{"id":10665,"date":"2015-12-23T11:56:58","date_gmt":"2015-12-23T13:56:58","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.wordpress.com\/?p=180"},"modified":"2015-12-23T11:56:58","modified_gmt":"2015-12-23T13:56:58","slug":"america-latina-guinada-a-direita-e-contraposicao-estrategica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10665","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina: guinada \u00e0 direita e contraposi\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica"},"content":{"rendered":"<p>Por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\">Bruno Lima Rocha<\/a> \u2013 23\/12\/2015<\/p>\n<p>\u201cSomos um Continente total ou parcialmente dominado por uma heran\u00e7a colonial maldita atrav\u00e9s do criollismo das fam\u00edlias europeias dos vice-reinados, cujo exemplo mais radical \u00e9 o brasileiro, onde o que resta de elite quatrocentona segue tendo pouca ou nenhuma identifica\u00e7\u00e3o com nosso pr\u00f3prio povo, fazendo a permanente op\u00e7\u00e3o pelo eixo euroc\u00eantrico e especificamente anglo-sax\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo. No Brasil, isto ganha a forma de complexo de vira-latas e entreguismo inveterado\u201d, escreve Bruno Lima Rocha.<\/p>\n<p>Eis o artigo<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos seis meses, a Am\u00e9rica Latina vem sofrendo com uma nova guinada \u00e0 direita, orientada para os des\u00edgnios do p\u00f3s-Consenso de Washington e, ideologicamente, voltada para o eixo de dom\u00ednio financeiro entre Nova York e Londres. O eterno contraponto em nosso continente se d\u00e1 em dois contrapontos vis\u00edveis, sendo que neste texto fa\u00e7o o aporte de um terceiro, com identidade coletiva e as op\u00e7\u00f5es da\u00ed derivadas.<\/p>\n<p>O primeiro contraponto que temos aqui deriva do fato de sermos total ou parcialmente dominados por uma heran\u00e7a colonial maldita atrav\u00e9s do criollismo das fam\u00edlias europeias dos vice-reinados, cujo exemplo mais radical \u00e9 o brasileiro, onde o que resta de elite quatrocentrona segue tendo pouca ou nenhuma identifica\u00e7\u00e3o com nosso pr\u00f3prio povo, fazendo a permanente op\u00e7\u00e3o pelo eixo euroc\u00eantrico e especificamente anglo-sax\u00e3o do mundo contempor\u00e2neo. Nota-se tal modelo nas manifesta\u00e7\u00f5es mais \u00e0 direita, mesmo as de corte liberal (liberal-democrata), e na forma\u00e7\u00e3o de fra\u00e7\u00f5es de classe dominante que n\u00e3o hesitam em liquidar patrim\u00f4nio, recusando-se em ser classe dominante de pa\u00edses emergentes ou com voca\u00e7\u00e3o para pot\u00eancia m\u00e9dia (como \u00e9 o caso brasileiro).<\/p>\n<p>O segundo contraponto \u00e9 mais reivindic\u00e1vel, embora tenha esgotado seu ciclo e, em termos de estrat\u00e9gia econ\u00f4mica e teoria do desenvolvimento, venha tendo voos de galinha e maximizando ainda a heran\u00e7a colonial. Refiro-me, obviamente, a chamada virada democr\u00e1tica iniciada com a elei\u00e7\u00e3o de Hugo Ch\u00e1vez para a Presid\u00eancia da Venezuela (em dezembro de 1998) e cujo fim de ciclo percebe-se no pa\u00eds hoje governado por Nicol\u00e1s Maduro, assim como na elei\u00e7\u00e3o de um menemista para a Casa Rosada na Argentina (Mauricio Macri) e a crise pol\u00edtica brasileira que n\u00e3o termina. Brasil (atrav\u00e9s do pacto lulista), Argentina (com a linha Kirchner e a reconfigura\u00e7\u00e3o de um peronismo \u201cnacionalista\u201d), Paraguai (que sofrera golpe branco), Venezuela (chavista e pouco bolivariana), Honduras (tamb\u00e9m passando por um golpe branco), Chile (cuja ades\u00e3o ao modelo foi sempre parcial), Nicar\u00e1gua (com a elei\u00e7\u00e3o de Ortega e o alinhamento chin\u00eas e russo), El Salvador (com a FMLN transformada em t\u00edmido partido social-democrata), Uruguai (com a Frente Ampla flertando assinar Tratado de Livre Com\u00e9rcio com os EUA), Peru (com o falso alvaradismo de Ollanta Humala), al\u00e9m de Bol\u00edvia (com Evo) e Equador (com Correa) aplicando reformas constitucionais para a reedi\u00e7\u00e3o permanente de mandatos, s\u00e3o a prova viva de que nossos pa\u00edses n\u00e3o completaram sequer uma institucionaliza\u00e7\u00e3o republicana inclusiva, que dir\u00e1 poder exercer em grande medida uma pol\u00edtica soberana de seus pr\u00f3prios recursos estrat\u00e9gicos, a come\u00e7ar por min\u00e9rios e recursos h\u00eddricos.<\/p>\n<p>Insisto neste segundo contraponto, pois a\u00ed se d\u00e1 a ilus\u00e3o do exerc\u00edcio do Poder Executivo e a necessidade de conformar uma elite dirigente com passado no campo nacional-popular e desejando servir a uma classe dominante com voca\u00e7\u00e3o latino-americanista.\u00a0 Tal setor de classe n\u00e3o existe e, seguindo a conta da geopolitik como reflexo internacional da real politik e das vari\u00e1veis do realismo, terminamos por aderir de forma total ou parcial aos seguintes equ\u00edvocos: pol\u00edticas de curto prazo refor\u00e7ando explora\u00e7\u00e3o hidromineral; alinhamento com o eixo dos BRICS (o que em termos globais \u00e9 correto), mas sem uma proje\u00e7\u00e3o distinta al\u00e9m da promo\u00e7\u00e3o das Transnacionais (TNCs) brasileiras em novas fronteiras econ\u00f4micas (como na \u00c1frica); falta de concerta\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica para diminuir a depend\u00eancia financeira e tamb\u00e9m pol\u00edtico-jur\u00eddica junto ao capital parasit\u00e1rio a corroer a maior parte dos recursos de nossos pa\u00edses (vide o caso na nova inflex\u00e3o de Guido Mantega \u00e0 frente da pasta da Fazenda no primeiro governo Dilma e o or\u00e7amento limitado diante dos gastos com o esp\u00f3lio rentista).<\/p>\n<p>Se somarmos estas escolhas do Poder Executivo comandado por militantes de ex-esquerda (ao menos assim o eram no per\u00edodo da Bi-polaridade ou na democratiza\u00e7\u00e3o), mais ao posicionamento da direita ideol\u00f3gica da Am\u00e9rica Latina, perceberemos que o desafio de um capitalismo perif\u00e9rico em nossos pa\u00edses \u00e9 justamente a necessidade de planejamento estrat\u00e9gico e concerta\u00e7\u00e3o entre elites dirigentes, tecnocracia e setores de classe dominante dispostos a confrontar suas matrizes pol\u00edtico-ideol\u00f3gico-jur\u00eddicas do \u201cocidente\u201d capitalista. \u00c9 justo neste quesito que as teorias do desenvolvimento, em maior ou menor grau, se deparam com o dilema da depend\u00eancia e sua limita\u00e7\u00e3o do posicionamento do andar de cima da pir\u00e2mide social e a presen\u00e7a de grupos de TNCs n\u00e3o latino-americanas aprofundando a interdepend\u00eancia e a perda de poder de tomada de decis\u00e3o por parte dos governos de turno. Ou seja, sa\u00eddas estruturais implicam em posicionamentos p\u00f3s-coloniais e n\u00e3o em reedi\u00e7\u00f5es de inser\u00e7\u00e3o perif\u00e9rica no capitalismo do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n<p>Assim, a dimens\u00e3o do terceiro contraponto \u00e9 a aus\u00eancia do que vamos afirmar aqui. A \u00fanica possibilidade de avan\u00e7armos para uma segunda independ\u00eancia \u00e9 conquistar mais espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a amplia\u00e7\u00e3o de experimentalismos institucionais para radicalizar nossas democracias, ultrapassando o formalismo e o arranjo entre poderes republicanos j\u00e1 estabelecidos. Assim, o que afirmei acima como segundo contraponto n\u00e3o coaduna com a capacidade de realiza\u00e7\u00e3o.\u00a0 Por exemplo, na Bol\u00edvia, a constitui\u00e7\u00e3o p\u00f3s-Evo prev\u00ea formas comunais de Justi\u00e7a, mas toda esta realiza\u00e7\u00e3o depende necessariamente da perman\u00eancia do MAS e do pr\u00f3prio Morales no centro do poder pol\u00edtico. Obviamente, se a longevidade das institui\u00e7\u00f5es leva ao seu aprimoramento, o mesmo vale tamb\u00e9m para a institucionalidade que nasce do poder do povo, em especial se esta tem ra\u00edzes na resist\u00eancia latino-americana anticolonial. O exemplo dado acima pode ser universalizado dentro do desafio de proteger territ\u00f3rios e criar outras formas de vida, de modo a ter na base de nossas sociedades, poderosas organiza\u00e7\u00f5es populares com poder de veto sobre o sistema jur\u00eddico e pol\u00edtico, criando uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as distinta da atual, onde a legitimidade anda distante da legalidade, a come\u00e7ar pelo modelo de democracia de representa\u00e7\u00e3o e partidos de tipo burgu\u00eas, com intermedi\u00e1rios profissionais e carreiras pol\u00edticas longevas.<\/p>\n<p>Superadas as ilus\u00f5es do capitalismo perif\u00e9rico e do pacto de classes como alternativa a nossas sociedades latino-americanas, \u00e9 poss\u00edvel antever que durante o caos da nova restaura\u00e7\u00e3o burguesa e neoliberal (a exemplo dos anos \u201990), tenhamos o emergir de vigorosos movimentos populares de perfil latino-americano e anticolonial.<\/p>\n<p>Publica\u00e7\u00e3o original na vers\u00e3o digital e impressa para a Coluna Cr\u00edtica Internacional da Revista do IHU \u2013 No. 479 \u2013 ano XV \u2013 21\/12\/2015<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Bruno Lima Rocha \u2013 23\/12\/2015 \u201cSomos um Continente total ou parcialmente dominado por uma heran\u00e7a colonial maldita atrav\u00e9s do criollismo das fam\u00edlias europeias dos vice-reinados, cujo exemplo mais radical \u00e9 o brasileiro, onde o que resta de elite quatrocentona segue tendo pouca ou nenhuma identifica\u00e7\u00e3o com nosso pr\u00f3prio povo, fazendo a permanente op\u00e7\u00e3o pelo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":183,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,36],"tags":[],"class_list":["post-10665","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-politica-internacional"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10665","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10665"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10665\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/183"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10665"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10665"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10665"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}