, como eles mesmos a chamam. <\/p>\n<p>H&aacute; outro vazio que deve ser preenchido; a saber: a aus&ecirc;ncia de referentes nos Estados Unidos de todas as profiss&otilde;es e condi&ccedil;&otilde;es sociais e de todo o espectro pol&iacute;tico que defendam a liberdade de religi&atilde;o e se expressem contra o racismo. Como disse uma vez o Reverendo Martin Luther King Jr.: &ldquo;Ao final, n&atilde;o recordaremos as palavras de nossos inimigos, sen&atilde;o o sil&ecirc;ncio de nossos amigos&rdquo;. <\/p>\n<p>Algu&eacute;m diria, em tom s&eacute;rio e veemente, que n&atilde;o deveria existir uma igreja crist&atilde; perto do Edif&iacute;cio Federal da cidade de Oklahoma, a mesma em que Timothy McVeigh realizou seu atentado com carro-bomba (obs. do tradutor: destruindo um edif&iacute;cio federal em 19 de abril de 1995, levando a morte de 168 vidas, incluindo 19 crian&ccedil;as abaixo de 6 anos e ferindo outras 680 pessoas), s&oacute; porque McVeigh era crist&atilde;o? <\/p>\n<p>As pessoas que est&atilde;o na contram&atilde;o do &oacute;dio n&atilde;o s&atilde;o uma minoria marginal, e tampouco uma maioria silenciosa. &Eacute; uma maioria silenciada. Silenciada pelos &ldquo;opin&oacute;logos&rdquo; e pseudo-intelectuais que levam a cabo este debate nos ve&iacute;culos de comunica&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>O &oacute;dio provoca viol&ecirc;ncia. A marginaliza&ccedil;&atilde;o de uma popula&ccedil;&atilde;o inteira, de uma religi&atilde;o inteira, n&atilde;o &eacute; algo bom para nosso pa&iacute;s. P&otilde;e em perigo aos mu&ccedil;ulmanos nos Estados Unidos, e gera rancor para os Estados Unidos no resto do mundo. <\/p>\n<p>Quando perguntei a Daisy Khan, diretora executiva da Sociedade Estadunidense para o Avan&ccedil;o Mu&ccedil;ulmano, uma das organiza&ccedil;&otilde;es que co-patrocinam o centro comunit&aacute;rio proposto, se ela temia por sua vida, pela de seus filhos ou pelos mu&ccedil;ulmanos de Nova York, respondeu &ldquo;Temo por meu pa&iacute;s&rdquo;. <\/p>\n<p>&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&mdash;&ndash; <\/p>\n<p>Denis Moynihan colaborou na produ&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica desta coluna. <\/p>\n<p>&copy; 2010 Amy Goodman <\/p>\n<p>Texto traduzido do castelhano e revisado do original em ingl&ecirc;s por Bruno Lima Rocha; originalmente publicado em portugu&ecirc;s por Estrat&eacute;gia &amp; An&aacute;lise <\/p>\n<p>Amy Goodman &eacute; a &acirc;ncora de Democracy Now!, um notici&aacute;rio internacional transmitido diariamente em mais de 550 emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o em ingl&ecirc;s e em mais de 250 em espanhol. &Eacute; co-autora do livro &quot;Os que lutam contra o sistema: Her&oacute;is ordin&aacute;rios em tempos extraordin&aacute;rios nos Estados Unidos&quot;, editado por Le Monde Diplomatique Cono Sur.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Salman Hamdani, filho da primeira gera\u00e7\u00e3o de imigrantes paquistaneses em busca da sobreviv\u00eancia e da realiza\u00e7\u00e3o do sonho americano; este mu\u00e7ulmano estadunidense foi duplamente morto. 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