{"id":10570,"date":"2012-01-31T11:09:57","date_gmt":"2012-01-31T11:09:57","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1579"},"modified":"2012-01-31T11:09:57","modified_gmt":"2012-01-31T11:09:57","slug":"para-uma-teoria-libertaria-do-poder-v-lopez-e-a-distincao-entre-poder-e-dominio-parte-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10570","title":{"rendered":"Para uma Teoria Libert\u00e1ria do Poder (V) \u2013 L\u00f3pez e a distin\u00e7\u00e3o entre poder e dom\u00ednio \u2013 parte 1"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Poder e Dominio.jpg\" title=\"O livro de F\u00e1bio L\u00f3pez L\u00f3pez, economista de forma\u00e7\u00e3o e autor com trajet\u00f3ria militante e preocupa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica intensa, pode ser considerado o novo cl\u00e1ssico do anarquismo brasileiro. Elaborado na segunda metade da d\u00e9cada de \u201990 e publicado em 2001, marca o avan\u00e7o te\u00f3rico e pol\u00edtico da ideologia no Brasil a partir de sua milit\u00e2ncia. Leitura indispens\u00e1vel. - Foto:achiame.com \" alt=\"O livro de F\u00e1bio L\u00f3pez L\u00f3pez, economista de forma\u00e7\u00e3o e autor com trajet\u00f3ria militante e preocupa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica intensa, pode ser considerado o novo cl\u00e1ssico do anarquismo brasileiro. Elaborado na segunda metade da d\u00e9cada de \u201990 e publicado em 2001, marca o avan\u00e7o te\u00f3rico e pol\u00edtico da ideologia no Brasil a partir de sua milit\u00e2ncia. Leitura indispens\u00e1vel. - Foto:achiame.com \" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">O livro de F\u00e1bio L\u00f3pez L\u00f3pez, economista de forma\u00e7\u00e3o e autor com trajet\u00f3ria militante e preocupa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica intensa, pode ser considerado o novo cl\u00e1ssico do anarquismo brasileiro. Elaborado na segunda metade da d\u00e9cada de \u201990 e publicado em 2001, marca o avan\u00e7o te\u00f3rico e pol\u00edtico da ideologia no Brasil a partir de sua milit\u00e2ncia. Leitura indispens\u00e1vel.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:achiame.com <\/small><\/figure>\n<p><em>Felipe Corr&ecirc;a<br \/>\n<\/em><br \/>\n&ldquo;Para uma Teoria Libert&aacute;ria do Poder&rdquo; &eacute; uma s&eacute;rie de resenhas elaboradas sobre artigos ou livros de autores do campo libert&aacute;rio que discutem o poder. Seu objetivo &eacute; apresentar uma leitura contempor&acirc;nea de autores que v&ecirc;m tratando o tema em quest&atilde;o e trazer elementos para a elabora&ccedil;&atilde;o de uma teoria libert&aacute;ria do poder, que poder&aacute; contribuir na elabora&ccedil;&atilde;o de um m&eacute;todo de an&aacute;lise da realidade e de estrat&eacute;gias de bases libert&aacute;rias, a serem utilizadas por indiv&iacute;duos e organiza&ccedil;&otilde;es.<\/p>\n<p>Neste quinto artigo da s&eacute;rie, utilizarei para discuss&atilde;o o livro, de F&aacute;bio L&oacute;pez L&oacute;pez, Poder e Dom&iacute;nio: uma vis&atilde;o anarquista, publicado em 2001, como resultado de reflex&otilde;es militantes ligadas ao contexto de desenvolvimento do anarquismo de matriz especifista que, naquele momento, desenvolvia-se no Rio de Janeiro, assim como no resto do pa&iacute;s. &Eacute; relevante mencionar que o livro, como colocado pelo pr&oacute;prio autor, &eacute; feito por um militante voltado para a milit&acirc;ncia e, portanto, n&atilde;o tem a inten&ccedil;&atilde;o de ser um trabalho acad&ecirc;mico. O que n&atilde;o impede ele de trazer diversos elementos conceituais e argumenta&ccedil;&otilde;es relevantes, que podem contribuir significativamente para o objetivo desta s&eacute;rie. Como nos outros artigos, seguem apresentadas, tamb&eacute;m esquematicamente, as principais contribui&ccedil;&otilde;es do autor.<\/p>\n<p>BASE FILOS&Oacute;FICA: NIETZSCHE E FOUCAULT<\/p>\n<p>L&oacute;pez acredita que para se formular uma teoria do poder &eacute; necess&aacute;rio abandonar as discuss&otilde;es sobre natureza humana, consideradas por Reich apenas &ldquo;passatempos filos&oacute;ficos&rdquo;. N&atilde;o haveria como descobrir os sentimentos e comportamentos inatos do ser humano, j&aacute; que &eacute; imposs&iacute;vel separar indiv&iacute;duo e sociedade, e, conforme considera, imposs&iacute;vel desvincul&aacute;-los das rela&ccedil;&otilde;es de poder: &ldquo;um beb&ecirc; j&aacute; nasce enredado em uma s&eacute;rie de rela&ccedil;&otilde;es de poder&rdquo;.[p. 15] N&atilde;o haveria, assim, resposta para as perguntas: o homem, em sua ess&ecirc;ncia, &eacute; bom ou mau? Tende &agrave; coopera&ccedil;&atilde;o ou &agrave; competi&ccedil;&atilde;o? Possui uma tend&ecirc;ncia natural &agrave; domina&ccedil;&atilde;o? L&oacute;pez critica as abordagens que buscam chegar a posi&ccedil;&otilde;es conclusivas acerca dessas quest&otilde;es. Para ele, a humanidade &eacute; forjada por suas rela&ccedil;&otilde;es de poder e os homens e mulheres, indiv&iacute;duo e sociedade, s&oacute; podem ser pensados dentro dessas rela&ccedil;&otilde;es de poder, sendo imposs&iacute;vel recorrer &agrave;s quest&otilde;es de inatismo e &agrave;s discuss&otilde;es sobre natureza humana para compreend&ecirc;-los. <\/p>\n<p>Independente da rela&ccedil;&atilde;o pontual com outros autores, a base filos&oacute;fica do trabalho de L&oacute;pez &eacute; nietzcheana\/foucaultiana, cujos argumentos fundamentais discuti no terceiro artigo da s&eacute;rie sobre o pensamento de Foucault. Ainda assim, retomarei brevemente esses argumentos que d&atilde;o sustenta&ccedil;&atilde;o a toda sua teoria.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Incorpora&ccedil;&otilde;es de Nietzsche<\/span><\/p>\n<p>A obra de Nietzsche sobre a qual se baseia L&oacute;pez &eacute;, fundamentalmente, A Vontade de Pot&ecirc;ncia [traduzida mais recentemente como A Vontade de Poder], da qual cita diversos trechos para se fundamentar teoricamente. Sem aprofundar, os principais argumentos incorporados da teoria nietzscheana s&atilde;o os seguintes: o mundo &eacute; a for&ccedil;a, e assim, a constitui&ccedil;&atilde;o do mundo, da vida, da realidade, s&oacute; pode ser o resultado de uma intera&ccedil;&atilde;o entre for&ccedil;as determinadas, a qual forja suas principais caracter&iacute;sticas; essas for&ccedil;as s&atilde;o finitas, mut&aacute;veis e temporais, dividindo-se em diversas partes que, em conflito, estabelecem rela&ccedil;&otilde;es de predomin&acirc;ncia e constituem um todo; o indiv&iacute;duo &eacute; um centro de for&ccedil;a; a motiva&ccedil;&atilde;o da vida &eacute; o ac&uacute;mulo de for&ccedil;a, a liberdade do potencial e a vontade de pot&ecirc;ncia que est&atilde;o dentro de cada um; n&atilde;o h&aacute; uma finalidade do mundo, da vida ou da realidade, que possa ser prevista ou avaliada em termos de evolu&ccedil;&atilde;o, e, assim, a humanidade n&atilde;o caminha para um sentido determinado; buscando sua realiza&ccedil;&atilde;o, o indiv&iacute;duo utiliza o poder como meio; a moral tem condi&ccedil;&otilde;es de determinar essa vontade de pot&ecirc;ncia e pode transformar desejos e emo&ccedil;&otilde;es, castrando, docilizando e degenerando o ser humano no que diz respeito a esse seu impulso para a pot&ecirc;ncia.<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Incorpora&ccedil;&otilde;es de Foucault<\/span><\/p>\n<p>De Foucault, L&oacute;pez se baseia na colet&acirc;nea Microf&iacute;sica do Poder, tamb&eacute;m citada na costura de seus argumentos. Novamente sem aprofundar, seguem os principais argumentos incorporados da teoria foucaultiana: o poder se d&aacute; para al&eacute;m do &acirc;mbito do Estado e n&atilde;o pode ser considerado simplesmente como reflexo das rela&ccedil;&otilde;es econ&ocirc;micas e nem somente em termos de repress&atilde;o; as rela&ccedil;&otilde;es de poder, que tamb&eacute;m s&atilde;o produtivas, se d&atilde;o por meio das diversas rela&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;as, e o poder envolve a ativa&ccedil;&atilde;o e o desdobramento dessas rela&ccedil;&otilde;es. <\/p>\n<p>\nPODER<\/p>\n<p><span style=\"font-weight: bold;\">Agente social, for&ccedil;a social e capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o<\/span><\/p>\n<p>O trabalho de L&oacute;pez restringe-se ao campo social e, portanto, concebe o poder a partir de uma perspectiva de rela&ccedil;&atilde;o social; assim, distingue-se da concep&ccedil;&atilde;o de Nietzsche, que considera qualquer produ&ccedil;&atilde;o uma rela&ccedil;&atilde;o de poder. Restringindo-se ao campo social, L&oacute;pez concebe um modelo que parte das no&ccedil;&otilde;es de for&ccedil;a social e agente social.[1]<\/p>\n<p>* For&ccedil;a social: &ldquo;energia racionalmente aplicada pelos agentes na consecu&ccedil;&atilde;o de seus objetivos na sociedade&rdquo;.[p. 60] <\/p>\n<p>* Agente social: &ldquo;qualquer ser humano que viva em sociedade, tenha capacidade de desejar, escolher e agir&rdquo;.[Ibid.]<\/p>\n<p>&ldquo;Todo agente social &eacute; dotado naturalmente de uma determinada for&ccedil;a social.&rdquo;[Ibid.] &Eacute; relevante enfatizar que, para L&oacute;pez, a sociedade n&atilde;o &eacute; a mera soma dos agentes sociais tomados individualmente; para ele, o coletivo &eacute; muito mais complexo que a soma dos indiv&iacute;duos. Dessa maneira, a for&ccedil;a social n&atilde;o pode ser compreendida como soma das for&ccedil;as sociais individuais dos agentes. A for&ccedil;a social presente em todos os agentes sociais varia de um agente para outro, num mesmo agente durante um per&iacute;odo de tempo e em rela&ccedil;&atilde;o ao projeto no qual ele est&aacute; engajado. Ela varia tamb&eacute;m quando v&aacute;rios agentes se associam em torno de um objetivo comum, sendo a for&ccedil;a social desses agentes associados, sempre maior que a soma das for&ccedil;as individuais de cada agente. Essas premissas distinguem o m&eacute;todo de L&oacute;pez dos m&eacute;todos individualistas e\/ou liberais.<\/p>\n<p>Para alcan&ccedil;ar seus objetivos, os agentes sociais se valem de diversos instrumentos para a amplia&ccedil;&atilde;o de sua for&ccedil;a social: &ldquo;um armamento simples (como uma faca ou rev&oacute;lver), informa&ccedil;&atilde;o, aumento de for&ccedil;a f&iacute;sica, aprimoramento de t&eacute;cnica de luta, saber e experi&ecirc;ncia para melhor atuar (otimiza&ccedil;&atilde;o na aplica&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as que disp&otilde;e), erudi&ccedil;&atilde;o (para ter maior capacidade de persuadir), ou uma m&aacute;quina que aumente a produ&ccedil;&atilde;o do trabalho. Por&eacute;m, como veremos mais adiante, os instrumentos mais importantes s&atilde;o a associa&ccedil;&atilde;o e o dom&iacute;nio.&rdquo;[Ibid.] O ganho de influ&ecirc;ncia tamb&eacute;m &eacute; uma maneira de se aumentar a for&ccedil;a social, pois o &ldquo;agente que consegue influ&ecirc;ncia, tem for&ccedil;a social&rdquo;.[p. 77]<\/p>\n<p>&ldquo;Uma for&ccedil;a social tem determinada capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o.&rdquo;[p. 61]<\/p>\n<p>* Capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o: &ldquo;possibilidade de produzir determinada for&ccedil;a social, quando colocada em a&ccedil;&atilde;o pelo agente que a det&eacute;m&rdquo;.[Ibid.]<\/p>\n<p>Com base nessa defini&ccedil;&atilde;o, L&oacute;pez enfatiza que, muitas vezes, o poder &eacute; definido como capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o. Para ele, s&atilde;o conceitos distintos, j&aacute; que a capacidade coloca-se no campo de uma possibilidade, e o poder, como se ver&aacute;, implica mais do que isso. O poder, segundo sustenta, exige a capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o, mas tamb&eacute;m que essa capacidade seja transformada em for&ccedil;a social, ou seja, que seja aplicada praticamente, saindo do campo da possibilidade e tornando-se realidade. &ldquo;Capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o pode ser entendida como a possibilidade de produzir de determinada for&ccedil;a social, quando colocada em a&ccedil;&atilde;o pelo agente que a det&eacute;m. &Eacute; muito importante esta defini&ccedil;&atilde;o, uma vez que a &lsquo;capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o&rsquo; &eacute; constantemente utilizada como sin&ocirc;nimo de poder. Ou seja, quando um agente tem a capacidade de realizar ou produzir determinado efeito, se diz que ele tem poder.&rdquo;[Ibid.] Ao mesmo tempo em que discorda da defini&ccedil;&atilde;o do poder como capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o, L&oacute;pez tamb&eacute;m discorda da defini&ccedil;&atilde;o que equipara poder e for&ccedil;a social: &ldquo;Poder n&atilde;o pode ser mero sin&ocirc;nimo de for&ccedil;a social, pois para ter poder &eacute; necess&aacute;rio fazer uso de sua for&ccedil;a e ela ter efeito &ndash; ou ao menos poder fazer uso desta for&ccedil;a (quando lhe convier) e isto ser o suficiente para conseguir o efeito.&rdquo;[p. 62] <\/p>\n<p>Assim, pode-se dizer que os agentes sociais s&atilde;o dotados de capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o e quando esta capacidade &eacute; colocada em pr&aacute;tica, aplicada pelos agentes na busca de seus objetivos, a capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o torna-se for&ccedil;a social. Todos os elementos colocados &ndash; agente social, capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o e for&ccedil;a social &ndash; s&atilde;o fundamentais para o poder, ainda que o poder n&atilde;o possa ser definido exclusivamente por nenhum deles especificamente. <\/p>\n<p>\n<span style=\"font-weight: bold;\">O conceito de poder<\/span><\/p>\n<p>L&oacute;pez apresenta uma defini&ccedil;&atilde;o bastante clara de poder.<\/p>\n<p>* Poder: &ldquo;imposi&ccedil;&atilde;o da vontade de um agente atrav&eacute;s da for&ccedil;a social que consegue mobilizar para sobrepujar a for&ccedil;a mobilizada por aqueles que se op&otilde;em&rdquo;.[p. 62] <\/p>\n<p>Articulando o conceito de poder com os conceitos definidos anteriormente, pode-se dizer que o poder &eacute; resultado da intera&ccedil;&atilde;o entre for&ccedil;as sociais mobilizadas e colocadas em pr&aacute;tica por agentes sociais dotados de determinada capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o. Ao se falar em for&ccedil;as mobilizadas e colocadas em pr&aacute;tica, considera-se tamb&eacute;m &ldquo;a possibilidade do uso da for&ccedil;a&rdquo;[p. 64], ou seja, a amea&ccedil;a de uso da for&ccedil;a, que termina funcionando como um elemento constitutivo das for&ccedil;as em jogo &ndash; muitas vezes causando receio ou medo em agentes &ndash;, permitindo que o poder seja estabelecido. <\/p>\n<p>Logo, a defini&ccedil;&atilde;o de poder de L&oacute;pez fundamenta-se em um modelo de conflito social:<\/p>\n<p>* Conflito social: &ldquo;enfrentamento entre as for&ccedil;as sociais mobiliz&aacute;veis por [&#8230;] agentes&rdquo;.[p. 62] <\/p>\n<p>Considera-se que o poder &eacute; resultado das for&ccedil;as sociais em jogo que se enfrentam constantemente em um modelo de conflito social, j&aacute; que &ldquo;s&oacute; existe rela&ccedil;&atilde;o de poder se houver conflito&rdquo;.[p. 63]<\/p>\n<p>O poder &eacute; sempre uma rela&ccedil;&atilde;o social, &ldquo;localizada no espa&ccedil;o, tempo e na sociedade&rdquo;, que n&atilde;o pode ser compreendida como sin&ocirc;nimo de repress&atilde;o, j&aacute; que &ldquo;o poder constr&oacute;i, o poder cria, o poder articula e estrutura toda a sociedade. Sempre em favor de quem o det&eacute;m&rdquo; [pp. 61-62]. Isso n&atilde;o implica que o poder seja sempre dominador ou antipopular; no entanto, as rela&ccedil;&otilde;es de poder s&atilde;o respons&aacute;veis por forjar l&oacute;gicas e din&acirc;micas e, portanto, n&atilde;o s&atilde;o neutras e, dependendo de como estiverem institu&iacute;das, podem servir ou n&atilde;o a fins igualit&aacute;rios e libertadores. &ldquo;O poder n&atilde;o pode ser encarado como mero instrumental atrav&eacute;s do qual se pode alcan&ccedil;ar qualquer objetivo. Poder &eacute; uma rela&ccedil;&atilde;o social com l&oacute;gica e din&acirc;mica pr&oacute;pria, que constitui a sociedade e tem conseq&uuml;&ecirc;ncias sobre os indiv&iacute;duos. O poder n&atilde;o &eacute; neutro. Ter poder significa oprimir, impor, conquistar, criar uma situa&ccedil;&atilde;o de desigualdade, onde a parte que sofre a a&ccedil;&atilde;o do poder ser&aacute; frustrada em suas pretens&otilde;es.&rdquo;[pp. 70-71]<\/p>\n<p>Assim, pode-se afirmar que o poder: a.) sempre se localiza hist&oacute;rica e geograficamente, no tempo e no espa&ccedil;o; b.) conta com a repress&atilde;o, mas nunca se resume a ela, j&aacute; que &eacute;, fundamentalmente, cria&ccedil;&atilde;o, articula&ccedil;&atilde;o, estrutura&ccedil;&atilde;o; c.) ainda que n&atilde;o seja necessariamente antipopular ou dominador, ele tamb&eacute;m n&atilde;o &eacute; neutro. <\/p>\n<p>Em uma din&acirc;mica de conflitos, o poder existe quando determinada(s) for&ccedil;a(s) social(is) se sobrep&otilde;e(m) a outra(s), tendo como resultado poderosos e subjugados.<\/p>\n<p>* Poderoso: agente social que exerce a rela&ccedil;&atilde;o do poder, sendo sua for&ccedil;a &ldquo;mais forte socialmente do que sua oposi&ccedil;&atilde;o&rdquo;.[p. 68]<\/p>\n<p>* Subjugado: &ldquo;todo agente social que sofre contra si uma rela&ccedil;&atilde;o de poder, pois sua for&ccedil;a social &eacute; d&eacute;bil no embate com a outra&rdquo;.[p. 67]\t<\/p>\n<p>Os poderosos podem ser os agentes respons&aacute;veis por rela&ccedil;&otilde;es de poder que implicam ou n&atilde;o a domina&ccedil;&atilde;o, o que ser&aacute; discutido mais adiante. Os subjugados dividir-se-iam em dois grupos: os dominados, que depois do poder estabelecido &ldquo;acabam trabalhando em prol dos interesses do poder&rdquo;, e os resistentes, &ldquo;que n&atilde;o trabalham naquilo que se op&otilde;em&rdquo;, ou seja, mesmo sendo subjugados na rela&ccedil;&atilde;o de poder continuam a desenvolver seu trabalho no sentido de resistir ao poder vigente e, quem sabe, modificar a correla&ccedil;&atilde;o de poder, continuam a desenvolver seu trabalho no sentido de resistir ao poder vigente e, quem sabe, modificar a correla&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;as ou a pr&oacute;pria rela&ccedil;&atilde;o de poder. Independente do tipo de subjugado, ele sempre &ldquo;sofre uma opress&atilde;o&rdquo;.[Ibid.]<\/p>\n<p>* Opress&atilde;o: &ldquo;oposi&ccedil;&atilde;o unilateral de uma das partes de um determinado relacionamento &ndash; &eacute; conseq&uuml;&ecirc;ncia necess&aacute;ria da rela&ccedil;&atilde;o de poder&rdquo;.[Ibid.]<\/p>\n<p>No caso dos subjugados resistentes, eles assim se caracterizam por serem agentes cuja for&ccedil;a social, apesar de subjugada, e os agentes, apesar de oprimidos, n&atilde;o deixam de continuar a atuam em favor de seus pr&oacute;prios objetivos.<\/p>\n<p>* Resist&ecirc;ncia: &ldquo;for&ccedil;a subjugada&rdquo; em uma determinada rela&ccedil;&atilde;o de poder que &ldquo;n&atilde;o deixa de existir&rdquo;[p. 67] permanecendo como &ldquo;oposi&ccedil;&atilde;o em conflito&rdquo;.[p. 86]<\/p>\n<p>A resist&ecirc;ncia caracteriza-se, portanto, pelo dinamismo do conflito social sendo que, ainda que estabelecida uma rela&ccedil;&atilde;o de poder, as for&ccedil;as sociais continuam em jogo e os agentes resistentes permanecem lutando pelos projetos que est&atilde;o de acordo com seus pr&oacute;prios interesses, mesmo estando subjugados naquele momento. As for&ccedil;as sociais da resist&ecirc;ncia, ainda que haja opress&atilde;o, n&atilde;o deixam de existir e de se contrapor &agrave;s for&ccedil;as poderosas. Para L&oacute;pez, a resist&ecirc;ncia pode ser tipificada da seguinte maneira: &ldquo;a resist&ecirc;ncia pode ser passiva (quando o agente n&atilde;o tem qualquer a&ccedil;&atilde;o contra o poder que o oprime) ou ativa (quando o poder sofre retalia&ccedil;&otilde;es por parte dos subjugados), isolada (tem um car&aacute;ter individual) ou articulada (for&ccedil;a coletiva)&rdquo;.[p. 75] Levando em conta que a resist&ecirc;ncia tamb&eacute;m pode ser passiva, pode-se dizer que a resist&ecirc;ncia sempre est&aacute; presente nas rela&ccedil;&otilde;es de poder. A resist&ecirc;ncia ativa, distintamente, manifesta seus interesses por meio da for&ccedil;as sociais de determinados agentes. Seu car&aacute;ter individual ou articulado possui uma implica&ccedil;&atilde;o direta no quantum de for&ccedil;a social aplicada na rela&ccedil;&atilde;o. N&atilde;o sendo a for&ccedil;a social coletiva a simples soma das individuais, a resist&ecirc;ncia articulada possui sempre maior capacidade de realiza&ccedil;&atilde;o que a soma das resist&ecirc;ncias isoladas.<\/p>\n<p>\n<span style=\"font-weight: bold;\">A din&acirc;mica do poder<\/span><\/p>\n<p>A partir do conceito de poder estabelecido e das categorias elaboradas por L&oacute;pez, pode-se tratar de alguns aspectos relevantes da din&acirc;mica do poder. H&aacute; tr&ecirc;s leis fundamentais do poder, que aprimoram a explica&ccedil;&atilde;o desse seu funcionamento: 1. &ldquo;Quando existe um conflito onde duas for&ccedil;as disputam o controle de um &uacute;nico objeto, a guerra s&oacute; cessar&aacute; quando se estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o de poder.&rdquo; 2. &ldquo;Quando existe conflito, mas n&atilde;o vemos guerra &ndash; ou seja, em tempos de &lsquo;paz&rsquo; &ndash; se o agente n&atilde;o estabeleceu poder, seu opositor ter&aacute; estabelecido.&rdquo; 3. &ldquo;Sempre, o agente que empenhar maior for&ccedil;a social em determinado conflito at&eacute; aquele momento hist&oacute;rico, ser&aacute; o detentor do poder.&rdquo; [p. 63] <\/p>\n<p>Essas leis explicam alguns fundamentos das rela&ccedil;&otilde;es de poder. Compreendendo o poder como rela&ccedil;&atilde;o entre for&ccedil;as sociais, L&oacute;pez toma por base os conflitos que envolvem disputa entre duas for&ccedil;as para o controle de um objeto. Nesse caso, a situa&ccedil;&atilde;o de guerra e paz &eacute; determinada pelas rela&ccedil;&otilde;es de poder; quando h&aacute; guerra &ndash; embate efetivo, conflitos evidentes em torno de uma disputa &ndash;, esta s&oacute; deixar&aacute; de existir quando uma for&ccedil;a se sobrep&otilde;e a outra; quando h&aacute; paz, significa que essa rela&ccedil;&atilde;o entre as for&ccedil;as j&aacute; se estabeleceu. No primeiro caso, cessa a &ldquo;guerra&rdquo; quando se estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o de poder, no segundo caso, a &ldquo;paz&rdquo; significa que essa rela&ccedil;&atilde;o j&aacute; estabeleceu. L&oacute;pez tamb&eacute;m argumenta que num conflito que envolve a disputa de um objeto por duas for&ccedil;as, ocorrendo a &ldquo;paz&rdquo;, ou seja, se estabelecendo uma rela&ccedil;&atilde;o de poder, se um dos lados n&atilde;o tiver estabelecido a preponder&acirc;ncia de sua for&ccedil;a, o outro necessariamente ter&aacute;; afirma&ccedil;&atilde;o que implica n&atilde;o ser poss&iacute;vel conceber uma rela&ccedil;&atilde;o de poder sem for&ccedil;as sociais que exercem esse poder (levadas a cabo por agentes poderosos) e for&ccedil;as sociais que s&atilde;o oprimidas por ele (levadas a cabo por agentes subjugados). Numa rela&ccedil;&atilde;o de poder, h&aacute; sempre aqueles que o exercem e aqueles que sofrem seus efeitos. No tipo de conflito mencionado, a maior for&ccedil;a social aplicada na disputa ter&aacute; como resultado tornar os agentes que as exercem poderosos. Dessas leis do poder, L&oacute;pez extrai a conclus&atilde;o de que &ldquo;quem tem mais for&ccedil;a social se imp&otilde;e sempre, logo &eacute; o detentor do poder&rdquo;.[p. 65] <\/p>\n<p>L&oacute;pez aponta outro elemento importante, que diz respeito &agrave; l&oacute;gica expansionista do poder, caracterizada como &ldquo;cont&iacute;nua e sistem&aacute;tica tentativa, por parte do poderoso (ou daquele que almeja o poder), de maximizar a apropria&ccedil;&atilde;o de for&ccedil;a social [&#8230;] para obter a expans&atilde;o do quantum de for&ccedil;a social original&rdquo;.[p. 68] Levando em conta o dinamismo das rela&ccedil;&otilde;es de poder, sendo que elas s&oacute; podem ser consideradas dentro de uma rela&ccedil;&atilde;o no tempo e no espa&ccedil;o, torna-se necess&aacute;rio, para que o poder assegure sua continuidade, garantir uma amplia&ccedil;&atilde;o constante de for&ccedil;a social, para o caso de a resist&ecirc;ncia estar tamb&eacute;m acumulando for&ccedil;as. Assim, os agentes poderosos devem ter permanentemente a preocupa&ccedil;&atilde;o de aumentar sua for&ccedil;a social, de maneira a garantir que sua posi&ccedil;&atilde;o na rela&ccedil;&atilde;o de poder, com o passar do tempo, n&atilde;o seja modificada, por raz&atilde;o de um ac&uacute;mulo de for&ccedil;as da resist&ecirc;ncia. A l&oacute;gica expansionista do poder constantemente faz com que detentores do poder fa&ccedil;am da busca por esse aumento de for&ccedil;a seu principal objetivo. &ldquo;Os detentores do poder (ou os que lutam por ele) est&atilde;o eternamente tomando atitudes (pretensamente de curto prazo) para expandir sua for&ccedil;a social, a fim de manter (ou conquistar) poder.&rdquo;[p. 71] [2] A l&oacute;gica, como se v&ecirc;, aplica-se tamb&eacute;m &agrave;queles que t&ecirc;m por objetivo conquistar o poder. Subjugada em uma rela&ccedil;&atilde;o de poder, a resist&ecirc;ncia ter&aacute; de manter um esfor&ccedil;o permanente em rela&ccedil;&atilde;o ao aumento de sua for&ccedil;a social, se tiver por objetivo modificar a correla&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as em jogo e, portanto, o poder.<\/p>\n<p>A l&oacute;gica utilizada na conquista ou na manuten&ccedil;&atilde;o do poder, afirma L&oacute;pez, &eacute; a de sempre buscar os objetivos a partir &ldquo;do menor esfor&ccedil;o ou custo poss&iacute;vel&rdquo;.[p. 73] Tal afirma&ccedil;&atilde;o, evidentemente, considera uma l&oacute;gica de otimiza&ccedil;&atilde;o na utiliza&ccedil;&atilde;o de recursos, que permite n&atilde;o comprometer for&ccedil;as desnecess&aacute;rias na disputa por um determinado objetivo.<\/p>\n<p>\n* F&aacute;bio L&oacute;pez L&oacute;pez. <span style=\"font-style: italic;\">Poder e Dom&iacute;nio: uma vis&atilde;o anarquista.<\/span> Rio de Janeiro: Achiam&eacute;, 2001. <\/p>\n<p>\nNotas:<\/p>\n<p>1. Uma das caracter&iacute;sticas do texto de L&oacute;pez &eacute; a quantidade de conceitos criados e utilizados, os quais contribuem para a compreens&atilde;o mais clara de sua proposta. Para que o leitor n&atilde;o os perca, destacarei sempre esses conceitos no corpo do texto.<\/p>\n<p>2. Dessa forma, os objetivos de &ldquo;longo prazo&rdquo; que os partidos pol&iacute;ticos dizem buscar acabam caindo no vazio, uma vez que suas a&ccedil;&otilde;es pr&aacute;ticas, quando est&atilde;o na condu&ccedil;&atilde;o do Estado, s&atilde;o majoritariamente voltadas para a perpetua&ccedil;&atilde;o de seu controle.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O livro de F\u00e1bio L\u00f3pez L\u00f3pez, economista de forma\u00e7\u00e3o e autor com trajet\u00f3ria militante e preocupa\u00e7\u00e3o te\u00f3rica intensa, pode ser considerado o novo cl\u00e1ssico do anarquismo brasileiro. Elaborado na segunda metade da d\u00e9cada de \u201990 e publicado em 2001, marca o avan\u00e7o te\u00f3rico e pol\u00edtico da ideologia no Brasil a partir de sua milit\u00e2ncia. 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