{"id":10657,"date":"2015-12-11T18:19:48","date_gmt":"2015-12-11T18:19:48","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.wordpress.com\/?p=50"},"modified":"2015-12-11T18:19:48","modified_gmt":"2015-12-11T18:19:48","slug":"analise-de-conjuntura-apos-a-votacao-da-comissao-que-avaliara-pedido-de-impeachment","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10657","title":{"rendered":"An\u00e1lise de conjuntura ap\u00f3s a vota\u00e7\u00e3o da comiss\u00e3o que avaliar\u00e1 pedido de impeachment"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Bruno Lima Rocha<\/strong><\/p>\n<p>Este ano come\u00e7ou em novembro de 2014 e parece que n\u00e3o ter\u00e1 fim. 2015 j\u00e1 come\u00e7ou quente. Ainda no ver\u00e3o passado, o governo correu para estreitar rela\u00e7\u00f5es com o PMDB, sem perceber que perderia o controle da situa\u00e7\u00e3o. A chegada de Eduardo Cunha \u00e0 presid\u00eancia da C\u00e2mara era o golpe anunciado. Panela\u00e7os e protestos se espalharam pelo pa\u00eds (com cobertura ao vivo da emissora l\u00edder, alguns pedindo at\u00e9 o retorno da ditadura), enquanto as den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o da Petrobras ganhavam f\u00f4lego. O desgaste maior veio com as acusa\u00e7\u00f5es contra Cunha na Lava Jato e, posteriormente, o pedido de seu afastamento no comando do Legislativo. Desde ent\u00e3o, o ex-aliado de Garotinho e homem forte no baixo clero do parlamento deu in\u00edcio a uma s\u00e9rie de retalia\u00e7\u00f5es ao governo para chegar, enfim, ao pedido de impeachment da presidente Dilma. N\u00e3o parou aqui a crise pol\u00edtica, esta se aprofunda, com a boca grande do partido \u00f4nibus, onde cabem todos desde que ningu\u00e9m tenha uma proposta program\u00e1tica acima da necessidade fisiol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Com a hoje famosa carta endere\u00e7ada para a presidente, o segundo homem da rep\u00fablica chuta a base da tal da governabilidade. O racha do PMDB \u2013 que at\u00e9 a manh\u00e3 de 3\u00aa, 07 de dezembro, ainda era governista &#8211; se d\u00e1 primeiro com o sil\u00eancio do vice-presidente Michel Temer, anunciando o fim da alian\u00e7a com o pedido de demiss\u00e3o de Eliseu Padilha do cargo de ministro da Avia\u00e7\u00e3o Civil (antes ocupado pelo ex-governador fluminense, Wellington Moreira Franco). Na sequ\u00eancia a carta do Vice-presidente abandona o barco, alinhavando ao empresariado de S\u00e3o Paulo (sua base e motor dos destinos do agente econ\u00f4mico nacional) na Ponte para o Brasil, onde os direitos adquiridos na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 seriam \u2013 podem vir a ser \u2013 solenemente rasgados.<\/p>\n<p>A carta de ressentimento e projeto de poder implica que o golpe de Temer\/PMDB est\u00e1 a caminho. Ele foi eleito vice-presidente em uma alian\u00e7a idealizada ainda por Jos\u00e9 Dirceu ainda no cargo da Casa Civil. Em seu discurso de despedida da pasta, antes da cassa\u00e7\u00e3o do mandato de parlamentar, Dirceu disse exatamente isso. Pois bem, chamaram o Nosferatu para o co-governo e agora se &#8220;surpreendem&#8221; que o vampiro se anima diante da orgia de sangue. A l\u00f3gica do PMDB \u00e9 o ac\u00famulo de poder a qualquer custo e sem projeto de pa\u00eds em escala nacional. N\u00e3o h\u00e1 espanto algum nisso e o n\u00facleo duro da articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Dilma se viu, mais uma vez, emparedado.<\/p>\n<p>No desespero, eis que o Planalto junta 16 governadores em seu apoio, sendo que a base peemedebista \u00e9 o alinhamento do governador fluminense Pez\u00e3o e o l\u00edder do PMDB na C\u00e2mara Leonardo Picciani. O filho de Jorge Picciani, tradicional pol\u00edtico de estilo chaguista e aliado do ex-governador S\u00e9rgio Cabral Filho (ele mesmo, aquele do guardanapo na cabe\u00e7a dan\u00e7ando em Paris aos embalos dos contratos da Delta Engenharia), fora o l\u00edder do partido na C\u00e2mara at\u00e9 ser destitu\u00eddo na manh\u00e3 de 4\u00aa, dia 08 de dezembro, com a revoada dos correligion\u00e1rios de Temer, agora mais pr\u00f3ximos de reconstituir o Centr\u00e3o, embalados nos 272 votos obtidos no jogo de empurra-empurra, bate boca e cabe\u00e7adas ocorridas nas escaramu\u00e7as parlamentares na montagem da comiss\u00e3o \u2013 e sua vota\u00e7\u00e3o em plen\u00e1rio, no rito secreto &#8211; que vai (iria, pois o ministro Luiz Edson Fachin, do STF, por enquanto melou o golpe paraguaio no tapet\u00e3o e a favor do governo) avaliar o pedido de impeachment antes de ir &#8211; novamente a plen\u00e1rio na C\u00e2mara.<\/p>\n<p>Como afirmei acima, a manobra \u00e9 evidente. O desembarque do PMDB e sua proposi\u00e7\u00e3o como alternativa ainda mais \u00e0 direita do que o governo de Levy e K\u00e1tia Abreu est\u00e1 demonstrado no documento &#8220;Uma ponte para o Brasil&#8221;, lan\u00e7ado antes de Cunha haver acatado o pedido de impeachment formulado por H\u00e9lio Bicudo (ex-fundador do PT, mas que fizera campanha para Jos\u00e9 Serra j\u00e1 em 2010), Miguel Reale Jr. (ex-ministro de FHC, assim como o senador Renan Calheiros \u2013 PMDB\/AL). Neste documento, lan\u00e7ado ainda em outubro e com pouca repercuss\u00e3o at\u00e9 a sa\u00edda de Michel Temer, seria o pacto de elites para destravar os poderes de veto das maiorias sobre o or\u00e7amento da Uni\u00e3o. Se realizado for, Joaquim Levy poderia tranquilamente assinar embaixo, tal e como Henrique Meirelles, Arm\u00ednio Fraga e Pedro Malan. A proposta \u00e9 t\u00e3o obscena que anuncia em alto e bom quebrar a base da receita vinculada, tripudiando em cima do j\u00e1 minguado or\u00e7amento da Sa\u00fade e da Educa\u00e7\u00e3o. Obviamente, este documento produzido por sociopatas, em nada se refere ao esp\u00f3lio do rentismo que corr\u00f3i de 42% a 48% das verbas do governo central. Esta \u00e9 a sa\u00edda para o novo pacto social, uma vez que o ac\u00f3rd\u00e3o de classes, base do peleguismo professado por Lula, est\u00e1 fazendo \u00e1gua e o barco afundando em \u00e1guas lamacentas.<\/p>\n<p>Fazendo contas de chegada<\/p>\n<p>Se o padr\u00e3o de vota\u00e7\u00e3o das chapas \u2013 oficial e alternativa \u2013 para apreciar o pedido de impeachment \u2013 eleitas em plen\u00e1rio na tarde de 3\u00aa, 08 dezembro, for mantido, o governo tem uma margem apertada e pouco s\u00f3lida. Foram 272 votos para Cunha e a UDN, e 199 votos para o moribundo pacto lulista e o que resta de ex-esquerda e esquerda duelando na C\u00e2mara do jeito que foi poss\u00edvel. \u00d3bvio que este \u00e9 o retrato do momento e o tempo joga a favor dos querem derrubar o governo, al\u00e9m de fortalecer a posi\u00e7\u00e3o chave de Michel Temer como fiel da balan\u00e7a. Se o recesso n\u00e3o for cancelado &#8211; e entendo que n\u00e3o deve vir a ser &#8211; a UDN ter\u00e1 condi\u00e7\u00f5es de adular as raposas de sempre amarrando uma nova base de governo &#8211; caso Dilma venha a cair &#8211; e com uma orienta\u00e7\u00e3o pr\u00f3-capital transnacional. No caso o Brasil se alinha com a Argentina e a\u00ed ficam isolados &#8211; ainda mais isolados &#8211; os governos bolivarianos (eu diria chavistas, incluindo o governo Maduro agora sem maioria parlamentar).<\/p>\n<p>O problema aqui \u00e9 \u2013 literalmente &#8211; a base podre do governo. A heran\u00e7a maldita do lulismo para a esfera pol\u00edtica traz um conjunto de manobras sem fim e quebra de lealdades al\u00e9m de um projeto p\u00edfio de capitalismo perif\u00e9rico vinculado ao agente econ\u00f4mico oligopolista atuando no Brasil. Para tal basta ver a composi\u00e7\u00e3o de minist\u00e9rio e tamb\u00e9m o falso apoio dos oligarcas de sempre. Agora na hora do aperto v\u00e3o convocar as bases sociais ainda mobilizadas e, vergonhosamente, duvido que MST e MTST &#8211; por exemplo &#8211; condicionem a mobiliza\u00e7\u00e3o a uma nova orienta\u00e7\u00e3o de governo. De CUT e CTB espera -se qualquer coisa mesmo e a for\u00e7a social represada que tomou as ruas em 2013 estando \u00e0 esquerda do governo de coaliz\u00e3o n\u00e3o vai se comover com o golpe paraguaio em andamento. Sim \u00e9 um golpe branco e proporcionado pela alian\u00e7a do baixo clero com a direita que n\u00e3o \u00e9 governo e alimentado pela m\u00eddia e pela nova direita. E n\u00e3o, este governo n\u00e3o \u00e9 defens\u00e1vel como governo. Hoje sequer \u00e9 de centro-esquerda e progressivamente cava a pr\u00f3pria cova ao governar para e com o outrora inimigo de classe.<\/p>\n<p>Uma poss\u00edvel \u2013 embora improv\u00e1vel &#8211; rea\u00e7\u00e3o \u00e0 esquerda e a dimens\u00e3o transnacional do golpe paraguaio no Brasil<\/p>\n<p>Afirmo que ainda \u00e9 poss\u00edvel afirmar um programa social no momento de crise. N\u00e3o tenho ilus\u00e3o quanto a alguma guinada \u00e0 esquerda da base social restante dentro do pacto lulista. Mas como na pol\u00edtica sempre pode atuar o imponder\u00e1vel ent\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 como abrir m\u00e3o de todas as possibilidades. Se a Via Campesina e o MTST quiserem, \u00e9 poss\u00edvel arrancar algum compromisso &#8211; uma esp\u00e9cie de coa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica &#8211; obrigando o atual governo a n\u00e3o transacionar o inegoci\u00e1vel. Infelizmente entendo que nada disso deve vir a ocorrer e este governo talvez se salve sem comprometer sua base \u00e0 direita. Para quem atua na base \u00e0 esquerda resta combater o golpe paraguaio e marcar posi\u00e7\u00e3o contra a direita que \u00e9 governo.<\/p>\n<p>O mais dif\u00edcil nestes momentos \u00e9 n\u00e3o aderir ao embalo de histeria coletiva. Isto porque, se projetarmos o mapa do Continente e o peso do pa\u00eds neste peda\u00e7o do mundo, existe uma dimens\u00e3o transnacional da possibilidade de impeachment com consequ\u00eancias tenebrosas. Tem uma dimens\u00e3o do golpe paraguaio a caminho no Brasil que \u00e9 a inclina\u00e7\u00e3o de nosso continente no rumo do neoliberalismo e da Alian\u00e7a do Pac\u00edfico. O modo de pensamento do estalinismo seria o reboquismo ao governo de turno com a lenga lenga do possibilismo. Mas rejeitando essa forma de pensar temos de compreender que existem dois modelos de capitalismo perif\u00e9rico em disputa e o segundo, o da UDN \u00e9 ainda mais subordinado ao mercado e ao ocidente. Ao mesmo tempo, trata-se de analisar e caminhar sobre o fio da navalha, pois \u00e9 \u00f3bvio que evitar o golpe paraguaio n\u00e3o \u00e9 o mesmo que defender este governo comandado por grupos econ\u00f4micos como Friboi e Bradesco. Esta \u00e9 a hora de encontrar os caminhos e fazer o incans\u00e1vel debate com as for\u00e7as da esquerda restante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruno Lima Rocha Este ano come\u00e7ou em novembro de 2014 e parece que n\u00e3o ter\u00e1 fim. 2015 j\u00e1 come\u00e7ou quente. Ainda no ver\u00e3o passado, o governo correu para estreitar rela\u00e7\u00f5es com o PMDB, sem perceber que perderia o controle da situa\u00e7\u00e3o. A chegada de Eduardo Cunha \u00e0 presid\u00eancia da C\u00e2mara era o golpe anunciado. 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