{"id":10658,"date":"2015-11-24T20:17:00","date_gmt":"2015-11-24T20:17:00","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.wordpress.com\/?p=82"},"modified":"2015-11-24T20:17:00","modified_gmt":"2015-11-24T20:17:00","slug":"uma-analise-de-profundidade-apos-os-atentados-de-sexta-feira-13-de-novembro-em-paris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10658","title":{"rendered":"Uma an\u00e1lise de profundidade ap\u00f3s os atentados de sexta-feira 13 de novembro em Paris"},"content":{"rendered":"<p><strong>Por Bruno Lima Rocha<\/strong><\/p>\n<p>Na 6\u00aa feira 13 de novembro ocorre o segundo atentado na Fran\u00e7a no ano de 2015. Muitos se perguntam do porque o pa\u00eds haver se tornado um alvo? Embora j\u00e1 seja um tema reiterado, entendo que h\u00e1 relev\u00e2ncia em retomar este ponto. A Fran\u00e7a \u00e9 um alvo permanente por ao menos tr\u00eas raz\u00f5es. O primeiro \u00e9 mais relevante e se d\u00e1 pelo fato da Fran\u00e7a ter uma popula\u00e7\u00e3o de \u00e1rabe-descendentes na ordem de milh\u00f5es (mais de cinco milh\u00f5es) e uma propor\u00e7\u00e3o ainda maior de imigrantes se inclu\u00eddos os afro-descendentes, sendo uma parte razo\u00e1vel destes islamizados. Logo, qualquer atentado na Fran\u00e7a pode semear em solo \u201cf\u00e9rtil\u201d, considerando a discrimina\u00e7\u00e3o e linha de pobreza dos sub\u00farbios quentes das grandes cidades e a presen\u00e7a de discurso jihadista entre os jovens desempregados destas localidades.<\/p>\n<p>Outra raz\u00e3o \u00e9 o impacto simb\u00f3lico que um atentado em Paris traz; em sendo a \u201ccidade luz\u201d, Paris tem uma condi\u00e7\u00e3o de repercutir o que l\u00e1 ocorre em escala mundo, radicalizando as vers\u00f5es de \u201cchoque civilizat\u00f3rio\u201d, argumento que interessa tanto aos jihadistas sunitas como aos chauvinistas dos pa\u00edses ocidentais. Diria que o terceiro fator se d\u00e1 pelo passado colonial e sua presen\u00e7a atual. O ataque contra o hotel Radisson na capital do Mali \u2013 uma semana ap\u00f3s o ocorrido em Paris, na 6\u00aa dia 20 de novembro -, na \u00c1frica Ocidental refor\u00e7a este ponto de vista. No passado p\u00f3s 1\u00aa Guerra, a Fran\u00e7a \u00e9 a pot\u00eancia que organiza a Grande S\u00edria, primeiro como protetorado e na sequ\u00eancia no arranjo do confessionalismo pol\u00edtico da distribui\u00e7\u00e3o de poder. Ao voltar a intervir na regi\u00e3o, talvez como o fizera no Mali em 2012, a Fran\u00e7a atrai a possibilidade de atentados, ainda mais se considerarmos que o maior contingente jihadista fora do Oriente M\u00e9dio vem justamente do Estado franc\u00eas. A France Afrique, como \u00e9 conhecida a p\u00e9ssima pol\u00edtica externa francesa no continente africano retroalimenta a sanha integrista contra a presen\u00e7a da Legi\u00e3o Estrangeira na defesa de per\u00edmetros e instala\u00e7\u00f5es petrol\u00edferas assim como no com\u00e9rcio de armas para os governos locais.<\/p>\n<p>Outro fator relevante \u00e9 entender a espetaculariza\u00e7\u00e3o do confronto e do terror societ\u00e1rio. Os ataques da sexta-feira 13 foram todos em locais de lazer e divers\u00e3o &#8211; uma tradicional casa de shows, um est\u00e1dio de futebol, um restaurante, um bar. Logo, podemos arriscar a exist\u00eancia de uma raz\u00e3o simb\u00f3lica na motiva\u00e7\u00e3o destas a\u00e7\u00f5es e escolha dos alvos. Esta simbologia tem rela\u00e7\u00e3o com o segundo fator que listei acima. Ao demarcar a divers\u00e3o \u201cprofana\u201d como alvo militar, o jihadismo integrista consegue emitir um sinal de que nada nem ningu\u00e9m seriam inocentes e menos ainda estaria a salvo. O discurso \u00e9 pragm\u00e1tico: se o Ocidente mata crian\u00e7as em aldeias no meio do deserto, o jihadismo mata todo e qualquer cidad\u00e3o que por tabela seja c\u00famplice do Estado \u201cagressor\u201d. Este argumento absurdo \u00e9 bastante compreens\u00edvel pelas popula\u00e7\u00f5es tribais do Oriente M\u00e9dio e Magreb (norte da \u00c1frica) que est\u00e3o sendo organizadas pelos jihadistas do ISIS e da Al Qaeda (o ataque do Mali se deu atrav\u00e9s de uma filial da rede comandada pelo sheik Al Zawahiri, herdeiro de Bin Laden no comando da Al Qaeda). Em larga escala \u00e9 a guerra de 4\u00aa gera\u00e7\u00e3o em sua m\u00e1xima pot\u00eancia, sem regras e apoiada na barb\u00e1rie do c\u00e1lculo pol\u00edtico escuso por meios militares.<\/p>\n<p>Logo, a conseq\u00fc\u00eancia direta da expans\u00e3o do conceito de guerra total, de guerra de 4\u00aa gera\u00e7\u00e3o, \u00e9 colocar toda uma popula\u00e7\u00e3o sob suspeita. Muitos analistas \u2013 eu me incluo e assim venho afirmando em redes abertas \u2013 prev\u00eaem que o per\u00edodo que segue ser\u00e1 muito parecido com o p\u00f3s-11 de Setembro, com o p\u00e2nico anti-terrorismo e o crescimento da islamofobia. Agora a presen\u00e7a de milh\u00f5es de islamizados na Europa, somado ao fato da leva de refugiados e imigrantes recentes advindos do Oriente M\u00e9dio vai aumentar a rejei\u00e7\u00e3o aos novos imigrantes e servir de base para a extrema direita como forma de pressionar seus governos. As esquerdas europeias devem se mobilizar imediatamente para fazer um cord\u00e3o solid\u00e1rio ao redor das popula\u00e7\u00f5es \u00e1rabes e islamizadas, isto porque a islamofobia vai massificar ainda mais, seguindo na trilha dos atentados contra a reda\u00e7\u00e3o do jornal Charlie Hebdo.<\/p>\n<p>A xenofobia \u00e9 um \u201cpresente\u201d em tempos de crise econ\u00f4mica e ataques frontais ao Estado de Direitos consolidado na Europa de p\u00f3s-guerra e hoje sendo questionado. A bolha imobili\u00e1ria de 2008 e a criminosa especula\u00e7\u00e3o financeira que quebrara pa\u00edses como a Gr\u00e9cia traz \u201csa\u00eddas\u201d indefens\u00e1veis, conhecidas como austeridade, ou na vers\u00e3o cr\u00edtica, \u201causteric\u00eddio\u201d. No sentido de \u201cdividir para reinar\u201d, os poderes de fato da Uni\u00e3o Europeia (a Troika, da Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica, Banco Central Europeu e FMI) e os partidos hegem\u00f4nicos dos pa\u00edses europeus, v\u00e3o se utilizar da xenofobia para jogar trabalhadores contra imigrantes e refugiados e apontar os \u201cmales da Europa\u201d atual aos setores de credo isl\u00e2mico.<\/p>\n<p>Assim, a securitiza\u00e7\u00e3o amplia o tensionamento instalado na Europa com as ondas migrat\u00f3rias dos \u00faltimos meses. O primeiro impacto \u00e9 o fechamento de fronteiras e o acirramento de rivalidades hist\u00f3ricas, em especial no Leste europeu. N\u00f3s n\u00e3o dimensionamos at\u00e9 porque nossa forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica gira em torno da era das navega\u00e7\u00f5es e o Tratado de Tordesilhas, mas a disputa territorial entre a cristandade e o isl\u00e3 se manteve ap\u00f3s as cruzadas por mais 700 anos. A mesma presen\u00e7a dos mouros na Pen\u00ednsula Ib\u00e9rica foi t\u00e3o ou mais intensa no leste da Europa e na regi\u00e3o de maioria eslava. Basta ver os Estados onde a Igreja Ortodoxa se tornara religi\u00e3o de Estado \u2013a come\u00e7ar pela pr\u00f3pria R\u00fassia &#8211; e os embates na \u00c1sia Central, passando pela Batalha de Viena em 1683, epicentro de um conflito de 300 anos.<\/p>\n<p>A direita xen\u00f3foba e os governos destes pa\u00edses p\u00f3s-sovi\u00e9tivos sabem aproveitar esta mem\u00f3ria hist\u00f3rica para fechar fronteiras e radicalizar na pol\u00edtica contra os refugiados. Isto sobrecarrega os pa\u00edses l\u00edderes da Uni\u00e3o Europeia, como a Alemanha e a pr\u00f3pria Fran\u00e7a, levando-as ou a assumir responsabilidades no limite de seus or\u00e7amentos, ou a fazer coro com a xenofobia, ainda que com o discurso da securitiza\u00e7\u00e3o. Os efeitos &#8211; em sendo confirmados estas medidas (e creio que ser\u00e3o at\u00e9 como resposta ao eleitorado) &#8211; ser\u00e3o nefastos.<\/p>\n<p>A Guerra ao Terror \u00e9 uma estrat\u00e9gia derrotada e limitada a ca\u00e7a dos integristas e n\u00e3o seus financiadores<\/p>\n<p>O conjunto de interven\u00e7\u00f5es imperiais no Oriente Pr\u00f3ximo, iniciado com o novo ciclo de unilateralismo quase absoluto com a 2\u00aa invas\u00e3o ao Iraque abriu uma caixa de Pandora dentro da qual se confrontam rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-tribais e \u00e9tnico-religiosas dentro da guerra fria do mundo isl\u00e2mico, suced\u00e2nea da guerra fria do mundo \u00e1rabe, vencida pelos aliados dos EUA na regi\u00e3o. Os ataques da R\u00fassia contra as a\u00e7\u00f5es do Daesh (ISIS) no Levante e a perda de territ\u00f3rios por parte dos integristas (sendo seguidamente derrotados em armas pela esquerda do Curdist\u00e3o) acuaram \u2013 em parte \u2013 os seguidores do sheik Al-Baghdadi em sua dem\u00eancia concorrencial com a Al Qaeda. Mas, est\u00e1 vis\u00edvel que as a\u00e7\u00f5es b\u00e9licas contra o Daesh s\u00f3 s\u00e3o vitoriosas no ch\u00e3o, no terreno de opera\u00e7\u00f5es, atrav\u00e9s do guarda-chuva do PKK. Ap\u00f3s a sexta-feira 13 de novembro, a aproxima\u00e7\u00e3o da Fran\u00e7a com a R\u00fassia demonstra o fracasso e a derrota da pol\u00edtica dos EUA para o Oriente M\u00e9dio e o an\u00fancio de uma nova etapa do acionar do Ocidente \u2013 R\u00fassia inclu\u00edda \u2013 no cen\u00e1rio deflagrado do Levante e da Mesopot\u00e2mia.<\/p>\n<p>A \u00fanica forma de compreender o rearranjo entre Fran\u00e7a e R\u00fassia \u00e9 partir de uma premissa. Se n\u00f3s assumirmos a hip\u00f3tese de que as pot\u00eancias ocidentais, encabe\u00e7adas pelos EUA, queriam realmente fazer a Guerra ao Terror (GWOT na sigla em ingl\u00eas, uma pol\u00edtica de Estado aprovada pelo Ato Patri\u00f3tico de Bush JR), ent\u00e3o houve um fracasso rotundo. Mas, como qualquer analista internacional sabe, se n\u00e3o forem combatidas as fontes de financiamento vindas das monarquias do Golfo, Estados com governos totalit\u00e1rios e que compartilham do credo dos dirigentes da Al Qaeda e do ISIS (como Ar\u00e1bia Saudita e Qatar), ent\u00e3o tudo n\u00e3o passa de um faz de conta, onde h\u00e1 a repress\u00e3o contra as redes terroristas, mas nunca secam as fontes e suas origens societ\u00e1rias.<\/p>\n<p>Para frear esta sandice seria preciso um amplo rastreamento nas contas das entidades beneficiadoras \u2013 e o Departamento do Tesouro dos EUA tem essa lista \u2013 e o congelamento destas contas, assim como das pessoas f\u00edsicas que doam para estas entidades e tamb\u00e9m das empresas controladas por estes doadores. Este modo de opera\u00e7\u00e3o era realizado por Bin Laden sob treinamento da CIA para o combate a ocupa\u00e7\u00e3o da URSS ao Afeganist\u00e3o. Logo, \u00e9 de amplo conhecimento e pode ser pego. Isto assustaria os sheiks doadores e secaria em parte as fontes de financiamento indiretas. J\u00e1 ajudaria bastante, passando tamb\u00e9m pelo constrangimento das monarquias \u00e1rabes, a come\u00e7ar pela criminosa monarquia saudita, e, por tabela, nos seus s\u00f3cios ocidentais e globais (empresas de petr\u00f3leo operando na regi\u00e3o; s\u00f3 no Iraque s\u00e3o mais de 150 contratos em todos os n\u00edveis e escalas).<\/p>\n<p>Se algo assim n\u00e3o for feito, quem vai combater militarmente o ISIS ser\u00e3o as for\u00e7as conjuntas da R\u00fassia-Ir\u00e3-governo Assad-Hizballah por um lado (alimentando a guerra entre xiitas e sunitas) e por outro, derrotando no ch\u00e3o e modificando a estrutura societ\u00e1ria, as for\u00e7as da esquerda do Curdist\u00e3o coordenadas pelo PKK. No meu entendimento, somente o modelo pol\u00edtico do PKK, o Confederalismo Democr\u00e1tico, consegue propor uma pol\u00edtica inclusiva de todas as comunidades \u00e9tnico-culturais e \u00e9tnico-religiosas e ainda libertar a mulher de seu papel secund\u00e1rio, invertendo a domina\u00e7\u00e3o patriarcal e quebrando com a hierarquia do cl\u00e3-tribo, base de sustenta\u00e7\u00e3o dos integristas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruno Lima Rocha Na 6\u00aa feira 13 de novembro ocorre o segundo atentado na Fran\u00e7a no ano de 2015. Muitos se perguntam do porque o pa\u00eds haver se tornado um alvo? Embora j\u00e1 seja um tema reiterado, entendo que h\u00e1 relev\u00e2ncia em retomar este ponto. 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