{"id":1075,"date":"2009-07-20T12:02:43","date_gmt":"2009-07-20T12:02:43","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1075"},"modified":"2009-07-20T12:02:43","modified_gmt":"2009-07-20T12:02:43","slug":"duas-perguntas-urgentes-sobre-honduras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1075","title":{"rendered":"Duas perguntas urgentes sobre Honduras"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Manuel_Zelaya_junto_presidente_Costa_Rica_Oscar_Arias.jpg\" title=\"Manuel Zelaya e Oscar Arias organizaram uma solu\u00e7\u00e3o negociada para salvar um governo enterrando o processo pol\u00edtico que o alimentava. S\u00f3 esqueceram de combinar com os gorilas bananeros golpistas o que fazer.   - Foto:Elpais\" alt=\"Manuel Zelaya e Oscar Arias organizaram uma solu\u00e7\u00e3o negociada para salvar um governo enterrando o processo pol\u00edtico que o alimentava. S\u00f3 esqueceram de combinar com os gorilas bananeros golpistas o que fazer.   - Foto:Elpais\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Manuel Zelaya e Oscar Arias organizaram uma solu\u00e7\u00e3o negociada para salvar um governo enterrando o processo pol\u00edtico que o alimentava. S\u00f3 esqueceram de combinar com os gorilas bananeros golpistas o que fazer.  <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Elpais<\/small><\/figure>\n<p>20 de julho de 2009, da Vila Setembrina outrora farrapa, Bruno Lima Rocha <\/p>\n<p>Duas perguntas s&atilde;o urgentes na an&aacute;lise do golpe olig&aacute;rquico e nos intentos de contragolpe popular em Honduras. Uma, diz respeito saber os porqu&ecirc;s de Manuel Zelaya haver aceitado a intermedia&ccedil;&atilde;o do presidente Oscar Arias (presidente da Costa Rica e t&iacute;tere do Departamento de Estado nesta crise) e haver-se comprometido a aceitar o pacto de transi&ccedil;&atilde;o quando de seu retorno ao pa&iacute;s de origem? Particularmente, desde o come&ccedil;o do golpe venho dizendo &ndash; de longe e com informa&ccedil;&atilde;o indireta &ndash; que, se as regras da pol&iacute;tica s&atilde;o v&aacute;lidas para qualquer conjuntura, ent&atilde;o por A + B era prov&aacute;vel (com mais de 70% de probabilidade) que Zelaya n&atilde;o seria nada confi&aacute;vel. Ou seja, que o ex-oligarca convertido se iria reconverter as posi&ccedil;&otilde;es de origem e tratar de salvar a si, a sua carreira pol&iacute;tica e aos seus bens em territ&oacute;rio hondurenho. Definitivamente, Manuel Zelaya Rosales n&atilde;o &eacute; um l&iacute;der do Continente. &Eacute; apenas um presidente com cabe&ccedil;a de bananero cujo tapete puxaram.<\/p>\n<p>Podemos nos questionar porque os processos de c&acirc;mbio carecem tanto assim de l&iacute;deres carism&aacute;ticos? Entendo que isso n&atilde;o &eacute; &ldquo;natural&rdquo; na pol&iacute;tica, mas que h&aacute; maior incid&ecirc;ncia desse tipo de lideran&ccedil;a em nosso Continente. Admitamos que n&oacute;s, latino-americanos, estamos propensos a referendar l&iacute;deres e pr&oacute;ceres at&eacute; os dias de hoje. Mas, para ser uma lideran&ccedil;a leg&iacute;tima e carism&aacute;tica, que se posiciona &agrave; frente do povo organizado, este indiv&iacute;duo tem de dar exemplo. Jos&eacute; Gervasio Artigas, l&iacute;der federalista da primeira revolu&ccedil;&atilde;o social na pol&iacute;tica moderna do Cone Sul, morreu pobre e exilado. Viveu em uma modesta resid&ecirc;ncia entre 1820 e 1850, em uma casa na beira do rio, em Assun&ccedil;&atilde;o do Paraguai, pa&iacute;s na &eacute;poca governado pela ditadura do Gaspar Rodr&iacute;guez de Francia. Esta tamb&eacute;m foi a sina de Simon Bol&iacute;var e de tantos outros mais. N&atilde;o estou dizendo com isso que todos os l&iacute;deres populares t&ecirc;m de viver o resto dos seus dias amargando um quarto de s&eacute;culo de solid&atilde;o. Afirmo que se n&atilde;o houver disposi&ccedil;&atilde;o de sacrif&iacute;cio ent&atilde;o n&atilde;o h&aacute; nada. <\/p>\n<p>A contrapartida est&aacute; onde sempre esteve, abaixo e &agrave; esquerda. Nas ruas e estradas de Honduras a resist&ecirc;ncia civil cresce a cada dia. As bases sociais mobilizadas dentro do pa&iacute;s n&atilde;o encontram eco no governo que est&atilde;o a defender. A representa&ccedil;&atilde;o social de Zelaya &eacute; outra, e ele como operador pol&iacute;tico est&aacute; mais para Oscar Arias do que para um membro da ALBA. O Imp&eacute;rio bateu onde a guarda estava baixa, at&eacute; porque o Pent&aacute;gono precisa de vit&oacute;rias, ainda que pontuais e epis&oacute;dicas. Temos de considerar que o modelo de democracia em Honduras caminhava para uma mescla entre democracia direta e mecanismo plebiscit&aacute;rio. Um processo dessa envergadura n&atilde;o poderia ficar a reboque de uma lideran&ccedil;a fraca e recentemente convertida a uma causa que n&atilde;o era a sua. Era esperado que o gabinete do presidente deposto sentasse &agrave; mesa na posi&ccedil;&atilde;o subalterna, aceitando as propostas de Oscar Arias. Ou seja, se esperava a capitula&ccedil;&atilde;o de quem nunca foi l&aacute; muito convicto. <\/p>\n<p><strong>A segunda pergunta &eacute; ainda mais direta <\/p>\n<p><\/strong>Se por um lado era esperado que Manuel Zelaya capitulasse cedo ou tarde, por outro, fica a quest&atilde;o: &#8211; Porque os golpistas encabe&ccedil;ados por Roberto Micheletti (originalmente correligion&aacute;rio de Zelaya) n&atilde;o aceitaram as propostas de &ldquo;media&ccedil;&atilde;o&rdquo;, transitando um governo de concilia&ccedil;&atilde;o? A matriz explicativa que apresento compreende as lealdades entre golpistas, as dificuldades de negocia&ccedil;&atilde;o, o aval do Imp&eacute;rio para amolecer ainda mais a Zelaya e o medo de alguma puni&ccedil;&atilde;o das altas patentes que orquestraram o golpe de 28 de junho. <\/p>\n<p>Existem sempre tempos distintos e arenas simult&acirc;neas em qualquer disputa pol&iacute;tica. Ao eleger uma arena preferencial em rela&ccedil;&atilde;o &agrave; outra, se definem os caminhos por onde trilhar. &Eacute; da natureza de um governo constitucional quando derrubado, recorrer aos organismos internacionais ou de coordena&ccedil;&atilde;o regional como a Organiza&ccedil;&atilde;o dos Estados Amercianos (OEA). O gabinete destitu&iacute;do do pol&iacute;tico e oligarca convertido Manuel Zelaya, filiado ao Partido Liberal, apostou as fichas nas mesas de negocia&ccedil;&atilde;o, via press&otilde;es internacionais de todo tipo. Arrancaram at&eacute; uma declara&ccedil;&atilde;o de Barack Obama, frases ditas no calor dos primeiros dias p&oacute;s-golpe. Na mesma mar&eacute; de avan&ccedil;ada diplom&aacute;tica, os pa&iacute;ses europeus retiraram suas representa&ccedil;&otilde;es diplom&aacute;ticas do pa&iacute;s centro-americano. Mas at&eacute; agora ficou nisso. <\/p>\n<p>Uma das regras da pol&iacute;tica diz que &ldquo;governo n&atilde;o cai de podre, governo se derruba&rdquo;. Roberto Micheletti encabe&ccedil;a como chefe de Estado de fato (e n&atilde;o de direito) a ilustra&ccedil;&atilde;o desse conceito operacional. Por mais press&atilde;o que venha de fora, do entorno, de al&eacute;m fronteiras, ningu&eacute;m destitui um governo golpista que tem, aparentemente, a coes&atilde;o das institui&ccedil;&otilde;es de controle do Estado, apenas com palavras ou fatos pol&iacute;ticos midi&aacute;ticos. Em Honduras, a Suprema Corte, o Congresso (unicameral), o Estado-Maior das For&ccedil;as Armadas (FFAA), as empresas de comunica&ccedil;&atilde;o e as outras altas hierarquias ap&oacute;iam abertamente o golpe c&iacute;vico-militar. Para salientar a posi&ccedil;&atilde;o e o argumento, recordo que as corpora&ccedil;&otilde;es castrenses hondurenhas encarnam em sua pr&oacute;pria exist&ecirc;ncia a Escola das Am&eacute;ricas, a come&ccedil;ar pelo general comandante da a&ccedil;&atilde;o do domingo 28 de junho, Romeo V&aacute;squez Vel&aacute;squez. <\/p>\n<p>E o que isso implica? Significa que os mandos intermedi&aacute;rios, como sargentos de velha guarda e suboficiais com experi&ecirc;ncia de combates reais, fizeram seu batismo de fogo agindo em esquadr&otilde;es da morte, nas opera&ccedil;&otilde;es de contra intelig&ecirc;ncia, coordenados com a Contra nicarag&uuml;ense, enfim, jogando como pe&ccedil;as do tabuleiro do Departamento de Estado quando se aplicava na Am&eacute;rica Central a chamada Teoria do Domin&oacute;. A figura de linguagem &eacute; de f&aacute;cil interpreta&ccedil;&atilde;o. Diziam os estrategistas do Imp&eacute;rio que uma regi&atilde;o pobre, integrada e de pequena expans&atilde;o territorial seria como uma fileira de domin&oacute;, caindo uma ap&oacute;s outra, tomando como ponto de partida a vit&oacute;ria sandinista em 1979. A estrat&eacute;gia de Terra Arrasada (destruir a estrutura social-produtiva e ceifar de vida uma gera&ccedil;&atilde;o inteira) somada ao terror de Estado e do narcotr&aacute;fico rendeu o empate militar em El Salvador (FMLN) e Guatemala (URNG) e a derrota pol&iacute;tica atrav&eacute;s da democracia indireta, liberal e representativa que colocou de volta a oligarquia, atrav&eacute;s de Violeta Chamorro, derrotando o ent&atilde;o muito contestado e hoje presidente, Daniel Ortega (FSLN). <\/p>\n<p>Os militares profissionais hondurenhos eram o pulm&atilde;o de tudo isso. Estavam umbilicalmente vinculados, financiados, convencidos ideologicamente, acumpliciados em centenas de crimes de lesa humanidade e cumprindo o destino hist&oacute;rico de quem se contenta em ser bucha de canh&atilde;o de uma rep&uacute;blica de bananas, vivendo a tirania olig&aacute;rquica subordinada ao Imp&eacute;rio sob o manto de &ldquo;democracia&rdquo; liberal-burguesa. <\/p>\n<p>Pois bem, essa gente obedece aos controladores de campo e as miss&otilde;es oficiosas do Comando Sul dos EUA, do Pent&aacute;gono, do Departamento de Estado e aos operadores do Complexo Industrial-Militar, CIA e DEA inclu&iacute;dos. Esse tipo de gente n&atilde;o perde sua parcela de poder com &ldquo;revolu&ccedil;&atilde;o de veludo&rdquo;. Mais dif&iacute;cil ainda com uma lideran&ccedil;a recalcitrante e com passado pol&iacute;tico pouco ou nada confi&aacute;vel. Os golpistas n&atilde;o aceitam a transi&ccedil;&atilde;o, n&atilde;o ao menos nos pr&oacute;ximos dias, simplesmente porque at&eacute; o momento, n&atilde;o v&ecirc;em nenhuma amea&ccedil;a maior &agrave; sua &ldquo;governabilidade&rdquo;. A alternativa para o contragolpe em Honduras &eacute; a&ccedil;&atilde;o organizada da resist&ecirc;ncia civil. Al&eacute;m disso, o que existe &eacute; pol&iacute;tica perform&aacute;tica e vacila&ccedil;&atilde;o de lideran&ccedil;a. <\/p>\n<p>\n<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=24053\">Este artigo foi originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas da Unisinos (IHU) <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Zelaya e Oscar Arias organizaram uma solu\u00e7\u00e3o negociada para salvar um governo enterrando o processo pol\u00edtico que o alimentava. S\u00f3 esqueceram de combinar com os gorilas bananeros golpistas o que fazer. 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