{"id":10554,"date":"2011-10-12T13:31:35","date_gmt":"2011-10-12T13:31:35","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1533"},"modified":"2011-10-12T13:31:35","modified_gmt":"2011-10-12T13:31:35","slug":"para-uma-teoria-libertaria-do-poder-iv-errandonea-dominacao-e-classes-sociais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10554","title":{"rendered":"Para uma Teoria Libert\u00e1ria do Poder (IV) \u2013 Errandonea, domina\u00e7\u00e3o e classes sociais"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/piramede-do-capitalismo-1.jpg\" title=\"De acordo com Errandonea, as classes sociais s\u00e3o definidas por crit\u00e9rios econ\u00f4micos e de poder, que formam a categoria domina\u00e7\u00e3o. - Foto:turmadasantamarta.blogspot\" alt=\"De acordo com Errandonea, as classes sociais s\u00e3o definidas por crit\u00e9rios econ\u00f4micos e de poder, que formam a categoria domina\u00e7\u00e3o. - Foto:turmadasantamarta.blogspot\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">De acordo com Errandonea, as classes sociais s\u00e3o definidas por crit\u00e9rios econ\u00f4micos e de poder, que formam a categoria domina\u00e7\u00e3o.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:turmadasantamarta.blogspot<\/small><\/figure>\n<p><em>Felipe Corr&ecirc;a<\/em><\/p>\n<p>Para uma Teoria Libert&aacute;ria do Poder&rdquo; &eacute; uma s&eacute;rie de resenhas elaboradas sobre artigos ou livros de autores do campo libert&aacute;rio que discutem o poder. Seu objetivo &eacute; apresentar uma leitura contempor&acirc;nea de autores que v&ecirc;m tratando o tema em quest&atilde;o e trazer elementos para a elabora&ccedil;&atilde;o de uma <em>teoria libert&aacute;ria do poder<\/em>, que poder&aacute; contribuir na elabora&ccedil;&atilde;o de um m&eacute;todo de an&aacute;lise da realidade e de estrat&eacute;gias de bases libert&aacute;rias, a serem utilizadas por indiv&iacute;duos e organiza&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Neste quarto artigo da s&eacute;rie, utilizarei para discuss&atilde;o o livro <em>Sociologia de la Dominaci&oacute;n<\/em>, de Alfredo Errandonea. Nele, o soci&oacute;logo uruguaio discute m&eacute;todos de an&aacute;lise e, a partir da categoria explora&ccedil;&atilde;o &ndash; segundo acredita, uma categoria essencialmente econ&ocirc;mica &ndash; busca discutir uma categoria mais ampla, a domina&ccedil;&atilde;o, e, a partir dela, rediscutir as defini&ccedil;&otilde;es das classes sociais.<\/p>\n<p><strong>Economia e poder<\/strong><\/p>\n<p>O soci&oacute;logo uruguaio Alfredo Errand&ocirc;nea, em seu livro <em>Sociologia da Domina&ccedil;&atilde;o<\/em>, notou uma tend&ecirc;ncia, no que diz respeito &agrave;s categorias explicativas da teoria social, &agrave; prioriza&ccedil;&atilde;o de &ldquo;dois grandes tipos de categorias: as econ&ocirc;micas e as de poder&rdquo;. [p. 17] Para ele, ambas as categorias pareceriam, inicialmente, constituir pontos de partida adequados na busca da explica&ccedil;&atilde;o social.<\/p>\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; relev&acirc;ncia da economia como categoria explicativa, coloca: &ldquo;Toda sociedade, necessariamente, tem de solucionar o problema de seu sustento cotidiano, da extra&ccedil;&atilde;o ou da produ&ccedil;&atilde;o daquilo que consome. Al&eacute;m disso, todos os seus membros necessitam fundamentalmente dessa solu&ccedil;&atilde;o, o que tamb&eacute;m exige que seja organizada a distribui&ccedil;&atilde;o dos recursos, por meio dos quais essa necessidade &eacute; satisfeita. A quest&atilde;o &eacute; t&atilde;o evidente, que parece &oacute;bvia a id&eacute;ia de que os acontecimentos e a hist&oacute;ria de cada sociedade tenham rela&ccedil;&otilde;es com as maneiras de como se produzem os bens e os servi&ccedil;os que s&atilde;o consumidos e a forma que eles s&atilde;o distribu&iacute;dos entre os membros da sociedade em quest&atilde;o. [&#8230;] N&atilde;o &eacute; estranho, portanto, que o esfor&ccedil;o de explicar os fatos sociais por meio dos fatores econ&ocirc;micos tenha uma ampla hist&oacute;ria.&rdquo; [p. 18] Para ele, a utiliza&ccedil;&atilde;o da economia como categoria explicativa do social precede, inclusive, muito amplamente, o pr&oacute;prio surgimento das Ci&ecirc;ncias Sociais como uma disciplina. Errandonea recorre a exemplos hist&oacute;ricos que se utilizam da economia para explicar a sociedade, chegando at&eacute; o s&eacute;culo XIX, quando, segundo considera, h&aacute; um aumento exponencial nas explica&ccedil;&otilde;es de car&aacute;ter econ&ocirc;mico. [p. 20] Em refer&ecirc;ncia &agrave; revis&atilde;o bibliogr&aacute;fica do tema, o autor afirma que grande parte das explica&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas configura-se, crescentemente, com maior ou menor grau de precis&atilde;o, &ldquo;em torno da id&eacute;ia daquilo que, a partir do s&eacute;culo XIX, denominou-se &lsquo;explora&ccedil;&atilde;o&rsquo;&rdquo;. [Ibid.] Considerando a formula&ccedil;&atilde;o de Marx a mais formal e completa sobre a categoria explora&ccedil;&atilde;o, Errandonea atribui-lhe mais o m&eacute;rito pela sistematiza&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica do que pela originalidade das id&eacute;ias. Para ele, a explica&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica &ldquo;encontra sua express&atilde;o mais elaborada na teoria de Marx, e concretiza-se na categoria &lsquo;explora&ccedil;&atilde;o&rsquo;, que constitui seu eixo explicativo fundamental&rdquo;. [p. 21]<\/p>\n<p>Como categoria explicativa, o poder tamb&eacute;m possui significativa import&acirc;ncia: &ldquo;A observa&ccedil;&atilde;o, reiterada nas mais diferentes sociedades, da presen&ccedil;a de uma minoria que toma as decis&otilde;es fundamentais e uma maioria que as obedece, tamb&eacute;m &eacute; uma representa&ccedil;&atilde;o muito antiga na hist&oacute;ria das reflex&otilde;es sociais. E, naturalmente, mando e obedi&ecirc;ncia &ndash; poder, em grande medida &ndash; sugerem, em si mesmos, capacidade de explica&ccedil;&atilde;o dos acontecimentos. Cada refer&ecirc;ncia hist&oacute;rica realizada a partir da concep&ccedil;&atilde;o do condicionamento econ&ocirc;mico poderia ser acompanhada de outra que enfoque o poder. Mas o mais interessante &eacute; que, na maioria dos casos, em maior medida quanto mais remoto for o fato, essa explica&ccedil;&atilde;o do poder aparece associada, misturada ou mesmo confundida a explica&ccedil;&atilde;o que se fundamenta na determina&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica.&rdquo; [p. 22] Errandonea enfatiza a prefer&ecirc;ncia de diversos te&oacute;ricos pela categoria poder, os quais atribuem a ela maior capacidade explicativa. Segundo o autor, dentre esses te&oacute;ricos, foi Max Weber que elaborou uma anal&iacute;tica do poder de maneira mais aprofundada, ainda que a categoria poder, para ele, se aproxime significativamente da categoria domina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p>Levando em conta que ambas as categorias v&ecirc;m sendo utilizadas historicamente e possuem capacidade explicativa, pode-se questionar: as categorias economia e poder s&atilde;o sempre excludentes, uma em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; outra?<\/p>\n<p>Errandonea aponta uma &ldquo;outra vertente interpretativa do problema do poder&rdquo;, que parece dar resposta a essa quest&atilde;o ao insistir em &ldquo;manter a capacidade explicativa do poder ligada &agrave; da explora&ccedil;&atilde;o&rdquo;, e, portanto, &agrave; economia. [p. 23] Perspectiva presente, segundo acredita, na &ldquo;ala radicalizada da Revolu&ccedil;&atilde;o Francesa (Babeuf e sua &lsquo;Conspira&ccedil;&atilde;o dos Iguais&rsquo;). Mas a abordagem mais representativa &eacute; a que foi realizada pelos anarquistas no seio do movimento socialista (Proudhon, Bakunin, na Primeira Internacional, etc.).&rdquo; [Ibid.]<\/p>\n<p>A afirma&ccedil;&atilde;o do autor fundamenta-se na an&aacute;lise de anarquistas cl&aacute;ssicos que relacionavam o Estado (em rela&ccedil;&atilde;o ao qual se referiam, constantemente, pelo termo de &ldquo;poder&rdquo;) com a organiza&ccedil;&atilde;o de classes do capitalismo e a conseq&uuml;ente explora&ccedil;&atilde;o existente. O fundamento te&oacute;rico desses anarquistas relacionava poder e explora&ccedil;&atilde;o. &ldquo;Essa terceira linha interpretativa, que enfatiza a indissolubilidade da liga&ccedil;&atilde;o entre explora&ccedil;&atilde;o e poder, desenvolve-se no seio do movimento socialista, e est&aacute; representada pela vis&atilde;o anarquista do problema.&rdquo; [p. 26]<\/p>\n<p>Surge aqui outro questionamento. Nessa s&iacute;ntese entre a economia e o poder, estaria o segundo completamente subordinado &agrave; primeira? Fundamentando-se em Foucault, Errandonea nega que o poder seja somente manuten&ccedil;&atilde;o e reprodu&ccedil;&atilde;o da economia, ou que o poder estaria completamente subordinado a ela; afirma o poder como rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a. Portanto, buscar categorias fundamentadas na economia e no poder implicaria abdicar da concep&ccedil;&atilde;o de que h&aacute;, necessariamente, um determinismo da economia em rela&ccedil;&atilde;o ao poder.<\/p>\n<p>Por meio dessas afirma&ccedil;&otilde;es, o autor estabelece sua premissa te&oacute;rica: conciliar o poder e a economia &ndash; as duas categorias que mais explicariam o social &ndash;, partindo da explora&ccedil;&atilde;o e chegando &agrave; categoria domina&ccedil;&atilde;o, a qual fundamentar&aacute; suas reflex&otilde;es acerca das classes sociais &ndash; objeto central de seu estudo.<\/p>\n<p><strong>Explora&ccedil;&atilde;o e classes sociais<\/strong><\/p>\n<p>A discuss&atilde;o de Errandonea parte da categoria explora&ccedil;&atilde;o, visando demonstrar sua relev&acirc;ncia, mas ao mesmo tempo, apontar sua insufici&ecirc;ncia para uma compreens&atilde;o das classes sociais. Seu ponto de partida &eacute; a formula&ccedil;&atilde;o marxista cl&aacute;ssica que parte do fato de que &ldquo;um indiv&iacute;duo, ou uma classe de indiv&iacute;duos v&ecirc;em-se obrigados a trabalhar mais do que o necess&aacute;rio para satisfazer suas necessidades fundamentais; em raz&atilde;o do sobreproduto, que aparece de um lado, e o n&atilde;o-trabalho e a riqueza suplementar, que aparecem de outro. [&#8230;] Ent&atilde;o, a explora&ccedil;&atilde;o, definida como apropria&ccedil;&atilde;o do trabalho alheio &eacute; comum a todas as sociedades hist&oacute;ricas de classes, ainda que sua an&aacute;lise, nos textos marxistas, refira-se, quase sempre, a sua mais perfeita express&atilde;o: quando for&ccedil;a de trabalho e meios de produ&ccedil;&atilde;o &ndash; separados &ndash; constituem valores de troca; ou seja, no capitalismo.&rdquo; [pp. 29-30] Explora&ccedil;&atilde;o que, dessa maneira mais acabada como se apresenta no capitalismo, prov&eacute;m de formas anteriores, de um desenvolvimento hist&oacute;rico precedente.<\/p>\n<p>Retomando a defini&ccedil;&atilde;o da categoria explora&ccedil;&atilde;o de <em>O Capital <\/em>de Marx, Errandonea afirma que nessa obra se &ldquo;define a explora&ccedil;&atilde;o pela mais-valia&rdquo;. [Ibid.] A defini&ccedil;&atilde;o de Marx &eacute; a seguinte: &ldquo;a taxa de mais-valia &eacute;, por isso, a express&atilde;o exata do grau de explora&ccedil;&atilde;o da for&ccedil;a de trabalho pelo capital ou do trabalhador pelo capitalista&rdquo; &ndash; reflex&atilde;o que, certamente, incorporou elementos da teoria de Proudhon sobre a propriedade. Uma categoriza&ccedil;&atilde;o que se coloca no dom&iacute;nio estrito do modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista. &ldquo;A explora&ccedil;&atilde;o est&aacute; ligada &agrave;s sociedades de classes na conceitua&ccedil;&atilde;o marxista. Mais do que isso; para Marx &eacute; a categoria explora&ccedil;&atilde;o que define as classes sociais.&rdquo; [p. 31]<\/p>\n<p>A explora&ccedil;&atilde;o constitui um ponto de partida inevit&aacute;vel para se avan&ccedil;ar na capacidade explicativa das categorias sociais. Essa ferramenta anal&iacute;tica possui um n&iacute;vel suficiente de generalidade e cruza transversalmente a hist&oacute;ria das sociedades &ldquo;por seu centro nevr&aacute;lgico de funcionamento global (a produ&ccedil;&atilde;o), e de satisfa&ccedil;&atilde;o de necessidades (a distribui&ccedil;&atilde;o)&rdquo; [p. 32]; ainda que possua seu auge explicativo no contexto do capitalismo europeu do s&eacute;culo XIX &ndash; fundamentalmente da Alemanha, da Inglaterra e da Fran&ccedil;a &ndash; ela permite realizar distin&ccedil;&otilde;es na sociedade. <\/p>\n<p>Foi por meio da utiliza&ccedil;&atilde;o da categoria explora&ccedil;&atilde;o que se p&ocirc;de investigar as rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas da sociedade e concluir-se que, j&aacute; que a mais-valia &eacute; o elemento fundamental que a explica, a divis&atilde;o fundamental da sociedade se d&aacute; em raz&atilde;o da propriedade dos meios de produ&ccedil;&atilde;o, que toma corpo nas classes sociais: de um lado, os propriet&aacute;rios, a burguesia, que explora, do outro, os trabalhadores, o proletariado, que s&atilde;o explorados; uma rela&ccedil;&atilde;o de permanente conflito que fundamentou a no&ccedil;&atilde;o de luta de classes. <\/p>\n<p>Ainda que se possa questionar a diferen&ccedil;a entre as concep&ccedil;&otilde;es de Marx e do marxismo nesse sentido, &eacute; fato que Engels e parte significativa do marxismo fundamentaram sua concep&ccedil;&atilde;o de classe em torno da propriedade dos meios de produ&ccedil;&atilde;o, conforme nota do <em>Manifesto Comunista<\/em>: &ldquo;Por burguesia entende-se a classe dos capitalistas modernos, propriet&aacute;rios dos meios de produ&ccedil;&atilde;o social que empregam o trabalho assalariado&rdquo; e &ldquo;por proletariado, a classe dos assalariados modernos que, n&atilde;o tendo meios pr&oacute;prios de produ&ccedil;&atilde;o, s&atilde;o obrigados a vender sua for&ccedil;a de trabalho para sobreviver.&rdquo; O trabalho assalariado evidenciaria a explora&ccedil;&atilde;o quando a burguesia se apropria da mais-valia gerada pelos trabalhadores. Marx j&aacute; vinha colocando, pelo menos desde o <em>Manifesto Comunista<\/em> de 1848, a explora&ccedil;&atilde;o como uma categoria de destaque para a interpreta&ccedil;&atilde;o da realidade; fundamentando-a economicamente nas classes sociais (burguesia e proletariado) e no conflito entre elas (luta de classes). <\/p>\n<p>Apesar da centralidade da categoria explora&ccedil;&atilde;o, utilizada por grande parte do socialismo, e que constitui a base da an&aacute;lise marxista da realidade, Errandonea identifica que, se por um lado ela de fato &eacute; uma categoria muito relevante na explica&ccedil;&atilde;o social, por outro &ldquo;essa capacidade explicativa n&atilde;o possui a generalidade, a universalidade e a exclusividade que Marx lhe atribuiu&rdquo;. [p. 35] &ldquo;O alto poder explicativo que possui a categoria explora&ccedil;&atilde;o n&atilde;o a exime de sua insufici&ecirc;ncia ao se colocar no n&iacute;vel de universalidade imaginado por Marx&rdquo;. [Ibid.] Fundamentado nessa dupla posi&ccedil;&atilde;o, de assumir a relev&acirc;ncia da categoria explora&ccedil;&atilde;o, e de demonstrar suas insufici&ecirc;ncias, Errandonea fundamenta uma demonstra&ccedil;&atilde;o dos limites da categoria explora&ccedil;&atilde;o em dois eixos centrais: a insufici&ecirc;ncia explicativa fundamentada apenas em uma esfera da sociedade (econ&ocirc;mica) e a impossibilidade de extrapolar em termos de tempo e espa&ccedil;o essa categoria, tanto para avaliar as sociedades pr&eacute;-capitalistas, como as distintas formas do capitalismo contempor&acirc;neo (incluindo, na &eacute;poca em que escrevia, o capitalismo de Estado, chamado de &ldquo;socialismo real&rdquo;).<\/p>\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o ao primeiro eixo, Errandonea busca comprovar que a categoria explora&ccedil;&atilde;o &eacute; econ&ocirc;mica: se a mais-valia &eacute; a express&atilde;o mais exata da explora&ccedil;&atilde;o, e se ela significa a por&ccedil;&atilde;o do produto social apropriada pelo capitalista, pode-se dizer que ela se expressa em termos de produ&ccedil;&atilde;o, e sua medida se realiza por meio de unidades monet&aacute;rias (dinheiro) como express&atilde;o e medida do valor de troca. &ldquo;N&atilde;o pode haver d&uacute;vidas de que se trata de uma categoria econ&ocirc;mica&rdquo;, enfatiza. Em sua m&aacute;xima capacidade explicativa, a categoria n&atilde;o incluir&aacute; os privil&eacute;gios, o trato reverencial e a gratifica&ccedil;&atilde;o que ela implica, os acessos e possibilidades que concedem os n&iacute;veis hier&aacute;rquicos, o prest&iacute;gio, o poder, o conhecimento, quando eles emanam da pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o de explora&ccedil;&atilde;o. (Sem falar de quando n&atilde;o resultam dela&#8230;) Ser&atilde;o adicionais sociais que escapam &agrave; medida econ&ocirc;mica que, no capitalismo, por exemplo, expressa a taxa de mais-valia. Por outro lado, a an&aacute;lise econ&ocirc;mica tamb&eacute;m n&atilde;o d&aacute; conta da qualidade n&atilde;o-econ&ocirc;mica da luta e da resist&ecirc;ncia dos trabalhadores, como colocou Castoriadis.&rdquo; [pp. 36-37]<\/p>\n<p>Para o autor, a explora&ccedil;&atilde;o &eacute; uma categoria econ&ocirc;mica explicitada na rela&ccedil;&atilde;o entre as classes sociais. As classes sociais, segundo sustenta, n&atilde;o podem ser explicadas somente pela explora&ccedil;&atilde;o, e nem somente pela economia; h&aacute; aspectos que dizem respeito &agrave;s esferas pol&iacute;tica e cultural\/ideol&oacute;gica que, juntamente aspectos econ&ocirc;micos, seriam fundamentais para uma explica&ccedil;&atilde;o mais consistente das classes sociais.<\/p>\n<p>Em rela&ccedil;&atilde;o ao segundo eixo, Errandonea aponta que, mesmo que no capitalismo industrial do s&eacute;culo XIX seja central a capacidade explicativa da categoria explora&ccedil;&atilde;o, ela possui limites para a explica&ccedil;&atilde;o de outras sociedades.<\/p>\n<p>Nas sociedades pr&eacute;-capitalistas, as rela&ccedil;&otilde;es de classes, ainda que distintas, existiam, forjando estratifica&ccedil;&otilde;es r&iacute;gidas que implicavam hierarquias significativas. Essas estratifica&ccedil;&otilde;es, entretanto, fundamentavam-se mais no poder de mando, nas autoridades e no prest&iacute;gio do que nas rela&ccedil;&otilde;es de explora&ccedil;&atilde;o. O autor afirma que, mesmo em sociedades em que n&atilde;o existe explora&ccedil;&atilde;o, por raz&atilde;o da falta de excedente e de acumula&ccedil;&atilde;o, isso n&atilde;o significa que n&atilde;o haja classes sociais. Esse fato fundamenta sua conclus&atilde;o de que n&atilde;o se pode definir as classes somente pela categoria explora&ccedil;&atilde;o, se h&aacute; uma inten&ccedil;&atilde;o de que a categoria seja universal em termos de tempo e lugar. Definir as classes sociais a partir da explora&ccedil;&atilde;o pode permitir uma an&aacute;lise adequada do capitalismo, mas n&atilde;o de sociedades pr&eacute;-capitalistas.<\/p>\n<p>Para al&eacute;m das sociedades pr&eacute;-capitalistas, Errandonea acredita que o s&eacute;culo XX foi permeado por mudan&ccedil;as significativas no capitalismo, diferenciando-o do modelo do &ldquo;capitalismo do s&eacute;culo XIX ao qual responde t&atilde;o pontualmente o modelo descrito em <em>O Capital<\/em>&rdquo;. [p. 42] &ldquo;A id&eacute;ia que a taxa de mais-valia &ndash; medida da explora&ccedil;&atilde;o na sociedade capitalista &ndash; constitui o piv&ocirc; fundamental da rela&ccedil;&atilde;o de classes e do pr&oacute;prio devir futuro do modo de produ&ccedil;&atilde;o capitalista, parece requerer retifica&ccedil;&otilde;es importantes para o caso desse capitalismo atual.&rdquo; [p. 43]<\/p>\n<p>Ainda que estivesse na Am&eacute;rica Latina, no fim dos anos 1980, Errandonea percebe e problematiza aspectos relevantes do capitalismo atual, os quais continuam presentes na sociedade contempor&acirc;nea. Em rela&ccedil;&atilde;o ao mercado capitalista, o autor aponta que &ldquo;a din&acirc;mica do sistema produtivo capitalista exigiu e originou um constante aumento do mercado consumidor&rdquo;. [p. 44] A diferen&ccedil;a, para ele, n&atilde;o estaria no papel do trabalhador como um consumidor para o capitalista, mas na &ldquo;din&acirc;mica de crescimento do consumo exigindo a amplia&ccedil;&atilde;o constante do mercado caracter&iacute;stico do capitalismo da era keynesiana&rdquo;. [Ibid.] Um dos meios de conseguir esse crescimento foi a inclus&atilde;o massiva de trabalhadores no mercado de consumo mundial, fundamentalmente nos pa&iacute;ses centrais do capitalismo. Outro fator importante foi a mudan&ccedil;a de papel do Estado, que passou das fun&ccedil;&otilde;es meramente repressivas para interven&ccedil;&otilde;es mais ativas no mercado capitalista, constituindo-se, tamb&eacute;m, como agente econ&ocirc;mico. Fen&ocirc;menos como interven&ccedil;&otilde;es, privatiza&ccedil;&otilde;es e mesmo os casos do nazismo e do fascismo demonstram, para o autor, esse novo papel do Estado, ainda que aspectos essenciais do modelo capitalista do s&eacute;culo XIX tenham sido mantidos. &ldquo;Esse fen&ocirc;meno de papel econ&ocirc;mico do Estado, longe de limitar-se aos pa&iacute;ses capitalistas centrais, ocorre tamb&eacute;m, com muita import&acirc;ncia, nos pa&iacute;ses capitalistas dependentes&rdquo; [pp. 45-46] &ndash; fen&ocirc;meno que, pr&oacute;prio do s&eacute;culo XX, n&atilde;o permitiu que a maioria das correntes revolucion&aacute;rias do s&eacute;culo XIX tratasse do tema.<\/p>\n<p>Em vez da polariza&ccedil;&atilde;o das classes sociais e do empobrecimento generalizado do proletariado, ambos previstos por Marx, o s&eacute;culo XX, segundo Errandonea, teria tamb&eacute;m demonstrado um crescimento absoluto e relativo &ldquo;de estratos sociais que n&atilde;o constitu&iacute;am especificamente o proletariado industrial (incluindo setores importantes de outras fra&ccedil;&otilde;es do proletariado) e nem a burguesia; houve melhoria consider&aacute;vel no n&iacute;vel de vida desses setores e do pr&oacute;prio proletariado industrial&rdquo;. [p. 45] Al&eacute;m disso, o s&eacute;culo XX colocou a necessidade de um aparelho burocr&aacute;tico para gest&atilde;o das empresas que foi sendo ocupado por pessoas que, ainda que n&atilde;o tivessem a propriedade dos meios de produ&ccedil;&atilde;o, eram as autoridades respons&aacute;veis pela gest&atilde;o da empresa. Ainda que assalariadas, essas pessoas s&atilde;o respons&aacute;veis pela apropria&ccedil;&atilde;o de uma parte da mais-valia: &ldquo;ocupa&ccedil;&otilde;es t&eacute;cnicas ou de dire&ccedil;&atilde;o, j&aacute; n&atilde;o implicam mais a produ&ccedil;&atilde;o de mais-valia, mas, ao contr&aacute;rio, a participa&ccedil;&atilde;o na apropria&ccedil;&atilde;o de uma parte do excedente, diferente do propriet&aacute;rio dos meios de produ&ccedil;&atilde;o&rdquo;. [Ibid.] Processo este, que evidencia a &ldquo;separa&ccedil;&atilde;o da propriedade jur&iacute;dica e a posse efetiva ou o controle da autoridade empresarial&rdquo;, &ldquo;relativamente comum no neocapitalismo contempor&acirc;neo&rdquo;, e que &eacute; fruto, n&atilde;o s&oacute; do sistema de a&ccedil;&otilde;es, mas tamb&eacute;m da dimens&atilde;o das empresas. [p. 46]<\/p>\n<p>As dificuldades que implicam estratificar com base na categoria explora&ccedil;&atilde;o os setores de com&eacute;rcio e servi&ccedil;os acentuam-se com inumer&aacute;veis fun&ccedil;&otilde;es (ocupa&ccedil;&otilde;es) que surgem durante o s&eacute;culo XX que, ainda que sejam dependentes, n&atilde;o produzem mais-valia, &ldquo;como ocorre com muitos dos cargos p&uacute;blicos estatais ou de outras grandes organiza&ccedil;&otilde;es, cuja exist&ecirc;ncia n&atilde;o responde sequer &agrave; necessidade do cumprimento de algum servi&ccedil;o e &agrave; qualquer outra exig&ecirc;ncia econ&ocirc;mica. A burocracia moderna est&aacute; cheia de exemplos.&rdquo; [p. 45] &ldquo;Na concep&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica da teoria marxista, a mais-valia &ndash; ou a explora&ccedil;&atilde;o mais genericamente &ndash; se produz <em>por meio<\/em> das rela&ccedil;&otilde;es de produ&ccedil;&atilde;o, <em>atrav&eacute;s <\/em>delas. O neocapitalismo nos mostra a separa&ccedil;&atilde;o entre a mais-valia e as rela&ccedil;&otilde;es sociais de produ&ccedil;&atilde;o, com uma freq&uuml;&ecirc;ncia e uma import&acirc;ncia relativa que nos impedem de descart&aacute;-la.&rdquo; [p. 44] Uma separa&ccedil;&atilde;o que se evidencia n&atilde;o s&oacute; no com&eacute;rcio e nos servi&ccedil;os, mas tamb&eacute;m nas distintas ocupa&ccedil;&otilde;es que, ainda que sejam relevantes para o capitalismo, n&atilde;o produzem mais-valia.<\/p>\n<p>Enfim, Errandonea aponta: &ldquo;O neocapitalismo do s&eacute;culo XX mostra certas variantes importantes em rela&ccedil;&atilde;o ao capitalismo do s&eacute;culo XIX caracterizado por Marx: variantes que afetam o poder explicativo da categoria explora&ccedil;&atilde;o segundo sua formula&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica, seja porque alteram, obscurecem ou diminuem sua efic&aacute;cia em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua capacidade frente &agrave;quele outro capitalismo, ou simplesmente porque requerem outros fatores explicativos.&rdquo; [p. 47]<\/p>\n<p>O &uacute;ltimo aspecto que fundamenta o segundo eixo do autor &eacute; o caso da antiga R&uacute;ssia\/URSS, tamb&eacute;m concretizado somente no s&eacute;culo XX com a revolu&ccedil;&atilde;o de 1917. Errandonea apresenta duas poss&iacute;veis an&aacute;lises para o caso: uma primeira, de que a sociedade sovi&eacute;tica seria o est&aacute;gio intermedi&aacute;rio, de ditadura do proletariado, previsto pelo marxismo para que se atingisse o comunismo, e uma segunda, de que o modelo sovi&eacute;tico foge ao modelo te&oacute;rico marxista. <\/p>\n<p>Fundamentado na primeira an&aacute;lise, Errandonea, ao fim dos anos 1980, afirma que, ainda que n&atilde;o houvesse burguesia e propriet&aacute;rios de terras na URSS h&aacute; d&eacute;cadas, pareceria &ldquo;indiscut&iacute;vel o car&aacute;ter estratificado da estrutura social sovi&eacute;tica&rdquo; [p. 48], a qual se fundamentaria em diferen&ccedil;as salariais de at&eacute; 15 vezes entre os estratos inferiores e superiores da popula&ccedil;&atilde;o, no acesso &agrave;s decis&otilde;es pol&iacute;ticas centralizado no PCUS, na presen&ccedil;a de privil&eacute;gios e, fundamentalmente, na propriedade estatal. Isso o leva a afirmar que o &ldquo;socialismo real&rdquo; da antiga URSS seria, na realidade, um &ldquo;capitalismo de Estado&rdquo;. A administra&ccedil;&atilde;o dos meios de produ&ccedil;&atilde;o concentrar-se-ia em uma &ldquo;nova classe&rdquo; composta por certos grupos recrutados a partir de crit&eacute;rios pol&iacute;tico-burocr&aacute;ticos que estariam respons&aacute;veis pelo excedente resultante do sobretrabalho: &ldquo;&eacute; evidente que na sociedade sovi&eacute;tica h&aacute; sobreproduto que n&atilde;o passa &agrave;s m&atilde;os daqueles que criaram esse valor, mas financia o Estado sovi&eacute;tico e seu poderio, que &eacute; estabelecido pela burocracia dirigente.&rdquo; [pp. 48-49] Ainda que se possa discutir se esse excedente seria ou n&atilde;o mais valia, coloca, &ldquo;n&atilde;o h&aacute; d&uacute;vidas que &eacute; explora&ccedil;&atilde;o. [&#8230;] Existem explora&ccedil;&atilde;o e estrutura de classes na sociedade sovi&eacute;tica, sem que subsistam as velhas classes dominantes e sem que o &lsquo;cerco capitalista&rsquo; constitua uma justificativa eficaz para isso.&rdquo; [p. 50]<\/p>\n<p>Fundamentado na segunda an&aacute;lise, Errandonea questiona que tipo de sociedade constituiria a URSS e afirma que, certamente, seria uma sociedade classista e com explora&ccedil;&atilde;o, mas p&oacute;s-capitalista. Aqueles que se apropriam do excedente (sobreproduto) n&atilde;o o fazem porque s&atilde;o propriet&aacute;rios dos meios de produ&ccedil;&atilde;o, mas por virem de grupos constitu&iacute;dos pelo recrutamento pol&iacute;tico-burocr&aacute;tico. A explora&ccedil;&atilde;o, nesse caso, por si s&oacute;, n&atilde;o daria conta de explicar a realidade sovi&eacute;tica. Essa realidade n&atilde;o p&ocirc;de ser prevista pela teoria marxista do s&eacute;culo XIX. Foi somente o anarquismo que afirmou que &ldquo;uma revolu&ccedil;&atilde;o que culminasse na instala&ccedil;&atilde;o da ditadura do proletariado (em vez de dissolver o Estado) levaria a uma organiza&ccedil;&atilde;o desp&oacute;tica moderna&rdquo;. [p. 52] Recorrendo a Bakunin e Fabbri para justificar tal afirma&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica, Errandonea demonstra que a previs&atilde;o anarquista, na URSS, tornou-se concreta. <\/p>\n<p>Manter o Estado depois de um processo revolucion&aacute;rio significaria, para Bakunin, manter a estrutura de domina&ccedil;&atilde;o, e portanto de classes, da sociedade. Ainda que as rela&ccedil;&otilde;es entre as classes se modificassem, a divis&atilde;o da sociedade entre uma minoria de governantes e uma maioria da governados terminaria, necessariamente, por manter a domina&ccedil;&atilde;o. E mais, a estrutura do Estado poderia, inclusive, recriar o capitalismo. Errandonea acredita que a an&aacute;lise do caso sovi&eacute;tico tamb&eacute;m evidencia uma limita&ccedil;&atilde;o da categoria explora&ccedil;&atilde;o em sua formula&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica.<\/p>\n<p>A an&aacute;lise da categoria explora&ccedil;&atilde;o como instrumento te&oacute;rico explicativo, realizada por Errandonea, busca, portanto, evidenciar as limita&ccedil;&otilde;es dessa categoria para interpretar, universal e exclusivamente, os acontecimentos globais e a hist&oacute;ria das sociedades humanas. A categoria explora&ccedil;&atilde;o, assim, conforme concebida na teoria marxista cl&aacute;ssica, &eacute; incompleta. Essa an&aacute;lise o leva a quatro conclus&otilde;es: &ldquo;a) Trata-se de uma categoria geral, praticamente universal [&#8230;] que, de diferentes maneiras est&aacute; presente na explica&ccedil;&atilde;o de quase todas as sociedades desiguais. Possui uma aptid&atilde;o para a explica&ccedil;&atilde;o [&#8230;] das mudan&ccedil;as sociais. A essa virtude te&oacute;rica, soma-se uma aptid&atilde;o metodol&oacute;gica consider&aacute;vel. b) Tal como se apresenta na formula&ccedil;&atilde;o cl&aacute;ssica marxista constitui uma categoria econ&ocirc;mica que, por si s&oacute;, n&atilde;o pode dar conta de toda a problem&aacute;tica da desigualdade em todas as sociedades de qualquer tempo e lugar; ainda que em quase todas elas, seu aporte &agrave; explica&ccedil;&atilde;o seja imprescind&iacute;vel. [&#8230;] c) N&atilde;o obstante, constitui um ponto de partida inevit&aacute;vel para encontrar outra categoria mais geral que a implique e que, reunindo suas qualidades te&oacute;ricas, possa ser identificada com o fen&ocirc;meno das classes sociais. d) Seguramente, a explora&ccedil;&atilde;o &eacute; uma das dimens&otilde;es ou manifesta&ccedil;&otilde;es mais importantes das estruturas de classes da grande maioria das sociedades hist&oacute;ricas, a ponto de seu predom&iacute;nio em algumas delas &ndash; como o caso do capitalismo do s&eacute;culo XIX &ndash; identific&aacute;-la, praticamente, com a determina&ccedil;&atilde;o daquela estrutura e sua mudan&ccedil;a. Isso implica que a sociedade em quest&atilde;o baseia sua organiza&ccedil;&atilde;o social de classes quase integralmente na estrutura econ&ocirc;mica produtiva, cuja din&acirc;mica pr&oacute;pria obedece fundamentalmente as leis da explora&ccedil;&atilde;o.&rdquo; [pp. 53-54] <\/p>\n<p>Na inten&ccedil;&atilde;o de dar continuidade ao estudo das categorias fundamentais, Errandonea afirma que as desigualdades sociais, as estruturas de classes nelas implicadas, suas mudan&ccedil;as e varia&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas n&atilde;o podem ser explicadas uniformemente por uma ou mesmo duas categorias. Assumindo que h&aacute; &ldquo;diferentes equa&ccedil;&otilde;es de fatores&rdquo; para a compreens&atilde;o das classes sociais na hist&oacute;ria &ndash; e tais fatores podem ter diferentes pesos e n&iacute;veis. O autor acredita que a categoria explora&ccedil;&atilde;o &eacute; o fator mais importante nessa equa&ccedil;&atilde;o e um dos fatores com maior capacidade de generalidade; no entanto, n&atilde;o &eacute; o maior. Na busca dessa categoria que possa cumprir esse papel, tendo como premissa abarcar, incluir a categoria explora&ccedil;&atilde;o, Errandonea vai sugerir a categoria domina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Explora&ccedil;&atilde;o e domina&ccedil;&atilde;o: economia e poder<\/strong><\/p>\n<p>Para Errandonea, conciliar economia e poder, em uma formula&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica que permita avan&ccedil;ar nos estudos das classes sociais, implica utilizar a categoria domina&ccedil;&atilde;o. Com maior n&iacute;vel de generalidade, a domina&ccedil;&atilde;o &eacute; capaz de fundamentar a interpreta&ccedil;&atilde;o das classes sociais em todas as sociedades em que elas existam, ainda que ela n&atilde;o permita explicar os diferentes tipos de estruturas de classes. Mais ampla que a categoria explora&ccedil;&atilde;o, essencialmente econ&ocirc;mica, a domina&ccedil;&atilde;o representa a s&iacute;ntese entre economia e poder da qual se tratou anteriormente. A busca dessa s&iacute;ntese e sua rela&ccedil;&atilde;o com as classes sociais &eacute; o desafio que o autor se prop&ocirc;s a enfrentar.<\/p>\n<p>Errandonea afirma a insufici&ecirc;ncia dos crit&eacute;rios econ&ocirc;micos para definir a categoria classes sociais e possibilitar que ela explique as sociedades; defende que as classes sociais sejam definidas a partir de crit&eacute;rios que levem em conta a economia e o poder &ndash; o que sintetiza na categoria domina&ccedil;&atilde;o. &ldquo;A chave est&aacute; em pensar na explora&ccedil;&atilde;o como meio da domina&ccedil;&atilde;o&rdquo; [p. 63], ou seja, a explora&ccedil;&atilde;o estaria contida na domina&ccedil;&atilde;o, constituiria um de seus elementos. Identificando essa rela&ccedil;&atilde;o entre a explora&ccedil;&atilde;o e a domina&ccedil;&atilde;o, o autor considera ser necess&aacute;rio aprofund&aacute;-la e, para isso, retoma Marx, em <em>O Capital<\/em>, que, como se viu, define a explora&ccedil;&atilde;o em termos de mais-valia. <\/p>\n<p>Errandonea coloca que, a partir de seu destino, a mais-valia pode ser dividida em duas: aquela que &eacute; destinada ao consumo e aquela que &eacute; utilizada para o reinvestimento; na medida em que a taxa de explora&ccedil;&atilde;o aumenta, afirma, tamb&eacute;m aumenta o reinvestimento. Sociologicamente, o que importa nesse sentido n&atilde;o &eacute; somente compreender como se decide sobre o destino do excedente &ndash; o ponto de vista econ&ocirc;mico &ndash;, mas que &ldquo;existe uma decis&atilde;o social sobre o destino do excedente e as subseq&uuml;entes derivadas do controle de sua administra&ccedil;&atilde;o&rdquo;. [p. 67] <\/p>\n<p>Essa decis&atilde;o pode ser tomada pelo Estado, por um grupo, por agentes privados atuando no mercado etc. &ndash; ou seja, ela pode vir do &acirc;mbito estatal ou privado &ndash; e pode ser mais ou menos centralizada. A quest&atilde;o, coloca o autor, &eacute; que &ldquo;sempre h&aacute; uma decis&atilde;o e, por defini&ccedil;&atilde;o, sempre o destino &eacute; o reinvestimento social&rdquo;. Trata-se, nesse caso, &ldquo;de poder econ&ocirc;mico, o qual implica uma estrutura decis&oacute;ria&rdquo; &ndash; um fen&ocirc;meno que divide aqueles que decidem sobre o reinvestimento (e que, portanto, t&ecirc;m poder para tanto) e aqueles que est&atilde;o exclu&iacute;dos dessa decis&atilde;o que os afeta. [Ibid.]<\/p>\n<p>Nas distintas sociedades, afirma, &eacute; poss&iacute;vel identificar conjuntos, distintos em termos qualitativos, de dominadores e dominados. Nesse sentido, na defini&ccedil;&atilde;o das classes sociais n&atilde;o importaria a quantidade de mais-valia: &ldquo;&Eacute; evidente que a dist&acirc;ncia social que concebemos entre eles [os conjuntos] n&atilde;o pode ter nada a ver com alguma suposta fun&ccedil;&atilde;o da taxa de explora&ccedil;&atilde;o, ou com qualquer outra medida quantitativa capaz de forjar espa&ccedil;os que definimos como qualitativos.&rdquo; [p. 68] Nem mesmo seu destino concreto: &ldquo;N&atilde;o interessa qual &eacute; o destino concreto resultante da decis&atilde;o sobre o reinvestimento.&rdquo; Portanto, &ldquo;a defini&ccedil;&atilde;o das classes e a identifica&ccedil;&atilde;o de cada uma, nessa perspectiva da estrutura social produtiva, se resolve pela participa&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o nas decis&otilde;es sobre o reinvestimento, decis&atilde;o que, obviamente, afeta a todos.&rdquo; <\/p>\n<p>Essa distin&ccedil;&atilde;o entre uns que decidem e outros que n&atilde;o, na economia, constitui, para Errandonea, uma rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o: &ldquo;A institucionaliza&ccedil;&atilde;o de uma rela&ccedil;&atilde;o social concreta, na qual uns decidem aquilo que diz respeito a outros e\/ou a todos, constitui uma rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o.&rdquo; [Ibid.] Nesse caso, como as decis&otilde;es envolvidas est&atilde;o na esfera econ&ocirc;mica &ndash; dizem respeito &agrave; produ&ccedil;&atilde;o e &agrave; distribui&ccedil;&atilde;o &ndash;, pode-se dizer que h&aacute; domina&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica. No entanto, nas rela&ccedil;&otilde;es sociais de uma determinada sociedade, &ldquo;a domina&ccedil;&atilde;o j&aacute; n&atilde;o &eacute; meramente econ&ocirc;mica ou pol&iacute;tica [&#8230;], &eacute; simplesmente rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o, como configura&ccedil;&atilde;o estrutural de rela&ccedil;&otilde;es assim&eacute;tricas [&#8230;] e seu conte&uacute;do &eacute; econ&ocirc;mico, pol&iacute;tico e de todo tipo. <\/p>\n<p>N&atilde;o h&aacute;, portanto, dimens&otilde;es ou fatores, mas instrumentos, &lsquo;bra&ccedil;os&rsquo; da domina&ccedil;&atilde;o. Atrav&eacute;s dos quais certos grupos com elementos de afinidade (que variam de uma sociedade para outra) se apropriam da condu&ccedil;&atilde;o social, a controlam, a dominam. Em cada sociedade existe uma equa&ccedil;&atilde;o particular que faz algumas ordens e alguns mecanismos mais eficazes que outros. E isso serve para tipificar o caso e explicar suas peculiaridades. Em outras palavras, a categoria mais geral para explicar e definir as classes sociais, e que necessariamente implica a explora&ccedil;&atilde;o, &eacute; a domina&ccedil;&atilde;o.&rdquo; [pp. 68-69]<\/p>\n<p>Por meio dessa afirma&ccedil;&atilde;o, Errandonea recoloca a necessidade de a categoria domina&ccedil;&atilde;o fundamentar a explica&ccedil;&atilde;o e a defini&ccedil;&atilde;o das classes sociais. A domina&ccedil;&atilde;o seria uma categoria pertencente ao campo do poder e que abarcaria tamb&eacute;m a economia; ela envolve, portanto, rela&ccedil;&otilde;es nas distintas esferas: econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica etc. O autor considera que as desigualdades estruturais est&atilde;o ancoradas nas rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o, e, por isso, &ldquo;a domina&ccedil;&atilde;o &eacute; a explica&ccedil;&atilde;o geral das estruturas de classe&rdquo;. [p. 73] <\/p>\n<p>A domina&ccedil;&atilde;o &eacute;, portanto, uma categoria ampla e geral, que consegue explicar distintas sociedades, em diferentes fases de evolu&ccedil;&atilde;o, em qualquer tempo e lugar, onde existam desigualdades estruturais. No entanto, conforme observa, tamanha amplitude e generalidade, &ldquo;sendo muito, &eacute; pouco&rdquo;. [p. 74] Ou seja, ao mesmo tempo em que constitui uma categoria com enorme capacidade explicativa, a domina&ccedil;&atilde;o tem de ser associada a outras categorias mais espec&iacute;ficas, que permitem evidenciar de que tipo de domina&ccedil;&atilde;o se trata. <\/p>\n<p><strong>Domina&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Para conceituar a categoria domina&ccedil;&atilde;o, Errandonea parte da defini&ccedil;&atilde;o de Weber, utilizada por autores posteriores como Dahrendorf, e avan&ccedil;a a partir dela, chegando &agrave; defini&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o como um tipo de poder que implica a &ldquo;institucionaliza&ccedil;&atilde;o de uma rela&ccedil;&atilde;o social concreta [&eacute;, portanto, um fato real e n&atilde;o uma percep&ccedil;&atilde;o sobre ele], na qual uns decidem aquilo que diz respeito a outros e\/ou a todos&rdquo; [p. 68] A domina&ccedil;&atilde;o fundamenta-se, portanto, nas rela&ccedil;&otilde;es sociais hier&aacute;rquicas que envolvem as tomadas de decis&atilde;o. <\/p>\n<p>Colocando essas defini&ccedil;&otilde;es em uma dimens&atilde;o din&acirc;mica, Errandonea afirma: &ldquo;A domina&ccedil;&atilde;o &eacute; <em>bilateral<\/em>, constitui sempre uma <em>rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o<\/em>, envolve necessariamente dominante (ou dominantes) e dominado (ou dominados); e &eacute; <em>normativa<\/em>, consiste em uma &lsquo;probabilidade&rsquo; composta por expectativas m&uacute;tuas internalizadas &ndash; que se tornam comuns &ndash;, as quais configuram &lsquo;conte&uacute;dos&rsquo; poss&iacute;veis de ordens. Vale dizer que a obedi&ecirc;ncia &ndash; com algum grau m&iacute;nimo de vontade &ndash;, tem &lsquo;limite&rsquo; na &lsquo;legitimidade&rsquo;. Esta &lsquo;legitimidade&rsquo; &eacute; um requisito imprescind&iacute;vel para gerar o &lsquo;consenso&rsquo; que toda domina&ccedil;&atilde;o necessita; que o consenso, &lsquo;por si s&oacute;, n&atilde;o constitui uma modifica&ccedil;&atilde;o das bases da autoridade&rsquo;, nem se relaciona com o antiautoritarismo, como existe tend&ecirc;ncia de se supor.&rdquo; [p. 76] <\/p>\n<p>Assim, para o autor, a domina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o se d&aacute; individualmente, nem entre pessoas e coisas, mas somente nas rela&ccedil;&otilde;es sociais concretas, entre pessoas, envolvendo no m&iacute;nimo duas delas; dominante e dominado, ou, no caso de mais envolvidos, dominantes e dominados. A rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o, que tem na legitimidade um elemento de primeira ordem, pode forjar sistemas de normas, de regula&ccedil;&atilde;o e controle; entretanto, n&atilde;o &eacute; sin&ocirc;nimo desses sistemas que produz e nem das formas jur&iacute;dicas que podem lhe dar respaldo. [pp. 76-77] <\/p>\n<p>Dentre os fundamentos da domina&ccedil;&atilde;o est&atilde;o a legitimidade e a for&ccedil;a. Errandonea acredita que, geralmente, para se sustentar, uma rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o precisa ser leg&iacute;tima aos olhos dos dominados, contanto com sua vontade de obedi&ecirc;ncia e apontando para um &ldquo;consenso&rdquo; estabelecido cultural ou ideologicamente. Entretanto, quando essa legitimidade, esse consenso, ou mesmo os respaldos jur&iacute;dicos n&atilde;o s&atilde;o suficientes, a for&ccedil;a, a coa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica pura e simples &eacute; posta em pr&aacute;tica. &ldquo;A coa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica &eacute; a &lsquo;&uacute;ltima ratio&rsquo;: a domina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o pode ser exercida com base <em>exclusiva e permanente<\/em> da coa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica, mas ela &eacute; quase sempre, um ingrediente de respaldo.&rdquo; [p. 77] &ldquo;Em &uacute;ltima inst&acirc;ncia, todo sistema de domina&ccedil;&atilde;o encontra &lsquo;justificativa&rsquo; para os dominados na medida em que os n&iacute;veis de necessidades que cada um percebe como m&iacute;nimos sejam satisfeitos e que seja poss&iacute;vel realizar as aspira&ccedil;&otilde;es. Nisso consiste a &lsquo;legitimidade&rsquo; do sistema. <\/p>\n<p>O n&iacute;vel percebido dessa &lsquo;legitimidade&rsquo; significa o n&iacute;vel de &lsquo;consenso&rsquo; outorgado ao sistema. Todo sistema de domina&ccedil;&atilde;o, para perdurar, para conseguir uma estabilidade dur&aacute;vel, requer consenso. Ao menos um n&iacute;vel importante dele. Ou seja, a aceita&ccedil;&atilde;o da legitimidade do sistema de domina&ccedil;&atilde;o por parte da generalidade ou da maioria dos integrantes da sociedade. E esse consenso n&atilde;o &eacute; substitu&iacute;vel, salvo tempor&aacute;ria e precariamente, pela simples for&ccedil;a. A coa&ccedil;&atilde;o s&oacute; &eacute; eficiente, institucionalmente, quando d&aacute; respaldo a uma ordem consensual e s&oacute; constitui sua &lsquo;&uacute;ltima ratio&rsquo;.&rdquo; [pp. 126-127] <\/p>\n<p>Torna-se fundamental, nesse sentido, para qualquer rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o que queira perdurar no tempo, uma cren&ccedil;a generalizada em sua legitimidade, que permita sua manuten&ccedil;&atilde;o mais pelo consenso do que pela for&ccedil;a. Obviamente, a for&ccedil;a &eacute; um elemento central, que pode ser utilizada tanto potencialmente (amea&ccedil;a do uso), quanto concretamente (utiliza&ccedil;&atilde;o, de fato), mas a rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o, para ser duradoura, n&atilde;o pode fundamentar-se somente na for&ccedil;a. <\/p>\n<p>As rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o possuem fundamentos (legitimidade, for&ccedil;a etc.) e se estabelecem nas esferas estruturadas da sociedade (econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica, cultural\/ideol&oacute;gica), tomando corpo em modos espec&iacute;ficos de domina&ccedil;&atilde;o, que permitem identificar a tipologia dessas rela&ccedil;&otilde;es. Na esfera econ&ocirc;mica, &ldquo;na forma da explora&ccedil;&atilde;o ou pela mera disponibilidade de riquezas&rdquo;, na esfera pol&iacute;tica, o tipo &ldquo;burocr&aacute;tico ou hierocr&aacute;tico (coa&ccedil;&atilde;o ps&iacute;quica por administra&ccedil;&atilde;o da salva&ccedil;&atilde;o)&rdquo;, na esfera cultural\/ideol&oacute;gica, &ldquo;a aliena&ccedil;&atilde;o cultural&rdquo;; esses, entre outros, s&atilde;o os modos de domina&ccedil;&atilde;o que a explicam especificamente.&rdquo; [p. 77]<\/p>\n<p>A partir dos argumentos colocados, Errandonea elabora elementos fundamentais para a defini&ccedil;&atilde;o e a explica&ccedil;&atilde;o da categoria domina&ccedil;&atilde;o, as quais podem ser agrupadas da maneira seguinte. [pp. 78-82] <\/p>\n<p>1. <em>A categoria domina&ccedil;&atilde;o<\/em>. A domina&ccedil;&atilde;o constitui uma rela&ccedil;&atilde;o social que se manifesta por meio das assimetrias nas tomadas de decis&atilde;o e da conseq&uuml;ente imposi&ccedil;&atilde;o da vontade de um(ns) a outro(s), o que &ldquo;implica a limita&ccedil;&atilde;o da vontade do outro (ou outros) e um excesso de capacidade decis&oacute;ria&rdquo; que possui incid&ecirc;ncia al&eacute;m daquele(s) que a exerce(m). <\/p>\n<p>2. <em>A capacidade explicativa da domina&ccedil;&atilde;o<\/em>. A domina&ccedil;&atilde;o explica a desigualdade estrutural e as estruturas de classes. Ela constitui o meio para o acesso diferenciado a tudo aquilo que for distribu&iacute;do desigualmente em uma sociedade e constitui a categoria mais geral, explicativa e universal das estruturas desiguais e das estruturas de classe. <\/p>\n<p>3. <em>Os agentes envolvidos na domina&ccedil;&atilde;o<\/em>. A domina&ccedil;&atilde;o envolve sempre seres humanos que possuem vontade, consci&ecirc;ncia e s&atilde;o capazes de estabelecer rela&ccedil;&otilde;es sociais; portanto, n&atilde;o envolve objetos inanimados ou animais. Ela envolve necessariamente dois papeis: &ldquo;o de dominador e o de dominado&rdquo;; e, portanto, no m&iacute;nimo dois agentes, duas partes, dois pontos de vista, cada um de um lado ou em um p&oacute;lo relacional de uma determinada assimetria. H&aacute; circunst&acirc;ncias em que h&aacute; mais de dois agentes (individuais ou coletivos) que representam papel de dominadores em uma rela&ccedil;&atilde;o e dominados em outras; nesse caso &ldquo;poder-se-ia conceber logicamente tr&ecirc;s pap&eacute;is do sistema: dominadores sem subordina&ccedil;&atilde;o, dominadores com subordina&ccedil;&atilde;o aos primeiros e dominados sem domina&ccedil;&atilde;o (subordinados aos primeiros e segundos)&rdquo;. H&aacute; tamb&eacute;m o papel de &ldquo;exclus&atilde;o integrativa&rdquo;, quando se ocupa o espa&ccedil;o social, mas n&atilde;o o integra, apartando-se de suas rela&ccedil;&otilde;es sociais. <\/p>\n<p>4. <em>A contrapartida da domina&ccedil;&atilde;o<\/em>. A domina&ccedil;&atilde;o tem a como contrapartida a participa&ccedil;&atilde;o, entendida como &ldquo;capacidade de decis&atilde;o sobre a pr&oacute;pria pessoa &ndash; essa mesma que se limita pela domina&ccedil;&atilde;o de outro (ou outros) &ndash;, o &lsquo;poder sobre si mesmo&rsquo;.&rdquo; &ldquo;Quanto maior a participa&ccedil;&atilde;o, menor a submiss&atilde;o &agrave; domina&ccedil;&atilde;o&rdquo;. <\/p>\n<p>5. <em>O lugar e o funcionamento da domina&ccedil;&atilde;o<\/em>. A domina&ccedil;&atilde;o se d&aacute; nas distintas esferas (econ&ocirc;mica, pol&iacute;tica etc.) e constitui uma rela&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica, com finalidades determinadas, que implica conflito permanente. Assim, deve ser avaliada em termos hist&oacute;ricos e geogr&aacute;ficos, por meio dos modos de domina&ccedil;&atilde;o &ndash; que explicam essas rela&ccedil;&otilde;es &ndash;, ligados, sempre, a uma localidade e um tempo espec&iacute;ficos. Seu dinamismo faz com que n&atilde;o possa ser entendida como algo cristalizado, est&aacute;tico; ela n&atilde;o possui uma &ldquo;in&eacute;rcia estabilizadora&rdquo;, mas &ldquo;constitui uma normatiza&ccedil;&atilde;o com limites m&oacute;veis, que existe e se atualiza por seu exerc&iacute;cio e pela resist&ecirc;ncia que a op&otilde;e&rdquo;, ainda que seus pr&oacute;prios mecanismos a respaldem e resguardem. <\/p>\n<p>A domina&ccedil;&atilde;o tem sempre alguma finalidade, ainda que seja o &ldquo;poder pelo poder&rdquo;, e, por ser relacional, implica pelo menos uma rela&ccedil;&atilde;o bilateral e posi&ccedil;&otilde;es distintas que correspondem aos diferentes p&oacute;los da assimetria, sejam elas percebidas ou n&atilde;o. H&aacute;, nesse sentido, &ldquo;contraposi&ccedil;&atilde;o de pontos de vista e de interesses, de percep&ccedil;&atilde;o destinada a desenvolver-se&rdquo;. Reformulando-se constantemente na contraposi&ccedil;&atilde;o domina&ccedil;&atilde;o-participa&ccedil;&atilde;o, a domina&ccedil;&atilde;o implica um conflito efetivo e constante determinado pela sua pr&oacute;pria din&acirc;mica. <br \/>\nO conflito social &eacute; permanente, resolvido e reativado constantemente, sem solu&ccedil;&atilde;o definitiva em sua continuidade. &ldquo;O conflito social &eacute; t&atilde;o ativo quanto a pr&oacute;pria domina&ccedil;&atilde;o e a participa&ccedil;&atilde;o.&rdquo; Seu processamento e sua renova&ccedil;&atilde;o constituem o motor da mudan&ccedil;a social. Em s&iacute;ntese, pode-se afirmar que a domina&ccedil;&atilde;o: define-se a partir das rela&ccedil;&otilde;es assim&eacute;tricas nas tomadas de decis&atilde;o e na imposi&ccedil;&atilde;o da vontade de agente(s) em rela&ccedil;&atilde;o a outro(s); explica as desigualdades estruturais e as estruturas de classes; envolve sempre rela&ccedil;&otilde;es humanas entre dominadores e dominados; possui a participa&ccedil;&atilde;o como contrapartida; ocorre nas distintas esferas, constitui uma rela&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica, com finalidades determinadas e que implica conflito permanente.<\/p>\n<p><strong>Sistema, estrutura e for&ccedil;a social<\/strong><\/p>\n<p>Errandonea acredita &ldquo;a vida social est&aacute; determinada, mas de maneira mais complexa do que habitualmente se tende a crer&rdquo;. [p. 127] Ele considera que &ldquo;cada sociedade &eacute; um sistema. Suas partes est&atilde;o inter-relacionadas de tal maneira que o que acontece em uma delas possui alguma repercuss&atilde;o nas partes restantes, claramente, em grau vari&aacute;vel.&rdquo; [p. 90] Essa influ&ecirc;ncia\/determina&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua entre distintos elementos relacionados constitui um dinamismo, uma realidade viva e atuante, que implica que &ldquo;as partes, suas rela&ccedil;&otilde;es e o todo convivam em pr&oacute;pria e constante transforma&ccedil;&atilde;o&rdquo;. [p. 91] O autor define sistema como &ldquo;um todo din&acirc;mico, composto de elementos inter-relacionados, que se afetam mutuamente de maneira vari&aacute;vel, autotransformam-se constantemente, de maneira global e gradual&rdquo; &ndash; uma categoria que, para ele, cont&eacute;m em si a no&ccedil;&atilde;o de mudan&ccedil;a e transforma&ccedil;&atilde;o social. [pp. 90-91]<\/p>\n<p>Num sistema, as partes que o comp&otilde;em disp&otilde;em-se, reciprocamente, como seus pr&oacute;prios elementos e, nesse aspecto, cada sistema constitui-se a partir de uma estrutura. &ldquo;Para al&eacute;m da abstra&ccedil;&atilde;o que exclui a dimens&atilde;o din&acirc;mica, essa disposi&ccedil;&atilde;o de partes, de elementos estruturais, como se disse, encontra-se em inter-rela&ccedil;&atilde;o e m&uacute;tua afeta&ccedil;&atilde;o constante. Portanto, em altera&ccedil;&atilde;o e modifica&ccedil;&atilde;o permanente, em constante fluir din&acirc;mico. Na realidade, a estrutura separada da mudan&ccedil;a, da dimens&atilde;o din&acirc;mica, n&atilde;o existe. [&#8230;] Ent&atilde;o, toda sociedade est&aacute; estruturada. Mas a conceitua&ccedil;&atilde;o que faremos dessa estrutura&ccedil;&atilde;o responder&aacute; aos elementos que consideramos relevantes e das no&ccedil;&otilde;es que elaboraremos sobre eles. <\/p>\n<p>Definimos anteriormente &ndash; neste n&iacute;vel mais geral &ndash; a estrutura social como a &lsquo;conforma&ccedil;&atilde;o de elementos e suas rela&ccedil;&otilde;es m&uacute;tuas, que resulta de uma abstra&ccedil;&atilde;o de regularidade empiricamente percept&iacute;vel, considerada relevante no contexto escolhido&rsquo;. Se fazemos isso, ou seja, se &lsquo;recheamos&rsquo; esse conceito com os elementos te&oacute;ricos que para n&oacute;s d&atilde;o conta dessa realidade estrutural, dever&iacute;amos dizer que a estrutura social &eacute; a configura&ccedil;&atilde;o do conjunto de rela&ccedil;&otilde;es sociais est&aacute;veis e concretas que implicam domina&ccedil;&atilde;o e\/ou participa&ccedil;&atilde;o, presentes em um sistema social.&rdquo; [pp. 91-92]<\/p>\n<p>As defini&ccedil;&otilde;es do autor da categoria sistema &ndash; o todo din&acirc;mico que constitui a sociedade, com rela&ccedil;&otilde;es e influ&ecirc;ncias m&uacute;tuas &ndash; e da categoria estrutura &ndash; conjunto das rela&ccedil;&otilde;es sociais est&aacute;veis e concretas presentes em um sistema &ndash; permitem afirmar que a sociedade constitui um sistema com uma determinada estrutura. A realidade estrutural, e, portanto, sist&ecirc;mica, varia em cada tempo e lugar, por raz&atilde;o de suas distintas rela&ccedil;&otilde;es sociais est&aacute;veis e concretas, que constituem as bases fundamentais da estrutura e do sistema. Essa realidade gerada pelos acontecimentos que envolvem diversos fatores, diferentes circunst&acirc;ncias e condi&ccedil;&otilde;es e possui, segundo Errandonea, um papel fundamental da a&ccedil;&atilde;o humana. <\/p>\n<p>N&atilde;o s&oacute; a a&ccedil;&atilde;o individual, de algumas pessoas ou dos simples conjuntos de individualidades, mas a a&ccedil;&atilde;o coletiva, de todos os grupos, do conjunto de agentes e de suas rela&ccedil;&otilde;es na sociedade. Buscando aprofundar essa no&ccedil;&atilde;o da a&ccedil;&atilde;o humana e de sua implica&ccedil;&atilde;o nas rela&ccedil;&otilde;es sociais, Errandonea define a categoria for&ccedil;a social: &ldquo;Por meio delas [das for&ccedil;as sociais] expressam-se as mencionadas incid&ecirc;ncias, e deve-se fazer a leitura da hist&oacute;ria social do momento por sua a&ccedil;&atilde;o rec&iacute;proca. <\/p>\n<p>Uma<em> for&ccedil;a social &eacute; um conglomerado grupal, com interesse coletivo (geralmente, uma situa&ccedil;&atilde;o comum de classe), com certo grau de capacidade e de vontade para atuar na busca desse interesse, que atua efetivamente, de maneira consciente em fun&ccedil;&atilde;o do interesse, o que lhe confere a condi&ccedil;&atilde;o de fator do processo social numa conjuntura espec&iacute;fica<\/em>.&rdquo; [p. 118] Ent&atilde;o, uma for&ccedil;a social caracteriza-se como um agrupamento coletivo real que, por meio da capacidade e da vontade, a partir de interesses comuns (que podem ser classistas), disp&otilde;e-se a atuar, e de fato atua, convertendo-se em um agente, um ator de um dado momento hist&oacute;rico e de um determinado espa&ccedil;o geogr&aacute;fico &ndash; dando corpo a uma a&ccedil;&atilde;o em alguma das esferas estruturadas da sociedade. <\/p>\n<p>S&atilde;o as for&ccedil;as sociais que, na correla&ccedil;&atilde;o entre si, determinam os elementos estruturais e a rela&ccedil;&atilde;o entre esses elementos que constituem a estrutura de um determinado sistema. A pr&oacute;pria rela&ccedil;&atilde;o entre os elementos estruturais tamb&eacute;m &eacute; respons&aacute;vel pela determina&ccedil;&atilde;o da estrutura e do sistema. &ldquo;Numa situa&ccedil;&atilde;o social historicamente concreta, que constitui um momento de um processo, o curso dos acontecimentos depende da equa&ccedil;&atilde;o resultante da a&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as sociais presentes e atuantes. <\/p>\n<p>Ela n&atilde;o &eacute; a &lsquo;soma ponderada&rsquo; das for&ccedil;as sociais existentes, nem sequer de suas a&ccedil;&otilde;es, mas o &lsquo;vetor&rsquo; resultante de suas respectivas a&ccedil;&otilde;es na circunst&acirc;ncia; com toda a complexa configura&ccedil;&atilde;o &ndash; como ingredientes, al&eacute;m da presen&ccedil;a &ndash; de sua vontade de a&ccedil;&atilde;o coletiva, de sua capacidade de organiza&ccedil;&atilde;o e mobiliza&ccedil;&atilde;o, da efic&aacute;cia de sua a&ccedil;&atilde;o coletiva, da adequa&ccedil;&atilde;o dos meios empregados e at&eacute; da eventual fortuita incid&ecirc;ncia de circunst&acirc;ncias e oportunidades que podem aumentar ou diminuir sua efici&ecirc;ncia. <\/p>\n<p>&Eacute; a presen&ccedil;a, a organicidade, a capacidade, a for&ccedil;a e a efic&aacute;cia das for&ccedil;as sociais existentes que operam como determinantes e como condicionantes do tipo de sistema de domina&ccedil;&atilde;o e seu funcionamento social.&rdquo; [pp. 127-128] Assim, a realidade social &eacute; o resultado da intera&ccedil;&atilde;o de diferentes for&ccedil;as sociais em jogo, que se movimentam dinamicamente e constituem resultados &ndash; aos quais o autor chama &ldquo;vetor resultante&rdquo; da intera&ccedil;&atilde;o dessas for&ccedil;as &ndash; que constituem estruturas e sistemas, o conjunto da realidade social. Portanto, a realidade, presente ou hist&oacute;rica, deve ser observada, segundo sustenta o autor, a partir do jogo de for&ccedil;as, da correla&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica entre as diferentes for&ccedil;as sociais.<\/p>\n<p>Numa rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o, considera-se que, entre dominadores e dominados, os primeiros possuem maior for&ccedil;a social mobilizada e aplicada no conflito e os segundos menos. Num determinado <em>status quo<\/em>, constitu&iacute;do a partir de uma rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o, h&aacute;, assim, dois grandes p&oacute;los de for&ccedil;a &ndash; o p&oacute;lo dominante (que por um motivo ou outro consegue mobilizar e aplicar maior quantidade de for&ccedil;a social no conflito) e o p&oacute;lo dominado (que mobiliza e aplica menor for&ccedil;a social). A rela&ccedil;&atilde;o de poder estabelecida entre o p&oacute;lo dominante e o p&oacute;lo dominado constitui um <em>status quo<\/em>, uma &ldquo;ordem&rdquo;, uma estrutura determinada, um sistema &ndash; se concebida em termos macro-sociais. <\/p>\n<p>Na busca de um avan&ccedil;o cauteloso em rela&ccedil;&atilde;o a um m&eacute;todo de an&aacute;lise da realidade que d&ecirc; conta da correla&ccedil;&atilde;o entre as for&ccedil;as sociais, Errandonea coloca: &ldquo;Para tratar de compreender os acontecimentos de um determinado momento hist&oacute;rico, em uma situa&ccedil;&atilde;o social concreta, e tamb&eacute;m para tentar fazer progn&oacute;sticos com certa &lsquo;probabilidade&rsquo; de acontecimento, parece necess&aacute;rio partir do diagn&oacute;stico do tipo de sistema de domina&ccedil;&atilde;o vigente e seu funcionamento, para em seguida identificar e situar as for&ccedil;as sociais operantes na situa&ccedil;&atilde;o. As for&ccedil;as sociais conformar&atilde;o uma esp&eacute;cie de equa&ccedil;&atilde;o, travada em sua disputa m&uacute;tua em uma situa&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica concreta. E nela, os termos dessa equa&ccedil;&atilde;o se configurar&atilde;o por agregados mesclados ou alian&ccedil;as entre diversas for&ccedil;as sociais. Logo a an&aacute;lise deve prosseguir incorporando aqueles componentes que reduzem ou aumentam a efic&aacute;cia de cada for&ccedil;a social.&rdquo; [p. 129] <\/p>\n<p>Nesse m&eacute;todo de an&aacute;lise da realidade social, o fundamental, segundo o autor, &eacute; identificar e analisar a intera&ccedil;&atilde;o das v&aacute;rias for&ccedil;as sociais mobilizadas e aplicadas pelos diferentes agentes em suas rela&ccedil;&otilde;es sociais, de maneira a compreender quais s&atilde;o as rela&ccedil;&otilde;es que se est&atilde;o forjando nas distintas esferas do sistema e quais s&atilde;o os agentes nelas envolvidos e qual o papel que representam em sua estrutura&ccedil;&atilde;o. Nota-se que a categoria for&ccedil;a social &eacute; central no m&eacute;todo de an&aacute;lise do autor. <\/p>\n<p>As in&uacute;meras for&ccedil;as sociais que d&atilde;o corpo &agrave; estrutura do sistema, quando operam na realidade por meio das rela&ccedil;&otilde;es, assumem geralmente &ldquo;conforma&ccedil;&otilde;es formais, costumam expressar-se por meio de grupos, organiza&ccedil;&otilde;es, associa&ccedil;&otilde;es volunt&aacute;rias ou outras forma&ccedil;&otilde;es&rdquo;. [pp. 129-130] Nas distintas esferas da sociedade e segundo as condi&ccedil;&otilde;es dadas, esses conjuntos manifestam mais visivelmente as for&ccedil;as sociais em jogo; na esfera pol&iacute;tica, por exemplo, diferentes partidos, grupos de press&atilde;o etc.; na econ&ocirc;mica, empresas, sindicatos etc.; na cultural\/ideol&oacute;gica, empresas de comunica&ccedil;&atilde;o, costumes, moral etc. <\/p>\n<p>Errandonea enfatiza que &eacute; comum muitos desses atores coletivos terem &ldquo;atua&ccedil;&atilde;o em mais de uma esfera com sua pr&oacute;pria identifica&ccedil;&atilde;o e organicidade&rdquo;. [p. 130] O m&eacute;todo de Errandonea, que encontra na correla&ccedil;&atilde;o entre for&ccedil;as sociais o resultado da estrutura sist&ecirc;mica, implica uma compreens&atilde;o de que &ldquo;qualquer realidade concreta &eacute; conjuntural&rdquo; e &ldquo;o conjuntural e o estrutural interv&eacute;m como planos sobrepostos, nos quais o primeiro desliza instavelmente sobre o segundo&rdquo;. <\/p>\n<p>Para o autor, n&atilde;o compreender isso, equivaleria &ldquo;a renunciar a compreender a hist&oacute;ria cotidiana e concreta&rdquo;. [Ibid.] Assim, ele n&atilde;o opta pela indetermina&ccedil;&atilde;o absoluta, e nem pela determina&ccedil;&atilde;o r&iacute;gida e mecanicista: &ldquo;essa determina&ccedil;&atilde;o &eacute; muito mais complexa do que sup&otilde;em os esquemas habituais&rdquo;. Continua com uma cr&iacute;tica a outros m&eacute;todos de an&aacute;lise: &ldquo;nossas disciplinas est&atilde;o ainda est&atilde;o muito atrasadas metodol&oacute;gica e teoricamente para poder resolver satisfatoriamente as dificuldades que essa complexidade nos coloca&rdquo;. [p. 129]<\/p>\n<p>Errandonea tem por inten&ccedil;&atilde;o superar m&eacute;todos de an&aacute;lise que se fundamentam nessa &ldquo;determina&ccedil;&atilde;o r&iacute;gida e mecanicista&rdquo;, que no seu entender &eacute; &ldquo;ing&ecirc;nua&rdquo;, e impedem a compreens&atilde;o adequada da realidade. Para ele, ainda que a no&ccedil;&atilde;o de determina&ccedil;&atilde;o sist&ecirc;mica\/estrutural da sociedade seja fundamental, ela n&atilde;o pode ser considerada a partir de leis teleol&oacute;gicas que se colocam fora do campo das rela&ccedil;&otilde;es sociais, da estrutura e do pr&oacute;prio sistema em quest&atilde;o. <\/p>\n<p>Seu m&eacute;todo, conforme aponta, distingue-se radicalmente do &ldquo;determinismo mecanicista e simplista de diversas formas de &lsquo;cientificismo&rsquo;&rdquo;, que transferem &ldquo;analogicamente e sem qualquer adequa&ccedil;&atilde;o alguma o modelo das chamadas ci&ecirc;ncias naturais &ndash; seja ele causal, funcional ou, algo mais elaborado, estoc&aacute;stico &ndash;, ou do &lsquo;socialismo cient&iacute;fico&rdquo; marxista-leninista&rdquo;. [p. 128]<\/p>\n<p><strong>Sistema de domina&ccedil;&atilde;o<\/strong><\/p>\n<p>Viu-se que Errandonea considera &ldquo;sistema&rdquo; o todo din&acirc;mico que implica a sociedade, com rela&ccedil;&otilde;es e influ&ecirc;ncias m&uacute;tuas, e &ldquo;estrutura&rdquo; o conjunto das rela&ccedil;&otilde;es sociais est&aacute;veis e concretas, entre elementos estruturais, presentes em um sistema. Passando do modelo te&oacute;rico e relativamente abstrato para casos mais reais e concretos, o autor incrementa seu modelo de an&aacute;lise, conciliando o poder e a economia, por meio da categoria domina&ccedil;&atilde;o, considerada por ele a categoria mais geral para explicar as desigualdades estruturais, para a &ldquo;explica&ccedil;&atilde;o do social&rdquo;. <\/p>\n<p>Para tanto, introduz a no&ccedil;&atilde;o de &ldquo;sistema de domina&ccedil;&atilde;o&rdquo;, o qual define como &ldquo;conjunto de mecanismos que corresponde &agrave;s diversas fontes e fatores que se combinam em uma determinada estrutura de classes e ao conjunto que elas constituem institucionalmente com as resist&ecirc;ncias participativas em seu funcionamento hist&oacute;rico concreto.&rdquo; [p. 89] Os mecanismos s&atilde;o, para ele, &ldquo;elementos estruturais&rdquo;, cujo conjunto comp&otilde;e a estrutura social. Esse sistema est&aacute; estruturado em bases classistas forjadas por mecanismos (elementos estruturais) que envolvem fontes e fatores e constituem o resultado de um conflito entre for&ccedil;as sociais que interagem mutuamente.<\/p>\n<p>Num sistema de domina&ccedil;&atilde;o, &ldquo;a estrutura social &eacute; uma estrutura de classes&rdquo; [p. 92] &ndash; as classes sociais e seu papel estrutural s&atilde;o, segundo sustenta, os principais aspectos dessa estrutura social essencialmente classista. Para Errandonea, as classes sociais, definidas a partir da categoria domina&ccedil;&atilde;o, constituem-se a partir das desigualdades e refletem os efeitos da domina&ccedil;&atilde;o. Essa abordagem classista da estrutura social n&atilde;o &eacute; a &uacute;nica poss&iacute;vel; &eacute; poss&iacute;vel analisar o sistema social e sua estrutura a partir de outras categorias, mas isso n&atilde;o impede o autor de sustentar que: &ldquo;em nossa perspectiva, esta [a estrutura classista do sistema de domina&ccedil;&atilde;o] &eacute; nossa ferramenta anal&iacute;tica fundamental&rdquo;. [Ibid.] O conjunto constitu&iacute;do pelas classes e suas rela&ccedil;&otilde;es formam a estrutura social.<\/p>\n<p>Assim como o sistema de domina&ccedil;&atilde;o, uma estrutura de classes pode ser explicada pela perspectiva do poder (incluindo a economia), a partir da no&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o, ainda que &ldquo;uma categoria t&atilde;o geral, que tanto abarca, por for&ccedil;a l&oacute;gica, se empobre&ccedil;a de conte&uacute;do como resultado da abstra&ccedil;&atilde;o que sup&otilde;e&rdquo;. Isso permite afirmar que h&aacute; domina&ccedil;&atilde;o nas rela&ccedil;&otilde;es entre as classes, mas nem toda domina&ccedil;&atilde;o &eacute; uma domina&ccedil;&atilde;o de classe. <\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, &ldquo;o poder em si, por si s&oacute;, n&atilde;o &eacute; uma explica&ccedil;&atilde;o suficiente do fen&ocirc;meno das classes, mas somente seu aspecto mais geral&rdquo;; ele &ldquo;&eacute; um grande &lsquo;continente&rsquo; que d&aacute; conta dos fen&ocirc;menos de classes, mas deve ter &lsquo;conte&uacute;dos&rsquo; nos quais efetivamente se funde a pr&oacute;pria domina&ccedil;&atilde;o&rdquo;. [p. 87] Ou seja, se a domina&ccedil;&atilde;o &eacute; uma categoria ampla que pode auxiliar a compreens&atilde;o das estruturas de classe, ela necessita de conte&uacute;dos mais espec&iacute;ficos que permitam uma explica&ccedil;&atilde;o mais pormenorizada dessa estrutura.<\/p>\n<p>A cada estrutura correspondem distintas rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o de classe, diferentes mecanismos e fatores que implicam rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas e n&atilde;o-econ&ocirc;micas e que variam, combinando-se e hierarquizando-se de diversas maneiras &ndash; recorde-se que nesse m&eacute;todo n&atilde;o se considera obrigat&oacute;ria e v&aacute;lida em todos os casos a determina&ccedil;&atilde;o da economia sobre as outras esferas. &ldquo;A domina&ccedil;&atilde;o constitui-se e exerce-se por meio de diferentes mecanismos. Eles estabelecem, por sua vez, o modo de conforma&ccedil;&atilde;o das assimetrias que constituem a domina&ccedil;&atilde;o e a explica&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica da forma assumida em uma situa&ccedil;&atilde;o e um sistema dados. <\/p>\n<p>Esses mecanismos s&atilde;o geralmente v&aacute;rios, est&atilde;o hierarquizados e entrela&ccedil;ados mutuamente em cada combina&ccedil;&atilde;o peculiar. Constituem a equa&ccedil;&atilde;o concreta de um sistema de domina&ccedil;&atilde;o determinado. E cada um deles corresponde a um fator, a uma categoria (explora&ccedil;&atilde;o, coa&ccedil;&atilde;o, poder pol&iacute;tico, aliena&ccedil;&atilde;o cultural etc.). Cada sociedade pode ser caracterizada pela combina&ccedil;&atilde;o deles, a qual deve dar conta das caracter&iacute;sticas diferenciais desses sistema de domina&ccedil;&atilde;o e de sua estrutura de classes.&rdquo; [pp. 89-90]<\/p>\n<p>Assim, a estrutura social constitui a resultante das rela&ccedil;&otilde;es entre distintos mecanismos, que implicam domina&ccedil;&otilde;es que dizem respeito &agrave; esfera econ&ocirc;mica, mas tamb&eacute;m &agrave;s outras esferas estruturadas da sociedade. Cada combina&ccedil;&atilde;o particular implica, para o autor, que, nas distintas situa&ccedil;&otilde;es, a resultante seja diferente por raz&atilde;o de m&uacute;ltiplas determina&ccedil;&otilde;es. A estrutura social de um sistema de domina&ccedil;&atilde;o pode ser de diferentes tipos e operar por diversos meios. H&aacute; distintos modos de domina&ccedil;&atilde;o que podem resultar da explora&ccedil;&atilde;o, da aliena&ccedil;&atilde;o cultural, do controle pol&iacute;tico-burocr&aacute;tico etc. &ldquo;Dificilmente uma rela&ccedil;&atilde;o estrutural de domina&ccedil;&atilde;o no n&iacute;vel de uma sociedade global&rdquo; baseia-se &ldquo;<em>exclusivamente<\/em> em um deles&rdquo;. &ldquo;Tal rela&ccedil;&atilde;o explica-se por uma combina&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica&rdquo; desses mecanismos, havendo sempre predomin&acirc;ncia de um ou mais deles na rela&ccedil;&atilde;o. [p. 88]<\/p>\n<p>No que diz respeito &agrave;s rela&ccedil;&otilde;es entre as classes sociais, essa resultante estrutural &eacute; resultado da intera&ccedil;&atilde;o din&acirc;mica das diferentes for&ccedil;as sociais mobilizadas e aplicadas pelas classes sociais no conflito, num contexto de preponder&acirc;ncia das for&ccedil;as sociais das classes dominantes em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s for&ccedil;as das classes dominadas. Essa estrutura implica, nesse sentido, uma supera&ccedil;&atilde;o da resist&ecirc;ncia estabelecida pelas for&ccedil;as sociais das classes dominadas, as quais podem ou n&atilde;o ter um projeto de participa&ccedil;&atilde;o como contraponto &agrave; domina&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>O dinamismo caracteriza toda estrutura social, por raz&atilde;o da estrutura de classes e das rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o variarem conforme o tempo e o lugar. Esse dinamismo implica que, na maioria dos casos, uma estrutura social n&atilde;o possa ser explicada somente por um mecanismo\/fator; distintas combina&ccedil;&otilde;es e diversos mecanismos\/fatores constituem, em cada sociedade, distintas rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o e diversas estruturas de classes. Assim, uma estrutura social pode ser explicada de v&aacute;rias maneiras, com base na resultante da intera&ccedil;&atilde;o entre os mecanismos\/fatores e das rela&ccedil;&otilde;es que neles e entre eles forem estabelecidas.<\/p>\n<p>As rela&ccedil;&otilde;es sociais que constituem a base da estrutura social geralmente estruturam-se institucionalmente, formalizando essas rela&ccedil;&otilde;es em institui&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o, ao mesmo tempo, causa e conseq&uuml;&ecirc;ncia dessas rela&ccedil;&otilde;es; s&atilde;o estruturadas por elas e possuem capacidade de estruturar.<\/p>\n<p>Esse grande &ldquo;continente&rdquo; da domina&ccedil;&atilde;o, como se refere o autor, permite identificar &ldquo;conte&uacute;dos&rdquo; em cada tipo de sistema de domina&ccedil;&atilde;o. &ldquo;As rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o constituem a rede de uma sociedade classista, de uma estrutura de classes; e, no geral, dela d&aacute; conta. Mas, como dito reiteradamente, as rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o operam por meio de um conjunto de mecanismos que constituem o aparato de domina&ccedil;&atilde;o de um sistema. Esse &lsquo;aparato&rsquo;, esse &lsquo;conjunto de mecanismos&rsquo; resultam da combina&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica de diversos fatores ou meios de dominar os quais denominaremos <em>tipos de domina&ccedil;&atilde;o<\/em>: explora&ccedil;&atilde;o, coa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica, poder pol&iacute;tico etc. <\/p>\n<p>Cada um deles constitui <em>meios<\/em> porque s&atilde;o maneiras de exercer a domina&ccedil;&atilde;o, ou o acesso a cada um dos quais permite alcan&ccedil;ar a possibilidade desse exerc&iacute;cio. E tamb&eacute;m s&atilde;o <em>fatores<\/em>, porque por meio deles que se gera ou estabelece a rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o necessariamente meios e fatores s&atilde;o os mesmos para uma situa&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica: a domina&ccedil;&atilde;o pode ser explicada fundamentalmente por um fator ou acontecer de seu exerc&iacute;cio se dar principalmente por outro meio. Mas a tend&ecirc;ncia &eacute; a coincid&ecirc;ncia, a consist&ecirc;ncia para uma dada situa&ccedil;&atilde;o. [&#8230;] Todas s&atilde;o maneiras de operar a domina&ccedil;&atilde;o, todas constituem a rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o, todas <em>s&atilde;o<\/em> domina&ccedil;&atilde;o. &Eacute; l&oacute;gico que os mecanismos que a <em>implementam<\/em> respondem aos fatores que a sustentam.&rdquo; [p. 93]<\/p>\n<p>Definindo melhor os termos empregados, Errandonea afirma que o sistema de domina&ccedil;&atilde;o &eacute; formado por uma estrutura de classes e opera por um conjunto de mecanismos (um aparato de domina&ccedil;&atilde;o de um determinado sistema) que &eacute; resultado de diferentes fatores e meios de domina&ccedil;&atilde;o (tipo de domina&ccedil;&atilde;o). Fatores e meios s&atilde;o categorias abertas e historicamente contingentes cujas combina&ccedil;&otilde;es variam. &ldquo;A cada forma espec&iacute;fica de se combinar os diversos &lsquo;tipos de domina&ccedil;&atilde;o&rsquo; em uma determinada configura&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o, chamamos cada equa&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel de &lsquo;fatores&rsquo; ou &lsquo;meios&rsquo; de &lsquo;modos de domina&ccedil;&atilde;o&rsquo;.&rdquo; [p. 94] <\/p>\n<p>Modos que consistem na maneira espec&iacute;fica de combina&ccedil;&atilde;o, hierarquiza&ccedil;&atilde;o e liga&ccedil;&atilde;o dos distintos mecanismos, dos diferentes tipos de domina&ccedil;&atilde;o. Os &ldquo;sistemas sociais de domina&ccedil;&atilde;o nos quais prevalece um determinado &lsquo;modo de domina&ccedil;&atilde;o&rsquo; constituem em conjunto um &lsquo;tipo de sistemas de domina&ccedil;&atilde;o&rsquo;&rdquo;. [Ibid.]<\/p>\n<p>Errandonea realiza um racioc&iacute;nio inicial de alguns tipos de domina&ccedil;&atilde;o principais, que podem ser reconhecidos, em termos hist&oacute;ricos, mais evidentemente. [pp. 95-96] <\/p>\n<p>1. <em>Explora&ccedil;&atilde;o<\/em>. J&aacute; tratada anteriormente, a explora&ccedil;&atilde;o prevalece nas &ldquo;sociedades com economia de mercado e seu papel de determinante quase exclusiva no capitalismo do tipo do s&eacute;culo XIX europeu&rdquo;. H&aacute; outros tipos de domina&ccedil;&atilde;o econ&ocirc;mica, menos gerais que a explora&ccedil;&atilde;o, entretanto. <\/p>\n<p>2. <em>Coa&ccedil;&atilde;o f&iacute;sica<\/em>. Tipo de domina&ccedil;&atilde;o mais antigo historicamente, constitui a &ldquo;&lsquo;&uacute;ltima ratio&rsquo; em praticamente todos os sistemas de domina&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Sua utiliza&ccedil;&atilde;o &eacute; muito desgastante, tem um alto custo para o poder vigente, n&atilde;o se sustenta no tempo como fundamento &uacute;nico de um sistema. &ldquo;Os aparatos policial-repressivos e as organiza&ccedil;&otilde;es militares modernas s&atilde;o as manifesta&ccedil;&otilde;es de sua presen&ccedil;a atual.&rdquo; <\/p>\n<p>3. <em>Pol&iacute;tico-burocr&aacute;tico<\/em>. Constitui-se pelo monop&oacute;lio das tomada de decis&otilde;es que afetam a sociedade de maneira geral, geralmente por meios como governos e sistemas pol&iacute;ticos de Estado. No capitalismo do s&eacute;culo XX esse tipo de domina&ccedil;&atilde;o ganha relev&acirc;ncia, prevalecendo nos regimes nazi-fascistas, no &ldquo;socialismo&rdquo; sovi&eacute;tico e em algumas &ldquo;democracias populares&rdquo;. Nas democracias liberais do mundo capitalista opera menos evidentemente, por mecanismos que se apresentam como igualit&aacute;rios e livres, fundamentados em regras objetivas que &ldquo;possibilitam&rdquo; o acesso de distintos grupos &agrave;s estruturas de poder &ndash; &ldquo;elei&ccedil;&otilde;es, sufr&aacute;gio universal, parlamentos etc.&rdquo; &ndash; que conferem a esse tipo de domina&ccedil;&atilde;o certa legitimidade. As vantagens para as classes dominantes se d&atilde;o &ldquo;na pr&oacute;pria desigualdade das estruturas de classes do sistema de domina&ccedil;&atilde;o e nos pr&oacute;prios mecanismos do aparato partidocr&aacute;tico. <\/p>\n<p>Esse tipo de domina&ccedil;&atilde;o foi fundamental para o desenvolvimento do capitalismo; em rela&ccedil;&atilde;o a ele, a teoria cl&aacute;ssica marxista enfrenta significativas dificuldades explicativas. H&aacute; certamente, conforme aponta o autor, outros tipos de domina&ccedil;&atilde;o: &ldquo;cultural-alienadora, religiosa-hierocr&aacute;tica, propaganda e manipula&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o etc.&rdquo; que, segundo acredita, t&ecirc;m uma relev&acirc;ncia de segunda ordem nos sistemas hist&oacute;ricos mais conhecidos, ainda que tenham tamb&eacute;m sua import&acirc;ncia. Ele acredita que os tipos de domina&ccedil;&atilde;o apresentados &ldquo;figuram mais frequentemente entre os mais importantes dos principais tipos de sistema de domina&ccedil;&atilde;o&rdquo;. [p. 97]<\/p>\n<p><strong>Domina&ccedil;&atilde;o e classes sociais<\/strong><\/p>\n<p>Errandonea acredita que a domina&ccedil;&atilde;o &eacute; o &ldquo;fundamento b&aacute;sico das rela&ccedil;&otilde;es de classe; portanto, da conforma&ccedil;&atilde;o de classes sociais e da pr&oacute;pria estrutura de classes em que elas se d&atilde;o&rdquo;. [p. 97] Ele inicia sua argumenta&ccedil;&atilde;o aportando elementos que permitem conceituar a categoria classe social, enfatizando que elas est&atilde;o completamente relacionadas com a assimetria social, a desigualdade, quando esta possui uma conforma&ccedil;&atilde;o estrutural, consistente e est&aacute;vel. Nesse sentido, as classes sociais s&atilde;o &ldquo;agrupamentos humanos de relativa homogeneidade entre si&rdquo;, de aspectos, atributos ou elementos distribu&iacute;dos desigualmente numa determinada sociedade, agregados pelas similaridades que dizem respeito &agrave;s desigualdades sociais. <\/p>\n<p>Entendido dessa maneira, &ldquo;o conceito de classe &eacute; relativo &agrave; exist&ecirc;ncia de outras classes&rdquo;. [p. 98] &ldquo;A sociedade assume uma estrutura de classes sociais quando a distribui&ccedil;&atilde;o daquilo que nela existe &eacute; desigual. Claramente, n&atilde;o estamos nos referindo exclusivamente aos bens e recursos materiais. Aludimos tamb&eacute;m a eles, est&aacute; claro; e n&atilde;o s&oacute; em termos quantitativos, mas tamb&eacute;m em termos qualitativos (n&atilde;o somente quantos, mas que tipos de bens; n&atilde;o somente a quantia de pagamento ou remunera&ccedil;&atilde;o, mas para que profiss&atilde;o, para que tipo de tarefa ou servi&ccedil;o quando se trata de sal&aacute;rio; etc.). <\/p>\n<p>Mas a refer&ecirc;ncia &eacute; mais ampla. Tudo o que se distribui desigualmente: acesso diferencial ou exposi&ccedil;&atilde;o aos meios de coa&ccedil;&atilde;o, poder pol&iacute;tico, prest&iacute;gio social, etc. (tamb&eacute;m aqui em termos quantitativos e qualitativos).&rdquo; [Ibid.] As classes sociais est&atilde;o ligadas a tudo o que se distribui desigualmente na sociedade e &agrave;s coincid&ecirc;ncias em rela&ccedil;&atilde;o &agrave;s distintas assimetrias. Em rela&ccedil;&atilde;o a diferentes elementos, h&aacute; &ldquo;privilegiados e despossu&iacute;dos&rdquo; em seu conjunto, podendo haver situa&ccedil;&otilde;es mais ou menos intermedi&aacute;rias. As classes sociais n&atilde;o se estabelecem por &ldquo;desigualdades n&atilde;o-consistentes&rdquo; ou &ldquo;desigualdades circunstanciais&rdquo;; trata-se de &ldquo;desigualdades consistentes, est&aacute;veis, institucionalizadas, resistentes. De tal maneira que umas refor&ccedil;am as outras: s&atilde;o efetivamente <em>estruturais<\/em>.&rdquo; [pp. 98-99]<\/p>\n<p>O sistema de domina&ccedil;&atilde;o estabelece-se sobre rela&ccedil;&otilde;es sociais assim&eacute;tricas e disp&otilde;e de elementos ou partes relevantes para esse ordenamento, constitu&iacute;do por &ldquo;grandes agrupamentos ou estratos que resultam dos diferentes pap&eacute;is e fun&ccedil;&otilde;es qualitativos poss&iacute;veis nas rela&ccedil;&otilde;es sociais de domina&ccedil;&atilde;o&rdquo;. [Ibid.] H&aacute; conjuntos humanos que possuem pap&eacute;is e fun&ccedil;&otilde;es de destaque nos mecanismos que determinam o sistema de domina&ccedil;&atilde;o e esses conjuntos constituem as classes sociais. &ldquo;A conforma&ccedil;&atilde;o desses conjuntos humanos distribu&iacute;dos em &lsquo;pap&eacute;is&rsquo; nas rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o &ndash; as classes sociais &ndash;, e em seu conjunto, constituem a estrutura de classes da sociedade&rdquo;, a qual &eacute; composta de &ldquo;tipos de classes, ou seja, que cada um desses &lsquo;tipos&rsquo; aglutina o conjunto de classes sociais concretas que desempenham <em>esse <\/em>papel na estrutura de classes&rdquo;. [p. 100] <\/p>\n<p>Nesse sentido, as classes sociais concretas &ldquo;s&atilde;o conjuntos humanos cujos membros t&ecirc;m em comum a posse de certos atributos adequados, que os habilitam para a inser&ccedil;&atilde;o no desempenho do respectivo papel&rdquo;. [Ibid.] Assim concebidas, as classes sociais constituem categorias hist&oacute;ricas, vari&aacute;veis conforme o tempo, podendo aparecer, desempenhar um papel, modificar-se ou mesmo desaparecer. Os tipos de classes constituem &ldquo;pap&eacute;is, posi&ccedil;&otilde;es que &ndash; basicamente &ndash; subsistem enquanto dura o sistema de domina&ccedil;&atilde;o classista de cuja estrutura formam parte&rdquo;. <\/p>\n<p>Nesse sentido, Errandonea entende ser necess&aacute;rio &ldquo;distinguir &lsquo;tipos de classes&rsquo; qualificadas como tal pelo papel que desempenham na estrutura de classes, e as classes sociais concretas e hist&oacute;ricas, que desempenham um ou (sucessivamente) v&aacute;rios desses pap&eacute;is&rdquo;. [Ibid.] A defini&ccedil;&atilde;o descritiva sobre as classes sociais anteriormente realizada diz respeito &agrave;s classes sociais concretas; a defini&ccedil;&atilde;o de tipos de classes possui um grau maior de abstra&ccedil;&atilde;o e exige que uma teoria que d&ecirc; conta de uma realidade determinada, espec&iacute;fica em quest&atilde;o. &ldquo;Em cada &lsquo;tipo de classe&rsquo; podem aparecer &ndash; normalmente aparecem &ndash; mais de uma classe social concreta&rdquo;, coloca o autor. <\/p>\n<p>Cada uma dessas classes sociais concretas define-se como tal pelas &ldquo;caracter&iacute;sticas concretas que ela assume na percep&ccedil;&atilde;o de suas peculiaridades enquanto a distribui&ccedil;&atilde;o societ&aacute;ria desigual [&#8230;], em sua condi&ccedil;&atilde;o de fen&ocirc;meno hist&oacute;rico e singular.&rdquo; [p. 101] Falar de tipos de classe exige refletir sobre os pap&eacute;is e fun&ccedil;&otilde;es que cada um desses tipos desempenha na estrutura de classes; ao mesmo tempo, falar de classes sociais concretas exige refletir sobre o conjunto de &ldquo;atributos que conformam esse conglomerado chamado &lsquo;classe&rsquo; [&#8230;] e que conduzem esse conjunto ao desempenho de algum dos pap&eacute;is poss&iacute;veis na estrutura de classes, a sua inser&ccedil;&atilde;o nela em um tipo de classe.&rdquo; [Ibid.] Por isso a necessidade de distin&ccedil;&atilde;o das duas categorias. Pode-se, assim, definir os tipos de classes sociais como &ldquo;aquelas classes ou conjuntos de classes sociais concretas, cujos membros desempenham papel similar nas rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o&rdquo;. [p. 102]<\/p>\n<p>De maneira geral, pode-se dizer que um sistema de domina&ccedil;&atilde;o fundamenta-se em uma estrutura social classista que envolve classes dominantes e classes dominadas. &ldquo;Um sistema classista, um sistema de domina&ccedil;&atilde;o&rdquo;, coloca Errandonea, &ldquo;requer pelo menos, universalmente, ambas as categorias&rdquo;. No entanto, elas n&atilde;o s&atilde;o suficientes para &ldquo;abarcar os poss&iacute;veis pap&eacute;is poss&iacute;veis que &ndash; tamb&eacute;m de maneira gen&eacute;rica &ndash; as classes sociais concretas podem desempenhar em um sistema de domina&ccedil;&atilde;o&rdquo;. Para dar conta dos distintos pap&eacute;is e fun&ccedil;&otilde;es &eacute; necess&aacute;rio &ldquo;desdobrar, separar&rdquo; as classes dominantes e dominadas, de maneira que se torne poss&iacute;vel chegar a categorias operacionais que permitam compreender a realidade social. [Ibid.] <\/p>\n<p>O autor distingue quatro pap&eacute;is nas rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o: &ldquo;a.) o exerc&iacute;cio &ndash; a titularidade &ndash; da domina&ccedil;&atilde;o; b.) a participa&ccedil;&atilde;o na instrumenta&ccedil;&atilde;o da domina&ccedil;&atilde;o (e, como logo veremos, a compet&ecirc;ncia para acessar o exerc&iacute;cio citado); c.) a situa&ccedil;&atilde;o de dominados, integrados essencialmente no sistema de maneira necess&aacute;ria para sua subsist&ecirc;ncia; d.) a situa&ccedil;&atilde;o de dominados &lsquo;n&atilde;o-integrados&rsquo; (relativamente pouco integrados, que n&atilde;o s&atilde;o essenciais para a exist&ecirc;ncia do sistema).&rdquo; [Ibid.] <\/p>\n<p>A partir desses quatro pap&eacute;is, deduz-se que em um sistema de domina&ccedil;&atilde;o classista h&aacute; pap&eacute;is evidentes de dominadores (a) e dominados (c), e outros (b, d) que constituem parte do sistema, mas que n&atilde;o coincidem completamente em todos os sistemas sociais e podem ou n&atilde;o estar presentes, ainda que normalmente estejam. Isso n&atilde;o significa, entretanto, &ldquo;que haja socialmente uma situa&ccedil;&atilde;o intermedi&aacute;ria entre o papel de dominador e de dominado, com uma l&oacute;gica pr&oacute;pria&rdquo;. [p. 103] Os sistemas de domina&ccedil;&atilde;o tendem a desenvolver uma &ldquo;segrega&ccedil;&atilde;o parcial de certo segmento das classes dominadas para instrumentar sua domina&ccedil;&atilde;o&rdquo; [Ibid.], dando a ele (b), em troca, parcelas de autoridade de domina&ccedil;&atilde;o e de acesso &agrave;s gratifica&ccedil;&otilde;es diferenciadas &ndash; um processo que tende a estimular a mobilidade individual para a ascens&atilde;o social. <\/p>\n<p>No entanto, Errandonea afirma que n&atilde;o h&aacute; possibilidade real de se abster e de se excluir de um sistema de domina&ccedil;&atilde;o: &ldquo;aqueles que o integram, est&atilde;o submetidos a ele&rdquo; [Ibid.], inclusive agentes que auxiliam na domina&ccedil;&atilde;o (b). Pode haver tamb&eacute;m agentes pouco integrados ou quase exclu&iacute;dos &ndash; casos em que a assimetria e a submiss&atilde;o s&atilde;o maiores (d). Para o autor, as categorias &ldquo;b&rdquo;, &ldquo;c&rdquo; e &ldquo;d&rdquo; s&atilde;o de dominados, fundamentalmente pela din&acirc;mica global do sistema. Ainda que Errandonea afirme serem esses quatro pap&eacute;is comuns em distintos sistemas de domina&ccedil;&atilde;o, ele coloca que a exist&ecirc;ncia dos tr&ecirc;s pap&eacute;is que comp&otilde;em as classes dominadas (b, c, d) n&atilde;o s&atilde;o inexor&aacute;veis. Um sistema pode fundamentar-se apenas nas categorias &ldquo;a&rdquo; e &ldquo;c&rdquo;. Os quatro pap&eacute;is nas rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o definidos pelo autor d&atilde;o corpo ao que ele chama de quatro &ldquo;tipos de classes&rdquo; fundamentais: &ldquo;&lsquo;classes dominantes&rsquo; (papel &lsquo;a&rsquo;), &lsquo;classes m&eacute;dias&rsquo; (papel &lsquo;b&rsquo;), &lsquo;classes dominadas propriamente ditas&rsquo; (papel &lsquo;c&rsquo;) e &lsquo;marginais&rsquo; (papel &lsquo;d&rsquo;)&rdquo; [p. 104]. <br \/>\n<em><br \/>\nOs tipos de classes sociais<\/em><\/p>\n<p>Errandonea apresenta, conforme descrito acima, quatro tipos de classes sociais, as quais discute com algum detalhe.<\/p>\n<p>As classes dominantes, define, constituem-se das &ldquo;classes sociais concretas cujos membros controlam o conjunto dos mecanismos de domina&ccedil;&atilde;o presentes em uma determinada configura&ccedil;&atilde;o de rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o, resultante da combina&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica dos meios nelas vigentes para exerc&ecirc;-las&rdquo;. Assim, s&atilde;o &ldquo;o conjunto de posi&ccedil;&otilde;es sociais que sup&otilde;em um acesso permanente e institucionalizado aos mecanismos em rela&ccedil;&atilde;o aos quais se adotam as decis&otilde;es sociais&rdquo;. [p. 105] As classes dominantes exercem domina&ccedil;&atilde;o sobre outras classes na sociedade, tanto nas rela&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas (que envolvem a domina&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica-burocr&aacute;tica) como em outras esferas da sociedade, como a economia, que implicam decis&otilde;es fundamentais. Essas classes &ldquo;disp&otilde;em de meios que lhes permite defender, manter e at&eacute; aumentar seus privil&eacute;gios&rdquo;, o que, na realidade, &eacute; seu aspecto mais relevante. As classes dominantes s&atilde;o, portanto, &ldquo;aquele tipo de classes sociais concretas cujos membros monopolizam o controle b&aacute;sico sobre o aparato de domina&ccedil;&atilde;o pr&oacute;prio do modo vigente ou prevalecente no sistema de domina&ccedil;&atilde;o do qual se trata&rdquo;. [p. 106]<\/p>\n<p>As classes m&eacute;dias, acredita, constituem parte do conjunto das classes dominadas, no sentido amplo, ainda que difiram significativamente dos outros tipos de classes por raz&atilde;o do acesso, mesmo que bastante limitado, a certos mecanismos de domina&ccedil;&atilde;o que os possibilita instrumentar a domina&ccedil;&atilde;o e receber alguns privil&eacute;gios. Esse estrato constitui um tipo de &ldquo;escada&rdquo; ou &ldquo;ponte&rdquo; de acesso para a mobilidade social vertical e por isso caracteriza-se pelas aspira&ccedil;&otilde;es de ascens&atilde;o geradas pela presen&ccedil;a nesse campo de &ldquo;recrutamento para reposi&ccedil;&atilde;o e renova&ccedil;&atilde;o das classes dominantes&rdquo;. [Ibid.] Por outro lado, esse estrato tamb&eacute;m gera lideran&ccedil;as potenciais para mobiliza&ccedil;&otilde;es contr&aacute;rias &agrave;s classes dominantes. Constitui-se, portanto, como um estrato que pode, ao mesmo tempo, permitir a mobilidade individual ou dar for&ccedil;a &agrave;s mudan&ccedil;as sociais coletivas. <\/p>\n<p>Al&eacute;m disso, esse estrato tamb&eacute;m apresenta pessoas que faziam parte das classes dominantes e que perderam tal posi&ccedil;&atilde;o. &Eacute; marcante, por essa heterogeneidade das classes m&eacute;dias, que seja dif&iacute;cil caracteriz&aacute;-las e conceitu&aacute;-las; para o autor, a solu&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica envolve &ldquo;assumir a complexidade real e compreender que as estruturas de classes com certos graus de mobilidade social e de complexidade possuem suas &lsquo;dobradi&ccedil;as&rsquo; nesses estratos intermedi&aacute;rios&rdquo;, cumprindo mais de um papel. [p. 107] As classes m&eacute;dias &ldquo;podem ser definidas por seus pap&eacute;is de instrumentalidade na domina&ccedil;&atilde;o e como campo de recrutamento na renova&ccedil;&atilde;o das classes dominantes&rdquo;. [p. 108] <\/p>\n<p>Quanto mais complexa for a sociedade, acredita, mais numerosas e heterog&ecirc;neas ser&atilde;o essas classes, dificultando o trabalho te&oacute;rico de an&aacute;lise. Ainda assim, essa heterogeneidade n&atilde;o permite afirmar a inexist&ecirc;ncia de elementos comuns: elas s&atilde;o as classes com menos consci&ecirc;ncia de sua condi&ccedil;&atilde;o social, tendem a assumir modelos de conduta que as aproxime das classes dominantes &ndash; as quais aspiram integrar &ndash;, possuem horror &agrave; possibilidade de decair para estratos mais baixos, buscam afirmar-se, por s&iacute;mbolos de status e evidenciar a dist&acirc;ncia que as separa desses estratos.<\/p>\n<p>As classes dominadas propriamente ditas s&atilde;o &ldquo;o conjunto &ndash; geralmente muito mais numeroso [em rela&ccedil;&atilde;o ao conjunto de classes dominadas] &ndash; daquelas posi&ccedil;&otilde;es sociais caracterizadas por sua subordina&ccedil;&atilde;o, mas integradas ao sistema e essenciais para sua sobreviv&ecirc;ncia&rdquo;. [Ibid.] Elas s&atilde;o dominadas, pois n&atilde;o possuem acesso aos mecanismos de domina&ccedil;&atilde;o e o fato de serem estrat&eacute;gicas ao sistema os oferece a elas grande capacidade potencial transformador. S&atilde;o as classes &ldquo;que realmente produzem os bens e servi&ccedil;os que a sociedade produz e acumula&rdquo; e &ldquo;sem a sua presen&ccedil;a na h&aacute; domina&ccedil;&atilde;o poss&iacute;vel&rdquo;. [p. 109] Esse estrato possui duas caracter&iacute;sticas fundamentais: uma, tamb&eacute;m ligada ao acesso e &agrave; mobilidade individual para estratos mais elevados, ainda que isso seja considerado mais dif&iacute;cil que nas classes m&eacute;dias, e outra que &eacute; a possibilidade de desenvolvimento de estrat&eacute;gias, a&ccedil;&otilde;es e culturas classistas, em maior medida que nas outras classes dominadas. <\/p>\n<p>Entretanto, Errandonea adverte: &ldquo;a hist&oacute;ria das classes dominadas no capitalismo evidencia o acontecimento de variantes suficientes para nos prevenir contra a tenta&ccedil;&atilde;o de formula&ccedil;&otilde;es muito acabadas nesse n&iacute;vel&rdquo;. [p. 110] O s&eacute;culo XX, segundo acredita, teria modificado significativamente as rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o e o pr&oacute;prio proletariado possuiria muito mais a perder que suas cadeias. O autor aponta que, em termos te&oacute;ricos, a submiss&atilde;o dos dominados adquire a dimens&atilde;o implicada por sua condi&ccedil;&atilde;o de classe se forem levados em conta os seguintes aspectos: &ldquo;exclus&atilde;o da participa&ccedil;&atilde;o, aliena&ccedil;&atilde;o cultural, apropria&ccedil;&atilde;o de seu tempo, manipula&ccedil;&atilde;o da informa&ccedil;&atilde;o, repress&atilde;o de fato e efetiva da dissid&ecirc;ncia, utiliza&ccedil;&atilde;o e acesso &agrave; educa&ccedil;&atilde;o, &agrave; sa&uacute;de, &agrave; assist&ecirc;ncia, etc., al&eacute;m do grau de acesso &lsquo;unidimensional&rsquo; ao conforto (Marcuse), entre outros&rdquo;. [p. 111] Enfim, Errandonea define: &ldquo;entendemos por classes dominadas propriamente ditas o conjunto de classes sociais concretas cujos membros integram o sistema de domina&ccedil;&atilde;o &ndash; e s&atilde;o essenciais a ele &ndash; na condi&ccedil;&atilde;o de dominados&rdquo;. [pp. 111-112]<\/p>\n<p>Os marginais s&atilde;o &ldquo;conjuntos sociais das classes dominadas (no sentido amplo) caracterizados pelos graus relativos menores de integra&ccedil;&atilde;o e participa&ccedil;&atilde;o, cuja presen&ccedil;a n&atilde;o &eacute; essencial para a subsist&ecirc;ncia do sistema&rdquo;. [p. 112] Essas classes est&atilde;o menos integradas e participam em menor medida do sistema de domina&ccedil;&atilde;o, e por isso possuem menor grau de acesso &agrave; satisfa&ccedil;&atilde;o de suas necessidades; o acesso a elas &eacute; residual e menor do que as outras classes. &ldquo;Os marginais de uma sociedade n&atilde;o alcan&ccedil;am o n&iacute;vel de satisfa&ccedil;&atilde;o de necessidades socialmente percebido ou considerado como m&iacute;nimo nela.&rdquo; [Ibid.] <\/p>\n<p>Os marginais, por mais que estejam presentes no mesmo espa&ccedil;o social em que se produzem as rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o possuem uma peculiaridade nessas rela&ccedil;&otilde;es: &ldquo;subordina&ccedil;&atilde;o n&atilde;o-integrada relativamente ou n&atilde;o-essencial ao sistema&rdquo;, [Ibid.] a qual pode assumir distintas variantes em termos de funcionalidade ou desfuncionalidade para o sistema, envolvendo &ldquo;ex&eacute;rcito industrial de reserva&rdquo;, &ldquo;disponibilidade pol&iacute;tica&rdquo;, &ldquo;potencial desestabilizador&rdquo; etc., podendo ser sua presen&ccedil;a maior ou menor desde que n&atilde;o ameace os fundamentos do sistema de domina&ccedil;&atilde;o. Nas sociedades mais urbanizadas, os marginais v&ecirc;m sendo distanciados espacialmente dos centros de poder, vivendo em favelas, corti&ccedil;os, ocupa&ccedil;&otilde;es e desenvolvendo culturas pr&oacute;prias; nos meios rurais, caracterizam-se pelo isolamento da sociedade global.<\/p>\n<p><em>Classes sociais concretas<\/em><\/p>\n<p>Para Errandonea, as classes sociais concretas envolvem manifesta&ccedil;&otilde;es hist&oacute;ricas, geogr&aacute;ficas e singulares da realidade descrita. Como colocado no gr&aacute;fico apresentado anteriormente, essas classes podem ser tipificadas em tipos, pap&eacute;is e fun&ccedil;&otilde;es e categorias mais globais e universais. As classes sempre apresentam duas caracter&iacute;sticas: a bilateralidade e a concre&ccedil;&atilde;o relacional; estabelecem-se em rela&ccedil;&otilde;es sociais concretas e assim&eacute;tricas. &ldquo;Essa rela&ccedil;&atilde;o social concreta assim&eacute;trica se <em>deve a algo<\/em>, resulta de certo fator ou fatores ou opera por meio de determinado meio ou meios; geralmente fatores-meios.&rdquo; [p. 115] Ainda que essa rela&ccedil;&atilde;o seja singular ou combine v&aacute;rios fatores-meios, a determina&ccedil;&atilde;o dessa assimetria &eacute; sempre espec&iacute;fica. &ldquo;Cada rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o tem uma determina&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica, que d&aacute; conta dela concretamente. Outras rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o t&ecirc;m outras determina&ccedil;&otilde;es tamb&eacute;m espec&iacute;ficas.&rdquo; [Ibid.] Essas determina&ccedil;&otilde;es podem se dar nas rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas, pol&iacute;ticas, culturais, envolver explora&ccedil;&atilde;o, coa&ccedil;&atilde;o, aliena&ccedil;&atilde;o etc., ou mesmo uma combina&ccedil;&atilde;o delas, o que &eacute; mais freq&uuml;ente.<\/p>\n<p>A conforma&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica, geogr&aacute;fica e singular das classes sociais concretas, pelo m&eacute;todo de an&aacute;lise de Errandonea, como se viu, n&atilde;o se d&aacute; somente por raz&atilde;o de um determinismo estrutural, infra-estrutural; contam significativamente para essa conforma&ccedil;&atilde;o &ldquo;as circunst&acirc;ncias resultantes da atua&ccedil;&atilde;o dos homens e dos grupos sociais envolvidos, da conforma&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as sociais que resulta dessa atua&ccedil;&atilde;o, da correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as resultante&rdquo;. [Ibid.] E nesse sentido, as for&ccedil;as sociais tornam-se elementos fundamentais para a compreens&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o de classe.<\/p>\n<p>O autor avan&ccedil;a assim para conceituar as classes sociais concretas que s&atilde;o, assim, definidas como &ldquo;<em>o conjunto de pessoas que t&ecirc;m uma situa&ccedil;&atilde;o relativamente igualit&aacute;ria em tudo aquilo que se distribui desigualmente na sociedade<\/em>, e, por isso, situa-se em posi&ccedil;&atilde;o similar nas rela&ccedil;&otilde;es concretas de domina&ccedil;&atilde;o com id&ecirc;ntica determina&ccedil;&atilde;o espec&iacute;fica&rdquo;. [p. 116] Essa &ldquo;igualdade relativa frente &agrave;s desigualdades sociais est&aacute;veis&rdquo; est&atilde;o relacionadas a cada contexto social determinado e, portanto, &agrave;s &ldquo;circunst&acirc;ncias da sociedade que se trata e das condi&ccedil;&otilde;es que ela assumir em termos de produ&ccedil;&atilde;o, governo e organiza&ccedil;&atilde;o social em geral&rdquo;. [Ibid.] &ldquo;Senhores, escravos, senhores feudais, servos, burgueses, prolet&aacute;rios, camponeses, latifundi&aacute;rios, tecnoburocratas, etc. s&atilde;o classes sociais concretas, historicamente singulares. S&atilde;o produzidas por determinados sistemas de domina&ccedil;&atilde;o nos quais elas cumprem certos pap&eacute;is ou fun&ccedil;&otilde;es, segundo as condi&ccedil;&otilde;es e circunst&acirc;ncias se reproduzirem. <\/p>\n<p>Mas a pr&oacute;pria din&acirc;mica da sociedade leva essas classes a serem substitu&iacute;das historicamente, transformadas e a desaparecerem. Tudo o que define o status te&oacute;rico da no&ccedil;&atilde;o. A partir da equa&ccedil;&atilde;o peculiar e diferencial &lsquo;acesso &ndash; n&atilde;o-acesso&rsquo; (quantitativo e qualitativo) que caracteriza e define uma classe social concreta, resultam os atributos para sua inser&ccedil;&atilde;o na estrutura de classes; esses <em>atributos <\/em>podem ser definidos por essa equa&ccedil;&atilde;o. Para dizer de outra maneira: em uma rela&ccedil;&atilde;o social concreta de domina&ccedil;&atilde;o, seus termos e os sujeitos, que ocupam as posi&ccedil;&otilde;es a partir das quais se envolvem na rela&ccedil;&atilde;o, est&atilde;o por ela integrados &agrave; sociedade com as condi&ccedil;&otilde;es determinantes &ndash; geogr&aacute;ficas, hist&oacute;ricas, de circunst&acirc;ncia &ndash; da sociedade que d&atilde;o a eles sua especificidade.&rdquo; [Ibid.]<\/p>\n<p>Dessa maneira, a teoria de Errandonea estabelece as linhas gerais para que se possa determinar as classes sociais concretas de cada sociedade. Para isso, &eacute; evidente que recha&ccedil;a os esquemas que desconsideram a hist&oacute;ria, a geografia e a conjuntura na discuss&atilde;o das classes sociais. A partir da equa&ccedil;&atilde;o colocada pode-se, em cada sociedade, estabelecer uma estratifica&ccedil;&atilde;o determinada e chegar &agrave;s classes sociais concretas e &agrave;s pr&oacute;prias rela&ccedil;&otilde;es existentes entre elas.<\/p>\n<p><strong>Conflito social, luta de classes e mudan&ccedil;a social<\/strong><\/p>\n<p>Conforme colocado, para Errandonea a &ldquo;contrapartida da domina&ccedil;&atilde;o &eacute; a participa&ccedil;&atilde;o, que constitui seu limite&rdquo;. &ldquo;No limite&rdquo;, afirma, &ldquo;a participa&ccedil;&atilde;o m&aacute;xima generalizada que consiga substituir totalmente a domina&ccedil;&atilde;o, que a reduza &agrave; inexist&ecirc;ncia, implicaria uma sociedade igualit&aacute;ria&rdquo;. [p. 122] O autor define a participa&ccedil;&atilde;o &ldquo;como a capacidade de incid&ecirc;ncia e iniciativa pr&oacute;pria nas decis&otilde;es que lhes afetam, pessoal, grupal ou coletivamente&rdquo;. Isso diz respeito a &ldquo;todo tipo de decis&otilde;es: no sentido mais amplo. O conceito tem todo o sentido abrangente da pr&oacute;pria domina&ccedil;&atilde;o: &eacute; seu oposto&rdquo;. [Ibid.] A institucionaliza&ccedil;&atilde;o do poder constitui-se a partir de duas vari&aacute;veis: a domina&ccedil;&atilde;o e a participa&ccedil;&atilde;o; por meio de um processo din&acirc;mico, os sistemas de domina&ccedil;&atilde;o conciliam rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o preponderantes, e, na maioria das vezes, algum n&iacute;vel de participa&ccedil;&atilde;o, fundamental para o sistema possuir legitimidade.<\/p>\n<p>O autor sustenta que &ldquo;cada situa&ccedil;&atilde;o de classe corresponde a um certo conjunto de interesses que podemos denominar &lsquo;interesses de classe&rsquo;&rdquo;, os quais podem ou n&atilde;o ser percebidos como tais ou serem considerados vontades estritamente individuais ou grupais. Esses interesses dividem-se em dois: &ldquo;a.) a satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades socialmente percebidas como m&iacute;nimas&rdquo; e &ldquo;b.) a aspira&ccedil;&atilde;o para melhorar o n&iacute;vel delas&rdquo;. [pp. 123-124] As necessidades s&atilde;o consideradas amplamente em ambos os casos e, no segundo, inclui o acesso a situa&ccedil;&otilde;es de classe superiores &agrave;quela em que se est&aacute; inserido. Acima do te&oacute;rico n&iacute;vel absolutamente m&iacute;nimo de necessidades de uma pessoa, h&aacute; sempre um n&iacute;vel socialmente percebido como m&iacute;nimo, que varia hist&oacute;rica e geograficamente e tamb&eacute;m entre as pr&oacute;prias classes sociais. <\/p>\n<p>O autor considera ser necess&aacute;rio diferenciar esse n&iacute;vel m&iacute;nimo socialmente percebido das aspira&ccedil;&otilde;es; estas constituem, para ele, o desejo de superar o n&iacute;vel possu&iacute;do, seja qual for ele &ndash; nesse sentido, as aspira&ccedil;&otilde;es devem ser compreendidas como &ldquo;tend&ecirc;ncias volitivas de superar o n&iacute;vel possu&iacute;do de satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades e aquele percebido socialmente como m&iacute;nimo&rdquo;. [Ibid.] Entre as aspira&ccedil;&otilde;es, inclui-se a maior delas: a de ascender aos n&iacute;veis de satisfa&ccedil;&atilde;o das classes superiores, ou seja, a ascens&atilde;o de classe. Ainda que o n&iacute;vel de necessidades socialmente percebido como m&iacute;nimo e as aspira&ccedil;&otilde;es sejam vari&aacute;veis e din&acirc;micos, pode-se dizer que h&aacute; um movimento constante: todos os membros de uma sociedade t&ecirc;m aspira&ccedil;&otilde;es e, no momento em que elas se concretizam e se estabelecem, sendo percebidas como necessidades m&iacute;nimas, &eacute; natural que se desenvolvam outras aspira&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>Ainda que se possam perceber os interesses de classe como concep&ccedil;&otilde;es individuais, Errandonea afirma: &ldquo;seu desenvolvimento &eacute; cultural e sua internaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; social e de classe&rdquo;. [p. 125] Isso significa afirmar que, ainda que os interesses n&atilde;o sejam completamente determinados pela posi&ccedil;&atilde;o dos agentes (sistema e estrutura em que est&atilde;o inseridos socialmente), mesmo que esses interesses possam ser alterados cultural e ideologicamente, eles possuem sua significativa influ&ecirc;ncia. Assim, a posi&ccedil;&atilde;o dos agentes em uma determinada estrutura de classes e em um sistema de domina&ccedil;&atilde;o possui uma determina&ccedil;&atilde;o significativa de seus interesses; h&aacute;, portanto, interesses de classe, ainda que eles possam ser latentes ou manifestos, caso em que se poderia cham&aacute;-los de consci&ecirc;ncia de classe.<\/p>\n<p>O aumento da satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades &ndash; tanto das percebidas como m&iacute;nimas como as que envolvem aspira&ccedil;&otilde;es &ndash; &eacute; poss&iacute;vel por meio do crescimento daquilo que est&aacute; distribu&iacute;do socialmente; o fato de os interesses se colocarem como compat&iacute;veis ou contrapostos depender&aacute; da satisfa&ccedil;&atilde;o dessas necessidades. Num sistema de domina&ccedil;&atilde;o, que implica uma estrutura de classes, envolvendo desigualdade nas rela&ccedil;&otilde;es de poder, o autor acredita que &ldquo;a tend&ecirc;ncia &eacute; a percep&ccedil;&atilde;o de contraposi&ccedil;&atilde;o. Portanto, o sistema de domina&ccedil;&atilde;o em funcionamento sup&otilde;e a presen&ccedil;a ativa e contraposta de interesses sociais de classe dos seus membros. Os atores participam do conflito que essa contraposi&ccedil;&atilde;o sup&otilde;e. Com diferentes graus de aceita&ccedil;&atilde;o da contraposi&ccedil;&atilde;o e da representa&ccedil;&atilde;o que pode colocar-se sobre ela.&rdquo; [Ibid.] Esse desenvolvimento social dos interesses existe, independente de serem compreendidos e demonstrados em termos individuais, grupais ou classistas. <\/p>\n<p>Nos dois primeiros casos (interesses compreendidos e demonstrados em termos individuais e grupais), eles associam-se ao progresso particular, de mobilidade de indiv&iacute;duo ou de grupo, possibilitado pela estrutura de classes. Esses interesses entram em jogo pela cren&ccedil;a na legitimidade do sistema de domina&ccedil;&atilde;o ou pela busca de &ldquo;jogar com as regras do jogo&rdquo;, visando modificar a posi&ccedil;&atilde;o dos agentes na estrutura e no sistema de domina&ccedil;&atilde;o &ndash; n&atilde;o envolvem, portanto, a modifica&ccedil;&atilde;o do sistema de domina&ccedil;&atilde;o e de sua estrutura de classes como um todo. <\/p>\n<p>No terceiro caso (interesses compreendidos e demonstrados em termos classistas), eles dizem respeito a uma classe ou conjunto de classes determinado que compreende que esses interesses s&oacute; podem ser buscados com efic&aacute;cia coletivamente. A tend&ecirc;ncia de que se prevale&ccedil;a uma ou outra representa&ccedil;&atilde;o dos interesses (individual, grupal, classista) depende, segundo o autor, do n&iacute;vel de satisfa&ccedil;&atilde;o, proporcionado pelo sistema, no que diz respeito &agrave;s necessidades socialmente percebidas como m&iacute;nimas e &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o do acesso &agrave;s aspira&ccedil;&otilde;es; nesse caso, ambas as condicionantes devem ser percebidas pelo amplo conjunto dos agentes da sociedade. <\/p>\n<p>Os interesses de classe se traduzem &ldquo;na manuten&ccedil;&atilde;o e na melhoria do n&iacute;vel participativo, e na manuten&ccedil;&atilde;o e no incremento da domina&ccedil;&atilde;o, para as situa&ccedil;&otilde;es de classes implicadas.&rdquo; [p. 124] &ldquo;Os dominadores procuram n&atilde;o s&oacute; manter, mas aumentar seu dom&iacute;nio (e, portanto, reduzir a participa&ccedil;&atilde;o dos dominados)&rdquo;, ao mesmo tempo, &ldquo;os dominados procurar&atilde;o aumentar sua participa&ccedil;&atilde;o (diminuir sua condi&ccedil;&atilde;o de dominados), as quais s&atilde;o tend&ecirc;ncias estruturais contradit&oacute;rias dos interesses respectivos&rdquo;. [p. 133] Isso ocorrer&aacute;, coloca, a n&atilde;o ser que o aumento da capacidade de satisfa&ccedil;&atilde;o das necessidades e a percep&ccedil;&atilde;o da real da possibilidade de atingir suas aspira&ccedil;&otilde;es, para os dominados, diminuam as contradi&ccedil;&otilde;es e mantenham a legitimidade do sistema; ou ent&atilde;o que os dominadores, para se preservarem como tais, flexibilizem de alguma maneira o sistema, de maneira a abarcar alguns interesses sociais dos dominados, de maneira a postergar o acirramento da luta de classes.<\/p>\n<p>Como se viu, os interesses que n&atilde;o se transformam em for&ccedil;as sociais n&atilde;o t&ecirc;m condi&ccedil;&otilde;es de modificar o sistema de domina&ccedil;&atilde;o e sua estrutura de classes, ainda que esses interesses possam gerar consci&ecirc;ncia e questionamentos da legitimidade do sistema e de sua estrutura. Entretanto h&aacute; rela&ccedil;&atilde;o significativa entre os interesses de classe e o poder, mais especificamente naquilo que diz respeito &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o ou &agrave; mudan&ccedil;a da ordem, do<em> status-quo<\/em>. <\/p>\n<p>Errandonea define conflito social como &ldquo;toda rela&ccedil;&atilde;o social de oposi&ccedil;&atilde;o manifesta entre atores sociais que se traduz em a&ccedil;&otilde;es concretas orientadas em contraposi&ccedil;&atilde;o m&uacute;tua&rdquo;. [p. 130] Com essa defini&ccedil;&atilde;o, ele exclui a predisposi&ccedil;&atilde;o antag&ocirc;nica de oposi&ccedil;&atilde;o e coloca o conflito no campo das rela&ccedil;&otilde;es sociais que implicam &ldquo;a&ccedil;&otilde;es reciprocamente orientadas de cada um dos atores contra ele ou contra os outros&rdquo;. Assim, o conflito envolve grupos, classes, indiv&iacute;duos em certas posi&ccedil;&otilde;es sociais, etc. Para ele, todas as oposi&ccedil;&otilde;es evidentes de for&ccedil;as sociais constituem conflito. &ldquo;Os interesses sociais que correspondem &agrave;s posi&ccedil;&otilde;es da estrutura social, que se contrap&otilde;em mutuamente, constituem as bases de motiva&ccedil;&atilde;o do conflito.&rdquo; [p. 131] <\/p>\n<p>Para o autor, os conflitos sociais podem ser classificados a partir de diferentes crit&eacute;rios: identifica&ccedil;&atilde;o dos agentes em contradi&ccedil;&atilde;o, n&iacute;vel de viol&ecirc;ncia ou intensidade, objetivo dos agentes, entre outros. Sua op&ccedil;&atilde;o &eacute; trabalhar com quatro crit&eacute;rios para essa classifica&ccedil;&atilde;o: a) <em>tipo de agentes<\/em>: de um lado aqueles que se d&atilde;o entre indiv&iacute;duos, pequenos grupos ou organiza&ccedil;&otilde;es n&atilde;o-classistas, de outro, aqueles que se d&atilde;o entre for&ccedil;as sociais de origem, filia&ccedil;&atilde;o ou recrutamento classista; b) <em>objetivo para com o agente contraditor<\/em>: de um lado, o conflito que prop&otilde;e a elimina&ccedil;&atilde;o (desaparecimento da estrutura), por outro, aquele que busca acesso a certos objetivos para benef&iacute;cio pr&oacute;prio &ndash; ele chama o primeiro de luta e o segundo de concorr&ecirc;ncia; c) <em>dire&ccedil;&atilde;o do conflito<\/em>: de um lado, o conflito horizontal, que n&atilde;o se prop&otilde;e alterar a estrutura de classes do sistema de domina&ccedil;&atilde;o, mas melhorar a posi&ccedil;&atilde;o dos agentes dentro dessa estrutura, por outro, o conflito vertical, que possui o objetivo de modificar a estrutura e o sistema; d) <em>institucionaliza&ccedil;&atilde;o ou n&atilde;o-institucionaliza&ccedil;&atilde;o<\/em>: por um lado, o conflito institucionalizado, o qual se d&aacute; com a aceita&ccedil;&atilde;o dos agentes das regras do jogo proporcionadas pela estrutura sist&ecirc;mica para sua solu&ccedil;&atilde;o, por outro, o conflito n&atilde;o-institucionalizado, que se disp&otilde;e a utilizar meios que n&atilde;o s&atilde;o aceitos pelo agente contraditor, n&atilde;o havendo, nesse caso, uma regula&ccedil;&atilde;o comum aos agentes em conflito. [pp. 131-132] <\/p>\n<p>&ldquo;Os conflitos n&atilde;o-classistas, a competi&ccedil;&atilde;o, os conflitos horizontais e os institucionalizados, n&atilde;o s&oacute; n&atilde;o contradizem o consenso [legitimidade do sistema de domina&ccedil;&atilde;o e da estrutura de classes], mas o sup&otilde;em e tendem a refor&ccedil;&aacute;-lo. Ao contr&aacute;rio, os conflitos entre for&ccedil;as sociais classistas, a luta, os conflitos verticais e os n&atilde;o-institucionalizados, em cada caso com variantes que devem ser consideradas, implicam em algum n&iacute;vel o questionamento da legitimidade do sistema de domina&ccedil;&atilde;o ou da rela&ccedil;&atilde;o de domina&ccedil;&atilde;o concreta em quest&atilde;o, e tendem a produzir &ndash; quando n&atilde;o envolvem diretamente &ndash; um questionamento do consenso do sistema.&rdquo; [p. 132] A quest&atilde;o dos conflitos, portanto, coloca-se entre o refor&ccedil;o da legitimidade do sistema de domina&ccedil;&atilde;o ou em seu questionamento e &eacute; a partir do conceito de conflito social que o autor elabora sua no&ccedil;&atilde;o de luta de classes. <\/p>\n<p>Errandonea considera que quando os interesses de classe s&atilde;o compreendidos e demonstrados em termos classistas, quando se aumenta o n&iacute;vel de consci&ecirc;ncia de classe, quando a capacidade e a potencialidade convertem-se em for&ccedil;a social concreta, &ldquo;o conflito social tende a convergir e converter-se em conflito ou luta de classes&rdquo;. [p. 126] Para ele, a luta de classes &eacute; o &ldquo;conflito social que constitui luta vertical, n&atilde;o-institucionalizada entre for&ccedil;as sociais classistas procedentes de tipos de classes opostas&rdquo;. [pp. 132-133] A luta de classes coloca em xeque o sistema, tanto no que diz respeito &agrave; correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as, como em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; sua legitimidade; diferentemente, os conflitos n&atilde;o implicados na luta de classes (conflitos n&atilde;o-classistas, competi&ccedil;&atilde;o, conflitos horizontais e institucionalizados) servem para legitimar o sistema e sua estrutura.<\/p>\n<p>Para Errandonea, a din&acirc;mica do conflito social de classes faz com que os atores &ldquo;que operam de fora do &lsquo;sistema&rsquo;, com tend&ecirc;ncia a se opor a ele, tendam a conformar entre si, com maior ou menor claridade de defini&ccedil;&atilde;o, um sistema paralelo e contraposto ao &lsquo;sistema&rsquo;&rdquo; &ndash; o qual &eacute; chamado por ele de &ldquo;contra-sistema&rdquo;. [p. 134] Um contra-sistema n&atilde;o necessariamente surge por raz&atilde;o da falta de legitimidade do sistema ou pelo baixo n&iacute;vel de consenso; ele &eacute; uma tend&ecirc;ncia estrutural das sociedades complexas e nos casos de alta legitimidade e amplo consenso, ele pode tornar-se um interlocutor v&aacute;lido, com o qual os conflitos s&atilde;o mediados institucionalmente. &ldquo;O contra-sistema constitui a concre&ccedil;&atilde;o organizada, o &lsquo;iceberg&rsquo; consciente estruturado a partir das for&ccedil;as sociais das classes dominadas.&rdquo; [p. 142] &ldquo;O contra-sistema, ent&atilde;o, n&atilde;o &eacute; necessariamente &lsquo;disfuncional&rsquo; &agrave; estabilidade do sistema. <\/p>\n<p>Mas sua defini&ccedil;&atilde;o mais clara, sua crescente organicidade, sua coes&atilde;o, sua for&ccedil;a e, sobretudo, a radicaliza&ccedil;&atilde;o de seu questionamento ao sistema s&atilde;o &lsquo;disfuncionais&rsquo;, implicam um questionamento do consenso, constituem uma amea&ccedil;a &agrave; estabilidade e &agrave; continuidade do sistema de domina&ccedil;&atilde;o. No limite, pode constituir o &lsquo;sistema&rsquo; que substituir&aacute; aquele que decai.&rdquo; [p. 135] Em todos os casos, coloca Errandonea, os contra-sistemas s&atilde;o agentes da mudan&ccedil;a social e funcionam como propulsores din&acirc;micos da sociedade. Suas propostas inovadoras podem ser absorvidas ou neutralizadas pelo sistema; no caso de n&atilde;o poderem, h&aacute; uma mudan&ccedil;a social no sistema. <\/p>\n<p>Para o autor, mudan&ccedil;a social &eacute; &ldquo;toda modifica&ccedil;&atilde;o, altera&ccedil;&atilde;o ou transforma&ccedil;&atilde;o [da] estrutura social, qualquer que seja sua magnitude, alcance ou velocidade de acontecimento&rdquo;. A mudan&ccedil;a social &eacute; aquela que a afeta e transforma a estrutura de classes de um determinado sistema. [p. 137] Pode implicar mudan&ccedil;a <em>no<\/em> sistema &ndash; mudan&ccedil;as cotidianas que n&atilde;o afetam os aspectos fundamentais do sistema e sua identidade (reformas) &ndash; e mudan&ccedil;a <em>de <\/em>sistema &ndash; altera&ccedil;&otilde;es profundas das bases e das rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o (revolu&ccedil;&atilde;o); a partir de agora, se adotar&aacute; o termo &ldquo;mudan&ccedil;a social&rdquo; para as mudan&ccedil;as no sistema e &ldquo;transforma&ccedil;&atilde;o social&rdquo; para as mudan&ccedil;as de sistema. [p. 138] <\/p>\n<p>Errandonea sustenta que a transforma&ccedil;&atilde;o social pode ou n&atilde;o ser o resultado de diversas mudan&ccedil;as sociais; elas n&atilde;o necessariamente est&atilde;o em contraposi&ccedil;&atilde;o. A transforma&ccedil;&atilde;o social ocorre, segundo o autor, quando os conflitos sociais tornam-se luta de classes, extrapolam as esferas e generalizam-se ao conjunto das rela&ccedil;&otilde;es sociais concretas. Isso implica que um contra-sistema tenha sido criado dentro do pr&oacute;prio sistema de domina&ccedil;&atilde;o, desenvolvendo um projeto de contraposi&ccedil;&atilde;o, com sustenta&ccedil;&atilde;o &eacute;tico-ideol&oacute;gica, propostas concretas e planos de a&ccedil;&atilde;o. A transforma&ccedil;&atilde;o social &eacute; resultado de um contra-sistema que consegue elaborar esse projeto alternativo, colocando-o como uma op&ccedil;&atilde;o real ao sistema vigente, e, concretamente, modifica as rela&ccedil;&otilde;es sociais no sentido proposto.<\/p>\n<p>_____<br \/>\n<em><br \/>\n* Alfredo Errandonea. Sociologia de la Dominaci&oacute;n. Montevideu\/Buenos Aires: Nordan\/Tupac, 1989.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De acordo com Errandonea, as classes sociais s\u00e3o definidas por crit\u00e9rios econ\u00f4micos e de poder, que formam a categoria domina\u00e7\u00e3o. Foto:turmadasantamarta.blogspot Felipe Corr&ecirc;a Para uma Teoria Libert&aacute;ria do Poder&rdquo; &eacute; uma s&eacute;rie de resenhas elaboradas sobre artigos ou livros de autores do campo libert&aacute;rio que discutem o poder. 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