{"id":10721,"date":"2016-03-09T16:06:05","date_gmt":"2016-03-09T19:06:05","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.wordpress.com\/?p=584"},"modified":"2016-03-09T16:06:05","modified_gmt":"2016-03-09T19:06:05","slug":"por-uma-geoestrategia-dos-povos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10721","title":{"rendered":"Por uma geoestrat\u00e9gia dos povos \u2013 2"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\">Bruno Lima Rocha<\/a>, 09 de mar\u00e7o de 2016<\/p>\n<p>Nesta s\u00e9rie, iniciada no final de 2015, vamos realizar um esfor\u00e7o ensa\u00edstico para desenvolver bases te\u00f3rico-normativas que deem alguma sustenta\u00e7\u00e3o para o estudo e a interven\u00e7\u00e3o nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (RI) a partir de uma perspectiva do poder dos povos em movimento. Ao afirmar esta perspectiva, imediatamente afirmamos que este ensaio assim como o anterior n\u00e3o se destina a projetar o poder dos Estados e menos ainda das Transnacionais (TNCs). O tema fundamental do texto que segue \u00e9 a soberania popular.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 afirmado, a soberania dos povos est\u00e1 subordinada, e por vezes at\u00e9 sequestrada, pelos poderes constitu\u00eddos dentro da dimens\u00e3o territorial dos pa\u00edses soberanos. Em geral, nas RI, h\u00e1 uma sobreposi\u00e7\u00e3o da soberania dos Estados nacionais por em cima da soberania das maiorias massivas residentes destes mesmos lugares. A condi\u00e7\u00e3o de decidir de forma soberana de um pa\u00eds tampouco \u00e9 um valor absoluto. Sabe-se que as economias monet\u00e1rias e o Grande Jogo no Sistema Internacional (SI) subordinam as capacidades estatais e, por tabela, diretamente \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida das pessoas residentes na base da pir\u00e2mide social ali existente.<\/p>\n<p>De forma direta, h\u00e1 soberania relativa dos pa\u00edses sobre seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios e uma interdepend\u00eancia subordinada da maioria destes mesmos pa\u00edses aos Estados l\u00edderes do planeta. Tamb\u00e9m h\u00e1 uma interdepend\u00eancia mais horizontal entre Estados com excedentes de poder em distintas escalas, influenciando-os mutuamente. Dentro deste mesmo contexto, um Estado no SI projeta seu poder \u2013 seus poderes de formas diversas \u2013 tamb\u00e9m pela capacidade de influenciar nos ambientes dom\u00e9sticos e regionais dos demais pa\u00edses. A forma mais contundente desta presen\u00e7a, para al\u00e9m do poder militar e duro pela pr\u00f3pria natureza, \u00e9 atrav\u00e9s da exist\u00eancia de Transnacionais (TNCs), operando al\u00e9m de suas fronteiras de origem em variados ramos e neg\u00f3cios.<\/p>\n<p>\u00c0 medida que aumenta a interdepend\u00eancia entre pa\u00edses, TNCs, Sistema Financeiro mundializado e mercado de c\u00e2mbio \u2013 com sua permanente guerra cambial e mesas manipuladas \u2013 diminui a capacidade dos pa\u00edses em defender suas respectivas moedas e manter padr\u00f5es razo\u00e1veis de vida materialmente est\u00e1vel para seus povos. Progressivamente, as RI observam o papel dos Estados como forma de frear a proje\u00e7\u00e3o de poder das TNCs dos pa\u00edses do centro do capitalismo e para tal desenvolvem suas pr\u00f3prias TNCs como vetores estrat\u00e9gicos de luta pela hegemonia parcial ou total em escala planet\u00e1ria. Tal coa\u00e7\u00e3o se d\u00e1 de distintas formas.<\/p>\n<p>Uma, mais expl\u00edcita, \u00e9 pela presen\u00e7a ostensiva de for\u00e7as militares ou de a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida e emprego especial. O uso da for\u00e7a \u00e9 um recurso regular da pol\u00edtica e como tal deve ser compreendido, tal como o emprego de espionagem para incidir em ambientes dom\u00e9sticos, cen\u00e1rios regionais ou internacionalizados.<\/p>\n<p>Outra forma de coagir a soberania dos povos sequestrada pelos poderes de fato dos Estados, e tamb\u00e9m bastante vis\u00edvel, \u00e9 atrav\u00e9s do Sistema Financeiro e sua arquitetura montada como uma grande armadilha, onde ag\u00eancias de an\u00e1lise, controladorias, auditagem, arbitragem, redes banc\u00e1rias, para\u00edsos fiscais, circuitos de lavanderias de dinheiro e institui\u00e7\u00f5es financeiras formais operam de forma coordenada ou pelo menos, concatenada, para garantir o m\u00e1ximo de lucro e subordina\u00e7\u00e3o das economias nacionais ao apetite voraz do capital fict\u00edcio em suas diversas formas.<\/p>\n<p>Concomitante ao capital financeiro est\u00e1 a disputa \u2013 entre os pa\u00edses \u2013 por receber investimentos de empresas TNCs e o \u201couro do capitalismo\u201d, os empreendimentos que gerem emprego direto. Ao mesmo tempo em que \u00e9 relevante a exist\u00eancia de emprego regular, a disputa por estes postos de trabalho implica, muitas vezes, em baixar a rede de prote\u00e7\u00e3o social e desregular as rela\u00e7\u00f5es assalariadas. Assim, com a press\u00e3o da pouca ou nenhuma capacidade de organiza\u00e7\u00e3o sindical dos pa\u00edses asi\u00e1ticos, a m\u00e3o de obra mal remunerada baixa o pre\u00e7o das manufaturas e for\u00e7a a desindustrializa\u00e7\u00e3o de pa\u00edses que outrora convertiam e transformava o que consumiam, tal \u00e9 o caso de Brasil, M\u00e9xico e Argentina.<\/p>\n<p>As armadilhas de subordina\u00e7\u00e3o das vontades soberanas das maiorias com direitos pol\u00edticos nos pa\u00edses podem ocorrer de diversas formas. Ao mesmo tempo em que \u00e9 danoso ancorar a balan\u00e7a comercial de um pa\u00eds como o Brasil na exporta\u00e7\u00e3o de bens prim\u00e1rios, mantendo as bases de opress\u00e3o p\u00f3s-coloniais, transformando nossos biomas e suas riquezas naturais e de diversidade em infind\u00e1veis plantations de soja e outros gr\u00e3os, tamb\u00e9m h\u00e1 o problema reverso. Basear a ind\u00fastria na atra\u00e7\u00e3o de capitais estrangeiros na forma de TNCs \u00e9 quase sempre tamb\u00e9m subordinar as leis e acordos internos. Os danos ambientais e a chamada guerra fiscal entre os estados brasileiros materializam esta afirma\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Entendo que tal diagn\u00f3stico seja universal, diferenciando-se entre analistas as solu\u00e7\u00f5es empregadas para a falta de soberania popular. N\u00e3o vejo esta como id\u00eantica ou \u201cnaturalmente\u201d subordinada ao marco legal dos Estados. Os pa\u00edses do SI tampouco s\u00e3o sociedades igualit\u00e1rias ou sequer dotadas de um grau razo\u00e1vel de distribui\u00e7\u00e3o material e justi\u00e7a social. A Divis\u00e3o Internacional do Trabalho (DIT) atual continua operando como um distribuidor de desigualdades, apesar de que o esfor\u00e7o das elites dirigentes, classes dominantes e a nova classe gerencial das TNCs (os alto executivos que se gratificam com os b\u00f4nus e o controle dos movimentos destas corpora\u00e7\u00f5es) intentem impor sua vontade em todos os territ\u00f3rios do planeta.<\/p>\n<p>\u00c9 tamanha a complexidade do Grande Jogo que fica dif\u00edcil visualizar sa\u00eddas de curto prazo para al\u00e9m dos cen\u00e1rios concretos, sendo estes dom\u00e9sticos (como por exemplo, o impasse hoje vivido pela Venezuela) ou regionais (tal \u00e9 a luta dos povos do Curdist\u00e3o pela autodetermina\u00e7\u00e3o de suas vontades coletivas). O problema \u00e9 justamente de perspectiva. Pois, com a aus\u00eancia de teoria, logo h\u00e1 inexist\u00eancia de hip\u00f3teses de trabalho e assim, as ideias igualit\u00e1rias e de base libert\u00e1rias ficam ref\u00e9ns da heran\u00e7a maldita do mundo p\u00f3s-Guerra Fria.<\/p>\n<p>Ao projetar o poder dos povos em seus respectivos territ\u00f3rios, \u00e9 necess\u00e1rio realizarmos o esfor\u00e7o te\u00f3rico de proje\u00e7\u00e3o deste mesmo poder atrav\u00e9s dos constrangimentos que nossos pa\u00edses j\u00e1 sofrem (no caso espec\u00edfico da Am\u00e9rica Latina), a come\u00e7ar pelas fra\u00e7\u00f5es de classe dominante totalmente alinhada com os pa\u00edses l\u00edderes do SI. A soberania popular se expressa de diversas formas e o passo inicial para contrabalan\u00e7ar o poder mundial atrav\u00e9s de uma geoestrat\u00e9gia dos povos.<\/p>\n<p>Artigo originalmente publicado na coluna Cr\u00edtica Internacional, dentro da <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php\">revista do Instituto Humanitas Unisinos.<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha, 09 de mar\u00e7o de 2016 Nesta s\u00e9rie, iniciada no final de 2015, vamos realizar um esfor\u00e7o ensa\u00edstico para desenvolver bases te\u00f3rico-normativas que deem alguma sustenta\u00e7\u00e3o para o estudo e a interven\u00e7\u00e3o nas Rela\u00e7\u00f5es Internacionais (RI) a partir de uma perspectiva do poder dos povos em movimento. 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