{"id":10532,"date":"2011-06-30T22:15:21","date_gmt":"2011-06-30T22:15:21","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1470"},"modified":"2011-06-30T22:15:21","modified_gmt":"2011-06-30T22:15:21","slug":"para-uma-teoria-libertaria-do-poder-iii-foucault-e-o-poder-nos-diversos-niveis-e-esferas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10532","title":{"rendered":"Para uma Teoria Libert\u00e1ria do Poder (III): Foucault e o poder nos diversos n\u00edveis e esferas"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/mutirao\" title=\"O poder pode e deve ser dilu\u00eddo entre semelhantes; uma destas possibilidades se d\u00e1 atrav\u00e9s de sistemas de trabalho coletivo e horizontalizados, tais como os exerc\u00edcios dos mutir\u00f5es como refor\u00e7o da identidade e dos valores coletivistas.  - Foto:historiadeindaiatuba \" alt=\"O poder pode e deve ser dilu\u00eddo entre semelhantes; uma destas possibilidades se d\u00e1 atrav\u00e9s de sistemas de trabalho coletivo e horizontalizados, tais como os exerc\u00edcios dos mutir\u00f5es como refor\u00e7o da identidade e dos valores coletivistas.  - Foto:historiadeindaiatuba \" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">O poder pode e deve ser dilu\u00eddo entre semelhantes; uma destas possibilidades se d\u00e1 atrav\u00e9s de sistemas de trabalho coletivo e horizontalizados, tais como os exerc\u00edcios dos mutir\u00f5es como refor\u00e7o da identidade e dos valores coletivistas. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:historiadeindaiatuba <\/small><\/figure>\n<p><em>Felipe Corr&ecirc;a<\/em><\/p>\n<p>&ldquo;Para uma Teoria Libert&aacute;ria do Poder&rdquo; &eacute; uma s&eacute;rie de resenhas elaboradas sobre artigos ou livros de autores do campo libert&aacute;rio que discutem o poder. Seu objetivo &eacute; apresentar uma leitura contempor&acirc;nea de autores que v&ecirc;m tratando o tema em quest&atilde;o e trazer elementos para a elabora&ccedil;&atilde;o de uma <em>teoria libert&aacute;ria do poder,<\/em> que poder&aacute; contribuir na elabora&ccedil;&atilde;o de um m&eacute;todo de an&aacute;lise da realidade e de estrat&eacute;gias de bases libert&aacute;rias, a serem utilizadas por indiv&iacute;duos e organiza&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Neste terceiro artigo da s&eacute;rie, utilizarei para discuss&atilde;o um conjunto de artigos de Michel Foucault presentes em dois livros: <em>Microf&iacute;sica do Poder e Estrat&eacute;gia Poder-Saber<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ainda que as reflex&otilde;es de Foucault sobre o poder estejam presentes em diversos livros e artigos, ligados sempre &agrave; maneira pr&aacute;tica que ele encontra para a aplica&ccedil;&atilde;o de suas an&aacute;lises &ndash; em casos espec&iacute;ficos do poder na medicina, na psiquiatria, na sexualidade, etc. &ndash;, tentarei extrair, em linhas gerais, os principais argumentos te&oacute;ricos de sua discuss&atilde;o sobre o poder desses textos, sem discutir suas aplica&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas.[1]<\/p>\n<p>&Eacute; importante ter em mente que os pontos de vista aqui colocados constituem <em>muito mais uma hip&oacute;tese<\/em> sobre a teoria de Foucault sobre o poder do que uma s&iacute;ntese que interpreta profundamente o conjunto de seu pensamento. Seria imposs&iacute;vel realizar uma interpreta&ccedil;&atilde;o ampla de suas posi&ccedil;&otilde;es acerca do poder sem a leitura da maior parte de sua obra, o que outros autores fizeram muito bem a meu ver.[2] Portanto, meu objetivo com o artigo n&atilde;o &eacute; dar uma id&eacute;ia sobre a concep&ccedil;&atilde;o geral de poder em Foucault, mas constituir uma hip&oacute;tese, fundamentada na bibliografia citada, de elementos que contribuam de maneira mais ampla com uma teoria libert&aacute;ria do poder. Realizarei, nesse sentido, exerc&iacute;cios te&oacute;ricos com o intuito de responder quest&otilde;es que o pr&oacute;prio autor n&atilde;o respondeu em seu tempo, e certamente teve seus motivos para isso. Finalmente, farei uma leitura desses artigos utilizando-me de categorias que n&atilde;o pertencem ao campo de an&aacute;lise de Foucault; assim, ser&aacute; evidente o enquadramento e a classifica&ccedil;&atilde;o com base em categorias exteriores ao seu sistema te&oacute;rico, e que podem n&atilde;o lhe ser familiares ou mesmo ter diverg&ecirc;ncias de sua parte. O que, a meu ver n&atilde;o invalida a an&aacute;lise realizada.[3]<\/p>\n<p><strong>A necessidade de instrumentos para a an&aacute;lise do poder<\/strong><\/p>\n<p>Foucault acredita que h&aacute; uma necessidade central de se &ldquo;pensar esse problema do poder&rdquo;, assim como a &ldquo;aus&ecirc;ncia de instrumentos conceituais para pens&aacute;-lo&rdquo;[EPS, p. 226]; ou seja, haveria a &ldquo;insufici&ecirc;ncia de uma an&aacute;lise estrat&eacute;gica pr&oacute;pria &agrave; luta pol&iacute;tica &ndash; &agrave; luta no campo do poder pol&iacute;tico&rdquo;[EPS, p. 251]. Para ele, &ldquo;o poder, em suas estrat&eacute;gias, ao mesmo tempo gerais e sutis, em seus mecanismos, nunca foi muito estudado&rdquo;.[MP, p. 141] &Eacute; nesse sentido que considera um de seus principais problemas te&oacute;ricos, &ldquo;forjar instrumentos de an&aacute;lise [&#8230;] sobre a realidade que nos &eacute; contempor&acirc;nea e sobre n&oacute;s mesmos&rdquo;[EPS, p. 240]. <\/p>\n<p>Uma teoria sobre o poder, nesse sentido, teria como papel &ldquo;n&atilde;o formular a sistem&aacute;tica global que rep&otilde;e tudo no lugar, mas analisar a especificidade dos mecanismos de poder, balizar as liga&ccedil;&otilde;es, as extens&otilde;es, edificar pouco a pouco um saber estrat&eacute;gico&rdquo;[EPS, p. 251]. Esse &eacute; o foco te&oacute;rico que Foucault d&aacute; para suas an&aacute;lises do poder: uma produ&ccedil;&atilde;o que prioriza o micro em rela&ccedil;&atilde;o ao macro e considera, como se discutir&aacute; adiante, que a estrutura&ccedil;&atilde;o da sociedade possui uma determina&ccedil;&atilde;o ao mesmo tempo de cima para baixo &ndash; das grandes institui&ccedil;&otilde;es e rela&ccedil;&otilde;es de poder para os n&iacute;veis mais b&aacute;sicos e simples das rela&ccedil;&otilde;es sociais &ndash; e de baixo para cima, no sentido contr&aacute;rio; o mesmo movimento que se d&aacute; entre centro e periferia. Se &eacute; verdade que os te&oacute;ricos cl&aacute;ssicos da pol&iacute;tica investiram significativamente nesse &ldquo;macro-n&iacute;vel&rdquo; das rela&ccedil;&otilde;es de poder, Foucault prioriza, distintamente, o &ldquo;micro-n&iacute;vel&rdquo; dessas rela&ccedil;&otilde;es, e essa &eacute; uma de suas grandes inova&ccedil;&otilde;es no estudo do poder. <\/p>\n<p>Para tanto, ele prop&otilde;e que se conceba a &ldquo;teoria como uma caixa de ferramentas&rdquo;, o que significa &ldquo;que se trata de construir n&atilde;o um sistema, mas um instrumento: uma l&oacute;gica pr&oacute;pria &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es de poder e &agrave;s lutas que se engajam em torno delas&rdquo;, e, ao mesmo tempo &ldquo;que essa pesquisa s&oacute; pode se fazer aos poucos, a partir de uma reflex&atilde;o (necessariamente hist&oacute;rica em algumas de suas dimens&otilde;es) sobre situa&ccedil;&otilde;es dadas&rdquo;.[EPS, p. 251] Essa concep&ccedil;&atilde;o da teoria como caixa de ferramentas implica, assim, um conjunto de instrumentos que, de acordo com uma situa&ccedil;&atilde;o dada, pode-se utilizar, tendo por objetivo uma an&aacute;lise determinada e que serve para algumas situa&ccedil;&otilde;es, mas n&atilde;o necessariamente para todas. Foucault enfatiza ainda a necessidade de que a pesquisa sobre as rela&ccedil;&otilde;es de poder utilize-se de uma abordagem hist&oacute;rica, o que me parece constituir uma rejei&ccedil;&atilde;o de esquemas puramente sociol&oacute;gicos, que poderiam ser aplicados em qualquer circunst&acirc;ncia, independente dos fatores tempo e lugar: &ldquo;se o objetivo for construir uma teoria do poder, haver&aacute; sempre a necessidade de consider&aacute;-lo como algo que surgiu em um determinado ponto e em um determinado momento, de que se dever&aacute; fazer a g&ecirc;nese e depois a dedu&ccedil;&atilde;o&rdquo;.[MP, p. 248]<\/p>\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o a essa elabora&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica, recomenda Foucault: &ldquo;qualquer um que tente fazer qualquer coisa &ndash; elaborar uma an&aacute;lise, por exemplo, ou formular uma teoria &ndash; deve ter uma id&eacute;ia clara da maneira como quer que sua an&aacute;lise ou sua teoria sejam utilizadas; deve saber a que fins ele almeja ver se aplicar a ferramenta que ele fabrica &ndash; que ele pr&oacute;prio fabrica &ndash;, e de que maneira ele quer que suas ferramentas se unam &agrave;quelas fabricadas por outros, no mesmo momento. Considero muito importantes as rela&ccedil;&otilde;es entre a conjuntura presente e o que fazemos no interior de um quadro te&oacute;rico. &Eacute; preciso ter essas rela&ccedil;&otilde;es de modo bem claro na mente. N&atilde;o se podem fabricar ferramentas para n&atilde;o importa o qu&ecirc;; &eacute; preciso fabric&aacute;-las para um fim preciso.&rdquo; Portanto, essa recomenda&ccedil;&atilde;o implica que o te&oacute;rico tenha em mente a finalidade da ferramenta que elabora e saiba como essa ferramenta relaciona-se com a conjuntura que deseja analisar. <\/p>\n<p>Constatando a insufici&ecirc;ncia de instrumentos conceituais para uma an&aacute;lise mais aprofundada do poder, Foucault prop&otilde;e, para suprir essa lacuna, a elabora&ccedil;&atilde;o de uma <em>teoria <\/em>que ofere&ccedil;a <em>ferramentas capazes de proporcionar a devida compreens&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de poder<\/em>. &ldquo;Se o poder na realidade &eacute; um feixe aberto, mais ou menos coordenado (e sem d&uacute;vida mal coordenado) de rela&ccedil;&otilde;es&rdquo;, coloca, &ldquo;ent&atilde;o o &uacute;nico problema &eacute; munir-se de princ&iacute;pios de an&aacute;lise que permitam uma anal&iacute;tica das rela&ccedil;&otilde;es de poder&rdquo;.[MP, p. 248]<br \/>\n<strong><br \/>\nQuest&otilde;es centrais para a compreens&atilde;o do poder<\/strong><\/p>\n<p>Seria poss&iacute;vel perguntar: o poder n&atilde;o &eacute; um tema central das ci&ecirc;ncias humanas em geral e das ci&ecirc;ncias sociais em particular, que vem sendo estudado h&aacute; s&eacute;culos? De certa maneira sim. No entanto, Foucault acredita que as formula&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas que buscaram constituir ferramentas para as an&aacute;lises do poder possuem s&eacute;rias limita&ccedil;&otilde;es. Buscando trabalhar sobre esse conjunto te&oacute;rico para a compreens&atilde;o mais adequada e completa do poder, ele aprofunda as an&aacute;lises cl&aacute;ssicas sobre o tema, agregando novos elementos que permitem uma compreens&atilde;o mais significativa da quest&atilde;o. Creio, nesse sentido, que a <em>maior contribui&ccedil;&atilde;o de Foucault <\/em>seja a elabora&ccedil;&atilde;o de uma <em>teoria que complemente as an&aacute;lises cl&aacute;ssicas do poder<\/em>, ainda que, em alguns casos, sua teoria negue aspectos centrais dessas teorias cl&aacute;ssicas.<\/p>\n<p>As quest&otilde;es centrais, para Foucault, s&atilde;o: 1. <em>O que<\/em> s&atilde;o o poder e as rela&ccedil;&otilde;es de poder? 2. <em>Onde <\/em>est&aacute; o poder e aonde se d&atilde;o as rela&ccedil;&otilde;es de poder? 3. <em>Como <\/em>se constitui o poder e como funcionam as rela&ccedil;&otilde;es de poder? Ainda que o autor n&atilde;o sistematize dessa forma, creio que essa forma esquem&aacute;tica permite uma apresenta&ccedil;&atilde;o mais did&aacute;tica, que facilita a compreens&atilde;o.<\/p>\n<p>As quest&otilde;es te&oacute;ricas s&atilde;o trazidas por Foucault no bojo de uma reflex&atilde;o sobre seus objetos de estudo (medicina, psiquiatria, pris&otilde;es, sexualidade, etc.). Ao mesmo tempo em que ele realiza cr&iacute;ticas de abordagens anteriores, formula seus pr&oacute;prios pontos de vista, os quais se constituem, em grande medida, visando suprir as lacunas deixadas por teorias anteriormente concebidas. Por isso o car&aacute;ter muitas vezes dicot&ocirc;mico da apresenta&ccedil;&atilde;o das id&eacute;ias que farei; por um lado criticam e por outro prop&otilde;em. Utilizarei essas dicotomias para explicitar, quando da elabora&ccedil;&atilde;o de um aspecto te&oacute;rico, quais s&atilde;o as suas posi&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p><strong>O poder e as rela&ccedil;&otilde;es de poder<\/strong><\/p>\n<p><em>O poder como produ&ccedil;&atilde;o<\/em><\/p>\n<p>Foucault acredita que muitas an&aacute;lises do poder tentam vincul&aacute;-lo a uma concep&ccedil;&atilde;o fundamentalmente negativa, repressiva, &ldquo;de redu&ccedil;&atilde;o dos procedimentos de poder &agrave; lei de interdi&ccedil;&atilde;o&rdquo;[EPS, p. 246] &ndash; dando, por esse motivo, ao poder, uma conota&ccedil;&atilde;o freq&uuml;entemente jur&iacute;dica e repressiva, associando-o muitas vezes ao Estado. Para ele, em geral, nessas an&aacute;lises, &ldquo;o problema &eacute; sempre apresentado nos mesmos termos: um poder essencialmente negativo que sup&otilde;e, de um lado, um soberano, cujo papel &eacute; o de interditar e, do outro, um sujeito que deve, de uma certa maneira, dizer sim a essa interdi&ccedil;&atilde;o&rdquo;.[EPS, p. 247] Essa abordagem, do poder essencialmente como elemento de nega&ccedil;&atilde;o, para Foulcault, possui tr&ecirc;s papeis fundamentais: 1.) &ldquo;Ela permite fazer um esquema do poder que &eacute; homog&ecirc;neo n&atilde;o importa em que n&iacute;vel nos coloquemos e seja qual for o dom&iacute;nio (fam&iacute;lia ou Estado, rela&ccedil;&atilde;o de educa&ccedil;&atilde;o ou de produ&ccedil;&atilde;o.&rdquo; 2.) &ldquo;Ela permite nunca pensar o poder sen&atilde;o em termos negativos: recusa, delimita&ccedil;&atilde;o, barreira, censura. O poder &eacute; o que diz n&atilde;o. E o enfrentamento com o poder assim concebido s&oacute; aparece como transgress&atilde;o.&rdquo; 3.) &ldquo;Ela permite pensar a opera&ccedil;&atilde;o fundamental do poder como um ato de fala: enuncia&ccedil;&atilde;o da lei, discurso da interdi&ccedil;&atilde;o. A manifesta&ccedil;&atilde;o do poder reveste a forma pura do &lsquo;tu n&atilde;o deves&rsquo;.&rdquo;[EPS, p. 246]<\/p>\n<p>Por meio dos argumentos apresentados, Foucault vai negar essa abordagem que conceitua o poder somente pela nega&ccedil;&atilde;o. Para ele, o poder pode at&eacute; ser nega&ccedil;&atilde;o, mas &eacute;, fundamentalmente, produ&ccedil;&atilde;o, constru&ccedil;&atilde;o: &ldquo;o interdito, a recusa, a proibi&ccedil;&atilde;o, longe de serem as formas essenciais do poder, s&atilde;o apenas seus limites, as formas frustradas ou extremas. As rela&ccedil;&otilde;es de poder s&atilde;o, antes de tudo, produtivas.&rdquo;[MP, p. 236] <\/p>\n<p>A abordagem exclusivamente negativa do poder, nesse sentido, seria inadequada: &ldquo;a no&ccedil;&atilde;o de repress&atilde;o &eacute; totalmente inadequada para dar conta do que existe justamente de produtor no poder. Quando se define os efeitos do poder pela repress&atilde;o, tem-se uma concep&ccedil;&atilde;o puramente jur&iacute;dica deste mesmo poder; identifica-se o poder a uma lei que diz n&atilde;o. O fundamental seria a for&ccedil;a da proibi&ccedil;&atilde;o.&rdquo;[MP, pp. 7-8] Na realidade, o autor acredita que a no&ccedil;&atilde;o de poder como nega&ccedil;&atilde;o foi aceita de maneira generalizada, o que lhe parece um erro crasso; essa no&ccedil;&atilde;o negativa do poder &eacute; &ldquo;estreita e esquel&eacute;tica&rdquo;.[MP, p. 8] <\/p>\n<p>&ldquo;Se o poder fosse somente repressivo&rdquo;, questiona, &ldquo;se n&atilde;o fizesse outra coisa a n&atilde;o ser dizer n&atilde;o, voc&ecirc; acredita que seria obedecido?&rdquo; Foucault acredita que n&atilde;o; &ldquo;o que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito &eacute; simplesmente que ele n&atilde;o pesa s&oacute; como uma for&ccedil;a que diz n&atilde;o, mas que de fato <em>permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso<\/em>. Deve-se consider&aacute;-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma inst&acirc;ncia negativa que tem por fun&ccedil;&atilde;o reprimir.&rdquo;[Ibid.] &ldquo;Se o poder s&oacute; tivesse a fun&ccedil;&atilde;o de reprimir, se agisse apenas por meio da censura, da exclus&atilde;o do impedimento, do recalcamento, &agrave; maneira de um grande super-ego, se apenas se exercesse de um modo negativo, ele seria muito fr&aacute;gil. Se ele &eacute; forte, &eacute; porque produz efeitos positivos a n&iacute;vel do desejo &ndash; como se come&ccedil;a a conhecer &ndash; e tamb&eacute;m a n&iacute;vel do saber. O poder, longe de impedir o saber, o produz.&rdquo;[MP, p. 148]<\/p>\n<p>Portanto, o primeiro aspecto relevante da teoria de Foucault para se pensar ao poder &eacute; recha&ccedil;ar <em>seu aspecto essencialmente negativo &ndash; definido exclusivamente em termos jur&iacute;dicos, repressivos e, frequentemente, de Estado &ndash; e assumir que o poder permeia as rela&ccedil;&otilde;es sociais, produzindo, induzindo, constituindo. Assim, o poder pode possuir aspectos de nega&ccedil;&atilde;o, mesmo que nunca se resuma a eles, visto que ele envolve, acima de tudo, a produ&ccedil;&atilde;o<\/em>.<\/p>\n<p><em>O poder como rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a<\/em><\/p>\n<p>Para Foucault, em sua &eacute;poca, as abordagens sobre o poder provindas tanto do campo da direita como da esquerda eram insuficientes: &ldquo;N&atilde;o vejo quem &ndash; na direita ou na esquerda &ndash; poderia ter colocado este problema do poder. Pela direita, estava somente colocado em termos de constitui&ccedil;&atilde;o, de soberania, etc., portanto em termos jur&iacute;dicos; e, pelo marxismo, em termos de aparelho do Estado. Ningu&eacute;m se preocupava com a forma como ele se exercia concretamente e em detalhe, com sua especificidade, suas t&eacute;cnicas e suas t&aacute;ticas&rdquo;. Ainda que, aparentemente, se tratasse do tema, ele acredita que &ldquo;a mec&acirc;nica do poder nunca era analisada&rdquo;. Situa&ccedil;&atilde;o que, segundo sustenta, s&oacute; se modificaria no fim dos anos 1960: &ldquo;S&oacute; se p&ocirc;de come&ccedil;ar a fazer este trabalho depois de 1968, isto &eacute;, a partir das lutas cotidianas e realizadas na base com aqueles que tinham que se debater nas malhas mais finas da rede do poder. Foi a&iacute; que apareceu a concretude do poder e ao mesmo tempo a fecundidade poss&iacute;vel destas an&aacute;lises do poder, que tinham como objetivo dar conta destas coisas que at&eacute; ent&atilde;o tinham ficado &agrave; margem do campo da an&aacute;lise pol&iacute;tica.&rdquo;[MP, p. 6]<\/p>\n<p>Para que as an&aacute;lises do poder fossem realizadas a contento, o modelo que se ap&oacute;ia nas solu&ccedil;&otilde;es eminentemente jur&iacute;dicas &ndash; que trata a problem&aacute;tica do poder somente em termos de constitui&ccedil;&atilde;o, lei, proibi&ccedil;&atilde;o etc. &ndash; deveria ser descartado, pois &ldquo;foi muito utilizado e mostrou [&#8230;] ser inadequado&rdquo;. Ainda que trabalhando com hip&oacute;teses, Foucault afirma que, por essa insufici&ecirc;ncia de modelo, pareceria mais adequado outro modelo, que ele chama de &ldquo;guerreiro ou estrat&eacute;gico&rdquo;, ou seja, aquele que se fundamenta nas &ldquo;rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as&rdquo;.<\/p>\n<p>Conceber o poder a partir das rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as o leva a trabalhar com a jun&ccedil;&atilde;o de duas hip&oacute;teses: &ldquo;por um lado, os mecanismos de poder seriam de tipo repressivo, id&eacute;ia que chamarei por comodidade de hip&oacute;tese de Reich; por outro lado, a base das rela&ccedil;&otilde;es de poder seria o confronto belicoso de for&ccedil;as, id&eacute;ia que chamarei, tamb&eacute;m por comodidade, de hip&oacute;tese de Nietzsche&rdquo;. Duas hip&oacute;teses que, segundo acredita, &ldquo;n&atilde;o s&atilde;o inconcili&aacute;veis&rdquo; e &ldquo;parecem se articular&rdquo;.[MP, p. 176] Essa concep&ccedil;&atilde;o do poder, a partir das hip&oacute;teses de Reich e Nietzsche, diferencia-se de uma outra &ndash; mais cl&aacute;ssica, se poderia dizer, utilizada por fil&oacute;sofos do s&eacute;culo XVIII &ndash;, que se fundamenta no &ldquo;poder como direito origin&aacute;rio que se cede, constitutivo da soberania, tendo o contrato como motriz&rdquo;.[MP, p. 177] Concebido dessa maneira, o poder se fundamentaria na id&eacute;ia de um contrato e os excessos ou rompimentos desse contrato poderiam levar esse poder a tornar-se opressivo. <\/p>\n<p>As hip&oacute;teses de Reich e Nietzsche &ndash; distintamente dessa concep&ccedil;&atilde;o contratual de poder &ndash; buscariam &ldquo;analisar o poder pol&iacute;tico, n&atilde;o mais segundo o esquema contrato-opress&atilde;o, mas segundo o esquema guerra-repress&atilde;o; neste sentido, a repress&atilde;o n&atilde;o seria mais o que era a opress&atilde;o com respeito ao contrato, isto &eacute;, um abuso, mas, ao contr&aacute;rio, o simples efeito e a simples continua&ccedil;&atilde;o de uma rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o. A repress&atilde;o seria a pr&aacute;tica, no interior desta pseudo-paz, de uma rela&ccedil;&atilde;o perp&eacute;tua de for&ccedil;a.&rdquo;[Ibid.] Na realidade, Foucault acredita que Nietzsche trouxe contribui&ccedil;&otilde;es relevantes para o estudo das rela&ccedil;&otilde;es de poder, sendo, por isso, &ldquo;um fil&oacute;sofo do poder, mas que chegou a pensar o poder sem se fechar no interior de uma teoria pol&iacute;tica&rdquo;.[MP, p. 143]<\/p>\n<p>Tateando para buscar responder a primeira quest&atilde;o central sobre o poder &ndash; O que s&atilde;o o poder e as rela&ccedil;&otilde;es de poder? &ndash;, Foucault coloca que &ldquo;talvez ainda n&atilde;o se saiba o que &eacute; o poder&rdquo;.[MP, p. 75] Suas investiga&ccedil;&otilde;es, em grande medida, v&atilde;o buscar compreender as rela&ccedil;&otilde;es de poder &ndash; como colocado, fundamentalmente em seus n&iacute;veis mais &ldquo;micro&rdquo; &ndash; para que se chegue a uma resposta adequada para a dif&iacute;cil quest&atilde;o. Apesar dessa retic&ecirc;ncia em apontar inicialmente um conceito bem definido, Foucault continua as reflex&otilde;es e traz elementos relevantes para se pensar a quest&atilde;o. Um primeiro aspecto, negado inicialmente, &eacute; que n&atilde;o se pode conceber o poder simplesmente como um sin&ocirc;nimo de Estado: &ldquo;a teoria do Estado, a an&aacute;lise tradicional dos aparelhos de Estado sem d&uacute;vida n&atilde;o esgotam o campo de exerc&iacute;cio e de funcionamento do poder&rdquo;.[Ibid.] Assim, seria necess&aacute;rio conceber uma defini&ccedil;&atilde;o mais ampla, que desse conta de um fen&ocirc;meno que poderia ter rela&ccedil;&otilde;es com o Estado, mas que n&atilde;o se resumisse a ele. Similarmente, o autor acredita que n&atilde;o seria poss&iacute;vel conceber o poder somente em termos econ&ocirc;micos.<\/p>\n<p>Assim, buscando uma defini&ccedil;&atilde;o do poder dentro desses pressupostos, Foucault fundamenta-se na hip&oacute;tese de Nietzsche colocada anteriormente para questionar: &ldquo;se o poder &eacute;, em si pr&oacute;prio, ativa&ccedil;&atilde;o e desdobramento de uma rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a [&#8230;], n&atilde;o dever&iacute;amos analis&aacute;-lo, acima de tudo, em termos de combate, de confronto e de guerra?&rdquo;. Trabalhar com essa hip&oacute;tese, significaria &ldquo;que o poder &eacute; guerra, guerra prolongada por outros meios.&rdquo; A cl&aacute;ssica posi&ccedil;&atilde;o de Clausewitz, de que &ldquo;a guerra &eacute; continua&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;tica por outros meios&rdquo;, seria, assim, invertida, podendo-se afirmar &ldquo;que a pol&iacute;tica &eacute; a guerra prolongada por outros meios&rdquo;[MP, p. 176], invers&atilde;o que implicaria, para Foucault, tr&ecirc;s afirma&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>1) &ldquo;Que as rela&ccedil;&otilde;es de poder nas sociedades atuais t&ecirc;m essencialmente por base uma rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a estabelecida, em um momento historicamente determin&aacute;vel, na guerra e pela guerra. E se &eacute; verdade que o poder pol&iacute;tico acaba a guerra, tenta impor a paz na sociedade civil, n&atilde;o &eacute; para suspender os efeitos da guerra ou neutralizar os desequil&iacute;brios que se manifestaram na batalha final, mas para reinscrever perpetuamente estas rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a, atrav&eacute;s de uma esp&eacute;cie de guerra silenciosa, nas institui&ccedil;&otilde;es e nas desigualdades econ&ocirc;micas, na linguagem e at&eacute; no corpo dos indiv&iacute;duos. A pol&iacute;tica &eacute; a san&ccedil;&atilde;o e a reprodu&ccedil;&atilde;o do desequil&iacute;brio das for&ccedil;as manifestadas na guerra.&rdquo; <\/p>\n<p>2) &ldquo;Que, no interior desta &lsquo;paz civil&rsquo;, as lutas pol&iacute;ticas, os confrontos a respeito do poder, com o poder e pelo poder, as modifica&ccedil;&otilde;es das rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a em um sistema pol&iacute;tico, tudo isto deve ser interpretado apenas como continua&ccedil;&otilde;es da guerra, como epis&oacute;dios, fragmenta&ccedil;&otilde;es, deslocamentos da pr&oacute;pria guerra. Sempre se escreve a hist&oacute;ria da guerra, mesmo quando se escreve a hist&oacute;ria da paz e de suas institui&ccedil;&otilde;es.&rdquo; <\/p>\n<p>3) &ldquo;Que a decis&atilde;o final s&oacute; pode vir da guerra, de uma prova de for&ccedil;a em que as armas dever&atilde;o ser os juizes. O final da pol&iacute;tica seria a &uacute;ltima batalha, isto &eacute;, s&oacute; a &uacute;ltima batalha suspenderia finalmente o exerc&iacute;cio do poder como guerra prolongada.&rdquo; [Ibid.] <\/p>\n<p>Essas tr&ecirc;s afirma&ccedil;&otilde;es permitem certa an&aacute;lise. A utiliza&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica da guerra e da paz para a explica&ccedil;&atilde;o do poder fundamenta-se no fato de que <em>poder implica for&ccedil;a<\/em>, j&aacute; que, conforme coloca Foucault, <em>rela&ccedil;&otilde;es de poder implicam rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as<\/em>. For&ccedil;as que estariam em <em>disputa<\/em>, em <em>luta permanente<\/em>, em correla&ccedil;&atilde;o e num <em>jogo cont&iacute;nuo e din&acirc;mico<\/em> chamado de guerra, dentro do qual <em>distintas ferramentas e tecnologias<\/em> poderiam ser utilizadas para a amplia&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as. A <em>guerra<\/em>, nesse sentido, n&atilde;o deve ser entendida somente como conflito armado ou militar, mas como <em>disputa e luta permanentes entre as diversas for&ccedil;as em jogo<\/em>, que podem ser mais ou menos evidentes e violentas, mas que sempre existem e possuem um custo para aqueles que det&ecirc;m o poder. <\/p>\n<p>&Eacute; o n&iacute;vel de estabilidade das for&ccedil;as em jogo, conforme elas se assentam, que determina o que se chama mais comumente de situa&ccedil;&atilde;o de &ldquo;guerra&rdquo; ou de &ldquo;paz&rdquo;. Para Foucault, no entanto, a paz n&atilde;o &eacute; mais do que uma situa&ccedil;&atilde;o de guerra estabilizada, em que determinadas for&ccedil;as se imp&otilde;em, ainda que isso aconte&ccedil;a sem o fim das outras for&ccedil;as de menor efic&aacute;cia. Por isso a afirma&ccedil;&atilde;o de que, mesmo na paz h&aacute; guerra, j&aacute; que, ainda que uma for&ccedil;a tenha se imposto na rela&ccedil;&atilde;o, as outras, ou mesmo novas for&ccedil;as, continuar&atilde;o a disputa e a luta, mais ou menos evidentemente. <\/p>\n<p>O conjunto ou o universo de regras que deriva de uma situa&ccedil;&atilde;o de conflito, e portanto da &ldquo;guerra&rdquo;, e que por vezes institui a paz, satisfazem, na realidade, a viol&ecirc;ncia intr&iacute;nseca ao jogo de poder: esse &ldquo;universo de regras [&#8230;] n&atilde;o &eacute; destinado a ado&ccedil;ar, mas ao contr&aacute;rio a satisfazer a viol&ecirc;ncia. Seria um erro acreditar, segundo o esquema tradicional, que a guerra geral, se esgotando em suas pr&oacute;prias contradi&ccedil;&otilde;es, acaba por renunciar &agrave; viol&ecirc;ncia e aceita sua pr&oacute;pria supress&atilde;o nas leis da paz civil. A regra &eacute; o prazer calculado da obstina&ccedil;&atilde;o, &eacute; o sangue prometido. Ela permite reativar sem cessar o jogo da domina&ccedil;&atilde;o; ela p&otilde;e em cena uma viol&ecirc;ncia meticulosamente repetida. O desejo da paz, a do&ccedil;ura do compromisso, a aceita&ccedil;&atilde;o t&aacute;cita da lei, longe de serem a grande convers&atilde;o moral, ou o &uacute;til calculado que deram nascimento &agrave; regra, s&atilde;o apenas seu resultado e, propriamente falando, sua pervers&atilde;o: &lsquo;Falta, consci&ecirc;ncia, dever t&ecirc;m sua emerg&ecirc;ncia no direito de obriga&ccedil;&atilde;o; e em seus come&ccedil;os, como tudo o que &eacute; grande sobre a Terra, foi banhado de sangue&rsquo;.&rdquo;[MP, p. 25] Portanto, para Foucault, a paz &eacute; a institui&ccedil;&atilde;o, ou a pr&oacute;pria institucionaliza&ccedil;&atilde;o da viol&ecirc;ncia da guerra.<\/p>\n<p>&Eacute; nesse sentido que um conjunto de decis&otilde;es s&oacute; pode, realmente, vir da guerra, j&aacute; que as decis&otilde;es surgem a partir do estabelecimento de rela&ccedil;&otilde;es de poder, as quais envolvem todas as for&ccedil;as em jogo. Foucault sustenta que uma<em> rela&ccedil;&atilde;o de poder <\/em>tem por base uma<em> rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a estabelecida<\/em>, ou seja, <em>quando, em uma determinada correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as, alguma delas se imp&otilde;e em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras, h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o de poder, que est&aacute; localizada no tempo e no espa&ccedil;o<\/em>. Por isso Foucault caracteriza a <em>pol&iacute;tica como a interven&ccedil;&atilde;o\/participa&ccedil;&atilde;o em uma determinada correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as, sempre desequilibrada<\/em>, que pode realizar-se em sentido <em>favor&aacute;vel<\/em>, de impulsionar determinada for&ccedil;a, ou no sentido oposto, de <em>cont&ecirc;-la<\/em>. <\/p>\n<p>A hist&oacute;ria, assim, s&oacute; poderia ser uma hist&oacute;ria do poder, forjada nas rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o, respons&aacute;vel por estabelecer, no corpo social, &ldquo;dominadores e dominados. Homens dominam outros homens e &eacute; assim que nasce a diferen&ccedil;a dos valores; classes dominam classes e &eacute; assim que nasce a id&eacute;ia de liberdade; homens se apoderam de coisas das quais eles t&ecirc;m necessidade para viver, eles lhes imp&otilde;em uma dura&ccedil;&atilde;o que elas n&atilde;o t&ecirc;m, ou eles as assimilam pela for&ccedil;a &minus; e &eacute; o nascimento da l&oacute;gica.&rdquo;[MP, pp. 24-25] Um acontecimento hist&oacute;rico, nesse sentido, &eacute; &ldquo;uma rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as que se inverte, um poder confiscado, um vocabul&aacute;rio retomado e voltado contra seus utilizadores, uma domina&ccedil;&atilde;o que se enfraquece, se distende, se envenena e uma outra que faz sua entrada, mascarada.&rdquo;[MP, p. 28] A hist&oacute;ria, a realidade, segundo Foucault, deve ser pensada em termos das rela&ccedil;&otilde;es de poder e, portanto, pode-se inferir que, para ele, o poder o &ldquo;motor da hist&oacute;ria&rdquo;.<\/p>\n<p>Falar que o final da pol&iacute;tica seria a &uacute;ltima batalha, e que s&oacute; essa batalha seria capaz de acabar com a situa&ccedil;&atilde;o de guerra e com o pr&oacute;prio poder, parece uma sutileza de Foucault para dizer que <em>o final da pol&iacute;tica, e do pr&oacute;prio poder, s&oacute; existiria com o fim da hist&oacute;ria<\/em>. <\/p>\n<p>H&aacute;, no sentido colocado, uma prefer&ecirc;ncia de Foucault em n&atilde;o falar em poder, mas em rela&ccedil;&otilde;es de poder, j&aacute; que o poder em si, para ele, n&atilde;o existiria como no&ccedil;&atilde;o apartada da id&eacute;ia de disputa e luta de for&ccedil;as que se imp&otilde;em umas &agrave;s outras. Por isso sua afirma&ccedil;&atilde;o de que &ldquo;as rela&ccedil;&otilde;es de poder s&atilde;o uma rela&ccedil;&atilde;o desigual e relativamente estabilizada de for&ccedil;as&rdquo;[MP, p. 250] e que &ldquo;lutamos todos contra todos&rdquo;[MP, p. 257]. A situa&ccedil;&atilde;o de guerra permanente colocaria todos os indiv&iacute;duos, e suas respectivas for&ccedil;as, em disputa e luta permanente, e por isso ele afirmar&aacute;, como ser&aacute; discutido mais &agrave; frente, que o poder se d&aacute; em todas as esferas e n&iacute;veis, quando h&aacute; imposi&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a em uma determinada rela&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>No entanto, h&aacute; um por&eacute;m: &ldquo;a pura e simples afirma&ccedil;&atilde;o de uma &lsquo;luta&rsquo; n&atilde;o pode servir de explica&ccedil;&atilde;o primeira e &uacute;ltima para a an&aacute;lise das rela&ccedil;&otilde;es de poder. Este tema da luta s&oacute; se torna operat&oacute;rio se for estabelecido concretamente, e em rela&ccedil;&atilde;o a cada caso, quem est&aacute; em luta, a respeito de que, como se desenrola a luta, em que lugar, com quais instrumentos e segundo que racionalidade. Em outras palavras, se o objetivo for levar a s&eacute;rio a afirma&ccedil;&atilde;o de que a luta est&aacute; no centro das rela&ccedil;&otilde;es de poder, &eacute; preciso perceber que a brava e velha &lsquo;l&oacute;gica&rsquo; da contradi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; de forma alguma suficiente para elucidar os processos reais.&rdquo;[MP, p. 226] Uma condi&ccedil;&atilde;o que, segundo coloca Foucault, n&atilde;o foi cumprida pela concep&ccedil;&atilde;o de luta de classes marxista, j&aacute; que aqueles que a formularam &ldquo;se preocuparam principalmente em saber o que &eacute; a classe, onde ela se situa, quem ela engloba e jamais o que concretamente &eacute; a luta&rdquo;[MP, p. 242]; ou seja, teriam dado mais aten&ccedil;&atilde;o ao conceito de classe do que ao conceito de luta. Analisar o poder, e portanto as lutas, implica, portanto, identificar atores que emergem, que entram em cena, um momento em que as for&ccedil;as &ldquo;passam dos bastidores para o teatro&rdquo;, designando &ldquo;um lugar de afrontamento&rdquo;.[MP, p. 24] <\/p>\n<p>A rela&ccedil;&atilde;o do poder com a guerra traz junto outra implica&ccedil;&atilde;o de relev&acirc;ncia, que &eacute; a estrat&eacute;gia, termo ao qual Foucault refere-se com freq&uuml;&ecirc;ncia: &ldquo;quando falo de estrat&eacute;gia&rdquo;, coloca, &ldquo;levo o termo a s&eacute;rio&rdquo;; &ldquo;para que uma determinada rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as possa n&atilde;o somente se manter, mas se acentuar, se estabilizar e ganhar terreno, &eacute; necess&aacute;rio que haja uma manobra&rdquo; [MP, p. 255]. Assim, a estrat&eacute;gia torna-se conceito central ao se tratar do poder, j&aacute; que a concep&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as implicaria sempre uma leitura da realidade, um objetivo estrat&eacute;gico e conjuntos t&aacute;ticos capazes de conduzir &agrave; estrat&eacute;gia e aos objetivos almejados. Analisar o poder, seria, em outros termos, realizar uma &ldquo;genealogia das rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a, de desenvolvimentos de estrat&eacute;gias e t&aacute;ticas&rdquo;.[MP, p. 5] <\/p>\n<p>Finalmente, Foucault coloca: &ldquo;o poder &eacute; um feixe de rela&ccedil;&otilde;es mais ou menos organizado, mais ou menos piramidalizado, mais ou menos coordenado&rdquo;[MP, p. 248]; &eacute; uma &ldquo;coisa t&atilde;o enigm&aacute;tica, ao mesmo tempo vis&iacute;vel e invis&iacute;vel, presente e oculta, investida em toda parte&rdquo;.[MP, p. 75] &ldquo;Nada &eacute; mais material, nada &eacute; mais f&iacute;sico, mais corporal que o exerc&iacute;cio do poder&rdquo;.[MP, p. 147]<\/p>\n<p>&Eacute; um risco tentar elaborar uma resposta de Foucault para a primeira quest&atilde;o formulada, j&aacute; que a an&aacute;lise aqui realizada considera diferentes artigos, escritos em &eacute;pocas diferentes, e desconsidera o contexto hist&oacute;rico dentro do qual est&atilde;o inseridos. Encontra as limita&ccedil;&otilde;es colocadas no in&iacute;cio do artigo. Como Foucault sempre buscou elaborar suas reflex&otilde;es te&oacute;ricas do poder com o objetivo de refletir sobre situa&ccedil;&otilde;es concretas e reais &ndash; seus objetos de investiga&ccedil;&atilde;o &ndash;, retirar os aspectos te&oacute;ricos de suas reflex&otilde;es, buscando elaborar uma &ldquo;teoria do poder&rdquo;, implica arriscar-se seriamente, j&aacute; que essa nunca foi a inten&ccedil;&atilde;o do autor. No entanto, a t&iacute;tulo de exerc&iacute;cio te&oacute;rico, buscarei, sabendo desse risco, formular, a partir dos argumentos colocados, uma poss&iacute;vel resposta de Foucault para a quest&atilde;o: O que s&atilde;o o poder e as rela&ccedil;&otilde;es de poder?<\/p>\n<p><em>O poder &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o que se estabelece nas lutas e disputas (na guerra, portanto) entre diversas for&ccedil;as, quando uma for&ccedil;a se imp&otilde;e &agrave;s outras. Assim, poder e rela&ccedil;&atilde;o de poder podem funcionar como sin&ocirc;nimos. As for&ccedil;as em jogo cont&iacute;nuo, din&acirc;mico e permanente, constituem a base das rela&ccedil;&otilde;es em qualquer sociedade e as lutas e disputas podem estar mais ou menos evidentes, serem mais ou menos violentas, mas sempre existem. As rela&ccedil;&otilde;es de poder s&atilde;o o conjunto dos poderes que se estabelecem entre as diversas for&ccedil;as em jogo. Rela&ccedil;&otilde;es que s&oacute; existem no espa&ccedil;o e no tempo e que possuem diferentes caracter&iacute;sticas em termos de organiza&ccedil;&atilde;o, visibilidade, n&iacute;vel de incid&ecirc;ncia e espa&ccedil;os em que se d&atilde;o.<br \/>\n<\/em><strong><br \/>\nO l&oacute;cus do poder e das rela&ccedil;&otilde;es de poder<\/strong><br \/>\n<em><br \/>\nAs tr&ecirc;s esferas e o poder<\/em><\/p>\n<p>A t&iacute;tulo anal&iacute;tico, trabalharei com a divis&atilde;o da estrutura sist&ecirc;mica da sociedade em tr&ecirc;s esferas fundamentais: econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica\/jur&iacute;dica\/militar e cultural\/ideol&oacute;gica &ndash; estrutura com a qual, aparentemente, Foucault n&atilde;o costuma trabalhar. Ser&aacute; com base nessas esferas que realizarei a analise de onde Foucault acredita estar o poder, ou seja, como se poderia encontrar uma resposta para a segunda quest&atilde;o central sobre o poder: Aonde est&aacute; o poder e aonde se d&atilde;o as rela&ccedil;&otilde;es de poder? &ndash; estabelecendo, dessa maneira, uma identifica&ccedil;&atilde;o do <em>locus <\/em>do poder.<\/p>\n<p><em>A esfera pol&iacute;tica\/jur&iacute;dica\/militar<\/em><\/p>\n<p>Tratando de estudos pr&eacute;vios aos seus, Foucault afirma: &ldquo;A teoria do Estado, a an&aacute;lise tradicional dos aparelhos de Estado, sem d&uacute;vida n&atilde;o esgotam o campo de exerc&iacute;cio e de funcionamento do poder&rdquo;.[MP, p. 75] Isso porque &ldquo;o poder, em seu exerc&iacute;cio vai muito mais longe, passa por canais muito mais sutis, &eacute; muito mais amb&iacute;guo [que o aparelho de Estado], porque cada um de n&oacute;s, &eacute;, no fundo, titular de um certo poder e, por isso, veicula o poder&rdquo;.[MP, p. 160] Por isso, Foucault afirma que a busca pelo <em>locus <\/em>do poder n&atilde;o pode resumir-se ao campo do Estado. Obviamente, com isso, n&atilde;o est&aacute; negando que no Estado n&atilde;o haja poder, mas que o poder tamb&eacute;m se d&aacute; em esferas e n&iacute;veis que est&atilde;o para al&eacute;m do Estado. <\/p>\n<p>Uma vis&atilde;o que n&atilde;o implica, &ldquo;de forma alguma, a inten&ccedil;&atilde;o de diminuir a import&acirc;ncia e a efic&aacute;cia do poder do Estado&rdquo;. Mas constitui uma preocupa&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que &ldquo;de tanto se insistir em seu papel, e em seu papel exclusivo, corre-se o risco de n&atilde;o dar conta de todos os mecanismos e efeitos do poder que n&atilde;o passam diretamente pelo aparelho de Estado, que muitas vezes o sustentam, o reproduzem, elevam sua efic&aacute;cia ao m&aacute;ximo&rdquo;.[MP, p. 161] Assim, nota-se a preocupa&ccedil;&atilde;o de um certo reducionismo que, ao priorizar o Estado como <em>locus <\/em>do poder deixaria de lado uma s&eacute;rie de outros <em>loci <\/em>que possuem, para ele, relev&acirc;ncia. &ldquo;A quest&atilde;o do poder fica empobrecida quando &eacute; colocada unicamente em termos de legisla&ccedil;&atilde;o, de Constitui&ccedil;&atilde;o, ou somente em termos de Estado ou de aparelho de Estado. O poder &eacute; mais complicado, muito mais denso e difuso que um conjunto de leis ou um aparelho de Estado.&rdquo;[MP, p. 221]<\/p>\n<p>Estudar o poder para Foucault &eacute;, portanto, consider&aacute;-lo mais amplamente que o Estado, j&aacute; que &ldquo;as rela&ccedil;&otilde;es de poder [&#8230;] passam por muitas outras coisas&rdquo;. &ldquo;As rela&ccedil;&otilde;es de poder existem entre um homem e uma mulher, entre aquele que sabe e aquele que n&atilde;o sabe, entre os pais e as crian&ccedil;as, na fam&iacute;lia. Na sociedade, h&aacute; milhares e milhares de rela&ccedil;&otilde;es de poder e, por conseguinte, rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as de pequenos enfrentamentos, microlutas, de algum modo.&rdquo;[EPS, p. 231] E, se por um lado pode haver influ&ecirc;ncias do Estado e tamb&eacute;m das domina&ccedil;&otilde;es de classe nessas outras rela&ccedil;&otilde;es de poder, &eacute; poss&iacute;vel afirmar que o contr&aacute;rio tamb&eacute;m &eacute; verdadeiro: &ldquo;Se for verdade que essas pequenas rela&ccedil;&otilde;es de poder s&atilde;o com freq&uuml;&ecirc;ncia comandadas, induzidas do alto pelos grandes poderes de Estado ou pelas grandes domina&ccedil;&otilde;es de classe, &eacute; preciso ainda dizer que, em sentido inverso, uma domina&ccedil;&atilde;o de classe ou uma estrutura de Estado s&oacute; podem funcionar se h&aacute;, na base, essas pequenas rela&ccedil;&otilde;es de poder. O que seria o poder de Estado, aquele que imp&otilde;e, por exemplo, o servi&ccedil;o militar, se n&atilde;o houvesse, em torno de cada indiv&iacute;duo, todo um feixe de rela&ccedil;&otilde;es de poder que o liga a seus pais, a seu patr&atilde;o, a seu professor &ndash; &agrave;quele que sabe, &agrave;quele que lhe enfiou na cabe&ccedil;a tal ou qual id&eacute;ia? A estrutura de Estado, no que ela tem de geral, de abstrato, mesmo de violento, n&atilde;o chegaria a manter, assim, cont&iacute;nua e cautelosamente, todos os indiv&iacute;duos, se ela n&atilde;o se enraizasse, n&atilde;o utilizasse, como uma esp&eacute;cie de grande estrat&eacute;gia, todas as pequenas t&aacute;ticas locais e individuais que encerram cada um entre n&oacute;s.&rdquo;[EPS, pp. 231-232]<\/p>\n<p>Conceber uma teoria libert&aacute;ria do poder, que tenha como objetivo fornecer ferramentas para a compreens&atilde;o da sociedade e sobre a qual possam ser estabelecidas estrat&eacute;gias de transforma&ccedil;&atilde;o envolve, partido da an&aacute;lise de Foucault, ter em mente que &ldquo;o poder n&atilde;o est&aacute; localizado no aparelho de Estado e que nada mudar&aacute; na sociedade se os mecanismos de poder que funcionam fora, abaixo, ao lado dos aparelhos de Estado, a um n&iacute;vel muito mais elementar, cotidiano, n&atilde;o forem modificados&rdquo;.[MP, pp. 149-150] E nesse sentido, as an&aacute;lises e estrat&eacute;gias de transforma&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m a necessidade de extrapolar a esfera do Estado.<\/p>\n<p>Portanto, como dito, <em>h&aacute; para Foucault poder no Estado, mas uma an&aacute;lise do locus do poder n&atilde;o pode se resumir ao Estado e, menos ainda, ao governo<\/em>. Ainda tratando da esfera pol&iacute;tica, e de certa maneira ligado &agrave; quest&atilde;o do Estado, pode-se localizar o poder tamb&eacute;m no judici&aacute;rio, nas pris&otilde;es, nos hospitais psiqui&aacute;tricos, na pol&iacute;cia, no ex&eacute;rcito, nas leis etc. Para as pesquisas, Foucault recomenda: &ldquo;em vez de orientar a pesquisa sobre o poder no sentido do edif&iacute;cio jur&iacute;dico da soberania, dos aparelhos de Estado e das ideologias que o acompanham, deve-se orient&aacute;-la para a domina&ccedil;&atilde;o, os operadores materiais, as formas de sujei&ccedil;&atilde;o, os usos e as conex&otilde;es da sujei&ccedil;&atilde;o pelos sistemas locais e os dispositivos estrat&eacute;gicos. E preciso estudar o poder colocando-se fora do modelo do Leviat&atilde;, fora do campo delimitado pela soberania jur&iacute;dica e pela institui&ccedil;&atilde;o estatal. E preciso estud&aacute;-lo a partir das t&eacute;cnicas e t&aacute;ticas de domina&ccedil;&atilde;o. Esta &eacute;, grosso modo, a linha metodol&oacute;gica a ser seguida e que procurei seguir nas v&aacute;rias pesquisas que fizemos nos &uacute;ltimos anos.&rdquo;[MP, p. 186]<\/p>\n<p><em>A esfera cultural\/ideol&oacute;gica<\/em><\/p>\n<p>O poder, para Foucault, como se viu, n&atilde;o se resume &agrave; esfera pol&iacute;tica. Diversas de suas discuss&otilde;es se d&atilde;o em torno da esfera cultural\/ideol&oacute;gica. &Eacute; relevante aqui fazer um esclarecimento de que Foucault geralmente nega o conceito de ideologia, por identific&aacute;-la com a defini&ccedil;&atilde;o que se aproxima do que foi chamado de &ldquo;significado forte&rdquo; de ideologia: &ldquo;A no&ccedil;&atilde;o de ideologia me parece dificilmente utiliz&aacute;vel por tr&ecirc;s raz&otilde;es. A primeira &eacute; que, queira-se ou n&atilde;o, ela est&aacute; sempre em oposi&ccedil;&atilde;o virtual a alguma coisa que seria a verdade. Ora, creio que o problema n&atilde;o &eacute; de se fazer a partilha entre o que num discurso releva da cientificidade e da verdade e o que relevaria de outra coisa; mas de ver historicamente como se produzem efeitos de verdade no interior de discursos que n&atilde;o s&atilde;o em si nem verdadeiros nem falsos. Segundo inconveniente: refere-se necessariamente a alguma coisa como o sujeito. Enfim, a ideologia est&aacute; em posi&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria com rela&ccedil;&atilde;o a alguma coisa que deve funcionar para ela como infra-estrutura ou determina&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, material, etc. Por estas tr&ecirc;s raz&otilde;es, creio que &eacute; uma no&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o deve ser utilizada sem precau&ccedil;&otilde;es.&rdquo;[MP, p. 7] Quando trabalho com a ideologia como parte constituinte de uma esfera, utilizo essa precau&ccedil;&atilde;o e trabalho com uma compreens&atilde;o mais pr&oacute;xima do que foi chamado de &ldquo;significado fraco&rdquo; de ideologia.[4]<\/p>\n<p>Ao afirmar que a concep&ccedil;&atilde;o de Foucault envolve a esfera cultural\/ideol&oacute;gica estou me referindo ao <em>campo das id&eacute;ias, dos discursos, dos valores, da moral, da &eacute;tica, das motiva&ccedil;&otilde;es, dos desejos, das aspira&ccedil;&otilde;es, dos costumes, das cren&ccedil;as, do saber etc<\/em>. Aspectos centrais na teoria foucaultiana do poder. Para ele, <em>essa esfera, que envolve os campos mencionados, est&aacute; cheia de rela&ccedil;&otilde;es de poder<\/em> e suas investiga&ccedil;&otilde;es acerca da verdade e do saber t&ecirc;m muito a contribuir nesse sentido. <\/p>\n<p>Para o autor, h&aacute; cinco caracter&iacute;sticas hist&oacute;ricas relevantes sobre a verdade: &ldquo;&lsquo;a verdade&rsquo; &eacute; centrada na forma do discurso cient&iacute;fico e nas institui&ccedil;&otilde;es que o produzem; est&aacute; submetida a uma constante incita&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica e pol&iacute;tica (necessidade de verdade tanto para a produ&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, quanto para o poder pol&iacute;tico); &eacute; objeto, de v&aacute;rias formas, de uma imensa difus&atilde;o e de um imenso consumo (circula nos aparelhos de educa&ccedil;&atilde;o ou de informa&ccedil;&atilde;o, cuja extens&atilde;o no corpo social &eacute; relativamente grande, n&atilde;o obstante algumas limita&ccedil;&otilde;es rigorosas); &eacute; produzida e transmitida sob o controle, n&atilde;o exclusivo, mas dominante, de alguns grandes aparelhos pol&iacute;ticos ou econ&ocirc;micos (universidade, ex&eacute;rcito, escritura, meios de comunica&ccedil;&atilde;o); enfim, &eacute; objeto de debate pol&iacute;tico e de confronto social (as lutas &lsquo;ideol&oacute;gicas&rsquo;).&rdquo;[MP, p. 13] Deixando de lado as rela&ccedil;&otilde;es entre essa esfera e as esferas pol&iacute;tica e econ&ocirc;mica &ndash; quest&atilde;o que ser&aacute; abordada mais adiante &ndash;, pode-se afirmar que, para Foucault, a esfera cultural\/ideol&oacute;gica tamb&eacute;m &eacute; <em>locus<\/em> do poder; poderes que se ligam diretamente &agrave; determinadas concep&ccedil;&otilde;es de verdade, as quais, muitas vezes, fundamentam-se no discurso cient&iacute;fico, utilizando-se da ci&ecirc;ncia para legitimar posi&ccedil;&otilde;es que podem ou n&atilde;o ter conte&uacute;do, de fato, cient&iacute;fico. O poder, nesse sentido, estaria nas escolas, nas universidades, na imprensa e na ind&uacute;stria cultural, forjando-se nas rela&ccedil;&otilde;es sociais que se estabelecem nesses &acirc;mbitos.<\/p>\n<p>Foucault sugere compreender verdade como &ldquo;um conjunto de procedimentos regulados para a produ&ccedil;&atilde;o, a lei, a reparti&ccedil;&atilde;o, a circula&ccedil;&atilde;o e o funcionamento dos enunciados&rdquo;, sendo que ela estaria &ldquo;circularmente ligada a sistemas de poder, que a produzem e a ap&oacute;iam, e a efeitos de poder que ela induz e que a reproduzem. &lsquo;Regime da verdade&rsquo;&rdquo;. Um regime que, na realidade, &ldquo;n&atilde;o &eacute; simplesmente ideol&oacute;gico ou superestrutural; foi uma condi&ccedil;&atilde;o de forma&ccedil;&atilde;o e desenvolvimento do capitalismo&rdquo; &ndash; e, para ser transformado, precisaria ser desvinculado das hegemonias sociais, econ&ocirc;micas e culturais. E tamb&eacute;m coloca: &ldquo;a quest&atilde;o pol&iacute;tica n&atilde;o &eacute; o erro, a ilus&atilde;o, a consci&ecirc;ncia alienada ou a ideologia; &eacute; a pr&oacute;pria verdade&rdquo;.[MP, p. 14]<\/p>\n<p>A verdade, portanto, instituiria um determinado campo regulat&oacute;rio\/normativo respons&aacute;vel pela circula&ccedil;&atilde;o do poder. Um campo que se alimentaria de outras rela&ccedil;&otilde;es de poder e ao mesmo tempo as alimentaria, n&atilde;o consistindo em um mero reflexo da infra-estrutura da sociedade e tendo relev&acirc;ncia, tamb&eacute;m, na formula&ccedil;&atilde;o e no desenvolvimento de outras rela&ccedil;&otilde;es de poder. A no&ccedil;&atilde;o de verdadeiro e falso seria capaz de se estabelecer em discursos com influ&ecirc;ncias morais, e forjar no&ccedil;&otilde;es de bem e de mal, de certo e de errado, muitas das quais serviriam de base para rela&ccedil;&otilde;es de poder. A verdade, no sentido daquilo &ldquo;que se d&aacute;&rdquo;, &eacute; um &ldquo;acontecimento&rdquo;; &ldquo;deste acontecimento que assim se produz impressionando aquele que o buscava, a rela&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; do objeto ao sujeito de conhecimento. E uma rela&ccedil;&atilde;o amb&iacute;gua, revers&iacute;vel, que luta belicosamente por controle, domina&ccedil;&atilde;o e vit&oacute;ria: uma rela&ccedil;&atilde;o de poder.&rdquo;[MP, pp. 114-115] Em suma, &ldquo;essas produ&ccedil;&otilde;es de verdades n&atilde;o podem ser dissociadas do poder e dos mecanismos de poder, ao mesmo tempo porque esses mecanismos de poder tornam poss&iacute;veis, induzem essas produ&ccedil;&otilde;es de verdades, e porque essas produ&ccedil;&otilde;es de verdade t&ecirc;m, elas pr&oacute;prias, efeitos de poder que nos unem, nos atam&rdquo;.[EPS, p. 229]<\/p>\n<p>Foucault acredita, similarmente, que o saber possui uma rela&ccedil;&atilde;o estreita com o poder, ou seja, haveria &ldquo;uma perp&eacute;tua articula&ccedil;&atilde;o do poder com o saber e do saber com o poder&rdquo;. Pensa que &ldquo;exercer o poder cria objetos de saber, os faz emergir, acumula informa&ccedil;&otilde;es e as utiliza. N&atilde;o se pode compreender nada sobre o saber econ&ocirc;mico se n&atilde;o se sabe como se exercia, cotidianamente, o poder, e o poder econ&ocirc;mico. O exerc&iacute;cio do poder cria perpetuamente saber e, inversamente, o saber acarreta efeitos de poder.[MP, pp. 141-142] O saber, nesse sentido, serviria como causa e conseq&uuml;&ecirc;ncia de acontecimentos diversos que seriam parte de in&uacute;meras rela&ccedil;&otilde;es de poder. Foucault trabalha com a hip&oacute;tese de que &ldquo;as grandes m&aacute;quinas de poder&rdquo; podem ter &ldquo;sido acompanhadas de produ&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas. Houve, provavelmente, por exemplo, uma ideologia da educa&ccedil;&atilde;o; uma ideologia do poder mon&aacute;rquico, uma ideologia da democracia parlamentar, etc.; mas n&atilde;o creio que aquilo que se forma na base sejam ideologias: &eacute; muito menos e muito mais do que isso. S&atilde;o instrumentos reais de forma&ccedil;&atilde;o e de acumula&ccedil;&atilde;o do saber: m&eacute;todos de observa&ccedil;&atilde;o, t&eacute;cnicas de registro, procedimentos de inqu&eacute;rito e de pesquisa, aparelhos de verifica&ccedil;&atilde;o. Tudo isto significa que o poder, para exercer-se nestes mecanismos sutis, &eacute; obrigado a formar, organizar e p&ocirc;r em circula&ccedil;&atilde;o um saber, ou melhor, aparelhos de saber que n&atilde;o s&atilde;o constru&ccedil;&otilde;es ideol&oacute;gicas.&rdquo;[MP, p. 186]<\/p>\n<p>Essa esfera que chamei de cultural\/ideol&oacute;gica contaria ainda com elementos relevantes como o papel dos intelectuais e das religi&otilde;es, e as no&ccedil;&otilde;es de desejo e interesse. Sobre esses &uacute;ltimos, afirma Foucault: &ldquo;as rela&ccedil;&otilde;es entre desejo, poder e interesse s&atilde;o mais complexas do que geralmente se acredita e n&atilde;o s&atilde;o necessariamente os que exercem o poder que t&ecirc;m interesse em exerc&ecirc;-lo, os que t&ecirc;m interesse em exerc&ecirc;-lo n&atilde;o o exercem e o desejo do poder estabelece uma rela&ccedil;&atilde;o ainda singular entre o poder e o interesse. [&#8230;] Esta rela&ccedil;&atilde;o entre o desejo, o poder e o interesse &eacute; ainda pouco conhecida.&rdquo; Afirma&ccedil;&otilde;es que, sem cair em reducionismos generalizantes, d&atilde;o uma id&eacute;ia dos desafios que ainda se colocam &agrave;queles que se disp&otilde;em a estudar o poder.<\/p>\n<p><em>A esfera econ&ocirc;mica<\/em><\/p>\n<p>O tema da economia n&atilde;o &eacute; significativamente estudado por Foucault, mesmo porque, sua principal inten&ccedil;&atilde;o &eacute; entender o poder em outras esferas e as determinadas influ&ecirc;ncias que o poder dessas esferas poderiam exercer na esfera econ&ocirc;mica, respons&aacute;vel pelas rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o, distribui&ccedil;&atilde;o e consumo. Foucault identifica certa evolu&ccedil;&atilde;o nesse campo, aparentemente no marxismo, quando coloca, por exemplo, que a explora&ccedil;&atilde;o s&oacute; foi realmente compreendida durante o s&eacute;culo XIX.[MP, p. 75] No entanto, esse salto qualitativo na compreens&atilde;o econ&ocirc;mica da sociedade teria tido como conseq&uuml;&ecirc;ncia o fato de que, desde aqueles tempos, &ldquo;a cr&iacute;tica da sociedade foi feita, essencialmente, a partir do car&aacute;ter efetivamente determinante da economia. S&atilde; redu&ccedil;&atilde;o do &lsquo;pol&iacute;tico&rsquo;, certamente, mas tamb&eacute;m tend&ecirc;ncia a negligenciar as rela&ccedil;&otilde;es de poder elementares que podem ser constituintes das rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas.&rdquo;[MP, p. 237]. Nesse sentido, se por um lado os estudos que v&ecirc;m desde o s&eacute;culo XIX permitiram uma compreens&atilde;o mais aprofundada da economia, identificando que nela tamb&eacute;m havia poder e reconhecendo sua relev&acirc;ncia, por outro, eles terminaram apontando para um certo <em>reducionismo, quando a economia passou a ser vista como locus exclusivo do poder ou como uma infra-estrutura que necessariamente determinaria tudo aquilo que se chamou de superestrutura<\/em>.<\/p>\n<p>Portanto, considerar o autor dentro de seu respectivo contexto implica, nesse caso, compreender a tentativa de Foucault de extrapolar a esfera econ&ocirc;mica para as an&aacute;lises do poder. E por esse motivo, quando trata de economia, sua abordagem se d&aacute; mais no sentido de criticar esse &ldquo;economicismo&rdquo; do que de tratar do poder na esfera econ&ocirc;mica. Ele se volta &ldquo;contra a id&eacute;ia de um poder que seria uma superestrutura&rdquo;, obedecendo necessariamente a um determinismo da esfera econ&ocirc;mica, &ldquo;mas n&atilde;o contra a id&eacute;ia de que este poder &eacute;, de alguma forma, consubstancial ao desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas; ele faz parte deste desenvolvimento&rdquo; e &ldquo;se transforma continuamente junto com elas&rdquo;.[MP, p. 222] <em>Foucault acredita que n&atilde;o se pode reduzir o poder a uma superestrutura, determinada pela economia, mas tamb&eacute;m n&atilde;o se pode negar que na esfera econ&ocirc;mica exista poder<\/em>.<\/p>\n<p>Isso significa que, para Foucault, <em>existe poder na esfera econ&ocirc;mica &ndash; constitu&iacute;da pelas rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas que envolvem o campo do trabalho, as classes, etc. &ndash; que &eacute;, tamb&eacute;m, locus privilegiado do poder<\/em>. <\/p>\n<p>Sua inten&ccedil;&atilde;o, como mencionado, n&atilde;o ser&aacute; discutir as quest&otilde;es macro-econ&ocirc;micas que, segundo ele, v&ecirc;m sendo suficientemente estudadas desde o s&eacute;culo XIX. Foucault se dedicar&aacute; &agrave;s fun&ccedil;&otilde;es no campo do trabalho que extrapolam as rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o e privilegiar&aacute;, como de praxe, as micro-rela&ccedil;&otilde;es. Referindo-se, por exemplo, ao seu interesse no campo do trabalho, afirma: &ldquo;A fun&ccedil;&atilde;o produtiva [do trabalho] &eacute; sensivelmente igual a zero nas categorias de que me ocupo, enquanto que as fun&ccedil;&otilde;es simb&oacute;lica e disciplinar s&atilde;o muito importantes&rdquo;.[MP, p. 224] Foucault busca pesquisar as micro-rela&ccedil;&otilde;es de poder, nos n&iacute;veis mais fundamentais da sociedade, rela&ccedil;&otilde;es geralmente menos evidentes, apreendendo-as &ldquo;at&eacute; as infra-estruturas econ&ocirc;micas&rdquo;, que constituem macro-rela&ccedil;&otilde;es mais evidentes. E sua teoria deve ser compreendida dentro desse contexto.<\/p>\n<p>Pode-se, tamb&eacute;m, na discuss&atilde;o do poder na esfera econ&ocirc;mica, trazer algumas contribui&ccedil;&otilde;es de Foucault para o tema das classes sociais e da luta de classes. O autor <em>n&atilde;o nega a exist&ecirc;ncia de classes sociais e de uma rela&ccedil;&atilde;o de poder e domina&ccedil;&atilde;o entre elas; uma rela&ccedil;&atilde;o que se realizaria a partir de um conjunto determinado de estrat&eacute;gias e t&aacute;ticas com resultados tanto na classe dominante como na classe dominada<\/em>: &ldquo;Uma classe dominante n&atilde;o &eacute; uma abstra&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; um dado pr&eacute;vio. Que uma classe se torne dominante, que ela assegure sua domina&ccedil;&atilde;o e que esta domina&ccedil;&atilde;o se reproduza, estes s&atilde;o efeitos de um certo n&uacute;mero de t&aacute;ticas eficazes, sistem&aacute;ticas, que funcionam no interior de grandes estrat&eacute;gias que asseguram esta domina&ccedil;&atilde;o. Mas entre a estrat&eacute;gia que fixa, reproduz, multiplica, acentua as rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a e a classe dominante, existe uma rela&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca de produ&ccedil;&atilde;o. Pode-se, portanto, dizer que a estrat&eacute;gia de moraliza&ccedil;&atilde;o da classe oper&aacute;ria &eacute; a da burguesia. Pode-se mesmo dizer que &eacute; a estrat&eacute;gia que permite &agrave; classe burguesa ser a classe burguesa e exercer sua domina&ccedil;&atilde;o.&rdquo;[MP, pp. 252-253] A partir da no&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o de classe, parece evidente que o saber possui uma rela&ccedil;&atilde;o estrita com ela, j&aacute; que a fam&iacute;lia, a universidade, o sistema escolar, respons&aacute;veis pela distribui&ccedil;&atilde;o do poder, s&atilde;o feitos &ldquo;para manter no poder uma certa classe social e excluir dos instrumentos do poder qualquer outra classe social&rdquo;.[EPS, p. 114]<\/p>\n<p>A contradi&ccedil;&atilde;o entre as classes sociais &ndash; que poderia ser chamada de luta de classes, j&aacute; que &ldquo;luta &eacute; contradi&ccedil;&atilde;o&rdquo; &ndash; deve ser objeto de investiga&ccedil;&atilde;o, j&aacute; que &ldquo;o problema &eacute; saber se a l&oacute;gica da contradi&ccedil;&atilde;o pode servir de princ&iacute;pio de inteligibilidade e de regra de a&ccedil;&atilde;o na luta pol&iacute;tica&rdquo;.[EPS, p. 250] Algo que implica, para Foucault, <em>abandonar a dial&eacute;tica de base hegeliana<\/em>, e pensar as rela&ccedil;&otilde;es de poder em termos luta, sem necessariamente uma s&iacute;ntese como resultado: &ldquo;N&atilde;o sei bem como solucionar este problema. Mas quando se considera que o poder deve ser analisado em termos de rela&ccedil;&otilde;es de poder, &eacute; poss&iacute;vel apreender, muito mais que em outras elabora&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas, a rela&ccedil;&atilde;o que existe entre o poder e a luta, em particular a luta de classes.&rdquo;[MP, p. 256] E &eacute; nesse sentido que ele questiona a prioridade que, no marxismo, se deu &agrave; discuss&atilde;o da classe em detrimento da quest&atilde;o da luta.<\/p>\n<p>&Eacute;, no entanto, necess&aacute;rio enfatizar, que, se a luta de classes explica parte das rela&ccedil;&otilde;es de poder, n&atilde;o se pode generalizar: &ldquo;n&atilde;o acho que seja fecundo, que seja operante dizer que a psiquiatria &eacute; a psiquiatria de classe, a medicina, a medicina de classe, os m&eacute;dicos e psiquiatras, os representantes dos interesses de classe. N&atilde;o se chega a lugar nenhum quando se faz isso, mas &eacute; preciso, contudo, reinserir a complexidade desses fen&ocirc;menos no interior de processos hist&oacute;ricos que s&atilde;o econ&ocirc;micos etc.&rdquo;[EPS, p. 228] Portanto, para Foucaut, <em>n&atilde;o se pode querer explicar todas as rela&ccedil;&otilde;es de poder com base nas an&aacute;lises de classe<\/em>. Assim, &ldquo;a luta de classes pode, portanto, n&atilde;o ser a &lsquo;ratio do exerc&iacute;cio do poder&rsquo; e ser, todavia, &lsquo;garantia de inteligibilidade&rsquo; de algumas grandes estrat&eacute;gias.&rdquo;[EPS, p. 249]<br \/>\n<strong><br \/>\nO poder em todo o corpo social<br \/>\n<\/strong> <br \/>\nComo se viu, para Foucault h&aacute;<em> poder nas tr&ecirc;s grandes<\/em> esferas anteriormente especificadas; <em>rela&ccedil;&otilde;es que atravessam, portanto, todo o corpo social<\/em>: &ldquo;em uma sociedade como a nossa, mas no fundo em qualquer sociedade, existem rela&ccedil;&otilde;es de poder m&uacute;ltiplas que atravessam, caracterizam e constituem o corpo social&rdquo;[MP, p. 179]; &ldquo;o poder n&atilde;o opera em um &uacute;nico lugar, mas em lugares m&uacute;ltiplos&rdquo;.[EPS, p. 262]<\/p>\n<p>Nesse sentido, h&aacute; poder em todas as esferas estruturadas, tanto em n&iacute;vel macro, como em n&iacute;vel micro. N&atilde;o se trata, para Foucault, em seus estudos, de compreender o poder que se encontra nos centros, mas &ldquo;ao contr&aacute;rio, de captar o poder em suas extremidades, em suas &uacute;ltimas ramifica&ccedil;&otilde;es, l&aacute; onde ele se torna capilar&rdquo;.[MP, p. 182] E corrobora: &ldquo;quando penso na mec&acirc;nica do poder, penso em sua forma capilar de existir, no ponto em que o poder encontra o n&iacute;vel dos indiv&iacute;duos, atinge seus corpos, vem se inserir em seus gestos, suas atitudes, seus discursos, sua aprendizagem, sua vida cotidiana.&rdquo;[MP, p. 131] Seu interesse est&aacute; &ldquo;na vida cotidiana, nas rela&ccedil;&otilde;es entre os sexos, nas fam&iacute;lias, entre os doentes mentais e as pessoas sensatas, entre os doentes e os m&eacute;dicos&rdquo;[EPS, p. 233]; e mais: &ldquo;a vida sexual, [&#8230;] a exclus&atilde;o dos homossexuais&rdquo;. Para ele, &ldquo;todas essas rela&ccedil;&otilde;es s&atilde;o rela&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas&rdquo;.[EPS, p. 262]<\/p>\n<p><em>Ainda que seu foco seja nos n&iacute;veis mais baixos, b&aacute;sicos, capilares e perif&eacute;ricos do poder, isso n&atilde;o significa negar a presen&ccedil;a do poder em seus aspectos altos, mais evidentes e centrais<\/em>. Para Foucault, as micro-rela&ccedil;&otilde;es de poder s&atilde;o relevantes, pois, al&eacute;m de serem influenciadas pelas macro-rela&ccedil;&otilde;es, t&ecirc;m a capacidade de influenci&aacute;-las e estrutur&aacute;-las. H&aacute;, assim, rela&ccedil;&otilde;es de poder que se estruturam de forma piramidal, com um pico, um &aacute;pice, e uma base. &ldquo;Existe, portanto, um &aacute;pice&rdquo;, ainda que esse &aacute;pice n&atilde;o seja necessariamente &ldquo;a &lsquo;fonte&rsquo; ou o &lsquo;princ&iacute;pio&rsquo; de onde todo o poder derivaria como de um foco luminoso. [&#8230;] O &aacute;pice e os elementos inferiores est&atilde;o em uma rela&ccedil;&atilde;o de apoio e de condicionamento rec&iacute;procos; eles se sustentam&rdquo;[MP, p. 221] &ndash; rela&ccedil;&atilde;o que ser&aacute; investigada a seguir.<\/p>\n<p>O poder estaria &ldquo;sempre ali&rdquo;, nunca permitindo estarmos &ldquo;fora&rdquo;, j&aacute; &ldquo;que n&atilde;o h&aacute; &lsquo;margens&rsquo; para a cambalhota daqueles que est&atilde;o em ruptura&rdquo;, ainda que essa afirma&ccedil;&atilde;o n&atilde;o implique &ldquo;que se deva admitir uma forma incontorn&aacute;vel de domina&ccedil;&atilde;o ou um privil&eacute;gio absoluto da lei. Que nunca se possa estar &lsquo;fora do poder&rsquo; n&atilde;o quer dizer que se est&aacute; inteiramente capturado na armadilha.&rdquo;[EPS, p. 248]<\/p>\n<p>Ainda que como hip&oacute;teses a serem exploradas, Foucault sugere: &ldquo;&ndash; que o poder &eacute; coextensivo ao corpo social; n&atilde;o h&aacute;, entre as malhas de sua rede, praias de liberdades elementares; &ndash; que as rela&ccedil;&otilde;es de poder s&atilde;o intrincadas em outros tipos de rela&ccedil;&atilde;o (de produ&ccedil;&atilde;o, de alian&ccedil;a, de fam&iacute;lia, de sexualidade) em que desempenham um papel ao mesmo tempo condicionante e condicionado; &ndash; que elas n&atilde;o obedecem &agrave; forma &uacute;nica da interdi&ccedil;&atilde;o e do castigo, mas que s&atilde;o formas m&uacute;ltiplas; &ndash; que seu entrecruzamento delineia fatos gerais de domina&ccedil;&atilde;o, que esta domina&ccedil;&atilde;o se organiza em estrat&eacute;gia mais ou menos coerente e unit&aacute;ria; que os procedimentos dispersados, heteromorfos e locais do poder s&atilde;o reajustados, refor&ccedil;ados, transformados por essas estrat&eacute;gias globais, e tudo isso com numerosos fen&ocirc;menos de in&eacute;rcia, de intervalos, de resist&ecirc;ncias; que n&atilde;o se deve, portanto, pensar um fato primeiro e maci&ccedil;o de domina&ccedil;&atilde;o (uma estrutura bin&aacute;ria com, de um lado, os &acute;dominantes` e, de outro, os &acute;dominados`), mas, antes, uma produ&ccedil;&atilde;o multiforme de rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o, que s&atilde;o parcialmente integr&aacute;veis a estrat&eacute;gias de conjunto.&rdquo;[Ibid.] Posi&ccedil;&atilde;o que se evidencia em sua pr&oacute;pria defini&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o: &ldquo;por domina&ccedil;&atilde;o eu n&atilde;o entendo o fato de uma domina&ccedil;&atilde;o global de um sobre os outros, ou de um grupo sobre o outro, mas as m&uacute;ltiplas formas de domina&ccedil;&atilde;o que podem se exercer na sociedade&rdquo;.[MP, p. 181]<\/p>\n<p>Fechando, e novamente, a t&iacute;tulo de exerc&iacute;cio te&oacute;rico, e consciente dos riscos que isso implica, buscarei uma poss&iacute;vel resposta de Foucault para a quest&atilde;o: Onde est&aacute; o poder e aonde se d&atilde;o as rela&ccedil;&otilde;es de poder? <\/p>\n<p><em>O poder est&aacute; em todo o corpo social, nas distintas esferas da sociedade (macro e micro, do centro e da periferia), as quais possuem, em seu seio, m&uacute;ltiplas rela&ccedil;&otilde;es de poder que atravessam, caracterizam e constituem esse corpo social. O poder, portanto, n&atilde;o &eacute; uma exclusividade do Estado e existe para al&eacute;m da esfera pol&iacute;tica, nas rela&ccedil;&otilde;es sociais forjadas cultural e ideologicamente, assim como no campo da economia. No entanto, aceitar que h&aacute; poder na esfera econ&ocirc;mica n&atilde;o significa negar que haja poder nas outras esferas e nem que a esfera econ&ocirc;mica determine ou se sobreponha, obrigatoriamente, &agrave;s outras. A esfera econ&ocirc;mica e as pr&oacute;prias categorias mais ligadas &agrave; economia, como as classes sociais e a luta de classes, constituem parte do locus do poder e explicam o poder apenas parcialmente.<\/em><br \/>\n<strong><br \/>\nA din&acirc;mica do poder e das rela&ccedil;&otilde;es de poder<\/strong><\/p>\n<p>Para estudar a din&acirc;mica do poder e das rela&ccedil;&otilde;es de poder, Foucault recha&ccedil;a algumas posi&ccedil;&otilde;es cl&aacute;ssicas que foram &ndash; e, em alguma medida, ainda s&atilde;o &ndash; defendidas por te&oacute;ricos e correntes que se debru&ccedil;aram sobre o tema. Prop&otilde;e, contrapondo as posi&ccedil;&otilde;es criticadas, concep&ccedil;&otilde;es acerca do <em>modus operandi<\/em> do poder. <br \/>\n<strong><br \/>\nProgresso e evolu&ccedil;&atilde;o da sociedade<\/strong><\/p>\n<p>Dentre as quest&otilde;es te&oacute;rico-filos&oacute;ficas que nortearam muito do pensamento social cl&aacute;ssico &ndash; que inclui os te&oacute;ricos do socialismo &ndash; est&aacute; a no&ccedil;&atilde;o de progresso e\/ou evolu&ccedil;&atilde;o da sociedade. Haveria um sentido progressivo e evolutivo na hist&oacute;ria da humanidade? <\/p>\n<p>Durante o s&eacute;culo XIX, o pensamento socialista, por exemplo, esteve permeado por uma resposta afirmativa em rela&ccedil;&atilde;o a essa quest&atilde;o. Marx acreditava que o capitalismo era um progresso em rela&ccedil;&atilde;o ao feudalismo e uma ante-sala do socialismo, que necessariamente chegaria por um desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas; Proudhon, em sua dial&eacute;tica serial, nunca abandonou a no&ccedil;&atilde;o de que a contradi&ccedil;&atilde;o entre os pares antin&ocirc;micos, ainda que constitu&iacute;sse certa &ldquo;equilibra&ccedil;&atilde;o&rdquo;, sem s&iacute;ntese e fim dos conflitos, implicaria um progresso gradual da sociedade; Bakunin acreditava que a humanidade, atual fase do desenvolvimento humano, provinha da animalidade e era tamb&eacute;m a ante-sala da liberdade, terceira e &uacute;ltima fase do desenvolvimento natural e inevit&aacute;vel da humanidade; Kropotkin acreditava que a revolu&ccedil;&atilde;o era inevit&aacute;vel, por raz&atilde;o da desorganiza&ccedil;&atilde;o natural da sociedade contempor&acirc;nea e por uma certa tend&ecirc;ncia natural do homem &agrave; coopera&ccedil;&atilde;o &ndash; fatos que ele afirmava ter verificado cientificamente. S&atilde;o in&uacute;meros os exemplos que se poderia dar.<\/p>\n<p>Foucault discorda dessas posi&ccedil;&otilde;es. Para ele, <em>a sociedade n&atilde;o tem por tr&aacute;s de suas rela&ccedil;&otilde;es de poder um mecanismo que leva, naturalmente, ao progresso ou &agrave; evolu&ccedil;&atilde;o em qualquer sentido<\/em>, seja ele o socialismo, a liberdade, o fim dos conflitos ou qualquer outro fim pr&eacute;-determinado. Mesmo a id&eacute;ia de fim dos conflitos, de paz, como se viu, para o autor, tem mais um sentido de institui&ccedil;&atilde;o e de institucionaliza&ccedil;&atilde;o da guerra, do que de objetivo final da sociedade: &ldquo;A humanidade n&atilde;o progride lentamente, de combate em combate, at&eacute; uma reciprocidade universal, em que as regras substituiriam para sempre a guerra; ela instala cada uma de suas viol&ecirc;ncias em um sistema de regras, e prossegue assim de domina&ccedil;&atilde;o em domina&ccedil;&atilde;o.&rdquo;[MP, p. 25] Os pr&oacute;prios <em>conflitos de for&ccedil;as<\/em>, como tamb&eacute;m j&aacute; se viu, nunca deixariam de existir. A hist&oacute;ria, nesse sentido, &ldquo;n&atilde;o se ap&oacute;ia em nenhuma const&acirc;ncia&rdquo;[MP, p. 27] e &ldquo;o verdadeiro sentido hist&oacute;rico reconhece que n&oacute;s vivemos sem refer&ecirc;ncias ou sem coordenadas origin&aacute;rias&rdquo;.[MP, p. 29] Assim, pode-se dizer que <em>Foucault acredita que n&atilde;o h&aacute; uma no&ccedil;&atilde;o de progresso ou de evolu&ccedil;&atilde;o que impulsione a hist&oacute;ria; n&atilde;o h&aacute; tamb&eacute;m uma const&acirc;ncia determinada e nem refer&ecirc;ncias ou coordenadas origin&aacute;rias da sociedade, que permitiriam saber em que sentido ela se desenvolve<\/em>. Enfatiza: &ldquo;apenas a metaf&iacute;sica poderia interpretar o devir da humanidade.&rdquo;[MP, p. 26]<\/p>\n<p>O progresso e a evolu&ccedil;&atilde;o n&atilde;o explicam, portanto, o desenvolvimento da sociedade e os caminhos da hist&oacute;ria; &eacute; a luta entre as diversas for&ccedil;as que o fazem: &ldquo;As for&ccedil;as que se encontram em jogo na hist&oacute;ria n&atilde;o obedecem nem a uma destina&ccedil;&atilde;o, nem a uma mec&acirc;nica, mas ao acaso da luta.&rdquo;[MP, p. 28] &Eacute; a luta entre as distintas for&ccedil;as que impulsiona a sociedade para um ou outro sentido.<\/p>\n<p>Assim, dependendo da concep&ccedil;&atilde;o &eacute;tica por tr&aacute;s da formula&ccedil;&atilde;o elaborada, &eacute; poss&iacute;vel dizer que a humanidade pode progredir, mas tamb&eacute;m pode regredir. Afinal, o que &eacute; progresso e o que &eacute; regresso? A resposta est&aacute; certamente ligada &agrave; id&eacute;ia do que &eacute; mais avan&ccedil;ado, do que &eacute; melhor, do que se aproxima mais daquilo que se concebe como ideal. E nesse sentido, para Foucault, <em>a sociedade pode caminhar para um lado ou para outro, dependendo das rela&ccedil;&otilde;es de poder que se forjarem nos conflitos da sociedade<\/em>.<\/p>\n<p>Por esse motivo, ele afirma: &ldquo;n&atilde;o digo que a humanidade n&atilde;o progrida. Digo que considero um mau m&eacute;todo colocar o problema &lsquo;por que progredimos?&rsquo; O problema &eacute; &lsquo;como isto se passa?&rsquo; E o que se passa agora n&atilde;o &eacute; for&ccedil;osamente melhor, ou mais elaborado, ou melhor elucidado do que o que se passou antes.&rdquo;[MP, p. 140] Para o autor, &eacute; fundamental <em>abandonar essa concep&ccedil;&atilde;o, que se poderia chamar de teleol&oacute;gica<\/em>, do desenvolvimento da sociedade e do sentido da hist&oacute;ria, ainda que ela afirme basear-se em pressupostos cient&iacute;ficos.<\/p>\n<p><strong>Economicismo e materialismo hist&oacute;rico <\/strong><\/p>\n<p>Foucault, nessa discuss&atilde;o do &ldquo;como&rdquo; do poder, pergunta: &ldquo;a an&aacute;lise do poder ou dos poderes pode ser, de uma maneira ou de outra, deduzida da economia?&rdquo;. Refletindo sobre a quest&atilde;o, pondera que, apesar das significativas diferen&ccedil;as, &ldquo;existe um ponto em comum entre a concep&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica ou liberal do poder pol&iacute;tico &ndash; tal como encontramos nos fil&oacute;sofos do s&eacute;culo XVIII &ndash; e a concep&ccedil;&atilde;o marxista, ou uma certa concep&ccedil;&atilde;o corrente que passa como sendo a concep&ccedil;&atilde;o marxista. Este ponto em comum &eacute; o que chamarei o economicismo na teoria do poder&rdquo;.[MP, p. 174]<\/p>\n<p>&ldquo;Com isto quero dizer o seguinte: no caso da teoria jur&iacute;dica cl&aacute;ssica, o poder &eacute; considerado como um direito de que se seria possuidor como de um bem e que se poderia, por conseguinte, transferir ou alienar, total ou parcialmente, por um ato jur&iacute;dico ou um ato fundador de direito, que seria da ordem da cess&atilde;o ou do contrato. O poder &eacute; o poder concreto que cada indiv&iacute;duo det&eacute;m e que cederia, total ou parcialmente, para constituir um poder pol&iacute;tico, uma soberania pol&iacute;tica. Neste conjunto te&oacute;rico a que me refiro, a constitui&ccedil;&atilde;o do poder pol&iacute;tico se faz segundo o modelo de uma opera&ccedil;&atilde;o jur&iacute;dica que seria da ordem da troca contratual. Por conseguinte, analogia manifesta, que percorre toda a teoria, entre o poder e os bens, o poder e a riqueza. No outro caso &ndash; concep&ccedil;&atilde;o marxista geral do poder &ndash; nada disto &eacute; evidente; a concep&ccedil;&atilde;o marxista trata de outra coisa, da funcionalidade econ&ocirc;mica do poder. Funcionalidade econ&ocirc;mica, no sentido em que o poder teria essencialmente como papel manter rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o e reproduzir uma domina&ccedil;&atilde;o de classe que o desenvolvimento e uma modalidade pr&oacute;pria da apropria&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as produtivas tornaram poss&iacute;vel. O poder pol&iacute;tico teria, neste caso, encontrado na economia sua raz&atilde;o de ser hist&oacute;rica. De modo geral, em um caso temos um poder pol&iacute;tico que encontraria no procedimento de troca, na economia da circula&ccedil;&atilde;o dos bens o seu modelo formal e, no outro, o poder pol&iacute;tico teria na economia sua raz&atilde;o de ser hist&oacute;rica, o princ&iacute;pio de sua forma concreta e do seu funcionamento atual.&rdquo; [MP, pp. 174-175]<\/p>\n<p>Questionando ambas as abordagens, Foucault coloca algumas perguntas. &ldquo;Em primeiro lugar, o poder est&aacute; sempre em posi&ccedil;&atilde;o secund&aacute;ria em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; economia, ele &eacute; sempre &lsquo;finalizado&rsquo; e &lsquo;funcionalizado&rsquo; pela economia? Tem essencialmente como raz&atilde;o de ser e fim servir a economia, est&aacute; destinado a faz&ecirc;-la funcionar, a solidificar, manter e reproduzir as rela&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o caracter&iacute;sticas desta economia e essenciais ao seu funcionamento? Em segundo lugar, o poder &eacute; modelado pela mercadoria, por algo que se possui, se adquire, se cede por contrato ou por for&ccedil;a, que se aliena ou se recupera, que circula, que herda esta ou aquela regi&atilde;o? Ou, ao contr&aacute;rio, os instrumentos necess&aacute;rios para analis&aacute;-lo s&atilde;o diversos, mesmo se efetivamente as rela&ccedil;&otilde;es de poder est&atilde;o profundamente intrincadas nas e com as rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas e sempre constituem com elas um feixe?&rdquo;[MP, p. 175] Uma breve resposta parece apontar o caminho: &ldquo;neste caso, a indissociabilidade da economia e do pol&iacute;tico n&atilde;o seria da ordem da subordina&ccedil;&atilde;o funcional nem do isomorfismo formal, mas de uma outra ordem, que se deveria explicitar&rdquo;, afirmando, portanto, um <em>v&iacute;nculo estreito entre economia e pol&iacute;tica<\/em>.<\/p>\n<p>Enfatizando sua posi&ccedil;&atilde;o do poder como rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a, Foucault coloca: &ldquo;Para fazer uma an&aacute;lise n&atilde;o econ&ocirc;mica do poder, de que instrumentos dispomos hoje? Creio que de muito poucos. Dispomos da afirma&ccedil;&atilde;o que o poder n&atilde;o se d&aacute;, n&atilde;o se troca nem se retoma, mas se exerce, s&oacute; existe em a&ccedil;&atilde;o, como tamb&eacute;m da afirma&ccedil;&atilde;o que o poder n&atilde;o &eacute; principalmente manuten&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas, mas acima de tudo uma rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a.&rdquo;[Ibid.] Retorna, aqui, &agrave;s reflex&otilde;es conceituais sobre o poder e afirma duas posi&ccedil;&otilde;es: <em>por um lado, nega que o poder seja somente a manuten&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o da economia, por outro, volta a afirmar o poder como rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a<\/em>. <\/p>\n<p>O &ldquo;economicismo&rdquo; na teoria do poder, coloca Foucault, bastante refor&ccedil;ado durante o s&eacute;culo XIX, conseguiu-se impor para significativa parcela dos te&oacute;ricos do poder e da pol&iacute;tica em geral. &ldquo;O s&eacute;culo XIX nos prometera que, no dia em que os problemas econ&ocirc;micos se resolvessem, todos os efeitos de poder suplementar excessivo estariam resolvidos.&rdquo;[EPS, p. 225] Com isso, acreditou-se que a esfera econ&ocirc;mica implicaria uma determina&ccedil;&atilde;o necess&aacute;ria e obrigat&oacute;ria das outras esferas e que, sendo as quest&otilde;es econ&ocirc;micas resolvidas, as outras tamb&eacute;m necessariamente seriam. Mas segundo acredita o autor, n&atilde;o foi isso que o s&eacute;culo XX mostrou. &ldquo;O s&eacute;culo XX descobriu o contr&aacute;rio: &ldquo;podem-se resolver todos os problemas econ&ocirc;micos que se quiser e os excessos do poder permanecem&rdquo;[Ibid.], parecendo aludir &agrave;s experi&ecirc;ncias do &ldquo;socialismo real&rdquo;.<\/p>\n<p>Nesse sentido, <em>a economia, ainda que explique parcialmente o poder, n&atilde;o o explica na sua totalidade; an&aacute;lise que tamb&eacute;m seria v&aacute;lida para uma tentativa de reduzir uma explica&ccedil;&atilde;o do poder &agrave;s categorias classe\/explora&ccedil;&atilde;o<\/em>. &ldquo;Talvez n&atilde;o baste dizer que, por tr&aacute;s dos governos, por tr&aacute;s dos aparelhos de Estado, h&aacute; a classe dominante; &eacute; preciso situar o ponto de atividade, os lugares e as formas sob as quais se exerce essa domina&ccedil;&atilde;o. &Eacute; porque essa domina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o &eacute; simplesmente a express&atilde;o, em termos pol&iacute;ticos, da explora&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, ela &eacute; seu instrumento, em ampla medida a condi&ccedil;&atilde;o que a torna poss&iacute;vel; a supress&atilde;o de uma se realiza pelo discernimento exaustivo da outra.&rdquo;[EPS, p. 115] Ou seja, &eacute; preciso entender o &ldquo;aonde&rdquo; e o &ldquo;como&rdquo; dessas rela&ccedil;&otilde;es, sabendo que elas podem ser produto ou produtoras da economia.<\/p>\n<p>Essa posi&ccedil;&atilde;o termina por afastar Foucault do materialismo hist&oacute;rico que, segundo acredita, buscaria &ldquo;situar na base do sistema as for&ccedil;as produtivas, em seguida as rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o para se chegar &agrave; superestrutura jur&iacute;dica e ideol&oacute;gica, e finalmente ao que d&aacute; a sua profundidade, tanto ao nosso pensamento quanto &agrave; consci&ecirc;ncia dos prolet&aacute;rios&rdquo;. Na realidade, para ele, &ldquo;as rela&ccedil;&otilde;es de poder s&atilde;o [&#8230;] ao mesmo tempo mais simples e muito mais complicadas&rdquo;. Explica; &ldquo;simples, uma vez que n&atilde;o necessitam dessas constru&ccedil;&otilde;es piramidais; e muito mais complicadas, j&aacute; que existem m&uacute;ltiplas rela&ccedil;&otilde;es entre, por exemplo, a tecnologia do poder e o desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas. N&atilde;o se pode compreender o desenvolvimento das for&ccedil;as produtivas a n&atilde;o ser que se balizem, na ind&uacute;stria e na sociedade, um tipo particular ou v&aacute;rios tipos de poder em atividade &ndash; e em atividade no interior das for&ccedil;as produtivas. O corpo humano &eacute;, n&oacute;s sabemos, uma for&ccedil;a de produ&ccedil;&atilde;o, mas o corpo n&atilde;o existe tal qual, como um artigo biol&oacute;gico ou como um material. O corpo existe no interior e atrav&eacute;s de um sistema pol&iacute;tico. O poder pol&iacute;tico d&aacute; um certo espa&ccedil;o ao indiv&iacute;duo: um espa&ccedil;o onde se comportar, onde adaptar uma postura particular, onde sentar de uma certa maneira, ou trabalhar continuamente. Marx pensava &ndash; e ele o escreveu &ndash; que o trabalho constitui a ess&ecirc;ncia concreta do homem. Penso que essa &eacute; uma id&eacute;ia tipicamente hegeliana. O trabalho n&atilde;o &eacute; a ess&ecirc;ncia do homem. Se o homem trabalha, se o corpo humano &eacute; uma for&ccedil;a produtiva, &eacute; porque ele &eacute; investido por for&ccedil;as pol&iacute;ticas, porque ele &eacute; capturado nos mecanismos de poder&rdquo;. [EPS, p. 259]<\/p>\n<p>Portanto, para o autor, <em>uma compreens&atilde;o mais aprofundada do poder n&atilde;o pode ser resumir ao que ele chamou de &ldquo;economicismo&rdquo;, que implica uma determina&ccedil;&atilde;o, necess&aacute;ria e obrigat&oacute;ria, em todos os casos, da esfera econ&ocirc;mica em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s outras esferas &ndash; esquema que, no campo do marxismo, ficou conhecido como a determina&ccedil;&atilde;o da infra-estrutura da sociedade em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua superestrutura &ndash; posi&ccedil;&atilde;o que o afasta do materialismo hist&oacute;rico<\/em>. Uma compreens&atilde;o do poder, assim, deveria negar o economicismo e o materialismo hist&oacute;rico como m&eacute;todo de an&aacute;lise e buscar compreender as rela&ccedil;&otilde;es entre as diferentes esferas, a depend&ecirc;ncia entre elas e tudo aquilo que envolve as rela&ccedil;&otilde;es que se d&atilde;o nesse sentido. <em>O conceito central para se compreender a humanidade n&atilde;o &eacute; o trabalho, mas o poder<\/em>.<br \/>\n<strong><br \/>\nO modus operandi do poder<\/strong><\/p>\n<p>Para Foucault, &ldquo;onde h&aacute; poder, ele se exerce&rdquo;.[MP, p. 75] Essa afirma&ccedil;&atilde;o permite voltar brevemente &agrave; primeira quest&atilde;o sobre o poder, e enfatizar que o poder implica<em> rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as reais<\/em>, que est&atilde;o implicadas em uma determinada realidade social; o que <em>afasta<\/em>, dessa maneira, <em>a no&ccedil;&atilde;o de defini&ccedil;&atilde;o do poder simplesmente como capacidade, ou seja, como for&ccedil;a potencial<\/em>. Se onde h&aacute; poder, ele se exerce, na realidade n&atilde;o h&aacute; rela&ccedil;&atilde;o de poder sem dinamismo, sem constante movimento, j&aacute; que o poder seria, antes de tudo, uma intera&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as que nunca cessa, que n&atilde;o vacila: &ldquo;a impress&atilde;o de que o poder vacila &eacute; falsa, porque ele pode recuar, se deslocar, investir em outros lugares&#8230; e a batalha continua&rdquo;.[MP, p. 146] Esse sentido de batalha em permanente continuidade explicita <em>o dinamismo constante do poder, que n&atilde;o poderia, nesse sentido, ser compreendido como uma rela&ccedil;&atilde;o est&aacute;tica e sem movimento<\/em>.<\/p>\n<p>&ldquo;O poder deve ser analisado como algo que circula, ou melhor, como algo que s&oacute; funciona em cadeia. Nunca est&aacute; localizado aqui ou ali, nunca est&aacute; nas m&atilde;os de alguns, nunca &eacute; apropriado como uma riqueza ou um bem. O poder funciona e se exerce em rede. Nas suas malhas, os indiv&iacute;duos n&atilde;o s&oacute; circulam, mas est&atilde;o sempre em posi&ccedil;&atilde;o de exercer este poder e de sofrer sua a&ccedil;&atilde;o; nunca s&atilde;o o alvo inerte ou consentido do poder, s&atilde;o sempre centros de transmiss&atilde;o. Em outros termos, o poder n&atilde;o se aplica aos indiv&iacute;duos, passa por eles.&rdquo;[MP, p. 183] A no&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica do poder que funciona em cadeia, em rede, estando, como se viu, em todos os lugares, permite que Foucault afirme que n&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel falar em &ldquo;poder&rdquo; como algo monol&iacute;tico, algo que pode ser absorvido ou tomado por um indiv&iacute;duo, por uma organiza&ccedil;&atilde;o, por uma classe em particular. Como o poder se d&aacute; nas rela&ccedil;&otilde;es sociais, existem milh&otilde;es, bilh&otilde;es de infind&aacute;veis rela&ccedil;&otilde;es sociais que constituem poder; por isso a afirma&ccedil;&atilde;o de que o poder n&atilde;o est&aacute; necess&aacute;ria e completamente com um ou com outro. <em>Nessas infind&aacute;veis rela&ccedil;&otilde;es de poder, o poder pode estar com um ou com outro, e esse amplo leque de possibilidades d&aacute; espa&ccedil;o &agrave; id&eacute;ia de que todos os indiv&iacute;duos, grupos, organiza&ccedil;&otilde;es etc. podem ter posi&ccedil;&otilde;es distintas nessas m&uacute;ltiplas rela&ccedil;&otilde;es de poder<\/em>; em alguns momentos exercem as rela&ccedil;&otilde;es de poder, em outros, sofrem suas conseq&uuml;&ecirc;ncias. <em>Todos<\/em>, nesse sentido,<em> s&atilde;o agentes capazes de receber e transmitir<\/em>, e podem, dependendo da rela&ccedil;&atilde;o que se analisa, ter diferentes pap&eacute;is no jogo de for&ccedil;as que &eacute; sempre desigual.<\/p>\n<p>Essa desigualdade de for&ccedil;as que caracteriza a rela&ccedil;&atilde;o de poder faz, necessariamente, que exista <em>um centro e uma periferia, um &lsquo;em cima&rsquo; e um &lsquo;em baixo&rsquo;<\/em>: &ldquo;na medida em que as rela&ccedil;&otilde;es de poder s&atilde;o uma rela&ccedil;&atilde;o desigual e relativamente estabilizada de for&ccedil;as, &eacute; evidente que isto implica um em cima e um em baixo, uma diferen&ccedil;a de potencial&rdquo;.[MP, p. 250] No entanto, esse reconhecimento de que existem centro e &lsquo;em cima&rsquo;, periferia e &lsquo;em baixo&rsquo;, implicaria, na din&acirc;mica do poder, entender que o poder emana do centro, ou da parte superior dessa pir&acirc;mide? Para Foucault, n&atilde;o.<\/p>\n<p>&ldquo;E evidente que, em um dispositivo como um ex&eacute;rcito ou uma oficina, ou um outro tipo de institui&ccedil;&atilde;o, a rede do poder possui uma forma piramidal. Existe, portanto, um &aacute;pice; mas, mesmo em um caso t&atilde;o simples como este, este &lsquo;&aacute;pice&rsquo; n&atilde;o &eacute; a &lsquo;fonte&rsquo; ou o &lsquo;principio&rsquo; de onde todo o poder derivaria como de um foco luminoso (esta &eacute; a imagem que a monarquia faz dela pr&oacute;pria). O &aacute;pice e os elementos inferiores da hierarquia est&atilde;o em uma rela&ccedil;&atilde;o de apoio de condicionamento rec&iacute;procos; eles se &lsquo;sustentam&rsquo; (o poder, &lsquo;chantagem&rsquo; m&uacute;tua e indefinida).&rdquo;[MP, p. 221] O <em>poder<\/em>, portanto, <em>n&atilde;o tem uma fonte fixa, um princ&iacute;pio gerador original, constante e est&aacute;tico e emana de diversos agentes envolvidos na rela&ccedil;&atilde;o<\/em>.<\/p>\n<p>Essa vis&atilde;o torna complexa a an&aacute;lise da origem das rela&ccedil;&otilde;es de poder, e impossibilita qualquer teoria que generalize o surgimento dessas rela&ccedil;&otilde;es, formulando posi&ccedil;&otilde;es que podem ser aplicadas em quaisquer casos, independente do contexto &ndash; ainda que essas posi&ccedil;&otilde;es se fundamentem nas classes sociais. &ldquo;Mas se voc&ecirc; me pergunta: esta nova tecnologia de poder historicamente teve origem em um indiv&iacute;duo ou em um grupo determinado de indiv&iacute;duos que teriam decidido aplic&aacute;-la para servir a seus interesses e tornar o corpo social pass&iacute;vel de ser utilizados por elas, eu responderia: n&atilde;o. Estas t&aacute;ticas foram inventadas, organizadas a partir de condi&ccedil;&otilde;es locais e de urg&ecirc;ncias particulares. Elas se delinearam por partes antes que uma estrat&eacute;gia de classe as solidificasse em amplos conjuntos coerentes. E preciso assinalar, al&eacute;m disso, que estes conjuntos n&atilde;o consistem em uma homogeneiza&ccedil;&atilde;o, mas muito mais em uma articula&ccedil;&atilde;o complexa, atrav&eacute;s da qual os diferentes mecanismos de poder procuram apoiar-se, mantendo sua especificidade. A articula&ccedil;&atilde;o atual entre fam&iacute;lia, medicina, psiquiatria, psican&aacute;lise, escola, justi&ccedil;a, a respeito das crian&ccedil;as, n&atilde;o homogene&iacute;za estas inst&acirc;ncias diferentes, mas estabelece entre elas conex&otilde;es, repercuss&otilde;es, complementaridades, delimita&ccedil;&otilde;es, que sup&otilde;em que cada uma mantenha, at&eacute; certo ponto, suas modalidades pr&oacute;prias.&rdquo;[MP, 221-222] O <em>poder<\/em>, desse ponto de vista, <em>n&atilde;o se origina sempre na classe dominante<\/em>. Entretanto, essa afirma&ccedil;&atilde;o contra as generaliza&ccedil;&otilde;es <em>n&atilde;o impede que se an&aacute;lise, em cada uma dessas rela&ccedil;&otilde;es, ou mesmo em um conjunto determinado de rela&ccedil;&otilde;es, as for&ccedil;as em jogo e como est&atilde;o se colocando essas for&ccedil;as nas rela&ccedil;&otilde;es de poder<\/em>. <\/p>\n<p>Parece-me que a afirma&ccedil;&atilde;o de que n&atilde;o se pode generalizar como surgem as rela&ccedil;&otilde;es de poder n&atilde;o implica que, em uma rela&ccedil;&atilde;o de poder dada, ou mesmo em um conjunto delas, seja imposs&iacute;vel saber quais s&atilde;o as for&ccedil;as em jogo, quais est&atilde;o influenciando, determinando, se sobrepondo &agrave;s outras, e de onde partem essas for&ccedil;as. Segundo Foucault, n&atilde;o se poderia dizer que as rela&ccedil;&otilde;es de poder se originam na classe dominante; no entanto, isso n&atilde;o significa negar que, em diversas rela&ccedil;&otilde;es de poder, a classe dominante possa ser a fonte do poder ou mesmo exercer poder em rela&ccedil;&atilde;o a outras classes. O que se nega, parece-me, &eacute; uma origem que poderia ser teoricamente determinada e aplicada em todos os casos.<\/p>\n<p>Se a origem n&atilde;o pode ser determinada de antem&atilde;o, <em>o sentido das rela&ccedil;&otilde;es de poder tamb&eacute;m n&atilde;o pode<\/em>. Foucault <em>n&atilde;o acredita que seja poss&iacute;vel prever um sentido na din&acirc;mica do poder<\/em>: ela implicaria rela&ccedil;&otilde;es em todos os sentidos, ou seja: <em>do centro da periferia, da periferia para o centro, do cume para a base, da base para o cume<\/em>. Uma rela&ccedil;&atilde;o de &ldquo;subida&rdquo; e &ldquo;descida&rdquo;, conforme colocada o autor: &ldquo;de modo geral, penso que &eacute; preciso ver como as grandes estrat&eacute;gias de poder se incrustam, encontram suas condi&ccedil;&otilde;es de exerc&iacute;cio em micro-rela&ccedil;&otilde;es de poder. Mas sempre h&aacute; tamb&eacute;m movimentos de retorno, que fazem com que as estrat&eacute;gias que coordenam as rela&ccedil;&otilde;es de poder produzam efeitos novos e avancem sobre dom&iacute;nios que, at&eacute; o momento, n&atilde;o estavam concernidos.&rdquo;[MP, p. 249] &Eacute; necess&aacute;rio, portanto, avaliar sempre os dois sentidos: <em>de cima para baixo, e de baixo para cima<\/em>. A preocupa&ccedil;&atilde;o de Foucault, que foi sempre mais voltada ao micro-poder do que ao macro, fez com que, mesmo sem negar o movimento do centro para a periferia, do cume para a base, ele priorizasse, no que diz respeito &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es de poder, as an&aacute;lises da periferia para o centro, da base para o cume. Ele defende que &eacute; relevante &ldquo;fazer uma an&aacute;lise ascendente do poder: partir dos mecanismos infinitesimais que t&ecirc;m uma hist&oacute;ria, um caminho, t&eacute;cnicas e t&aacute;ticas e depois examinar como estes mecanismos de poder foram e ainda s&atilde;o investidos, colonizados, utilizados, subjugados, transformados, deslocados, desdobrados, etc., por mecanismos cada vez mais gerais e por formas de domina&ccedil;&atilde;o global. N&atilde;o &eacute; a domina&ccedil;&atilde;o global que se pluraliza e repercute at&eacute; embaixo. Creio que deva ser analisada a maneira como os fen&ocirc;menos, as t&eacute;cnicas e os procedimentos de poder atuam nos n&iacute;veis mais baixos; como estes procedimentos se deslocam, se expandem, se modificam; mas sobretudo como s&atilde;o investidos e anexados por fen&ocirc;menos mais globais.&rdquo;[MP, p. 184] <\/p>\n<p>Portanto, deve-se ter em mente que, <em>ainda que as rela&ccedil;&otilde;es de poder permitam identificar um centro, um &aacute;pice, uma periferia, uma base, isso n&atilde;o significa prever de antem&atilde;o a origem desse poder e nem o fluxo dessas rela&ccedil;&otilde;es que, para Foucault, podem estar em qualquer um dos pontos e se dar de cima para baixo ou de baixo para cima, do centro para a periferia ou da periferia para o centro<\/em>.<\/p>\n<p>Sobre esses mesmos pressupostos te&oacute;ricos, Foucault analisa as rela&ccedil;&otilde;es entre as distintas esferas da sociedade. A mesma l&oacute;gica utilizada nas rela&ccedil;&otilde;es centro-periferia, &aacute;pice\/cume-base, servem aqui para uma reflex&atilde;o sobre as esferas. Trabalhando ainda com a divis&atilde;o das esferas proposta anteriormente (econ&ocirc;mica\/pol&iacute;tica-jur&iacute;dica-militar\/cultural-ideol&oacute;gica), pode-se afirmar que o autor, assim como nega uma origem pr&eacute;-determinada do poder nas rela&ccedil;&otilde;es verticais, defende que o poder n&atilde;o surge necessariamente em uma esfera espec&iacute;fica e nem tem um sentido &uacute;nico entre elas, nessas rela&ccedil;&otilde;es que poderiam ser chamadas de horizontais. Nesse sentido, o poder n&atilde;o emanaria, obrigatoriamente, da esfera pol&iacute;tica ou da econ&ocirc;mica, e nem teria alguma esfera espec&iacute;fica como necessariamente determinante. <em>O poder poderia emanar das distintas esferas e influenciar-se mutuamente, variando, em sua origem e no sentido de suas rela&ccedil;&otilde;es, em cada caso.<br \/>\n<\/em> <br \/>\nEm diversas situa&ccedil;&otilde;es, Foucault trata das rela&ccedil;&otilde;es estritas entre as esferas nas rela&ccedil;&otilde;es de poder. Acredita que a economia pode determinar a pol&iacute;tica, mas a rela&ccedil;&atilde;o indissoci&aacute;vel entre uma e outra poderia fazer com que a pol&iacute;tica tamb&eacute;m determinasse a economia. O mesmo com a quest&atilde;o da cultura-ideologia, que poderia ser determinada pela economia ou a pol&iacute;tica, mas tamb&eacute;m as determinar. Por exemplo, o pol&iacute;tico-jur&iacute;dico, na forma dos tribunais, poderia forjar uma cultura capaz de influenciar o cultural-ideol&oacute;gico; ao mesmo tempo, os saberes, as distintas concep&ccedil;&otilde;es de verdade seriam capazes de influenciar o pol&iacute;tico-jur&iacute;dico. A disciplina das escolas, influenciar o pol&iacute;tico-militar e vice-versa. A cultura de subservi&ecirc;ncia e o adestramento do corpo poderiam influenciar a economia, assim como a f&aacute;brica poderia forjar uma determinada cultura. A classe dominante poderia forjar o desenvolvimento do Estado e ser ao mesmo tempo forjada por ele etc. Em suma, as origens e as rela&ccedil;&otilde;es entre as esferas se dariam nos mais diversos sentidos.<\/p>\n<p>Pode-se dizer, com base na argumenta&ccedil;&atilde;o exposta, que, para Foucault, o <em>modus operandi<\/em> do poder implica <em>m&uacute;ltiplos sentidos, m&uacute;ltiplas origens e influ&ecirc;ncias, tanto verticais, como horizontais<\/em>.<\/p>\n<p>O fato de as rela&ccedil;&otilde;es de poder se darem em todo o corpo social permite afirmar que, para o autor, &ldquo;<em>onde h&aacute; poder, h&aacute; resist&ecirc;ncia<\/em>&rdquo;. &ldquo;A an&aacute;lise dos mecanismos de poder n&atilde;o tende a mostrar que o poder &eacute; ao mesmo tempo an&ocirc;nimo e sempre vencedor. Trata-se, ao contr&aacute;rio, de demarcar as posi&ccedil;&otilde;es e os modos de a&ccedil;&atilde;o de cada um, as possibilidades de resist&ecirc;ncia e de contra-ataque de uns e de outros.&rdquo;[MP, p. 226] A din&acirc;mica das rela&ccedil;&otilde;es de poder implica que, nas in&uacute;meras correla&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as da sociedade, ainda que algumas se imponham, haver&aacute; sempre resist&ecirc;ncias. &ldquo;A partir do momento em que h&aacute; uma rela&ccedil;&atilde;o de poder, h&aacute; uma possibilidade de resist&ecirc;ncia. Jamais somos aprisionados pelo poder: podemos sempre modificar sua domina&ccedil;&atilde;o em condi&ccedil;&otilde;es determinadas e segundo uma estrat&eacute;gia precisa.&rdquo;[MP, p. 241] <\/p>\n<p>Com essa posi&ccedil;&atilde;o, Foucault recha&ccedil;a as cr&iacute;ticas que lhe foram feitas; os cr&iacute;ticos afirmaram que, j&aacute; que o poder est&aacute; em todos os lugares, n&atilde;o h&aacute; possibilidade de resist&ecirc;ncia: &ldquo;As rela&ccedil;&otilde;es de poder s&atilde;o rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a, enfrentamentos, portanto, sempre revers&iacute;veis. N&atilde;o h&aacute; rela&ccedil;&otilde;es de poder que sejam completamente triunfantes e cuja domina&ccedil;&atilde;o seja incontorn&aacute;vel. Com freq&uuml;&ecirc;ncia se disse &ndash; os cr&iacute;ticos me dirigiram esta censura &ndash; que, para mim, ao colocar o poder em toda parte, excluo qualquer possibilidade de resist&ecirc;ncia. M&aacute;s &eacute; o contr&aacute;rio! Quero dizer que as rela&ccedil;&otilde;es de poder suscitam necessariamente, apelam a cada instante, abrem a possibilidade a uma resist&ecirc;ncia, e &eacute; porque h&aacute; possibilidade de resist&ecirc;ncia e resist&ecirc;ncia real que o poder daquele que domina tenta se manter com tanto mais for&ccedil;a, tanto mais ast&uacute;cia quanto maior for a resist&ecirc;ncia.&rdquo;[EPS, p. 222] Assim, a resist&ecirc;ncia se d&aacute; juntamente com o poder e possui caracter&iacute;sticas semelhantes: &ldquo;Esta resist&ecirc;ncia de que falo n&atilde;o &eacute; uma subst&acirc;ncia. Ela n&atilde;o &eacute; anterior ao poder que ela enfrenta. Ela &eacute; coextensiva a ele e absolutamente contempor&acirc;nea. [&#8230;] Para resistir, &eacute; preciso que a resist&ecirc;ncia seja como o poder. T&atilde;o inventiva, t&atilde;o m&oacute;vel, t&atilde;o produtiva quanto ele. Que, como ele, venha de &lsquo;baixo&rsquo; e se distribua estrategicamente.&rdquo;[MP, p. 241] Resist&ecirc;ncia que, em alguns casos, &eacute; chamada pelo autor de &ldquo;contra-poder&rdquo;.<\/p>\n<p>Fechando, e novamente, a t&iacute;tulo de exerc&iacute;cio te&oacute;rico, buscarei uma poss&iacute;vel resposta de Foucault para a quest&atilde;o: Como se constitui o poder e como funcionam as rela&ccedil;&otilde;es de poder? <\/p>\n<p><em>Compreender a constitui&ccedil;&atilde;o e o funcionamento do poder e das rela&ccedil;&otilde;es de poder implica o abandono de duas no&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas que est&atilde;o presentes nas teorias do poder: primeiramente, a id&eacute;ia de que haveria um progresso ou uma evolu&ccedil;&atilde;o obrigat&oacute;ria da sociedade; e segundo, o economicismo e o materialismo hist&oacute;rico. O sentido do desenvolvimento da sociedade n&atilde;o est&aacute; pr&eacute;-determinado e &eacute; o resultado das distintas for&ccedil;as em jogo e, portanto, das rela&ccedil;&otilde;es de poder. O poder constitui-se em rela&ccedil;&otilde;es din&acirc;micas, sendo, por isso, imposs&iacute;vel pensar nele como algo est&aacute;tico, sem movimento. As m&uacute;ltiplas rela&ccedil;&otilde;es de poder permitem que todos, dependendo da rela&ccedil;&atilde;o avaliada, possam exercer o poder ou sofrer suas conseq&uuml;&ecirc;ncias. Ainda que se possa, nas rela&ccedil;&otilde;es de poder, identificar uma estrutura piramidal, um centro e uma periferia, isso n&atilde;o significa que exista uma origem &uacute;nica do poder ou mesmo um sentido sempre igual das rela&ccedil;&otilde;es de poder: elas podem surgir no cume ou na base, na periferia ou no centro e deslocar-se de um sentido a outro. Princ&iacute;pio que tamb&eacute;m norteia a reflex&atilde;o sobre as esferas da sociedade, permitindo afirmar que o poder pode surgir nas diferentes esferas e ter determina&ccedil;&otilde;es m&uacute;ltiplas, que n&atilde;o t&ecirc;m como ser previstas a priori. Portanto, s&oacute; se pode analisar a constitui&ccedil;&atilde;o do poder e o funcionamento das rela&ccedil;&otilde;es de poder a partir de casos concretos, em que se buscar&aacute; identificar as for&ccedil;as em jogo, quais t&ecirc;m preponder&acirc;ncia em rela&ccedil;&atilde;o a outras, onde est&atilde;o as origens dessa rela&ccedil;&atilde;o de poder. N&atilde;o &eacute; poss&iacute;vel estabelecer uma f&oacute;rmula te&oacute;rica que identifique uma origem ou um sentido permanente das rela&ccedil;&otilde;es de poder, v&aacute;lida para todos os casos. As rela&ccedil;&otilde;es de poder convivem permanentemente com resist&ecirc;ncias, contra-poderes, que d&atilde;o a elas um dinamismo e exigem dos detentores de poder que mantenham suas for&ccedil;as superiores &agrave;s da resist&ecirc;ncia, caso pretendam se manter no poder.<\/em><\/p>\n<p><strong>M&eacute;todo de an&aacute;lise e estrat&eacute;gia<\/strong><\/p>\n<p>&Eacute; relevante destacar que o m&eacute;todo de an&aacute;lise colocado at&eacute; aqui se distingue da estrat&eacute;gia, do projeto de atua&ccedil;&atilde;o de Foucault. Deve-se pontuar que <em>toda a for&ccedil;a de seu m&eacute;todo de an&aacute;lise, ou de sua &ldquo;teoria do poder&rdquo;, est&aacute; no fato de ela oferecer uma ferramenta consistente para a leitura da realidade<\/em>. Um m&eacute;todo que funcionou bem para os objetos que Foucault se disp&ocirc;s a estudar; todos eles no campo das micro-rela&ccedil;&otilde;es de poder. Assim, utilizar essa teoria para pensar a macro-pol&iacute;tica exige um esfor&ccedil;o de adapta&ccedil;&atilde;o que n&atilde;o me parece pequeno. <\/p>\n<p>Outro fato a ser destacado &eacute; que, depois do estudo da realidade, com a utiliza&ccedil;&atilde;o de um determinado m&eacute;todo, a resposta sobre &ldquo;o que fazer&rdquo; &eacute; um assunto completamente distinto. E parece-me que a for&ccedil;a de Foucault est&aacute; muito mais no m&eacute;todo de an&aacute;lise proposto, nessa sua &ldquo;teoria do poder&rdquo;, do que nas estrat&eacute;gias defendidas para uma interven&ccedil;&atilde;o na realidade, ou mesmo em algum tipo de projeto mais amplo a ser buscado nesse complexo jogo de for&ccedil;as. <\/p>\n<p>Parece-me, tamb&eacute;m, que os elementos que o autor traz, e que permitem pensar uma estrat&eacute;gia, s&atilde;o infinitamente inferiores &agrave;s suas contribui&ccedil;&otilde;es te&oacute;ricas para um m&eacute;todo adequado de an&aacute;lise da realidade, ainda que ele pontue algumas necessidades relevantes em termos estrat&eacute;gicos: de se falar sobre o poder[MP, p. 76], de trazer o inimigo &agrave; tona[EPS, p. 114]; de se come&ccedil;ar o combate dentro da sua pr&oacute;pria atividade (ou passividade)[MP, p. 77]; de se buscar incluir no movimento revolucion&aacute;rio vis&otilde;es cr&iacute;ticas de temas como pris&atilde;o, g&ecirc;nero, op&ccedil;&atilde;o sexual, hospitais psiqui&aacute;tricos, etc.[MP, p. 78] e tamb&eacute;m desse movimento revolucion&aacute;rio n&atilde;o reproduzir as rela&ccedil;&otilde;es dos aparelhos de Estado[MP, p. 150]; de n&atilde;o se utilizar o Estado como modelo para as novas formas de organiza&ccedil;&atilde;o[MP, p. 60]. <\/p>\n<p>Todas essas, s&atilde;o contribui&ccedil;&otilde;es estrat&eacute;gicas relevantes, mas que, se colocadas ao lado de suas reflex&otilde;es de m&eacute;todo, tornam-se, de fato, pequenas, fundamentalmente pela <em>envergadura, sem d&uacute;vida enorme, da sua &ldquo;teoria do poder&rdquo;<\/em>.<\/p>\n<p>\n______<\/p>\n<p>* Michel Foucault. <em>Microf&iacute;sica do Poder<\/em>. S&atilde;o Paulo: Graal, 2005. 21&ordf; edi&ccedil;&atilde;o da obra organizada por Roberto Machado. Michel Foucault. <em>Estrat&eacute;gia Poder-Saber<\/em>. Rio de Janeiro: Forense Universit&aacute;ria, 2006. 2&ordf; edi&ccedil;&atilde;o da obra organizada por Manoel Barros da Motta.<br \/>\n<em><br \/>\nNotas:<\/em><\/p>\n<p>1. Para as refer&ecirc;ncias bibliogr&aacute;ficas, utilizarei EPS para <em>Estrat&eacute;gia Poder-Saber <\/em>e MP para <em>Microf&iacute;sica do Poder<\/em>. <\/p>\n<p>2. Ver, por exemplo, o brilhante estudo: Tomaz Iba&ntilde;ez. <em>Poder y Libertad<\/em>. Barcelona: HoraSA, 1982. Nele, o autor, al&eacute;m de retomar praticamente toda a literatura sobre o tema &ldquo;poder&rdquo; dispon&iacute;vel at&eacute; aquele momento, aprofunda e filia-se &agrave; escola de pensamento de Foucault e, nesse sentido, aprofunda de maneira muito mais completa e totalizante do que fa&ccedil;o nesse artigo.<\/p>\n<p>3. Agrade&ccedil;o as cr&iacute;ticas do texto realizadas pelo veterano companheiro A., &ldquo;o Pequeno&rdquo;, que, autodidata e conhecedor da obra foucaultiana, discordou de diversos pontos de minha abordagem e fez cr&iacute;ticas que me fizeram modificar algumas partes do texto e tamb&eacute;m realizar reflex&otilde;es presentes nesses par&aacute;grafos introdut&oacute;rios.<\/p>\n<p>4. O &ldquo;significado forte&rdquo; de ideologia, a compreende como &ldquo;cren&ccedil;a falsa&rdquo;, &ldquo;conceito negativo que denota precisamente o car&aacute;ter mistificante de falsa consci&ecirc;ncia de uma cren&ccedil;a pol&iacute;tica&rdquo;. O &ldquo;significado fraco&rdquo;, a considera &ldquo;um conjunto de id&eacute;ias e de valores respeitantes &agrave; ordem p&uacute;blica e tendo como fun&ccedil;&atilde;o orientar comportamentos pol&iacute;ticos coletivos&rdquo; ou mesmo como &ldquo;um sistema de id&eacute;ias conexas com a a&ccedil;&atilde;o&rdquo;, que compreendem &ldquo;um programa e uma estrat&eacute;gia para sua atua&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Cf. Norberto Bobbio et alli. <em>Dicion&aacute;rio de Pol&iacute;tica. Bras&iacute;lia<\/em>: Editora UNB, 2004, pp. 585-587.<br \/>\n<em><br \/>\n<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O poder pode e deve ser dilu\u00eddo entre semelhantes; uma destas possibilidades se d\u00e1 atrav\u00e9s de sistemas de trabalho coletivo e horizontalizados, tais como os exerc\u00edcios dos mutir\u00f5es como refor\u00e7o da identidade e dos valores coletivistas. 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