{"id":10681,"date":"2016-01-06T11:39:54","date_gmt":"2016-01-06T13:39:54","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.wordpress.com\/?p=335"},"modified":"2016-01-06T11:39:54","modified_gmt":"2016-01-06T13:39:54","slug":"carta-de-repudio-a-instauracao-da-cpi-funaiincra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10681","title":{"rendered":"Carta de Rep\u00fadio \u00e0 instaura\u00e7\u00e3o da CPI FUNAI\/INCRA"},"content":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o: \u00a0nesta postagem inauguramos o espa\u00e7o para a defesa de posi\u00e7\u00f5es de movimentos sociais e populares, territoriais e dos povos origin\u00e1rios e quilombolas. Esperamos \u00a0com isso \u00a0abrir um espa\u00e7o de debate e difus\u00e3o amplo e radical, trazendo a urg\u00eancia do direito ancestral para confrontar os modelos de capitalismo perif\u00e9rico ou transnacional, \u00a0ambos ancorados no genoc\u00eddio de nossas culturas remanescentes e de resist\u00eancia. 1500 \u00a0n\u00e3o acabou e Zumbi tampouco morreu, \u00a0se eterniza nas formas de luta e resist\u00eancia da segunda maior popula\u00e7\u00e3o afro-descendente do \u00a0planeta.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Instituto de Assessoria \u00e0s Comunidades de Remanescentes de Quilombos \u2013 RS \u2013 IACOREQ\/RS<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Est\u00e1 prevista para o dia 11 de novembro de 2015 a constitui\u00e7\u00e3o da CPI FUNAI\/INCRA que ser\u00e1 presidida pelo deputado federal Alceu Moreira (PMDB\/RS). Tal CPI tem como objetivo investigar, entre outras coisas, den\u00fancias a respeito de \u201claudos fraudulentos\u201d. Entre os casos a serem investigados est\u00e1 a situa\u00e7\u00e3o da comunidade quilombola de Morro Alto, localizada nos munic\u00edpios de Maquin\u00e9 e Os\u00f3rio, litoral norte do estado do Rio Grande do Sul. Neste sentido, a equipe respons\u00e1vel pelo laudo antropol\u00f3gico da citada comunidade (\u201cComunidade Negra de Morro Alto: Historicidade, Identidade e Territorialidade\u201d) vem, por meio desta, expressar o seu <strong>REP\u00daDIO<\/strong> a tal iniciativa, cientes de que a mesma representa um degrau a mais na escalada genocida e etnocida das comunidades ind\u00edgenas e quilombolas na sociedade brasileira. Portanto, o presente manifesto procura pontuar elementos que dizem respeito ao of\u00edcio do antrop\u00f3logo quando em situa\u00e7\u00f5es de per\u00edcia, evidenciando a fal\u00e1cia e a desonestidade compostas na no\u00e7\u00e3o de \u201c<strong>LAUDO FRAUDULENTO\u201d<\/strong>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol>\n<li>A primeira no\u00e7\u00e3o a ser desconstru\u00edda diz respeito \u00e0 <strong>FRAUDE<\/strong>. Em termos gerais, fraude implica numa a\u00e7\u00e3o de m\u00e1-f\u00e9, na qual os seus autores usam de manipula\u00e7\u00e3o para obten\u00e7\u00e3o de ganhos pessoais. No caso espec\u00edfico das comunidades alvo de tal CPI, a no\u00e7\u00e3o de fraude se apresenta na ideia de que os grupos estariam manipulando e falsificando deliberadamente suas identidades, assim como no pressuposto de que inventam territ\u00f3rios de forma completamente livre e sem crit\u00e9rios. O laudo e\/ou relat\u00f3rio antropol\u00f3gico se apresentaria como o grande validador deste processo de falsifica\u00e7\u00e3o irrestrita. Esta falsifica\u00e7\u00e3o teria enquanto voca\u00e7\u00e3o a manipula\u00e7\u00e3o de identidade(s) com fins estritamente instrumentais: ind\u00edgenas e quilombolas manipulando suas identidades de forma desonesta com o objetivo de um ganho direto de privil\u00e9gios territoriais e acesso a recursos naturais (como se fossem visitantes em seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios). Ora, tudo que a experi\u00eancia imediata junto a estes grupos sociais demonstra \u00e9 o <strong>ABSURDO<\/strong> da posi\u00e7\u00e3o acima relatada. As situa\u00e7\u00f5es concretas revelam realidades nas quais a iniciativa pelo reconhecimento pelas vias p\u00fablicas transforma o cotidiano destas comunidades, tornando-o ainda mais penoso: o aumento da viol\u00eancia e de repres\u00e1lias nas arenas locais, a perda de postos de emprego (j\u00e1 que para muitos a empregabilidade se d\u00e1 no entorno das comunidades) e a aten\u00e7\u00e3o redobrada com os limites de seus territ\u00f3rios ancestrais e dos recursos naturais neles inscritos s\u00e3o alguns exemplos. Igualmente, a morosidade nos processos de titula\u00e7\u00e3o acaba complicando ainda mais o quadro, j\u00e1 que as comunidades, uma vez reconhecidas, nem sempre tem a aten\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas que possibilitem a manuten\u00e7\u00e3o do processo em curso (e que contou com o laudo\/relat\u00f3rio como uma de suas etapas). Portanto, ao inv\u00e9s de fraude ou falsifica\u00e7\u00e3o de identidades (supostamente expressa nos laudos), que teria como foco ganhos instrumentais, encontramos processos de reconhecimento <strong>PROFUNDAMENTE ENRAIZADOS NOS HORIZONTES MORAIS<\/strong> destas coletividades. As lutas conduzidas diariamente na busca por justi\u00e7a retiram qualquer possibilidade de fraude. A pergunta aqui deveria ser outra: o que permite que esses grupos continuem lutando, n\u00e3o obstante todos os processos de viol\u00eancia e alijamento hist\u00f3rico ao qual s\u00e3o submetidos? A resposta parece \u00f3bvia e n\u00e3o tem nada a ver com fraude ou ganhos instrumentais.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>A no\u00e7\u00e3o de <strong>NEUTRALIDADE<\/strong> tamb\u00e9m aparece no argumento equivocado que busca desqualificar o direito \u00e0 auto-atribui\u00e7\u00e3o dos grupos \u00e9tnicos acima referidos, assegurado por lei, bem como na suposi\u00e7\u00e3o de um papel completamente distorcido do antrop\u00f3logo no contexto de per\u00edcia. H\u00e1 muito a no\u00e7\u00e3o de neutralidade foi tema discutido no \u00e2mbito das ci\u00eancias humanas, de modo a consider\u00e1-la mais um argumento para ser desconstru\u00eddo do que uma refer\u00eancia que possibilite a an\u00e1lise das realidades dos grupos pesquisados. O que de fato deve ser considerado em termos de referencial \u00e9 o comprometimento \u00e9tico do antrop\u00f3logo, a partir do qual buscar\u00e1 contextualizar n\u00e3o somente o seu objeto, mas seu lugar no \u00e2mbito profissional. A necess\u00e1ria aproxima\u00e7\u00e3o e o devido distanciamento est\u00e3o fundamentados no \u00e2mbito da Antropologia desde as primeiras pesquisas etnogr\u00e1ficas. A suposta neutralidade, na qual est\u00e1 fundamentada a argumenta\u00e7\u00e3o da CPI FUNAI\/INCRA, traz em si mesma a contradi\u00e7\u00e3o quanto ao uso do ju\u00edzo de valor por parte de quem questiona o crit\u00e9rio de auto-atribui\u00e7\u00e3o dos grupos \u00e9tnicos, ou seja, os n\u00e3o quilombolas e n\u00e3o ind\u00edgenas, e a tentativa de definir os par\u00e2metros quanto \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios \u00e9tnicos. O desrespeito quanto ao papel do antrop\u00f3logo em contexto de laudos demonstra a fragilidade da argumenta\u00e7\u00e3o da CPI. A tentativa de desqualifica\u00e7\u00e3o tanto dos povos ind\u00edgenas e das comunidades \u00e9tnicas como dos profissionais de Antropologia por parte do deputado federal Alceu Moreira aponta para a aus\u00eancia de responsabilidade dos agentes pol\u00edticos, sobretudo no que tange aos direitos dos povos e comunidades tradicionais, estabelecidos no Decreto 6.040 de 7 de fevereiro de 2007 que institui a Pol\u00edtica Nacional de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel dos Povos e Comunidades Tradicionais.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A Comunidade Quilombola de Morro Alto recebeu sua certid\u00e3o de Auto-Defini\u00e7\u00e3o em 04 de junho de 2004. O processo de identifica\u00e7\u00e3o e titula\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio ocorreu em 2001 por meio do Conv\u00eanio n\u00ba 002\/2001, firmado entre a Funda\u00e7\u00e3o Cultural Palmares\/MinC e o Governo do Estado do Rio Grande do Sul, a partir de projeto apresentado pela Secretaria Estadual do Trabalho, Cidadania e A\u00e7\u00e3o Social (STCAS), fruto da articula\u00e7\u00e3o do Conselho do Desenvolvimento e Participa\u00e7\u00e3o da Comunidade Negra (CODENE) e do Movimento Negro do RS. Nesta ocasi\u00e3o, foi aprovado o referido projeto pela FCP\/MinC, que repassou recursos para a STCAS\u00a0 realizar o trabalho de identifica\u00e7\u00e3o e titula\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rio de cinco Comunidades Quilombolas do RS: Morro Alto, Arvinha, Morma\u00e7a, S\u00e3o Miguel e Martimianos e Casca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o realizado o relat\u00f3rio t\u00e9cnico de identifica\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio das cinco comunidades por meio da contrata\u00e7\u00e3o de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul\/UFRGS. No caso de Morro Alto, trata-se do relat\u00f3rio elaborado por equipe multidisciplinar vinculada ao N\u00facleo de Antropologia e Cidadania\/ NACI, Departamento de Antropologia\/UFRGS. A equipe t\u00e9cnica contou com cerca de 15 pesquisadores das \u00e1reas de antropologia, hist\u00f3ria, geografia e arqueologia, al\u00e9m do acompanhamento e contribui\u00e7\u00e3o do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal\/PGR-RS. Cabe ressaltar que a composi\u00e7\u00e3o da equipe t\u00e9cnica considerou a experi\u00eancia em pesquisa de campo e em coleta de dados etnogr\u00e1ficos, indispens\u00e1veis ao longo dos quatro cap\u00edtulos do relat\u00f3rio. Ressalta-se a necessidade de di\u00e1logo entre diferentes \u00e1reas de conhecimentos para a coleta e an\u00e1lise de dados acerca do v\u00ednculo mantido pela Comunidade Quilombola Morro Alto com o seu territ\u00f3rio, argumento central do relat\u00f3rio, al\u00e9m dos aspectos concernentes a ancestralidade, parentalidade, hist\u00f3ria da ocupa\u00e7\u00e3o negra e sustentabilidade.\u00a0 A pesquisa em Morro Alto foi realizada no per\u00edodo compreendido entre agosto de 2001 e outubro de 2002. O relat\u00f3rio antropol\u00f3gico foi publicado no ano de 2004 pela Editora da UFRGS, assim como os demais relat\u00f3rios elaborados na mesma \u00e9poca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A demanda pela titula\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio quilombola de Morro Alto partiu de sua representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a Associa\u00e7\u00e3o Quilombola Rosa Os\u00f3rio Marques, motivada pela presen\u00e7a das obras de duplica\u00e7\u00e3o da BR-101 SC\/RS no Trecho Torres-Os\u00f3rio, de responsabilidade do Departamento Nacional de Infra-Estrutura e Transporte-DNIT\/MT, que atingiria seu territ\u00f3rio. A comunidade sofre com os processos de expropria\u00e7\u00e3o de seu territ\u00f3rio tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o da presen\u00e7a de pedreiras, usina de \u00e1lcool e especula\u00e7\u00f5es imobili\u00e1rias. As cercas \u201candavam\u201d, como muitos moradores testemunharam, a cada interfer\u00eancia ou conflito vivenciado pelos quilombolas quando dos processos de perda de suas terras.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O territ\u00f3rio da Comunidade de Morro Alto engloba as localidades denominadas: Morro Alto, Ribeir\u00e3o, Prainha, Aguap\u00e9s, Barranceira, Faxinal do Morro Alto e parte de Espraiado. A \u00e1rea total \u00e9 de 4.564,4284 hectares, destinada \u00e0s 456 fam\u00edlias quilombolas. Sob responsabilidade do INCRA, a partir do Decreto 4887\/2003, o relat\u00f3rio ainda n\u00e3o obteve a Portaria de Publica\u00e7\u00e3o no DOU. Acerca do licenciamento das obras de duplica\u00e7\u00e3o da BR-101, estas foram realizadas. Por interven\u00e7\u00e3o do MPF\/RS, em 2006, houve necessidade de elabora\u00e7\u00e3o de novo EIA\/RIMA em fun\u00e7\u00e3o da manipula\u00e7\u00e3o, por parte do Instituto Militar de Engenharia, do texto anteriormente elaborado pelo antrop\u00f3logo respons\u00e1vel. No ano de 2007, foi elaborado o Programa B\u00e1sico de Apoio para a realiza\u00e7\u00e3o das medidas compensat\u00f3rias e mitigat\u00f3rias. Atualmente a Comunidade Quilombola de Morro Alto aguarda pela efetiva\u00e7\u00e3o de tais medidas (em parte realizadas) e pelo processo de regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, ainda paralisado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Contato para maiores informa\u00e7\u00f5es, <a href=\"http:\/\/salaini@gmail.com\">Cristian Salaini<\/a> \u2013 prof. Dr,\u00a0 antrop\u00f3logo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Introdu\u00e7\u00e3o: \u00a0nesta postagem inauguramos o espa\u00e7o para a defesa de posi\u00e7\u00f5es de movimentos sociais e populares, territoriais e dos povos origin\u00e1rios e quilombolas. Esperamos \u00a0com isso \u00a0abrir um espa\u00e7o de debate e difus\u00e3o amplo e radical, trazendo a urg\u00eancia do direito ancestral para confrontar os modelos de capitalismo perif\u00e9rico ou transnacional, \u00a0ambos ancorados no genoc\u00eddio [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":339,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,40],"tags":[],"class_list":["post-10681","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica-brasileira","category-territorios"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10681","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10681"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10681\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/339"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10681"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10681"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10681"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}