{"id":10739,"date":"2016-04-07T10:56:37","date_gmt":"2016-04-07T13:56:37","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.wordpress.com\/?p=668"},"modified":"2016-04-07T10:56:37","modified_gmt":"2016-04-07T13:56:37","slug":"o-que-esta-em-disputa-e-o-conceito-de-democracia-entrevista-especial-com-bruno-lima-rocha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10739","title":{"rendered":"O que est\u00e1 em disputa \u00e9 o conceito de democracia. Entrevista especial com Bruno Lima Rocha"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\">Bruno Lima Rocha<\/a><\/p>\n<p><strong>\u201cO fantasma que protagoniza as ideias de fundo \u00e9 a agenda da embaixada dos EUA, mais especificamente o acionar oficioso das trocas de regime, e, no caso latino-americano, na esteira da rea\u00e7\u00e3o aos governos de centro-esquerda\u201d, afirma o cientista pol\u00edtico.<\/strong><\/p>\n<p>Em meio \u00e0 <strong>crise<\/strong> que vem se arrastando, \u201cse h\u00e1 alguma novidade\u201d no <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/552992-e-o-congresso-o-cancer-que-esta-destruindo-a-politica-e-impossibilitando-a-concertacao-entrevista-especial-com-candido-grzybowski\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>cen\u00e1rio pol\u00edtico<\/strong><\/a> brasileiro, \u201c\u00e9 a chegada de uma esp\u00e9cie de um <em><strong>Tea Party<\/strong><\/em> nacional, como express\u00e3o dos ultraliberais, atrav\u00e9s do <strong>Partido Novo<\/strong> e tamb\u00e9m do <strong>Partido Social Liberal<\/strong> (PSL, este bem pequeno)\u201d, diz <strong>Bruno Lima Rocha<\/strong> \u00e0 <strong>IHU On-Line<\/strong>, fazendo refer\u00eancia ao movimento norte-americano.<\/p>\n<p>Segundo ele, a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/551942-america-latina-as-bases-sociais-da-nova-direita\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>nova direita<\/strong><\/a> segue \u201cideias de tipo neoliberal, ultraliberal, neoconservadoras, passando como uma linha direta dos <em>think tanks<\/em>, dos centros de difus\u00e3o, das funda\u00e7\u00f5es de apoio ao <em>Tea Party<\/em>\u201d, e \u00e9 \u201csucessora direta dos grupos <strong>neoliberais<\/strong> do Brasil, como o <strong>Estudantes pela Liberdade<\/strong>, o <strong>Instituto Mises Brasil<\/strong>, a j<strong>uventude neoliberal<\/strong> vinculada ao<strong>F\u00f3rum da Liberdade<\/strong> e outras iniciativas difusoras do pensamento econ\u00f4mico neocl\u00e1ssico e da pol\u00edtica neoliberal\u201d.<\/p>\n<p>Na entrevista a seguir, concedida por e-mail, <strong>Rocha<\/strong> adverte que o que \u201cest\u00e1 em disputa\u201d na <strong>crise<\/strong> \u201c\u00e9 o conceito de democracia\u201d, n\u00e3o no mesmo sentido em que esteve nos anos 30, com \u201celogio ao autoritarismo\u201d, porque \u201ca <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/551281-uma-esquerda-coordenada-e-organizada-com-o-povo-para-extirpar-o-capitalismo-mundial\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>esquerda<\/strong><\/a> de tradi\u00e7\u00e3o mais autorit\u00e1ria n\u00e3o se afirma como defensora de ditadura de esp\u00e9cie alguma, embora sempre elogie governos mais duros desde que este projete a melhoria nas condi\u00e7\u00f5es materiais de vida\u201d. A amea\u00e7a \u00e0 <strong>democracia<\/strong>, explica, \u00e9 \u201cde tipo liberal\u201d e \u201cest\u00e1 justamente na desconfian\u00e7a na quebra das regras do jogo, com o apelo de<strong>impeachment<\/strong> atrav\u00e9s de um tema discut\u00edvel e que entendo como n\u00e3o caracterizado como crime de responsabilidade, sendo mais um argumento de tipo ideol\u00f3gico e de defesa de um arranjo na pol\u00edtica econ\u00f4mica\u201d.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=6274&amp;secao=478\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Bruno Lima Rocha<\/strong><\/a> tem doutorado e mestrado em Ci\u00eancia Pol\u00edtica pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul &#8211; UFRGS e gradua\u00e7\u00e3o em Jornalismo pela Universidade Federal do Rio de Janeiro &#8211; UFRJ. Atua como docente de Ci\u00eancia Pol\u00edtica e Rela\u00e7\u00f5es Internacionais e tamb\u00e9m como analista de conjuntura nacional e internacional. \u00c9 editor do portal Estrat\u00e9gia &amp; An\u00e1lise, onde concentra o conjunto de sua produ\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica, anal\u00edtica e acad\u00eamica.<\/p>\n<p><strong>Confira a entrevista.<\/strong><\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; Como interpretar o que vem ocorrendo hoje no Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> Esta pergunta pode condensar todas as respostas consecutivas. Mas, tentando resumir, vejo que estamos diante de uma crise do<strong> pacto de classes<\/strong> representado pelo<strong>lulismo<\/strong>; uma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/552886-futuro-economico-brasileiro-insistir-no-que-deu-errado-ou-mudar-de-rumo-entrevista-especial-com-pedro-paulo-zahluth-bastos\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>crise econ\u00f4mica<\/strong><\/a> onde a capacidade de governo perde para o apetite voraz do mercado financeiro e o esp\u00f3lio da<strong>d\u00edvida p\u00fablica<\/strong> brasileira; uma crise na ex-esquerda, pois o <strong>PT<\/strong> se v\u00ea apenas com um aliado estrat\u00e9gico (o <strong>PC do B<\/strong>), e n\u00e3o consegue recrutar a maioria despolitizada que fora atingida pelos programas sociais e acertadas <strong>pol\u00edticas redistributivas<\/strong>; uma crise na direita pol\u00edtica brasileira diante da press\u00e3o alucinada de ultraliberais e neoconservadores alimentados pelos fundos dos <strong>EUA<\/strong>; e por fim, uma crise no <strong>modelo de acumula\u00e7\u00e3o<\/strong> capitalista brasileiro, onde o novo entrante, o <strong>PT<\/strong>, no reparto do botim do or\u00e7amento da <strong>Uni\u00e3o<\/strong>, viu-se em posi\u00e7\u00e3o inferior diante dos oligarcas anteriores e os cart\u00e9is das empreiteiras (mas poder\u00edamos abordar qualquer outra \u00e1rea-chave da economia brasileira) e terminou sendo alvo de sua pr\u00f3pria derrota ideol\u00f3gica ao mimetizar com a direita empresarial perspectivas de pa\u00eds e com a direita pol\u00edtica modelos de se locupletar a partir do aparelho de Estado.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line &#8211; O que est\u00e1 em jogo nesse cen\u00e1rio pol\u00edtico brasileiro para al\u00e9m do impeachment ou da perman\u00eancia da presidente Dilma?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> As <strong>direitas brasileiras<\/strong>, dentro e fora do governo, est\u00e3o diante do impasse de atender as demandas sociais ou ajustar-se na crise que vem de fora e de dentro e cortar o tamanho da interven\u00e7\u00e3o do Estado como garantidor dos direitos sociais adquiridos. <strong>Lula<\/strong> tem uma agenda, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/545991-qessa-agenda-brasil-e-uma-fraude-a-prioridade-absoluta-de-uma-verdadeira-agenda-brasil-e-tomar-conta-da-rede-urbana-entrevista-especial-com-carlos-lessa\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Agenda Brasil<\/strong><\/a>, <strong>Temer<\/strong> tem a sua, a <strong>Fiesp<\/strong> e o empresariado tem a sua, os grupos de <strong>m\u00eddia<\/strong> semiarticulados no <strong>Instituto Millenium<\/strong> t\u00eam a sua e todas convergem para o avan\u00e7o no retrocesso de direitos adquiridos, como no <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/542160-o-pl-4330-submissao-absoluta-dos-trabalhadores-aos-designios-do-capital-entrevista-especial-com-jose-dari-krein\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>PL 4330<\/strong><\/a>, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/546868-cunha-inicia-votacao-de-projeto-que-tira-a-petrobras-do-pre-sal\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>PLS<\/strong> <strong>131<\/strong><\/a>, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/548229-pec-215-a-expressao-da-disputa-de-terras-no-pais-entrevista-especial-com-mauricio-guetta\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>PEC 215<\/strong><\/a>, <strong>Nova Lei das Estatais<\/strong> (com abertura de capital em 20% para empresas que movimentem mais de R$ 90 milh\u00f5es ano), na <a href=\"http:\/\/www.ihuonline.unisinos.br\/index.php?secao=480\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>\u201creforma\u201d da Previd\u00eancia<\/strong><\/a>, na abertura de mercados estrat\u00e9gicos para empresas transnacionais, e a lista segue e \u00e9 enorme.<\/p>\n<p>Esta agenda \u00e9 mais negociada com <strong>Dilma<\/strong> sobrevivendo e talvez <strong>Lula<\/strong> \u00e0 frente da composi\u00e7\u00e3o ministerial, mas estrategicamente esta agenda \u00e9 o botim da vit\u00f3ria sobre uma ex-esquerda que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais necess\u00e1ria e para as direitas brasileiras que definitivamente n\u00e3o querem ver um Brasil como pot\u00eancia m\u00e9dia no <strong>Sistema Internacional<\/strong> no marco do capitalismo do s\u00e9culo XXI. Para os movimentos populares e para a esquerda restante \u2014 fora do<strong> pacto lulista<\/strong>\u2014 os dias, meses e anos que seguem s\u00e3o sombrios e de muita, muita luta e capacidade de reinven\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quem s\u00e3o os principais personagens e quais os seus pap\u00e9is no jogo pol\u00edtico nacional?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> Como acredito que citei-os acima, e abaixo tem uma pergunta sobre a <strong>Nova Direita<\/strong>, vou avan\u00e7ar no tema de setores da tecnocracia de Estado, como o <strong>Judici\u00e1rio<\/strong> e os procuradores federais (mas tamb\u00e9m magistrados e procuradores estaduais), assim como setores importantes de delegados federais que parecem agir com um modus pr\u00f3prio e ultrapassando as raias da responsabilidade funcional como no caso do grampo da conversa da presidente com <strong>Lula<\/strong>.<\/p>\n<p>Como indiv\u00edduos, vemos o juiz <strong>S\u00e9rgio Moro<\/strong>, o ex-presidente <strong>Lula<\/strong>, a atual presidente <strong>Dilma<\/strong> e o mal afamado presidente da C\u00e2mara, o deputado federal <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/552954-qcunha-quer-destruir-opositores-um-a-umq-diz-presidente-do-conselho-de-etica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Eduardo Cunha<\/strong><\/a> (PMDB-RJ). Como protagonistas <strong>pr\u00f3-impeachment<\/strong> por fora da intermedia\u00e7\u00e3o indireta, notadamente a <strong>Fiesp<\/strong> puxa a ala empresarial, assim como a <strong>Globo<\/strong> puxa a pauta e a gravita\u00e7\u00e3o dos grupos de m\u00eddia.<\/p>\n<p>Note-se a aus\u00eancia de um protagonismo por direita pol\u00edtica, visto que os <strong>neoconservadores<\/strong> e ultraliberais n\u00e3o atendem a estes intermedi\u00e1rios, embora os veja como uma esp\u00e9cie de \u201cmal necess\u00e1rio\u201d. O fantasma que protagoniza as ideias de fundo \u00e9 a agenda da embaixada dos <strong>EUA<\/strong>, mais especificamente o acionar oficioso das trocas de regime, e, no caso latino-americano, na esteira da rea\u00e7\u00e3o aos governos de centro-esquerda (no nosso caso, centro ex-esquerda) a exemplo do <strong>golpe paraguaio<\/strong>, quando o presidente <strong>Fernando Lugo<\/strong> foi derrubado quase sem resist\u00eancia por parte do Poder Executivo do pa\u00eds guarani.<\/p>\n<table style=\"height:28px;\" width=\"160\" cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\u00a0&#8220;Todas as agendas convergem no retrocesso de direitos adquiridos&#8221;<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como compreender o papel que v\u00eam exercendo os movimentos sociais, os sindicatos e as entidades de classes (como tal me refiro a associa\u00e7\u00f5es como Fiesp, OAB etc.)?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> Vamos separar os conceitos. O movimento popular brasileiro tem no <strong>MST<\/strong> e movimentos associados a sua hegemonia. Nesta se encontra a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/551005-frente-brasil-popular-nao-da-mais-para-sustentar-a-bolsa-banqueiro-de-meio-trilhao-de-reais\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Frente Brasil Popular<\/strong><\/a>, uma frente pol\u00edtico-social que espelha a base do <strong>PT<\/strong> e do <strong>PC do B<\/strong>. Um pouco mais \u00e0 esquerda, mas ainda dentro deste guarda-chuva, est\u00e1 \u00e0 frente <strong>Povo sem Medo<\/strong>, liderada pelo <strong>MTST<\/strong> de S\u00e3o Paulo e com alguma envergadura nacional. Esta tamb\u00e9m se encontra no guarda-chuva do governo ainda que com cr\u00edticas. J\u00e1 as <strong>federa\u00e7\u00f5es empresariais<\/strong> n\u00e3o s\u00e3o \u201csociedade civil\u201d no sentido mais estrito, pois estas representam o agente econ\u00f4mico e seus interesses diretos. Neste caso, \u00e9 vis\u00edvel que a posi\u00e7\u00e3o da <strong>Fiesp<\/strong>, <strong>CNI<\/strong>, <strong>Fecom\u00e9rcio<\/strong> de v\u00e1rios estados e entidades afins \u00e9 rasgar a <strong>CLT<\/strong> e realizar a retirada de direitos garantidos tanto na <strong>Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong> como em legisla\u00e7\u00e3o anterior.<\/p>\n<p>Uma das raz\u00f5es da queda de <strong>Vargas<\/strong> em 1954 foi, al\u00e9m da Petrobras, o aumento de 100% do sal\u00e1rio m\u00ednimo, assim como a formaliza\u00e7\u00e3o da <strong>Justi\u00e7a do Trabalho<\/strong>. Rasgar esta estrutura de defesa e amparo do trabalhador \u00e9 fundamental hoje para manter o n\u00edvel de acumula\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m enfraquecer o poder da m\u00e3o de obra no Brasil.<\/p>\n<p>J\u00e1 a posi\u00e7\u00e3o da <strong>OAB<\/strong> \u00e9 algo controverso e entendo que prejudica a legitimidade da institui\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sou nenhum pouco simp\u00e1tico aos col\u00e9gios de profissionais, tradi\u00e7\u00e3o esta que vem da Idade M\u00e9dia e \u00e9 anterior aos sindicatos. A OAB, que junto da CNBB e ABI esteve \u00e0 frente do processo negociado de abertura pol\u00edtica, rasga esta tradi\u00e7\u00e3o recente e se reposiciona como em 1964, quando esteve a favor do golpe.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Que nexos \u00e9 poss\u00edvel estabelecer entre a Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato e a Opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas? A quem interessa uma opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas \u00e0 brasileira?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/552578-maos-ainda-sujas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas<\/strong><\/a> foi um ato interessante de tentar quebrar as rela\u00e7\u00f5es umbilicais entre o sistema pol\u00edtico italiano de p\u00f3s-guerra e o jogo empresarial, al\u00e9m da presen\u00e7a da m\u00e1fia no sul da pen\u00ednsula. J\u00e1 a <strong>Lava Jato<\/strong> foi a possibilidade de concretizar a rela\u00e7\u00e3o prom\u00edscua entre o oligop\u00f3lio da constru\u00e7\u00e3o pesada e empreiteiras no Brasil (criado com reserva de mercado estabelecida em 1967 pela ditadura) e os diretores da <strong>Petrobras<\/strong>.<\/p>\n<p>Por um lado, \u00e9 interessante e causa simpatia na popula\u00e7\u00e3o ver os cart\u00e9is sendo punidos; por outro, trata-se de evidente puni\u00e7\u00e3o seletiva e andando junto da difus\u00e3o midi\u00e1tica. O limite desta tens\u00e3o foi a difus\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es da presidente<strong>Dilma Rousseff<\/strong> conversando com o ex-presidente Lula, este sim alvo de investiga\u00e7\u00e3o, mas ainda n\u00e3o r\u00e9u. A<strong> Lava Jato<\/strong>assim materializa a ousadia midi\u00e1tica de um juiz de primeira inst\u00e2ncia que galvaniza o salvacionismo do Brasil, antes em 2013 e 2012, capitaneado por <strong>Joaquim Barbosa<\/strong>. Ambos os sistemas pol\u00edticos, o italiano e o brasileiro, s\u00e3o endemicamente corruptos e hegemonicamente fisiol\u00f3gicos. Logo, a destrui\u00e7\u00e3o da legitimidade do sistema pol\u00edtico sem a substitui\u00e7\u00e3o desta ideia de representa\u00e7\u00e3o profissional pela democracia direta abre ainda mais lugar para a espetaculariza\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica (como com <strong>Silvio Berlusconi<\/strong> e agora<strong> Donald Trump<\/strong>) e discursos que criam o mito do corruptor que nada podia fazer diante do poder dos corruptos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que a Lava Jato p\u00f5e em xeque em termos constitucionais?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> Em termos constitucionais a <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/552725-inspiracao-da-lava-jato-gerou-corrupcao-20-diz-pesquisador\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Lava Jato<\/strong><\/a> coloca em xeque a capacidade do Poder Executivo de controlar apropriadamente o aparelho de Estado, em especial a <strong>Pol\u00edcia Federal<\/strong> na opera\u00e7\u00e3o de grampo da presidente assim como de ministros de Estado. Tamb\u00e9m gera a profunda \u2014 e entendo que correta \u2014 desconfian\u00e7a no processo pol\u00edtico, considerando que a <strong>Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong> entende um eleitor\/a, um voto; e o poder dos conglomerados empresariais, diante da lista da <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/552834-com-odebrecht-lava-jato-tem-potencial-para-abalar-toda-cupula-politica\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>Odebrecht<\/strong><\/a>, por exemplo, demonstra como os grandes agentes econ\u00f4micos t\u00eam um poder que supera, e muito, qualquer representa\u00e7\u00e3o coletiva como luta sindical ou movimentos reivindicativos, al\u00e9m de explicitar a relev\u00e2ncia do aparelho de Estado como fator de <strong>acumula\u00e7\u00e3o<\/strong> de poder e capital no Brasil.<\/p>\n<p>Logo, ao colocar contra a parede o papel do Estado, por tabela, a<strong> Lava Jato<\/strong> afirma o Estado punitivo, o Estado meio gendarme, e ajuda a retirar a fr\u00e1gil legitimidade do Estado brasileiro, algo que favorece a agenda da embaixada dos<strong>EUA<\/strong>, mesmo que de forma indireta.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em que medida a Lava Jato pode ser interpretada como judicializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica? Quais os riscos?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> Eu perguntaria risco de qu\u00ea? O <strong>Judici\u00e1rio<\/strong> opera como poder moderador hoje na Rep\u00fablica, uma vez que a pol\u00edtica representativa n\u00e3o o faz ao fiscalizar o Executivo e, ao mesmo tempo, sobrecarrega o <strong>STF<\/strong> como guardi\u00e3o da <strong>Constitui\u00e7\u00e3o<\/strong>. O ativismo judici\u00e1rio \u00e9 presente e d\u00e1 o sentido de \u201cfazer Justi\u00e7a\u201d atrav\u00e9s do Poder Judici\u00e1rio, quando na vida concreta a lei \u00e9 diferente do direito e, por vezes, ambos muito distantes da Justi\u00e7a. A <strong>Lava Jato<\/strong> \u00e9 o cl\u00edmax da alian\u00e7a empresa midi\u00e1tica e a capacidade investigativa do Estado em n\u00edvel federal e traz a evid\u00eancia de que o senso comum recebe as mensagens dos emissores com pouco ou nenhum senso cr\u00edtico.<\/p>\n<table style=\"height:105px;\" width=\"675\" cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"right\">\n<tbody>\n<tr>\n<td>\n<h2>\u00a0 &#8220;O Brasil tem mais legendas eleitorais do que ideologias existentes no planeta.&#8221;<\/h2>\n<\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como analisa as \u00faltimas manifesta\u00e7\u00f5es pr\u00f3 e contra impeachment? Qual vem sendo o papel das ruas nesse processo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> As ruas atuam como arena de massifica\u00e7\u00e3o, fazendo do espet\u00e1culo da pol\u00edtica midiatizada um fator de legitimar ou n\u00e3o as medidas de governo ou tomadas de decis\u00e3o. A direita ter coragem e mostrar-se como direita na rua foi uma novidade na Nova Rep\u00fablica, sendo algo s\u00f3 visto nos momentos pr\u00e9-<strong>1964<\/strong> e nos meses anteriores ao <strong>AI-5<\/strong>. A presen\u00e7a de gente organizada nas ruas contra o golpe paraguaio traz a visibilidade de que n\u00e3o vai ser t\u00e3o f\u00e1cil, ainda que seja muito dif\u00edcil separar a luta contra o <strong><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/553009-o-xadrez-do-naovaitergolpe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">golpe<\/a> <\/strong>branco da defesa de um governo que entendo como, do ponto de vista militante e de esquerda, algo indefens\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Que leitura \u00e9 poss\u00edvel fazer das posi\u00e7\u00f5es da grande m\u00eddia nacional? O que se apresenta como alternativo aos grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o do Brasil?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> A grande <strong>m\u00eddia<\/strong> nacional atua contra seus interesses de longo prazo ao fortalecer a posi\u00e7\u00e3o de uma direita mais olig\u00e1rquica e tamb\u00e9m ideologicamente ligada ao capital transnacional. A m\u00eddia brasileira \u00e9 um dos setores da economia capitalista brasileira que t\u00eam muita expertise, como \u00e9 o fato da <strong>Globo<\/strong> como central de produ\u00e7\u00e3o audiovisual em escala planet\u00e1ria. Para os interesses imediatos, manipular a opini\u00e3o p\u00fablica atrav\u00e9s da opini\u00e3o publicada \u00e9 central para refor\u00e7ar o poder relativo dos grandes grupos de m\u00eddia, que embora sejam conglomerados econ\u00f4micos, s\u00e3o grandes produtores de sentido e ideologia difusa pr\u00f3-capitalista.<\/p>\n<p>Em momentos de tens\u00e3o como este, h\u00e1 uma difus\u00e3o ideol\u00f3gica direta, tanto na exibi\u00e7\u00e3o seletiva dos desvios de grupos de poder e elites dirigentes, como em manobras bastante grosseiras, como suspender programa\u00e7\u00e3o da grade de domingo para exibir o ato central <strong>pr\u00f3-impeachment<\/strong> na Avenida Paulista. O mesmo se d\u00e1 no jornalismo, onde o contradit\u00f3rio s\u00f3 ocorre quando alguma das fontes se indigna com os enunciados e exige direito de resposta.<\/p>\n<p><strong>Internet: a alternativa midi\u00e1tica ou alinhamento ao lulismo?<\/strong><\/p>\n<p>A alternativa aos grandes ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e1 na <strong>internet<\/strong>, na outrora chamada blogosfera, mas que tamb\u00e9m se caracteriza por um grande alinhamento ao <strong>lulismo<\/strong> (linha cr\u00edtica deste) e atrav\u00e9s de distribui\u00e7\u00e3o de verbas federais. Como o Estado em seus tr\u00eas n\u00edveis de governo \u00e9 o maior anunciante do pa\u00eds e como tamb\u00e9m a <strong>esquerda brasileira<\/strong> s\u00f3 associa democracia pol\u00edtica com a social-democracia decadente, terminamos por n\u00e3o defender um modelo de jornalismo como sin\u00f4nimo de democracia de tipo direta ou semidireta. Assim como n\u00e3o \u00e9 vista como estrat\u00e9gica para montar uma musculatura pol\u00edtica a favor das maiorias, a comunica\u00e7\u00e3o social n\u00e3o foi tocada pelo lulismo, mesmo quando tinha maioria no Congresso ou popularidade de mais de 80%!<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio, no momento de maior acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as, o lulismo optou pelo suposto jogo do ganha-ganha, tamb\u00e9m na comunica\u00e7\u00e3o. As empresas de m\u00eddia, oscilando entre cr\u00edticas severas ou tr\u00e9guas pontuais, representam o basti\u00e3o do anti-latino-americanismo, voltando-se ao mundo ocidental como refer\u00eancia, uma esp\u00e9cie de manuten\u00e7\u00e3o do criollismo do per\u00edodo da independ\u00eancia. A <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/552335-a-grande-midia-e-a-tentativa-de-golpe\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>m\u00eddia brasileira<\/strong><\/a> n\u00e3o \u00e9 a \u00fanica no Continente a agir assim, sendo, sim, o padr\u00e3o operacional como porta-voz ideol\u00f3gico das posi\u00e7\u00f5es mais \u00e0 direita em toda<strong> Am\u00e9rica Latina<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 O que, em todo esse processo pol\u00edtico, tem levado \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o que radicaliza o debate e revela as faces da intoler\u00e2ncia nos mais variados espa\u00e7os da sociedade? Como interpretar um momento em que o posicionamento pol\u00edtico leva o debate at\u00e9 os limites f\u00edsicos e morais da civilidade?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> Primeiro eu entendo que a civilidade n\u00e3o \u00e9 debater sem confrontar e sim ter a mesma indigna\u00e7\u00e3o diante de um pa\u00eds com mais de 58 mil mortes violentas por ano e ainda uma sociedade das mais injustas no planeta. O acirramento dos \u00e2nimos pol\u00edticos se d\u00e1 em fun\u00e7\u00e3o da <strong>polariza\u00e7\u00e3o<\/strong> da pol\u00edtica porque temos projetos antag\u00f4nicos, embora nem a oposi\u00e7\u00e3o queira nada al\u00e9m de alinhar o pa\u00eds ao capital transnacional e a manuten\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios ainda heran\u00e7a do per\u00edodo da col\u00f4nia e o fato de que o governo de centro-esquerda hoje \u00e9 de centro-direita e tem uma<strong>pol\u00edtica keynesiana<\/strong> t\u00edmida e tardia sem romper com o <strong>capital financeiro<\/strong>.<\/p>\n<p>Mas, a direita ideol\u00f3gica brasileira \u00e9 t\u00e3o pr\u00f3-<strong>EUA<\/strong> que mesmo as pol\u00edticas sociais e compensat\u00f3rias \u2014 t\u00edmidas e por vezes inexistentes no mundo real \u2014, ao implicarem em reconhecimento de setores marginalizados, trazem os brios do conservadorismo nacional. Aqui no Brasil, ningu\u00e9m \u00e9 de direita, at\u00e9 esta direita como silenciosa ver-se diante da possibilidade de que o reconhecimento das necessidades da maioria torne-se um imperativo.<\/p>\n<p>A\u00ed temos um conflito. Se a maioria n\u00e3o se organiza \u2014 como \u00e9 o caso brasileiro \u2014 ou ent\u00e3o \u00e9 alvo de pol\u00edticas sociais minimamente redistributivas, ent\u00e3o as teses do<strong> ultraliberalismo conservador<\/strong> aparecem como \u201cdefesa da liberdade\u201d. Vejo que o avan\u00e7o do <strong>impeachment<\/strong> vai levar a uma <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/552789-a-radicalizacao-politica-da-qclasse-mediaq\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">radicaliza\u00e7\u00e3o<\/a> ainda mais forte das posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas na sociedade brasileira, podendo inclusive superar a falsa identifica\u00e7\u00e3o do <strong>lulismo<\/strong> \u2014 que \u00e9 um pacto de classes de car\u00e1ter conservador, mas distributivo \u2014 com a luta popular e podendo chegar a n\u00edveis mais intensos do conflito de ideias associadas \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o ou \u00e0 perda de direitos coletivos.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Em que medida a crise pol\u00edtica nacional exp\u00f5e que o atual sistema de representatividade chegou a seu limite?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> O Brasil tem mais legendas eleitorais do que ideologias existentes no planeta. Se h\u00e1 alguma novidade \u00e9 a chegada de uma esp\u00e9cie de um <em>Tea Party<\/em> nacional, como express\u00e3o dos ultraliberais, atrav\u00e9s do<strong> Partido Novo<\/strong> e tamb\u00e9m do <strong>Partido Social Liberal<\/strong> (PSL, este bem pequeno). Por esquerda e com representa\u00e7\u00e3o no parlamento, hoje tem apenas o <strong>PSOL<\/strong>, j\u00e1 que as demais legendas eleitorais n\u00e3o t\u00eam peso para conseguir vota\u00e7\u00f5es expressivas. A centro-esquerda ficou reduzida ao <strong>PT<\/strong> e ao<strong> PC do B<\/strong> e a\u00ed temos uma s\u00e9rie de legendas de aluguel ou sem defini\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria. Hoje o sistema pol\u00edtico tem tr\u00eas grandes partidos, <strong>PT<\/strong>, <strong>PMDB<\/strong> e <strong>PSDB<\/strong>, sendo que o PMDB \u00e9 essencialmente uma coliga\u00e7\u00e3o de oligarquias estaduais e sempre \u00e9 governo.<\/p>\n<p>Parece \u00f3bvio que o limite da representa\u00e7\u00e3o e a <strong>crise da representatividade<\/strong> n\u00e3o \u00e9 algo exclusivo do Brasil, mas sim a aus\u00eancia de formas de delibera\u00e7\u00e3o coletiva, como seria vi\u00e1vel atrav\u00e9s de mecanismos de tipo democracia direta. A esta acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as chegamos em 2013, mas n\u00e3o houve for\u00e7a da esquerda para aprovar a reforma pol\u00edtica com elementos de democracia direta \u2014 conforme previsto no anteprojeto original \u2014 e ainda em <strong>junho de 2013<\/strong>, a a\u00e7\u00e3o da m\u00eddia e a penetra\u00e7\u00e3o da direita nos atos de <strong>S\u00e3o Paulo<\/strong> e do <strong>Rio<\/strong> levaram a um sequestro da pauta manobrando para desviar a aten\u00e7\u00e3o nos protestos por direitos coletivos, no caso, do direito \u00e0 mobilidade urbana. Assim, sim, vejo que o estatuto da democracia indireta est\u00e1 em crise profunda e \u00e9 necess\u00e1rio avan\u00e7ar nos direitos coletivos atrav\u00e9s de elementos de democracia direta, mas seria pensamento m\u00e1gico afirmar que isto pode ocorrer no curto prazo atrav\u00e9s da composi\u00e7\u00e3o do <strong>Congresso<\/strong>.<\/p>\n<table style=\"height:57px;\" width=\"374\" cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"left\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cA tentativa \u00e9 sempre uniformizar a esquerda para servir como moeda de negocia\u00e7\u00e3o com a direita que n\u00e3o est\u00e1 no governo\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<td><\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Vive-se um momento de enfraquecimento da esquerda? Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> Entendo que o <strong>lulismo<\/strong> como fen\u00f4meno proporcionou uma grande melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida, mas, ao mesmo tempo, estamos em um per\u00edodo de fragilidade organizativa e um discurso cada vez mais \u201clavado\u201d por parte tanto do partido de governo (<strong>PT<\/strong>) como de seu aliado estrat\u00e9gico (<strong>PC do B<\/strong>). Ao formalizar o pacto de classes, imediatamente enfraquece o conceito de luta de classes, luta popular ou qualquer conflito que n\u00e3o possa ser aparentemente processado por dentro do governo, repetindo a fal\u00e1cia do \u201cgoverno em disputa\u201d.<\/p>\n<p>Ideologicamente a <strong>pol\u00edtica de reconhecimento<\/strong> \u2014 justa e correta, mas pouca e mais simb\u00f3lica do que efetiva \u2014 ati\u00e7ou o conservadorismo brasileiro, popularizando as ideias mais \u00e0 direita e de tipo conservadoras. Estas se somaram com a ofensiva do ultraliberalismo, sendo que a internet atinge a pessoas isoladas politicamente, vinculando-as a ideias na forma de signos publicit\u00e1rios, de tipo comunica\u00e7\u00e3o ef\u00eamera nas redes digitais. Ou seja, <strong>ideias conservadoras<\/strong>, mais \u00e0 direita, sendo difundidas pela rede e massificando as direitas brasileiras.<\/p>\n<p>Automaticamente, estas posi\u00e7\u00f5es enfraquecem a <strong>esquerda<\/strong>. N\u00e3o h\u00e1 como afirmar, de nenhuma forma, que h\u00e1 apelo popular no conservadorismo brasileiro, basta observar o perfil dos <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/552564-o-que-nos-espera-apos-o-5o-ato-pro-impeachment\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>manifestantes pr\u00f3-impeachment<\/strong><\/a>, mesmo quando nos atos massivos como os da Avenida Paulista. Por outro lado, estamos diante de uma enorme lacuna de organiza\u00e7\u00e3o de base, estando os 44 milh\u00f5es de brasileiras e brasileiros ideologicamente flutuando. Estes que sa\u00edram da extrema pobreza ou tiveram alguma mobilidade social atrav\u00e9s de muito esfor\u00e7o e algumas pol\u00edticas corretas vindas do governo federal s\u00e3o o alvo de disputa ideol\u00f3gica e representam o enfraquecimento da esquerda, justo por n\u00e3o poder organiz\u00e1-los. Quando h\u00e1 queda da hegemonia de um setor da \u201cesquerda\u201d, denominando apropriadamente de ex-esquerda, \u00e9 da ordem da pol\u00edtica um per\u00edodo bastante largo at\u00e9 esta se organizar novamente e criar uma nova hegemonia com perfil mais combativo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Quem \u00e9 e como compreender a chamada \u201cnova direita\u201d? Em que medida as cr\u00edticas vindas da pr\u00f3pria esquerda ao modelo do governo de Dilma Rousseff de ser esquerda insuflam essa nova direita?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> A <strong>nova direita<\/strong>, entendo-a como a massifica\u00e7\u00e3o de ideias de tipo neoliberal, ultraliberal, neoconservadoras, passando como uma linha direta dos <em>think tanks<\/em>, dos centros de difus\u00e3o, das funda\u00e7\u00f5es de apoio ao <strong><em>Tea Party<\/em><\/strong> e grupos afins, passando por \u201cmovimentos\u201d que se organizam como ag\u00eancias de publicidade<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/543908-a-direita-abraca-a-rede\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">mobilizando redes cibern\u00e9ticas<\/a>, a come\u00e7ar pelo maior de todos, o chamado <strong>MBL<\/strong>. Esta nova direita \u00e9 sucessora direta dos grupos neoliberais do Brasil, como o <strong>Estudantes pela Liberdade<\/strong>, o <strong>Instituto Mises Brasil<\/strong>, a juventude neoliberal vinculada ao <strong>F\u00f3rum da Liberdade<\/strong> e outras iniciativas difusoras do pensamento econ\u00f4mico neocl\u00e1ssico e da pol\u00edtica neoliberal.<\/p>\n<p>Outra ala da \u201c<strong>nova direita<\/strong>\u201d est\u00e1 no<strong> neoconservadorismo nacional<\/strong>, passando pelos neopentecostais e algumas linhas de encontro, como a base pol\u00edtica do <strong>PSC<\/strong>, com os pastores <strong>Marco Feliciano<\/strong> e <strong>Everaldo<\/strong> \u00e0 frente e com base emprestada pela fam\u00edlia <strong>Bolsonaro<\/strong>. Impressiona ver como temas de fundo da nova direita dialogam com perfei\u00e7\u00e3o com o l\u00e9xico da pol\u00edtica dos <strong>EUA<\/strong>, com o dicion\u00e1rio da pol\u00edtica estadunidense incluindo seus termos e suas bandeiras, como a est\u00fapida campanha contra a a\u00e7\u00e3o afirmativa e as fracas e mais simb\u00f3licas do que efetivas pol\u00edticas de reconhecimento e compensat\u00f3rias.<\/p>\n<p>J\u00e1 as cr\u00edticas ao governo <strong>Dilma<\/strong> por esquerda, sinceramente n\u00e3o vejo como uma pode fortalecer a outra. Vejo este argumento como o oficialismo, como a vers\u00e3o atual de uma tradi\u00e7\u00e3o pelega e stalinista, onde a tentativa \u00e9 sempre uniformizar a esquerda para servir como moeda de negocia\u00e7\u00e3o com a direita que n\u00e3o est\u00e1 no governo. O pacto de classes necessita a uniformidade e coes\u00e3o da esquerda atrav\u00e9s da centro-esquerda para garantir a negocia\u00e7\u00e3o com os oligarcas e parcelas do capital nacional que ainda n\u00e3o aderiram \u00e0 terra arrasada com o <strong>fim da CLT<\/strong> e outros severos ataques contra os <strong>direitos coletivos<\/strong>.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Como fazer a cr\u00edtica ao atual sistema de governo e de representatividade sem amea\u00e7ar a democracia, inclusive radicalizando o conceito de representatividade democr\u00e1tica?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> Acredito que o que est\u00e1 em disputa \u00e9 o conceito de <strong>democracia<\/strong>; n\u00e3o h\u00e1, como nos anos 30, algum elogio ao autoritarismo de nenhuma ordem e mesmo a esquerda de tradi\u00e7\u00e3o mais autorit\u00e1ria n\u00e3o se afirma como defensora de ditadura de esp\u00e9cie alguma, embora sempre elogie governos mais duros desde que este projete a melhoria nas condi\u00e7\u00f5es materiais de vida. A amea\u00e7a \u00e0 democracia de tipo liberal e indireta est\u00e1 justamente na desconfian\u00e7a na quebra das regras do jogo, com o apelo de <strong>impeachment<\/strong> atrav\u00e9s de um tema discut\u00edvel e que entendo como n\u00e3o caracterizado como crime de responsabilidade, sendo mais um argumento de tipo ideol\u00f3gico e de defesa de um arranjo na <strong>pol\u00edtica econ\u00f4mica<\/strong> e n\u00e3o como um crime tal como uma fraude ou algo semelhante.<\/p>\n<p>J\u00e1 o tema da democracia direta implica uma disputa na interna da esquerda restante e dos movimentos populares ainda no guarda-chuva do governismo e uma proje\u00e7\u00e3o de outro modelo de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as sociais para algum tipo de c\u00e2mbio profundo. Mas, tenho certeza de que se o <strong>movimento social<\/strong> n\u00e3o tem democracia interna, n\u00e3o consegue defender esta bandeira da democracia participativa e direta em escala nacional. Portanto, \u00e9 uma luta de longo prazo e constitui\u00e7\u00e3o de um paradigma de conflito social reivindicativo e voltado para construir entidades de base e movimentos massivos com plena participa\u00e7\u00e3o interna e defesa de amplia\u00e7\u00e3o de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/552857-agenda-do-impeachment-preve-ataque-massivo-a-direitos-trabalhistas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><strong>direitos coletivos<\/strong><\/a>.<\/p>\n<table cellspacing=\"15\" cellpadding=\"15\" align=\"center\">\n<tbody>\n<tr>\n<td><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/oi61.tinypic.com\/28j8cgi.jpg\" alt=\"\" width=\"47\" \/><\/p>\n<h2>\u201cTenho certeza de que se o movimento social n\u00e3o tem democracia interna, n\u00e3o consegue defender esta bandeira da democracia participativa e direta em escala nacional\u201d<\/h2>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Qual a sa\u00edda para o estado de crise nacional?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> A crise que se abriu com o fim do modelo de crescimento a partir do <strong>pacto de classes<\/strong> n\u00e3o tem sa\u00edda f\u00e1cil nos marcos do capitalismo liberal-perif\u00e9rico onde vivemos e menos ainda uma sa\u00edda popular para romper com a maldita heran\u00e7a p\u00f3s-colonial e de depend\u00eancia. A <strong>crise pol\u00edtica<\/strong> que se implanta no final do ciclo lulista vai durar bastante, assim como a crise de hegemonia dentro da esquerda. Considero ambas as crises tamb\u00e9m positivas, pois abrem margens para novas acumula\u00e7\u00f5es, embora a tentativa de <strong>impeachment<\/strong> na forma de <strong>golpe<\/strong> institucional obedece \u00e0 agenda da embaixada dos <strong>EUA<\/strong>. H\u00e1 uma dimens\u00e3o de ruptura do pacto pol\u00edtico iniciado na Abertura e entendo que vamos ficar um bom tempo com essa <strong>polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica<\/strong>. Espero que tal polariza\u00e7\u00e3o implique na defesa da manuten\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o dos direitos coletivos e o enfrentamento ao per\u00edodo de restaura\u00e7\u00e3o neoliberal que estamos vivendo.<\/p>\n<p><strong>IHU On-Line \u2013 Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p><strong>Bruno Lima Rocha &#8211;<\/strong> Sim, quase que um chamado de alerta para entendermos a complexidade do momento e a diferencia\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria entre posicionar-se contra o <strong>golpe<\/strong> (pois impeachment sem crime de responsabilidade \u00e9 golpe e a meta \u00e9 rasgar os direitos coletivos, a come\u00e7ar pelos direitos trabalhistas) e n\u00e3o reproduzir o reboquismo que levou \u00e0 falta de resist\u00eancia em <strong>1964<\/strong>. Entendo que o pacto de classes do <strong>lulismo<\/strong> \u00e9 um pacto conservador e que ruiu; logo, abrem-se novas possibilidades, mesmo dentro da base dos partidos de centro-esquerda e dos milh\u00f5es de brasileiros que se recusam tanto a apoiar ou defender um governo indefens\u00e1vel \u2014 basta observar, para exemplificar, a<strong>pol\u00edtica indigenista<\/strong>! \u2014 como menos ainda aderir a uma aventura pol\u00edtica conservadora do tipo \u201crevolu\u00e7\u00e3o purpurina\u201d, \u201ctroca colorida de regimes\u201d ou a palavras de ordem de tipo pensamento m\u00e1gico, sem condi\u00e7\u00f5es de operar na realidade concreta. Vejo que \u00e9 poss\u00edvel fazer uma profunda cr\u00edtica por <strong>esquerda<\/strong> e fortalecer as lutas populares de resist\u00eancia diante da retirada de direitos coletivos. O per\u00edodo que se avizinha \u00e9 muito dif\u00edcil e para n\u00e3o perdermos nossas condi\u00e7\u00f5es de vida precisaremos de todas as for\u00e7as sociais poss\u00edveis.<\/p>\n<p><em>Jo\u00e3o Vitor Santos e Patricia Fachin<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha \u201cO fantasma que protagoniza as ideias de fundo \u00e9 a agenda da embaixada dos EUA, mais especificamente o acionar oficioso das trocas de regime, e, no caso latino-americano, na esteira da rea\u00e7\u00e3o aos governos de centro-esquerda\u201d, afirma o cientista pol\u00edtico. 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