{"id":10751,"date":"2016-06-04T10:59:37","date_gmt":"2016-06-04T13:59:37","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.wordpress.com\/?p=735"},"modified":"2016-06-04T10:59:37","modified_gmt":"2016-06-04T13:59:37","slug":"uma-critica-por-esquerda-aos-militantes-ainda-vinculados-ao-governo-deposto-1","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10751","title":{"rendered":"Uma cr\u00edtica por esquerda aos militantes ainda vinculados ao governo deposto \u2013 1"},"content":{"rendered":"<p>04 de junho de 2016, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a><\/p>\n<p>Iniciar um debate como esse \u00e9 sempre um tema delicado. Nos espa\u00e7os onde publico e circulam ideias por mim difundidas, percebo que as cr\u00edticas s\u00e3o bem recebidas e, ao mesmo tempo, posso estar abrindo feridas pol\u00edticas com interpreta\u00e7\u00f5es que podem ser bastante sect\u00e1rias. Ainda que reconhe\u00e7a este risco, estou abrindo uma nova s\u00e9rie, compartilhando tanto a cr\u00edtica \u00e0 nova direita que cresce na onda reacion\u00e1ria a tomar conta de parte do Brasil, como fazendo a cr\u00edtica por esquerda, de forma, mas sincera.<\/p>\n<p>Inicio pelo \u00f3bvio. Por mais boa vontade e sinceridade pol\u00edtica que tenham centenas de milhares de militantes contra o golpe, n\u00e3o h\u00e1 como varrer as pr\u00e1ticas pol\u00edticas conden\u00e1veis para debaixo do tapete. Entendo que o abandono de m\u00ednimas posi\u00e7\u00f5es classistas levou a uma esp\u00e9cie de paralisia pol\u00edtica, onde o mecanismo de \u201cc\u00e1lculo pol\u00edtico\u201d operado pelos oligarcas de sempre, entrou na mentalidade da dire\u00e7\u00e3o do partido de governo (PT) e seus aliados, de modo que contas de mal menor estivessem sempre na ordem do dia. N\u00e3o cabe neste primeiro momento apontar supostos \u201cerros ou acertos\u201d dos governos de Lula e Dilma e sim debater, a dimens\u00e3o estrat\u00e9gica, ou a aus\u00eancia desta dimens\u00e3o, quando apontada ao m\u00e9dio e longo prazo.<\/p>\n<p>Neste texto, levamos em conta o conceito de Andr\u00e9 Singer a respeito do lulismo, considerando-o um pacto conservador, um jogo do \u201cganha-ganha\u201d, com as seguintes caracter\u00edsticas: o Brasil aproveita o crescimento econ\u00f4mico chin\u00eas e indiano; tenta estabelecer uma alian\u00e7a de classes com os camp\u00f5es do capitalismo nacional; n\u00e3o atinge de forma direta os interesses do capital financeiro e especulativo; aposta na pol\u00edtica de exporta\u00e7\u00e3o de commodities agr\u00edcolas, minerais e extrativistas; e, simultaneamente, abre cunhas de alian\u00e7as com setores reacion\u00e1rios, em troca da gigantesca promo\u00e7\u00e3o de melhora nas condi\u00e7\u00f5es materiais de vida. Logo, o que pode se observar \u00e9 que, embora as mudan\u00e7as materiais tenham sido consider\u00e1veis, n\u00e3o houve altera\u00e7\u00e3o nas estruturas de poder assentadas no Brasil, tanto \u00e0quelas de n\u00edvel dom\u00e9stico como na correla\u00e7\u00e3o com as for\u00e7as externas. Logo, por mais que tenhamos praticado uma correta pol\u00edtica externa de tipo \u201cautonomia pela diversifica\u00e7\u00e3o e inser\u00e7\u00e3o soberana\u201d, a postura nacional e internacional foi coerente com o pacto de classes. Assim, tanto a inser\u00e7\u00e3o soberana no cen\u00e1rio internacional \u00e9 o mal menor e n\u00e3o uma proposta de mudan\u00e7a na ordem mundial, como era nos anos \u201980 do s\u00e9culo XX; como aceitar a melhoria material como uma esp\u00e9cie de solu\u00e7\u00e3o m\u00e1gica para problemas estruturais de domina\u00e7\u00e3o foram o cadafalso da pol\u00edtica lulista no Brasil.<\/p>\n<p>Ao promover a melhoria da condi\u00e7\u00e3o de mais de 44 milh\u00f5es de pessoas, o que seria minimamente desej\u00e1vel seria a afirma\u00e7\u00e3o de estruturas de contra-poder, ou ao menos, uma capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o popular promotora de um poder de veto das maiorias por sobre os ac\u00f3rd\u00e3os olig\u00e1rquicos e o viciado jogo burocr\u00e1tico-institucional. Ao contr\u00e1rio de fazer o afirmado aqui, o partido de governo refor\u00e7ou o poder de seu l\u00edder pol\u00edtico e eleitoral (Lula) e apostou toda a acumula\u00e7\u00e3o na vit\u00f3ria pelas urnas e n\u00e3o na constru\u00e7\u00e3o de um novo consenso pol\u00edtico-cultural, entregando a ideia de hegemonia societ\u00e1ria para as estruturas pr\u00e9-existentes. Deste modo, a ina\u00e7\u00e3o levou a que nenhuma das estruturas centrais de poder no Brasil fosse alterada, ao contr\u00e1rio, se expandiram sob os narizes dos dirigentes petistas, tais como: o agroneg\u00f3cio e latif\u00fandio; as \u201cigrejas\u201d neopentecostais; o poder da m\u00eddia corporativa; a financeiriza\u00e7\u00e3o da economia brasileira; a concentra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica nos oligop\u00f3lios nacionais (atrav\u00e9s de uma esp\u00e9cie de Bismarckismo tropical, j\u00e1 deveras elogiado por Eike Batista); a presen\u00e7a de capitais transnacionais nas telecomunica\u00e7\u00f5es; a divis\u00e3o de poder no mundo do trabalho com as centrais pelegas; loteamento do primeiro, segundo, terceiro e quarto escal\u00f5es do governo federal com oligarquias mercen\u00e1rias; e, n\u00e3o menos grave, a negativa em modificar minimamente as institui\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a de Estado, verdadeiras m\u00e1quinas de matar a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o, acumulando entulho autorit\u00e1rio e viol\u00eancia end\u00eamica na base de nossa pir\u00e2mide social.<\/p>\n<p>Definitivamente, tais pr\u00e1ticas de concilia\u00e7\u00e3o de classes e acomoda\u00e7\u00e3o de for\u00e7as s\u00e3o t\u00e3o ou mais danosas do que a degenera\u00e7\u00e3o promovida pelo loteamento e rateio de pr\u00e1ticas corruptas, ou do silenciar de investiga\u00e7\u00f5es que poderiam cortar a cabe\u00e7a da serpente, como as opera\u00e7\u00f5es da PF Macuco, Farol da Colina, Chacal e Satiagraha. Para desespero de centenas de militantes com boa vontade, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es estruturais e as pr\u00e1ticas pol\u00edticas as atitudes definidoras da balan\u00e7a do poder interno e n\u00e3o, algumas acertadas pol\u00edticas p\u00fablicas, como as de renda m\u00ednima, de reconhecimento ou expans\u00e3o das bases do ensino p\u00fablico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>A autocr\u00edtica necess\u00e1ria ou a desconfian\u00e7a permanente <\/strong><\/p>\n<p>Expostas as feridas, \u00e9 preciso falar em linguagem direta. Considerando tudo o que fora citado acima, entendo que, ou os dirigentes do PT, de seus partidos aliados (como o\u00a0 PC do B), das centrais sindicais que apoiaram o lulismo (como CUT e CTB), e setores afins fazem uma profunda autocr\u00edtica de suas pr\u00e1ticas e alian\u00e7as dos \u00faltimos 14 anos, ou toda esta indigna\u00e7\u00e3o coletiva contra o golpe ser\u00e1 jogada pelo ralo na pr\u00f3xima agenda eleitoral e eleitoreira. Esta cr\u00edtica tamb\u00e9m vale para os movimentos componentes da Frente Brasil Popular e Frente Povo Sem Medo. Se este n\u00e3o \u00e9 o momento para cr\u00edtica e autocr\u00edtica ent\u00e3o quando ser\u00e1? Para quem tem leitura da hist\u00f3ria pol\u00edtica brasileira ou vivera o fim do ciclo populista, pe\u00e7o que seja lembrado o triste papel do PCB ap\u00f3s 1964 e seus rachas sem fim at\u00e9 em fun\u00e7\u00e3o de sua ina\u00e7\u00e3o diante do golpe evidente.<\/p>\n<p>Afirmo que nem tudo est\u00e1 perdido e que h\u00e1 uma esquerda no Brasil, eleitoral e tamb\u00e9m n\u00e3o eleitoral e n\u00e3o \u00e9 a este \u00faltimo setor, ao qual perten\u00e7o, para onde este texto se dirige. H\u00e1muma conta a ser paga e a mesma \u00e9 salgada. Sei que este tema atinge afetos e amizades, mas o fa\u00e7o de maneira fraterna e direta. Ou a esquerda social restante (como a Via Campesina e as bases ainda mobilizadas da Teologia da Liberta\u00e7\u00e3o) assume seus erros e parte para um projeto pol\u00edtico de democracia com justi\u00e7a social, pluripartidarismo e igualdade s\u00f3cioecon\u00f4mica ou a parcela hoje ainda majorit\u00e1ria (a da centro-esquerda oficialista e de apoio incondicional ao governo que ca\u00edra) ficar\u00e1 apelando para debates m\u00edsticos e escapistas como: &#8220;a hist\u00f3ria n\u00e3o para e as rela\u00e7\u00f5es s\u00e3o dial\u00e9ticas&#8221; e sem debater a fundo um PROJETO DE PODER. Se este debate n\u00e3o come\u00e7ar a ser feito com a devida radicalidade e lucidez nos pr\u00f3ximos meses, repito, toda esta indigna\u00e7\u00e3o ser\u00e1 jogada pelo ralo diante dos oportunismos do pr\u00f3ximo ciclo eleitoral dos munic\u00edpios. O tema \u00e9 urgente e seguirei neste debate nas pr\u00f3ximas semanas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>04 de junho de 2016, Bruno Lima Rocha Iniciar um debate como esse \u00e9 sempre um tema delicado. Nos espa\u00e7os onde publico e circulam ideias por mim difundidas, percebo que as cr\u00edticas s\u00e3o bem recebidas e, ao mesmo tempo, posso estar abrindo feridas pol\u00edticas com interpreta\u00e7\u00f5es que podem ser bastante sect\u00e1rias. 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