{"id":10750,"date":"2016-05-27T12:12:21","date_gmt":"2016-05-27T15:12:21","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.wordpress.com\/?p=729"},"modified":"2016-05-27T12:12:21","modified_gmt":"2016-05-27T15:12:21","slug":"no-rastro-da-nova-velha-direita-e-o-giro-reacionario-do-senso-comum-brasileiro-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10750","title":{"rendered":"No rastro da nova-velha direita e o giro reacion\u00e1rio do senso comum brasileiro \u2013 1"},"content":{"rendered":"<p><strong><\/strong><em><u><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\">Bruno Lima Rocha<\/a><\/u><\/em>, 27 de maio de 2016<\/p>\n<p><strong>Introdu\u00e7\u00e3o <\/strong><\/p>\n<p>Neste primeiro artigo para o Comit\u00ea em Defesa da Democracia a ser publicado no Jornal J\u00e1 e redistribu\u00eddo atrav\u00e9s das redes alternativas, inicio uma breve s\u00e9rie tentando mapear a nova (velha) direita. O objetivo deste e dos textos que seguem \u00e9 tentar identificar a origem contempor\u00e2nea do giro reacion\u00e1rio do senso comum brasileiro e suas similitudes com o conservadorismo dos EUA, e, por consequ\u00eancia, a transfer\u00eancia do l\u00e9xico, do gloss\u00e1rio e das identidades pol\u00edticas gestadas no interior do sistema pol\u00edtico do Imp\u00e9rio. Entendo que, se identificarmos os focos dom\u00e9sticos e internacionais do pensamento conservador, reacion\u00e1rio, ultraliberal e com la\u00e7os neofascistas, estaremos aptos a tentar estancar o que venho afirmando como \u201cfedor de linha chilena\u201d tendo vasto crescimento no Brasil.<\/p>\n<p><strong>A ascens\u00e3o do reacionarismo nos \u00faltimos dez anos: a alian\u00e7a entre neopentecostais e a extrema direita militar e policial\u00a0\u00a0 <\/strong><\/p>\n<p>O Brasil vive um momento de ascens\u00e3o de ideias conservadoras, a maior parte destas transitando pelo ultraliberalismo, podendo ser rastreada esta linha como equivalente \u00e0s da direita do Partido Republicano (ou seja, a extrema direita de corte neoliberal) e combinadas com o pensamento conservador, ou do pacto neoconservador. Este que se avoluma nos EUA a partir da vit\u00f3ria de Richard Nixon em 1968, refor\u00e7ada com a Doutrina Reagan e a desregula\u00e7\u00e3o financeira \u2013 primeiramente em 1973 e depois, ao longo dos anos \u201980 do s\u00e9culo XX \u2013 e por fim, ganhando dimens\u00f5es absurdas, durante o primeiro mandato do governo democrata de Bill Clinton (1993-2000). A nova direita republicana j\u00e1 constava na conven\u00e7\u00e3o deste partido quando George H. W. Bush (Bush pai) era considerado, para a constela\u00e7\u00e3o pol\u00edtica conservadora do per\u00edodo, como o menos mentecapto dos pr\u00e9-candidatos da bolha conservadora para a Casa Branca. Da corrida eleitoral no Imp\u00e9rio, em 1992, passando pela famigerada reelei\u00e7\u00e3o de Bush Jr. Em 2004, at\u00e9 a nova onda de golpes brancos na Am\u00e9rica Latina temos como identificar a transfer\u00eancia da identidade pol\u00edtica estadunidense para nosso pa\u00eds.<\/p>\n<p>No Brasil, somos atingidos pela combina\u00e7\u00e3o dos neoconservadores no comportamento \u2013 uma esp\u00e9cie de rea\u00e7\u00e3o contra a a\u00e7\u00e3o afirmativa e os direitos de reconhecimento \u2013 e a primazia do capital financeiro e a cruzada dos neoliberais contra o pacto keynesiano que atinge o Brasil durante o lulismo. Esta soma, bastante explosiva, tem na classe m\u00e9dia brasileira, e em sua classe m\u00e9dia alta, um basti\u00e3o mobilizado atrav\u00e9s das redes sociais e que pode ter ou n\u00e3o algum contato com o fascismo brasileiro na vers\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/p>\n<p>\u00c9 como se fosse um jogo com rodadas simult\u00e2neas, onde os reacion\u00e1rios no comportamento somam vi\u00favas da ditadura e por vezes se encontram nas pautas program\u00e1ticas de inspira\u00e7\u00e3o totalit\u00e1ria e obscurantista, como a famigerada \u201cescola sem partido\u201d, ou campanha contra a doutrina\u00e7\u00e3o nos aparelhos ideol\u00f3gicos de reprodu\u00e7\u00e3o. Por vezes os ultraliberais se encontram, domesticam as \u201cferas\u201d medievais brasileiras, e noutras, de forma aut\u00f4noma, operam como \u201ccavalo de batalha\u201d da agenda neoliberal de desmonte das capacidades de interven\u00e7\u00e3o estatal na economia capitalista e na regula\u00e7\u00e3o do agente econ\u00f4mico por sobre a vida cotidiana.<\/p>\n<p>Podemos identificar os movimentos ultraliberais como as empresas de marketing digital, a exemplo da empresa l\u00edder, o Movimento Brasil Livre (MBL). Tais institui\u00e7\u00f5es privadas respondem ao agendamento da Funda\u00e7\u00e3o Koch (charleskochfoundation.org) e da Rede Atlas (atlasnetwork.org) e demandam um texto espec\u00edfico, ainda nesta s\u00e9rie. J\u00e1 quanto ao neofascismo brasileiro, este \u00e9 manifesto pelo l\u00edder caricato embora perigoso, deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) e sua alian\u00e7a com as estruturas do pastor Everaldo (Assembleia de Deus em Madureira) e o deputado federal Marco Feliciano (PSC-SP,que comanda uma matriz aut\u00f4noma e dono da rede de franquias da f\u00e9, o Minist\u00e9rio Tempo de Avivamento). Estes dois operadores pol\u00edtico-religiosos de matriz econ\u00f4mica (no mercado da explora\u00e7\u00e3o da f\u00e9) se aproximam, afirmo, perigosamente, de um programa ultraliberal (vinculando seu programa ao do Tea Party), com as vi\u00favas e vi\u00favos da ditadura \u2013 tendo a bandeira do reconhecimento dos torturadores e repressores como \u201cher\u00f3is nacionais\u201d \u2013 e um culto ao revanchismo da linha dura diante da transi\u00e7\u00e3o negociada comandada por Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva.<\/p>\n<p>Ainda mais obscena \u00e9 sua lideran\u00e7a ideol\u00f3gica, com o ainda mais caricato e lun\u00e1tico astr\u00f3logo Olavo de Carvalho. Este pregador virtual, mescla um libelo em defesa da \u201cciviliza\u00e7\u00e3o judaico-crist\u00e3\u201d para fortalecer ambas as posturas acima narradas \u2013 neopentecostal e de extrema direita policial militar. A prega\u00e7\u00e3o anti-esquerda e anti-latinoamericana do \u201cprofessor\u201d Olavo de Carvalho, produzindo dem\u00eancias por internet a partir do estado da Virg\u00ednia (EUA), surpreendentemente traz consigo centenas de milhares de seguidores. Olavo \u00e9 em si mesmo a s\u00edntese desta perigosa caricatura da nova direita brasileira, e sua prega\u00e7\u00e3o de \u201cescola sem partido\u201d, onde afirma que a doutrina se diluiu no comportamento pregado em sala de aula ao ponto de sequer ser explicitada. Ou seja, se a acusa\u00e7\u00e3o for v\u00e1lida, ent\u00e3o o comportamento orientado pela t\u00e9cnica a servi\u00e7o do mundo do trabalho controlado pelo capital, \u00e9 a \u00fanica v\u00e1lida. O fascismo social existente nestas afirma\u00e7\u00f5es est\u00e1 na moral conservadora, na nega\u00e7\u00e3o do outro (aus\u00eancia de alteridade), na afirma\u00e7\u00e3o da norma \u201cocidental\u201d (judaico-crist\u00e3, capitalista, conservador, heteronormativa) como valor \u00fanico e na disposi\u00e7\u00e3o para gerar o caos para que deste surja um novo sentido de ordem.<\/p>\n<p><strong>Uma consequ\u00eancia tang\u00edvel do revigoramento das vi\u00favas da linha dura<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 este tipo de dem\u00eancia, retroalimentada pelos programas policialescos e editoriais reacion\u00e1rios de TV aberta \u2013 comandados por gente como Jos\u00e9 Luiz Datena e Raquel Sherazade \u2013 acaba por ter dois efeitos pol\u00edticos simult\u00e2neos. Um aponta para a redu\u00e7\u00e3o da maioridade penal e uma defesa da viol\u00eancia estatal sem questionar o falido e corrupto modelo de pol\u00edcia brasileiro. O outro foi visto de forma estarrecedora na defesa da interven\u00e7\u00e3o militar ou a volta da ditadura. Tais defensores da ditadura afirmam que todo o pensamento de esquerda \u2013 mesmo o de centro-esquerda -, em \u00faltima an\u00e1lise, n\u00e3o seria compat\u00edvel com a democracia parlamentar e estaria o tempo todo promovendo a luta ideol\u00f3gica para controlar institui\u00e7\u00f5es reprodutoras dos aparelhos centrais \u2013 como escolas e universidades \u2013 e assim aplicar uma vis\u00e3o de mundo centrada na luta social e no coletivismo. A direita considera isso uma esp\u00e9cie de \u201ctotalitarismo\u201d e chega a aceitar a possibilidade de que, na aus\u00eancia de ordem p\u00fablica, tenhamos uma interven\u00e7\u00e3o militar (o texto constitucional, no seu artigo 142, tem realmente alguma leitura pass\u00edvel de controv\u00e9rsia). Neste sentido, ao negar a possibilidade de que qualquer pensamento de esquerda possa conviver em democracia parlamentar e na concorr\u00eancia pelo poder do Estado burgu\u00eas, h\u00e1 similitude na an\u00e1lise dos ultraliberais e da extrema direita policial e militar. Da\u00ed viria \u00e0 converg\u00eancia destas duas formas de pensamento na defesa da suposta \u201cescola sem partido\u201d e de absurdos como o \u201censino neutro das ci\u00eancias humanas e sociais\u201d. Se observarmos a movimenta\u00e7\u00e3o dos apoiadores de Bolsonaro nos campi da UFRGS, estes afirmam que \u201ca universidade n\u00e3o \u00e9 um espa\u00e7o para lutar, mas somente para estudar\u201d. Repetem de forma bastante concreta um dos lemas da ditadura, \u201cestudante estuda e trabalhador trabalha\u201d, aplicando uma f\u00f3rmula de obedi\u00eancia social cuja \u00fanica forma de mobilidade seria atrav\u00e9s da acumula\u00e7\u00e3o de capital ou na sele\u00e7\u00e3o \u201cmeritocr\u00e1tica\u201d.<\/p>\n<p>Mesmo observando que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma exequibilidade por parte das For\u00e7as Armadas em fazer nada parecido como interven\u00e7\u00e3o militar constitucional, h\u00e1 um ponto de converg\u00eancia. O governo \u201cinterino\u201d &#8211; no meu entender, golpista &#8211; trouxe o retorno dos militares GSI (Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional) e o seu comando a cargo do general de ex\u00e9rcito (da ativa, quatro estrelas) S\u00e9rgio Westphalen Etchegoyen. Esta medida, al\u00e9m de apontar um enlace do presidente golpista Michel\u00a0 Temer com a ala mais reacion\u00e1ria da For\u00e7a Terrestre na ativa, seria uma esp\u00e9cie de acerto de contas com a Comiss\u00e3o da Verdade. Esta fora uma t\u00edmida comiss\u00e3o e cujo relat\u00f3rio final foi bastante criticado por militantes hist\u00f3ricos dos direitos humanos. Mesmo assim, ao mencionar o nome do general Leo Guedes Etchegoyen como um dos 377 agentes do Estado diretamente respons\u00e1veis por crimes contra os direitos humanos, ati\u00e7ou o grito de \u201crevanchismo\u201d por seu filho, general da ativa que ocupava desde mar\u00e7o de 2015, o importante cargo de chefe do Estado-Maior do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p>Ao se manifestar contra a Comiss\u00e3o da Verdade mesmo estando na ativa, o general Etchegoyen abrira um perigoso expediente. Sua indica\u00e7\u00e3o para o cargo de ministro-chefe do Gabinete de Seguran\u00e7a Institucional termina soando como um refor\u00e7o das vi\u00favas da caserna, aproximando-os dos militares da reserva que t\u00eam discurso de m\u00e1goa em rela\u00e7\u00e3o ao per\u00edodo p\u00f3s-Anistia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha, 27 de maio de 2016 Introdu\u00e7\u00e3o Neste primeiro artigo para o Comit\u00ea em Defesa da Democracia a ser publicado no Jornal J\u00e1 e redistribu\u00eddo atrav\u00e9s das redes alternativas, inicio uma breve s\u00e9rie tentando mapear a nova (velha) direita. 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