{"id":10552,"date":"2011-10-01T23:42:22","date_gmt":"2011-10-01T23:42:22","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1529"},"modified":"2011-10-01T23:42:22","modified_gmt":"2011-10-01T23:42:22","slug":"troy-davis-e-a-maquina-da-morte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10552","title":{"rendered":"Troy Davis e a m\u00e1quina da morte"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/troy-davis.jpg\" title=\"Diversos segmentos da sociedade civil pediram aos Estados Unidos que n\u00e3o executassem Davis. O prov\u00e1vel erro de pena de morte pode acontecer com qualquer um, raz\u00e3o pela qual manifestantes afirmavam ser Troy Davis. - Foto:pco\" alt=\"Diversos segmentos da sociedade civil pediram aos Estados Unidos que n\u00e3o executassem Davis. O prov\u00e1vel erro de pena de morte pode acontecer com qualquer um, raz\u00e3o pela qual manifestantes afirmavam ser Troy Davis. - Foto:pco\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Diversos segmentos da sociedade civil pediram aos Estados Unidos que n\u00e3o executassem Davis. O prov\u00e1vel erro de pena de morte pode acontecer com qualquer um, raz\u00e3o pela qual manifestantes afirmavam ser Troy Davis.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:pco<\/small><\/figure>\n<p><em>Amy Goodman<\/em><\/p>\n<p>A morte de Troy Anthony Davis estava marcada para 21 de setembro passado, &agrave;s 19h. Nesse dia, eu me encontrava informando a partir das imedia&ccedil;&otilde;es do &ldquo;Corredor da morte&rdquo;, na pris&atilde;o de Jackson, Georgia. Estava apreensiva, aguardando novidades sobre se a Suprema Corte iria lhe perdoar a vida.<\/p>\n<p>Davis foi condenado &agrave; morte pelo assassinato do policial de Savannah Mark MacPhail, em 1989. Sete das nove testemunhas civis se retrataram de suas declara&ccedil;&otilde;es ou mudaram em seguida o seu testemunho. Alguns, inclusive, afirmaram que deram testemunhos falsos ap&oacute;s sofrer intimida&ccedil;&atilde;o da pol&iacute;cia. Uma das duas testemunhas que n&atilde;o se retrataram do seu depoimento &eacute; o homem apontado por muitos como o verdadeiro autor do homic&iacute;dio. N&atilde;o h&aacute; provas materiais que vinculem Davis ao crime.<\/p>\n<p>Davis era um dos mais de 3.200 prisioneiros condenados &agrave; morte nos Estados Unidos. A data da sua execu&ccedil;&atilde;o havia sido adiada tr&ecirc;s vezes. A cada nova data, crescia a sensibilidade da popula&ccedil;&atilde;o mundial em rela&ccedil;&atilde;o ao caso. A Anistia Internacional assumiu sua causa, assim como a Associa&ccedil;&atilde;o Nacional para o Progresso das Pessoas de Cor (NAACP, sigla do nome original em ingl&ecirc;s). Houve pedidos de clem&ecirc;ncia do Papa, do ex-Diretor do FBI William Sessions e do ex-parlamentar republicando da Georgia, Bob Barr. Ap&oacute;s outorgar a suspens&atilde;o da execu&ccedil;&atilde;o em 2007, a Junta de Perd&atilde;o e Liberdade Condicional do estado da Georgia argumentou que &ldquo;n&atilde;o permitir&aacute; que nenhuma execu&ccedil;&atilde;o aconte&ccedil;a neste estado a menos que&#8230; n&atilde;o haja d&uacute;vida sobre a culpabilidade do acusado&rdquo;.<\/p>\n<p>Mas &eacute; justamente essa d&uacute;vida que gerou tanta indigna&ccedil;&atilde;o dos que defendiam Davis. Enquanto esper&aacute;vamos, a multid&atilde;o concentrada ao redor da pris&atilde;o foi crescendo. Levavam cartazes com mensagens como &ldquo;H&aacute; muitas d&uacute;vidas&rdquo; e &ldquo;Eu sou Troy Davis&rdquo;. Foram realizadas vig&iacute;lias em v&aacute;rios pa&iacute;ses como Isl&acirc;ndia, Inglaterra, Fran&ccedil;a e Alemanha. Nesse mesmo dia, as autoridades da pris&atilde;o nos entregaram uma pequena nota com informa&ccedil;&atilde;o para a imprensa, onde dizia que Davis seria submetido a exame m&eacute;dico de rotina &agrave;s 15h.<\/p>\n<p>Um exame m&eacute;dico de rotina? Em uma igreja local, na mesma rua da pris&atilde;o, Edward DuBose, presidente da NAACP na Georgia, fez um discurso junto aos defensores dos direitos humanos, membros do clero e familiares que vinham ver Davis. &ldquo;Tivemos que interromper nossa visita a Troy porque iam fazer um exame m&eacute;dico para assegurarem que estava em bom estado f&iacute;sico. Assim poderiam amarr&aacute;-lo e injetar a subst&acirc;ncia letal em seu bra&ccedil;o. N&atilde;o se confundam: chamam isso de execu&ccedil;&atilde;o; n&oacute;s o chamamos de homic&iacute;dio&rdquo;.<\/p>\n<p>Davis n&atilde;o quis qualquer comida especial. A nota &agrave; imprensa descreveu a comida que ofereceram a Davis: &ldquo;Hamb&uacute;rgueres grelhados, batatas ao forno, feij&atilde;o, repolho, biscoitos e bebida de uva&rdquo;. Tamb&eacute;m detalhavam o coquetel letal que viria depois: &ldquo;Pentobarbital, brometo de pancur&ocirc;nio, cloreto de pot&aacute;ssio e ativ&aacute;n (esp&eacute;cie de sedante)&rdquo;. O pentobarbital anestesia, o brometo de pancur&ocirc;nio paralisa e o cloreto de pot&aacute;ssio paralisa o cora&ccedil;&atilde;o. Davis n&atilde;o quis sedante no seu &uacute;ltimo jantar.  <\/p>\n<p>&Agrave;s 19h, a Suprema Corte de Justi&ccedil;a dos Estados Unidos estudava o pedido de adiamento de Davis. O caso havia sido enviado ao juiz da Suprema Corte Clarence Thomas, que &eacute; de Pin Point, tamb&eacute;m no estado da Georgia, uma comunidade fundada por escravos libertados pr&oacute;ximos a Savannah, onde vivia Davis.<\/p>\n<p>Os gritos de clem&ecirc;ncia se fizeram mais fortes. Allen Ault, ex-guarda do corredor da morte da Georgia &ndash; que supervisionou cinco execu&ccedil;&otilde;es ali -, enviou uma carta ao Governador da Georgia, Nathan Deal, co-assinada por outros cinco guardas e diretores de pris&otilde;es estaduais aposentados. A carta dizia: &ldquo;Apesar da maioria dos prisioneiros, de cujas execu&ccedil;&otilde;es participamos, ter assumido a responsabilidade dos crimes pelos quais foram castigados, alguns de n&oacute;s tamb&eacute;m executamos prisioneiros que afirmaram sua inoc&ecirc;ncia at&eacute; o final. Esses s&atilde;o casos que jamais se esquece&rdquo;.<\/p>\n<p>A Suprema Corte negou a peti&ccedil;&atilde;o. A execu&ccedil;&atilde;o de Davis come&ccedil;ou &agrave;s 22h53. Um porta-voz da pris&atilde;o deu a not&iacute;cia aos jornalistas que esperavam ali fora: &ldquo;Hora da morte: 23h08&rdquo;.<\/p>\n<p>As testemunhas da execu&ccedil;&atilde;o sa&iacute;ram. Um jornalista da Associated Press que esteve ali relatou as &uacute;ltimas palavras de Troy Davis: &ldquo;Ele queria falar com os familiares de MacPhail e disse que, apesar da situa&ccedil;&atilde;o em que se encontrava, ele n&atilde;o era o culpado. Disse que n&atilde;o foi o respons&aacute;vel pelo que aconteceu naquela noite, que n&atilde;o tinha uma arma. Disse aos familiares de MacPhail que lamentava a sua perda, mas tamb&eacute;m disse que n&atilde;o foi ele quem tirou a vida de seu filho, pai ou irm&atilde;o. Pediu-lhes que investigassem o caso com maior profundidade para descobrir a verdade. Tamb&eacute;m pediu a sua fam&iacute;lia e amigos que n&atilde;o deixem de rezar, que continuem lutando e que n&atilde;o percam a f&eacute;. E em seguida disse ao pessoal da pris&atilde;o: &lsquo;Aos que v&atilde;o acabar com a minha vida, que Deus tenha piedade de voc&ecirc;s&rsquo;&rdquo;.<\/p>\n<p>O estado da Georgia levou o corpo de Davis a Atlanta para realizar uma aut&oacute;psia, e cobrou os gastos do transporte a sua fam&iacute;lia. No &uacute;ltimo atestado de Davis, consta como causa da morte simplesmente &ldquo;homic&iacute;dio&rdquo;. <\/p>\n<p>Enquanto me encontrava nas imedia&ccedil;&otilde;es da pris&atilde;o, imediatamente ap&oacute;s a execu&ccedil;&atilde;o de Troy Davis, o Departamento de Pris&otilde;es amea&ccedil;ou cortar nossa transmiss&atilde;o. O espet&aacute;culo havia terminado. Algu&eacute;m me lembrou das palavras de Gandhi quando lhe perguntaram o que pensava sobre a civiliza&ccedil;&atilde;o ocidental. Disse: &ldquo;Acho que seria uma boa id&eacute;ia&rdquo;.<br \/>\n_______________________<\/p>\n<p>Denis Moynihan colaborou na produ&ccedil;&atilde;o jornal&iacute;stica desta coluna. <br \/>\n@2010 Amy Goodman <\/p>\n<p>Texto em ingl&ecirc;s traduzido por Mercedes Camps y <a href=\"http:\/\/www.democracynow.org\/es\">Democracy Now! em espanhol<\/a>. <\/p>\n<p>Esta vers&atilde;o &eacute; exclusiva de Estrat&eacute;gia &amp; An&aacute;lise para o portugu&ecirc;s. O texto em espanhol traduzido para o portugu&ecirc;s por Rafael Cavalcanti Barreto, e revisado por Bruno Lima Rocha. As opini&otilde;es adjuntas ao texto s&atilde;o de exclusiva responsabilidade dos editores de Estrat&eacute;gia &amp; An&aacute;lise. <\/p>\n<p>Amy Goodman &eacute; &acirc;ncora do <a href=\"http:\/\/www.democracynow.org\">Democracy Now!<\/a>, um notici&aacute;rio internacional que emite conte&uacute;do di&aacute;rio para mais de 650 emissoras de r&aacute;dio e televis&atilde;o em ingl&ecirc;s, e mais de 250 em espanhol. &Eacute; co-autora do livro &ldquo;Os que lutam contra o sistema: Her&oacute;is ordin&aacute;rios em tempos extraordin&aacute;rios nos Estados Unidos&rdquo;, editado pelo Le Monde Diplomatique do Cone Sul.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diversos segmentos da sociedade civil pediram aos Estados Unidos que n\u00e3o executassem Davis. O prov\u00e1vel erro de pena de morte pode acontecer com qualquer um, raz\u00e3o pela qual manifestantes afirmavam ser Troy Davis. 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