{"id":10711,"date":"2016-02-24T18:31:39","date_gmt":"2016-02-24T21:31:39","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.wordpress.com\/?p=531"},"modified":"2016-02-24T18:31:39","modified_gmt":"2016-02-24T21:31:39","slug":"a-revolucao-cabana-e-a-modernizacao-capitalista-na-amazonia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10711","title":{"rendered":"A Revolu\u00e7\u00e3o Cabana e a Moderniza\u00e7\u00e3o Capitalista na Amaz\u00f4nia"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/fabiano.bringel\">Fabiano Bringel<\/a> \u2013 24 de fevereiro de 2016<\/p>\n<p>Um dos sintomas de esgotamento da extra\u00e7\u00e3o das Drogas do Sert\u00e3o e do Projeto Pombalino, pol\u00edticas criadas por Marqu\u00eas de Pombal para a Amaz\u00f4nia, foi \u00e0 eclos\u00e3o da Cabanagem (1835-1840). Os \u201cdeserdados\u201d, na sua ess\u00eancia \u00edndios e negros, levantaram-se e instauraram a maior \u201crevolta regional\u201d do Brasil. Durante cinco anos e tr\u00eas governos cabanos aconteceu uma experi\u00eancia real de <em>poder popular<\/em> na parte setentrional do pa\u00eds. No dia 07 de janeiro de 1835, data do levante, os Cabanos decretaram independ\u00eancia do Brasil com o assassinato dos principais dirigentes da Prov\u00edncia, representantes do poder central, e de in\u00fameros portugueses que controlavam e concentravam as riquezas.<\/p>\n<p>Domingos Antonio Raiol, o Bar\u00e3o de Guajar\u00e1, uma das \u201cv\u00edtimas\u201d da viol\u00eancia (seu pai foi assassinado pelos Cabanos na Vila de Vigia) e da expropria\u00e7\u00e3o (v\u00e1rias de suas propriedades foram socializadas pelos revolucion\u00e1rios) \u00e9 uma das refer\u00eancias para quem quer estudar minuciosamente o movimento. Em seu cl\u00e1ssico <em>Motins Pol\u00edticos ou Hist\u00f3ria dos Principais Acontecimentos pol\u00edticos da Prov\u00edncia do Par\u00e1 desde o Ano de 1821 at\u00e9 1835<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a><\/em> descreve os principais elementos que envolveram o epis\u00f3dio. N\u00e3o esquecendo o <em>lugar<\/em> de tal descri\u00e7\u00e3o j\u00e1 que o Bar\u00e3o era uma das principais lideran\u00e7as da classe dominante. Raiol caracteriza assim o evento<\/p>\n<p><em>A anarquia reinava desde o princ\u00edpio do ano, e o movimento descido \u00e0 \u00faltima escala social. Dominavam os turbulentos, os analfabetos, os homens sem conceito, para quem era indiferente a perturba\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica. Sem terem que perder, \u00easses indiv\u00edduos estavam dispostas a entrar em qualquer aventura que se lhes deparasse. Os motins eram-lhes jogos de azar, nos quais poderia ser-lhes favor\u00e1vel a sorte. [&#8230;] como aos referidos desordeiros, que viviam ociosos, fora de seus domic\u00edlios, sem amor ao trabalho, exaustos de recursos e sem habilita\u00e7\u00f5es. (RAIOL, 1970:805)<\/em><\/p>\n<p>A Cabanagem se escalona regionalmente chegando \u00e0 parte do Maranh\u00e3o e penetrando no atual Estado do Amazonas. Ganhou a cidade de Manaus no dia 06 de mar\u00e7o de 1836 e subiu o Alto Amazonas. Essa \u201ccampanha\u201d liderada por Apolin\u00e1rio Maparajuba mobilizou uma tropa de duas mil pessoas. Podemos, ent\u00e3o, falar tranquilamente que o movimento cabano ganha ares de guerra de liberta\u00e7\u00e3o nacional. Talvez a maior que o Brasil j\u00e1 viu. Segundo o Coronel Gustavo Moraes Rego, em seu cl\u00e1ssico estudo sobre os aspectos militares da Cabanagem, o movimento se distinguia pela \u2018efetiva e dominante participa\u00e7\u00e3o das massas; a ascens\u00e3o de l\u00edderes dos mais baixos estratos da sociedade; a viol\u00eancia sem freios da rebeli\u00e3o e a escala que a insurrei\u00e7\u00e3o conseguiu, tomando o poder e mantendo-o por um tempo consider\u00e1vel\u2019.<\/p>\n<p>Apesar de todos os elementos que localizam a cabanagem como um dos movimentos com maior protagonismo popular no Brasil pesam algumas reflex\u00f5es que seus objetivos n\u00e3o constitu\u00edram um projeto revolucion\u00e1rio de sociedade. Que os cabanos jamais apresentaram um projeto pol\u00edtico, um modelo de sociedade ou um programa de reformas sociais. Embora, agissem com extrema viol\u00eancia e seus l\u00edderes proclamassem violentos discursos contra os ricos e os portugueses, em nenhum momento os cabanos trataram formalmente abolir a escravid\u00e3o. Respondemos que realmente n\u00e3o existe nenhum registro de um programa ou de um projeto formal de mudan\u00e7as para que pud\u00e9ssemos chamar a Cabanagem de \u201crevolucion\u00e1ria\u201d. Suas principais lideran\u00e7as eram, na sua maioria, gente oriunda das classes populares e, quando se trata de Amaz\u00f4nia, pessoas com origem negra e ind\u00edgena. Al\u00e9m disso, havia uma heterogeneidade de aspira\u00e7\u00f5es em seu meio. Desde o escravo negro buscando livrar-se dos grilh\u00f5es que o aprisionava at\u00e9 o branco empobrecido que lutava contra a explora\u00e7\u00e3o excessiva dos comerciantes portugueses.<\/p>\n<p>Vale ainda ressaltar que o principal ve\u00edculo de enuncia\u00e7\u00e3o n\u00e3o eram livros ou panfletos com <em>grafias<\/em> especificas e especializadas como se fazia na Europa \u201crevolucion\u00e1ria\u201d do XIX. Seguindo a tradi\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia dos povos aut\u00f3ctones, os cabanos tinham na oralidade sua principal fonte de propaga\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de ideais. Talvez a\u00ed resida sua for\u00e7a e, ao mesmo tempo, sua fragilidade. For\u00e7a, porque n\u00e3o se encontravam em nenhum alfarr\u00e1bio suas t\u00e1ticas, estrat\u00e9gias e princ\u00edpios dificultando a a\u00e7\u00e3o da repress\u00e3o. E debilidade, porque, para os \u201chomens\u201d da <em>grafia<\/em>, da ci\u00eancia e da racionalidade o movimento cabano continua sendo desclassificado como um movimento espontane\u00edsta que \u201cn\u00e3o tinha um programa revolucion\u00e1rio\u201d de mudan\u00e7as.<\/p>\n<p>Apresentamos aqui essa pequena reflex\u00e3o sobre a Cabanagem para situar um marco de transforma\u00e7\u00e3o no cen\u00e1rio espa\u00e7o-temporal da regi\u00e3o. A passagem do vetor econ\u00f4mico marcado pelas Drogas do Sert\u00e3o para um novo vetor, o da Borracha. Dessa vez, com a instala\u00e7\u00e3o de um capital mercantil burgu\u00eas.<\/p>\n<p>Tal passagem para uma fase \u201c\u00e1urea\u201d da Amaz\u00f4nia com o \u201cboom\u201d da borracha se deu mediante os escombros da Cabanagem e o per\u00edodo de um intenso processo de persegui\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o aos sobreviventes da insurrei\u00e7\u00e3o. Para ilustrar, afirmamos aqui que a repress\u00e3o na Cabanagem custou \u00e0 vida de mais de trinta mil pessoas, aproximadamente um quinto da popula\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o na \u00e9poca.<\/p>\n<p>A reorganiza\u00e7\u00e3o da sociedade amaz\u00f4nica mais uma vez se deu a partir de violenta militariza\u00e7\u00e3o sob o comando do Estado. Esse fen\u00f4meno que sempre esteve presente na hist\u00f3ria da Amaz\u00f4nia, dessa vez, foi protagonizado por Francisco Jos\u00e9 de Souza Soares d\u2019Andrea, Presidente e Comandante de Armas da Prov\u00edncia do Par\u00e1, em 1838, nos \u00faltimos suspiros da revolu\u00e7\u00e3o. Suas preocupa\u00e7\u00f5es centrais foram \u00e0 repress\u00e3o e a reorganiza\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica com o princ\u00edpio orientador da nega\u00e7\u00e3o do absente\u00edsmo.<\/p>\n<p>Tal perspectiva objetivava a reorganiza\u00e7\u00e3o do trabalho sob o controle do Estado procurando a elimina\u00e7\u00e3o do \u201c\u00f3cio\u201d e fazendo recrutamento compuls\u00f3rio de m\u00e3o de obra n\u00e3o-branca para a reconstru\u00e7\u00e3o da infraestrutura e para servi\u00e7os de particulares ligados ao <em>status quo<\/em> da \u00e9poca. O mecanismo encontrado para isso foi o <em>Corpo de Trabalhadores.<\/em> Essa institui\u00e7\u00e3o foi um instrumento de coer\u00e7\u00e3o ao trabalho de \u201c\u00edndios, mesti\u00e7os e pretos n\u00e3o escravos\u201d e sem propriedades ou ocupa\u00e7\u00f5es reconhecidas como constantes. Institu\u00eddos no contexto da repress\u00e3o ao movimento cabano.<\/p>\n<p>Essa \u201cdisciplinariza\u00e7\u00e3o\u201d da for\u00e7a de trabalho foi \u00e0 marca da transi\u00e7\u00e3o para fase gom\u00edfera. Em 1849, um pouco menos de dez anos depois da derrota da Cabanagem, existiam nove Corpos de Trabalhadores mantidos pela Prov\u00edncia do Par\u00e1, com um efetivo de 7.626 indiv\u00edduos relativamente desorganizados pela falta de novos alistamentos e pelo pequeno n\u00famero de alistados. \u00c9 no interior desse efetivo que v\u00e3o ser encontrados os primeiros trabalhadores convertidos em seringueiros para trabalhar e, assim, dinamizar o novo vetor econ\u00f4mico para regi\u00e3o.<\/p>\n<p>Para Amaz\u00f4nia isso significou novos ares de uma relativa moderniza\u00e7\u00e3o capitalista. Os grandes investimentos, antes empregados no com\u00e9rcio de escravos, s\u00e3o reconduzidos e investidos em atividades agora mais rendosas como bancos, empresas de navega\u00e7\u00e3o, ind\u00fastrias e companhias de com\u00e9rcio. Os ares de moderniza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio rebatem no espa\u00e7o amaz\u00f4nico a partir dos seguintes elementos: i) fragmenta\u00e7\u00e3o territorial. Temos a instala\u00e7\u00e3o efetiva da Prov\u00edncia do Amazonas em 1852 redesenhando a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as entre a elite local articulada com a internacional; ii) introdu\u00e7\u00e3o da navega\u00e7\u00e3o \u00e0 vapor. Novo sistema t\u00e9cnico de transporte introduzido nos rios da Amaz\u00f4nia atrav\u00e9s da Companhia de Navega\u00e7\u00e3o do Bar\u00e3o de Mau\u00e1; iii) isso possibilitou maior circula\u00e7\u00e3o, al\u00e9m das mercadorias, notavelmente a borracha, de pessoas e informa\u00e7\u00e3o. Novas ideias come\u00e7aram a <em>circular <\/em>embaladas pelos novos imigrantes sejam eles europeus ou mesmo de mascates de origem hebraica e \u00e1rabe que come\u00e7aram a explorar os com\u00e9rcios nos regat\u00f5es<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> e, por fim, na estrutura fundi\u00e1ria que atrav\u00e9s da Lei de Terras d\u00e1 acesso \u00e0 terra e, logo, aos seringais, a um subestrato importante da elite.<\/p>\n<p>Se morreu a Cabanagem. Viva a Cabanagem. No seu anivers\u00e1rio de 181 anos que fique o seu legado de luta e organiza\u00e7\u00e3o. Pois, como fala parte do hino da corrente social libert\u00e1ria Resist\u00eancia Popular \u201cTremam os covardes por nosso amor. \u00c0 liberdade, bravo valor. Vinguemos o sangue derramado, varrendo da terra o opressor. Viva os que preferem a morte \u00e0 vergonha da retirada. Viva a Amaz\u00f4nia, livre e em luta. Morram os tiranos. Viva a Cabanagem!\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>RAIOL, Domingos Antonio Raiol. Motins Pol\u00edticos ou Hist\u00f3ria dos Principais Acontecimentos pol\u00edticos da Prov\u00edncia do Par\u00e1 desde o Ano de 1821 at\u00e9 183. Bel\u00e9m: EDUFPA, 1970. A edi\u00e7\u00e3o original \u00e9 datada de 1890. Na edi\u00e7\u00e3o da editora da UFPA s\u00e3o tr\u00eas volumes e cinco tomos ao todo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>Embarca\u00e7\u00f5es cheias de mercadorias que eram oferecidas nos mais distantes rinc\u00f5es da Amaz\u00f4nia para popula\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tinham acesso ao com\u00e9rcio nas cidades.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Fabiano Bringel \u2013 24 de fevereiro de 2016 Um dos sintomas de esgotamento da extra\u00e7\u00e3o das Drogas do Sert\u00e3o e do Projeto Pombalino, pol\u00edticas criadas por Marqu\u00eas de Pombal para a Amaz\u00f4nia, foi \u00e0 eclos\u00e3o da Cabanagem (1835-1840). Os \u201cdeserdados\u201d, na sua ess\u00eancia \u00edndios e negros, levantaram-se e instauraram a maior \u201crevolta regional\u201d do Brasil. [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":535,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[7,40],"tags":[],"class_list":["post-10711","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-politica-brasileira","category-territorios"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10711","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10711"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10711\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/535"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10711"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10711"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10711"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}