{"id":10567,"date":"2011-12-26T13:58:32","date_gmt":"2011-12-26T13:58:32","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1570"},"modified":"2011-12-26T13:58:32","modified_gmt":"2011-12-26T13:58:32","slug":"elementos-teoricos-para-uma-reflexao-libertaria-sobre-o-estado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10567","title":{"rendered":"Elementos te\u00f3ricos para uma reflex\u00e3o libert\u00e1ria sobre o Estado"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/26_12_2011_13_49_30.jpg\" title=\"As estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o social que se fundamentam na utiliza\u00e7\u00e3o do Estado como meio v\u00eam demonstrando historicamente sua incapacidade de criar poderes autogestion\u00e1rios; tanto aquelas que defendem a atua\u00e7\u00e3o por meio das elei\u00e7\u00f5es e das reformas, quanto aquelas que sustentam sua tomada revolucion\u00e1ria. - Foto:Google\" alt=\"As estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o social que se fundamentam na utiliza\u00e7\u00e3o do Estado como meio v\u00eam demonstrando historicamente sua incapacidade de criar poderes autogestion\u00e1rios; tanto aquelas que defendem a atua\u00e7\u00e3o por meio das elei\u00e7\u00f5es e das reformas, quanto aquelas que sustentam sua tomada revolucion\u00e1ria. - Foto:Google\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">As estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o social que se fundamentam na utiliza\u00e7\u00e3o do Estado como meio v\u00eam demonstrando historicamente sua incapacidade de criar poderes autogestion\u00e1rios; tanto aquelas que defendem a atua\u00e7\u00e3o por meio das elei\u00e7\u00f5es e das reformas, quanto aquelas que sustentam sua tomada revolucion\u00e1ria.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Google<\/small><\/figure>\n<p>26 de dezembro de 2011, de S&atilde;o Paulo, <em>Felipe Corr&ecirc;a<\/em><\/p>\n<p>Discutir o Estado implica, necessariamente, compreend&ecirc;-lo dentro de uma an&aacute;lise mais ampla do poder, ainda que Estado e poder n&atilde;o sejam sin&ocirc;nimos. <\/p>\n<p>Pode-se trabalhar, operacionalmente, com uma conceitua&ccedil;&atilde;o do poder que o define em termos de rela&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a e o articula com as no&ccedil;&otilde;es de capacidade, regula&ccedil;&atilde;o e controle. O poder, assim concebido, &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o social concreta e din&acirc;mica entre diferentes for&ccedil;as assim&eacute;tricas, na qual h&aacute; preponder&acirc;ncia de uma(s) for&ccedil;a(s) em rela&ccedil;&atilde;o a outra(s). As rela&ccedil;&otilde;es de poder est&atilde;o situadas no tempo e no espa&ccedil;o e implicam for&ccedil;as em permanente disputa, em correla&ccedil;&atilde;o constante e em um jogo cont&iacute;nuo e din&acirc;mico; elas est&atilde;o presentes nos distintos n&iacute;veis da sociedade e em todas as esferas estruturadas.<\/p>\n<p>N&atilde;o se pode, portanto, resumir o poder ao Estado. Quando se enfatiza a presen&ccedil;a do poder &ldquo;em todas as esferas estruturadas&rdquo;, sustenta-se que h&aacute; poder na esfera pol&iacute;tica-jur&iacute;dica-militar, que constitui basicamente o &acirc;mbito do Estado, mas tamb&eacute;m nas esferas econ&ocirc;mica e ideol&oacute;gica-cultural &ndash; divis&atilde;o que, evidentemente, &eacute; realizada para fins anal&iacute;ticos. O Estado &eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o de regula&ccedil;&atilde;o e controle da sociedade, forjada a partir das rela&ccedil;&otilde;es de poder, e que inclui governo, aparato jur&iacute;dico e militar.<\/p>\n<p>As rela&ccedil;&otilde;es de poder se d&atilde;o a partir de um eixo de participa&ccedil;&atilde;o, cujos limites s&atilde;o a domina&ccedil;&atilde;o e a autogest&atilde;o; disso derivam pelo menos dois grandes modelos de poder: poder dominador e poder autogestion&aacute;rio. N&atilde;o se pode negar que o poder historicamente representado pelo Estado &eacute; de tipo dominador, visto que usurpa a capacidade de participa&ccedil;&atilde;o real da imensa maioria da popula&ccedil;&atilde;o, assegurando a domina&ccedil;&atilde;o pela legitimidade e pela for&ccedil;a.<\/p>\n<p>Em toda a hist&oacute;ria, o Estado n&atilde;o serviu &agrave; cria&ccedil;&atilde;o de poderes autogestion&aacute;rios; ainda que em diversos casos ele tenha incorporado ou estimulado algum tipo de participa&ccedil;&atilde;o, isso sempre se deu no intuito de legitimar um determinado sistema de domina&ccedil;&atilde;o e sua respectiva estrutura de classes. Os sistemas de regula&ccedil;&atilde;o e controle estabelecidos pelo Estado t&ecirc;m visado, desde seu surgimento, &agrave; manuten&ccedil;&atilde;o das rela&ccedil;&otilde;es de domina&ccedil;&atilde;o. <\/p>\n<p>Assim como outras teorias de base libert&aacute;ria, a Teoria da Interdepend&ecirc;ncia das Esferas vem demonstrando que o Estado n&atilde;o reflete simplesmente as rela&ccedil;&otilde;es que se d&atilde;o na esfera econ&ocirc;mica, a qual certamente influencia o Estado, mas que, ao mesmo tempo, &eacute; influenciada por ele. A esfera pol&iacute;tica-jur&iacute;dica-militar constitui, ao mesmo tempo, conseq&uuml;&ecirc;ncia e causa das rela&ccedil;&otilde;es que envolvem a esfera econ&ocirc;mica. Assim concebido, o Estado &eacute; um elemento central dos sistemas de domina&ccedil;&atilde;o e de suas respectivas estruturas de classes, as quais s&atilde;o forjadas pelas rela&ccedil;&otilde;es de trabalho, pertencentes &agrave; esfera econ&ocirc;mica, mas tamb&eacute;m pelas rela&ccedil;&otilde;es governamentais, jur&iacute;dicas e militares &ndash; fato que aponta para uma no&ccedil;&atilde;o de classe que extrapola o econ&ocirc;mico. <\/p>\n<p>O pr&oacute;prio surgimento do capitalismo teve um papel imprescind&iacute;vel do Estado, que foi fundamental, com suas medidas jur&iacute;dicas e militares, para abrir o campo necess&aacute;rio para seu estabelecimento. Exemplo disso foi o processo de luta do Estado contra as revolu&ccedil;&otilde;es comunitaristas europ&eacute;ias, que ocorreram desde o s&eacute;culo XII, e cuja batalha evidenciou-se entre os s&eacute;culos XVI e XVIII, terminando com a vit&oacute;ria do Estado. Kropotkin diria que, interpretar a morte desse &ldquo;comunitarismo federalista&rdquo; como um desenvolvimento natural das for&ccedil;as econ&ocirc;micas, seria a mesma coisa que chamar de &ldquo;morte natural [o] massacre de cem mil soldados nos campos de batalha!&rdquo; [O Estado e seu Papel Hist&oacute;rico]. <\/p>\n<p>Depois do surgimento da &ldquo;quest&atilde;o social&rdquo; no s&eacute;culo XIX, e da resposta do Estado a uma s&eacute;rie de reivindica&ccedil;&otilde;es populares, constitui-se em distintos pa&iacute;ses um modelo de Estado que aumentou significativamente a legitimidade do capitalismo. Dentre as fun&ccedil;&otilde;es que s&atilde;o levadas a cabo pelo Estado, e que o colocam nesse papel imprescind&iacute;vel para o capitalismo, est&atilde;o: sua fun&ccedil;&atilde;o como agente econ&ocirc;mico, garantindo a sobreviv&ecirc;ncia do sistema; mecanismos jur&iacute;dicos e a intermedia&ccedil;&atilde;o da luta de classes, que visam manter o funcionamento do sistema no longo prazo; a democracia representativa contempor&acirc;nea que, juntamente com a possibilidade de ascender economicamente, legitimam o sistema, gerando uma impress&atilde;o de participa&ccedil;&atilde;o que faz com que ele seja considerado justo; sua influ&ecirc;ncia, ainda significativa, nas institui&ccedil;&otilde;es capazes de difundir elementos culturais e ideol&oacute;gicos, fundamentais para a legitima&ccedil;&atilde;o do sistema. Mesmo sendo a legitimidade o principal aspecto do atual sistema de domina&ccedil;&atilde;o, a for&ccedil;a ainda possui papel central. O monop&oacute;lio da viol&ecirc;ncia e as institui&ccedil;&otilde;es militares s&atilde;o recursos tamb&eacute;m imprescind&iacute;veis para a manuten&ccedil;&atilde;o do capitalismo.<\/p>\n<p>O Estado foi imprescind&iacute;vel para o estabelecimento do capitalismo e &eacute; imprescind&iacute;vel para sua manuten&ccedil;&atilde;o, tanto pelas medidas de legitimidade quanto pelas medidas de for&ccedil;a &ndash; mesmo que se possa afirmar a autonomia relativa do Estado em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; esfera econ&ocirc;mica.<\/p>\n<p>Pode-se, portanto, reivindicar Ren&eacute; Berthier [Marxismo e Anarquismo] para afirmar, conforme as posi&ccedil;&otilde;es de Bakunin, que o Estado n&atilde;o &eacute; uma institui&ccedil;&atilde;o reacion&aacute;ria porque as classes dominantes o dirigem, mas por sua pr&oacute;pria constitui&ccedil;&atilde;o: o Estado &eacute; a organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica das classes dominantes. <\/p>\n<p>As estrat&eacute;gias de transforma&ccedil;&atilde;o social que se fundamentam na utiliza&ccedil;&atilde;o do Estado como meio v&ecirc;m demonstrando historicamente sua incapacidade de criar poderes autogestion&aacute;rios; tanto aquelas que defendem a atua&ccedil;&atilde;o por meio das elei&ccedil;&otilde;es e das reformas, quanto aquelas que sustentam sua tomada revolucion&aacute;ria. No primeiro caso, &agrave; medida que aqueles que defendem essa estrat&eacute;gia entram no Estado, hipotecam seus princ&iacute;pios e, cada vez mais, abrem m&atilde;o do projeto revolucion&aacute;rio &ndash; conforme caso do Partido dos Trabalhadores no Brasil ou do Partido Verde na Alemanha. No segundo caso, quando se apropriam do Estado subtraem do povo sua capacidade participativa, transferindo-a a uma minoria que, em nome desse pr&oacute;prio povo, perpetua sua domina&ccedil;&atilde;o &ndash; conforme todos os casos de &ldquo;socialismo real&rdquo;, incluindo a URSS.<\/p>\n<p>As transforma&ccedil;&otilde;es que visam aumentar a participa&ccedil;&atilde;o e t&ecirc;m por objetivo a autogest&atilde;o n&atilde;o podem ter no Estado seu espa&ccedil;o de cria&ccedil;&atilde;o de poder. As teorias apontam e a pr&oacute;pria hist&oacute;ria demonstra que, por meio do Estado, tudo o que se pode (re)criar &eacute; a domina&ccedil;&atilde;o.<\/p>\n<p><strong>Bibliografia<\/strong><\/p>\n<p>ALBERT, Michael. &ldquo;Buscando a Autogest&atilde;o&rdquo;. In: Autogest&atilde;o Hoje: teorias e pr&aacute;ticas contempor&acirc;neas. S&atilde;o Paulo: Fa&iacute;sca, 2004.<\/p>\n<p>BAKUNIN, Mikhail. Estatismo e Anarquia. S&atilde;o Paulo: Imagin&aacute;rio\/&Iacute;cone, 2003.<\/p>\n<p>BERTHIER, Ren&eacute;; VILAIN, Eric. Marxismo e Anarquismo. S&atilde;o Paulo: Imagin&aacute;rio, 2011.<\/p>\n<p>COLOMBO, Eduardo. An&aacute;lise do Estado \/ Estado como Paradigma de Poder. S&atilde;o Paulo: Imagin&aacute;rio, 2001.<\/p>\n<p>CORR&Ecirc;A, Felipe. Poder, Domina&ccedil;&atilde;o e Autogest&atilde;o. Anarkismo.net, 2011.<\/p>\n<p>______________. Para uma Teoria Libert&aacute;ria do Poder. Estrat&eacute;gia e An&aacute;lise, 2011.<\/p>\n<p>ERRANDONEA, Alfredo. Sociologia de la Dominaci&oacute;n. Montevideu\/Buenos Aires: Nordan\/Tupac, 1989.<\/p>\n<p>_____________________. &ldquo;Apuntes para una Teor&iacute;a de la Participaci&oacute;n Social&rdquo;. In: Comunidad n&ordm; 50. Estocolmo, 1985. <\/p>\n<p>FOUCAULT, Michel. Microf&iacute;sica do Poder. S&atilde;o Paulo: Graal, 2005.<\/p>\n<p>IB&Aacute;&Ntilde;EZ, Tom&aacute;s. Poder y Libertad. Barcelona: Hora, 1982.<\/p>\n<p>_____________. &ldquo;Por un Poder Pol&iacute;tico Libertario&rdquo;. In: Actualidad del Anarquismo. Buenos Aires: Anarres, 2007.<\/p>\n<p>KROPOTKIN, Piotr. O Estado e seu Papel Hist&oacute;rico. S&atilde;o Paulo: Imagin&aacute;rio, 2000.<\/p>\n<p>L&Oacute;PEZ, Fabio L&oacute;pez. Poder e Dom&iacute;nio: uma vis&atilde;o anarquista. Rio de Janeiro: Achiam&eacute;, 2001)<\/p>\n<p>ROCHA, Bruno Lima. A Interdepend&ecirc;ncia Estrutural das Tr&ecirc;s Esferas. Porto Alegre, UFRGS (doutorado em Ci&ecirc;ncia Pol&iacute;tica), 2009.<\/p>\n<p>SCHMIDT, Michael; VAN DER WALT, Lucien. Black Flame: the revolutionary class politics of anarchism and syndicalism. Oakland: AK Press, 2009.<\/p>\n<p>VAN DER WALT, Lucien. Debating Power and Revolution in Anarchism, Black Flame and Historical Marxism. Johannesburg, 2011.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As estrat\u00e9gias de transforma\u00e7\u00e3o social que se fundamentam na utiliza\u00e7\u00e3o do Estado como meio v\u00eam demonstrando historicamente sua incapacidade de criar poderes autogestion\u00e1rios; tanto aquelas que defendem a atua\u00e7\u00e3o por meio das elei\u00e7\u00f5es e das reformas, quanto aquelas que sustentam sua tomada revolucion\u00e1ria. 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