{"id":1076,"date":"2009-07-24T11:10:08","date_gmt":"2009-07-24T11:10:08","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1076"},"modified":"2009-07-24T11:10:08","modified_gmt":"2009-07-24T11:10:08","slug":"cartas-de-alforria-em-alegrete-1832-1886-um-estudo-das-estrategias-cotidianas-dos-escravos-para-a-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1076","title":{"rendered":"Cartas de Alforria em Alegrete (1832-1886): um estudo das estrat\u00e9gias cotidianas dos escravos para a liberdade"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Rugendas1---entreposto[1].jpg\" title=\"Comboio de escravos, s\u00e9culo XIX. - Foto:Aguarela de Rugendas.\" alt=\"Comboio de escravos, s\u00e9culo XIX. - Foto:Aguarela de Rugendas.\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Comboio de escravos, s\u00e9culo XIX.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Aguarela de Rugendas.<\/small><\/figure>\n<p>O objetivo do artigo &eacute; tentar entender os arranjos cotidianos a as rela&ccedil;&otilde;es sociais praticadas entre senhores e escravos, tratando especificamente a &aacute;rea rural. Nestes termos, o intuito &eacute; compreender como constitu&iacute;a-se a pol&iacute;tica de dom&iacute;nio senhorial no controle de escravos e quais as possibilidades de a&ccedil;&atilde;o e participa&ccedil;&atilde;o dos cativos no processo de manumiss&atilde;o e na busca da liberdade.<\/p>\n<p>Por M&aacute;rcio Jesus Ferreira S&ocirc;nego <\/p>\n<p>O objetivo desse trabalho &eacute; apresentar algumas considera&ccedil;&otilde;es preliminares de um trabalho que faz parte do projeto de mestrado em andamento, sobre as cartas de alforria na cidade de Alegrete, no per&iacute;odo de 1832 a 1886, mostrando de que maneira eram concedidas as cartas de liberdade. Assim, o objetivo &eacute; tentar entender os arranjos cotidianos a as rela&ccedil;&otilde;es sociais praticadas entre senhores e escravos, tratando especificamente a &aacute;rea rural. Nestes termos, o intuito &eacute; compreender como constitu&iacute;a-se a pol&iacute;tica de dom&iacute;nio senhorial no controle de escravos e quais as possibilidades de a&ccedil;&atilde;o e participa&ccedil;&atilde;o dos cativos no processo de manumiss&atilde;o e na busca da liberdade. <br \/>\nPara compreender a complexidade e as especificidades das rela&ccedil;&otilde;es sociais praticadas entre senhores e escravos em Alegrete, &eacute; preciso mencionar que ao longo do s&eacute;culo XIX, a cidade era o maior munic&iacute;pio pecu&aacute;rio da principal zona de cria&ccedil;&atilde;o de gado da prov&iacute;ncia, a Campanha, na regi&atilde;o de fronteira com o Uruguai. Era uma plan&iacute;cie levemente ondulada, coberta predominantemente por campos, mesmo esses campos n&atilde;o sendo de qualidade homog&ecirc;nea, estavam ali as melhores pastagens da Prov&iacute;ncia. Em passagem pela cidade no per&iacute;odo de 1833 a 1834, o viajante Isabelle (1983, p. 24) fez a seguinte observa&ccedil;&atilde;o: <br \/>\n&ldquo;A vinte l&eacute;guas, nos arredores do sul de Guairaca se acha Alegrete, pequena cidade na fronteira da Prov&iacute;ncia com A Banda Oriental; est&aacute; segundo as informa&ccedil;&otilde;es que obtive perto de 30 10 de latitude (salvo erro), sobre a margem direita do Guarapuitan, pequeno arroio que os guaranis chamam Ybirita e que vai lan&ccedil;ar-se ao norte do Ybicui. Esta cidadezinha, toda nova, fica assentada em colinas rochosas, produzindo pastagens extremamente aliment&iacute;cias. Criam-se muitos animais e mulas bastante famosas. O com&eacute;rcio &eacute; ativo. A algumas l&eacute;guas para o sul h&aacute; morros ricos em metais; um deles cont&eacute;m uma mina de ouro de f&aacute;cil explora&ccedil;&atilde;o&rdquo;. <br \/>\nAssim, Alegrete foi elevada &agrave; categoria de munic&iacute;pio na d&eacute;cada de 1830. Se ainda hoje &eacute; o maior munic&iacute;pio do Rio Grande do Sul, na &eacute;poca de sua funda&ccedil;&atilde;o correspondia a maior parte de toda Campanha rio-grandense. Tratava-se de uma regi&atilde;o que havia recentemente sido ocupada pelos luso-brasileiros, conquista esta ocorrida nas duas primeiras d&eacute;cadas do s&eacute;culo XIX, acarretando um r&aacute;pido processo de apropria&ccedil;&atilde;o dos territ&oacute;rios antes disputados com o Imp&eacute;rio Espanhol. A ocupa&ccedil;&atilde;o daquelas terras gerou, em Alegrete, uma estrutura agr&aacute;ria onde se formaram grandes est&acirc;ncias, abrigando cada uma mais de 2.000 e, por vezes, mais de 10.000 reses. Ao lado desses enormes estabelecimentos havia um n&uacute;mero expressivo de medianos e pequenos produtores, muitos deles sem a propriedade da terra onde criavam seus gados e plantavam suas pequenas lavouras. <br \/>\nAlegrete foi elevado a munic&iacute;pio em 1831, tr&ecirc;s anos depois da derrota final do Imp&eacute;rio Brasileiro nas Guerras Cisplatinas. Alegrete e toda a Campanha passavam, ent&atilde;o, a constituir a estremadura dos dom&iacute;nios brasileiros junto aos lindes que o separavam da rep&uacute;blica uruguaia. Do outro lado da linha de fronteira, em toda a metade norte do Uruguai, muitos estancieiros brasileiros possu&iacute;am terras, gado, rela&ccedil;&otilde;es comerciais, pol&iacute;ticas e familiares, tornando aquele um espa&ccedil;o fronteiri&ccedil;o bastante integrado e pleno de interc&acirc;mbios sociais e econ&ocirc;micos. <br \/>\nA partir desse contexto, a pesquisa visa analisar as formas da liberdade em Alegrete. Durante o per&iacute;odo de 1832 a 1886 foram concedidas 704 cartas de alforria. Deve-se salientar que esta pesquisa ainda encontra-se em andamento e os resultados s&atilde;o parciais. Para uma melhor compreens&atilde;o dos tipos de alforria, foram feitas as seguintes tipologias: alforrias plenas gratuitas, em que a alforria era concedida sem &ocirc;nus ou condi&ccedil;&atilde;o; alforrias condicionais, na qual o alforriado ficava obrigado a prestar algum tipo de servi&ccedil;o ao senhor; e alforrias plenas pagas, em que o pr&oacute;prio escravo comprava sua alforria, ou pagamento por terceiro, onde outra pessoa comprava a alforria do escravo. <br \/>\nNas alforrias plenas gratuitas, o escravo era libertado, sem obriga&ccedil;&atilde;o de continuar a trabalhar para seus senhores. A seguir, um exemplo de carta de alforria plena gratuita: <br \/>\nMaria; crioula do Rio de Janeiro; Sr. Bernardo Jos&eacute; da Silva; dt. Conc. 16-10-39; dt. Reg. 27-09-42; da Costa de Jaguari (Livro 1, p. 113v). Desc: A carta foi concedida em retribui&ccedil;&atilde;o aos bons servi&ccedil;os prestados &ldquo;com toda a fidelidade&rdquo;, criando as filhas do senhor &ldquo;com todo o cuidado&rdquo;. <br \/>\nNessa carta de alforria plena gratuita, sem qualquer &ocirc;nus ou condi&ccedil;&atilde;o, &eacute; expressa a generosidade do senhor que vinha de encontro &agrave; fidelidade a aos bons servi&ccedil;os prestados pela cativa, justificando dessa forma, o merecimento da liberdade concedida. O intuito desses procedimentos poderia ser a manuten&ccedil;&atilde;o dos la&ccedil;os morais entre senhores e escravos, que a alforria n&atilde;o devia romper dando continuidade a uma rela&ccedil;&atilde;o de m&uacute;tua depend&ecirc;ncia e prote&ccedil;&atilde;o. Citando as palavras de Campos Graf (2000, p.99): <br \/>\n&ldquo;Da&iacute; ser t&atilde;o comum o ex-escravo tornar-se agregado do domic&iacute;lio do ex-senhor, sobretudo, quando, tratando-se de uma fam&iacute;lia, apenas um ou alguns de seus membros obtinha a alforria, enquanto os outros permaneciam no cativeiro&rdquo;. <br \/>\nDessa forma, os cativos livres permaneciam no conv&iacute;vio com seus ex-propriet&aacute;rios, criando uma esp&eacute;cie de clientela constitu&iacute;da por libertos dependentes. <br \/>\nNas alforrias condicionais, o escravo continuava com algum v&iacute;nculo com seu ex-senhor. As cartas concedidas pelos senhores trazem de um modo geral, v&aacute;ria men&ccedil;&otilde;es, como estas: &ldquo;pelo muito amor que tenho&rdquo;, &ldquo;pelos bons servi&ccedil;os prestados&rdquo;, &ldquo;pelo amor e confian&ccedil;a&rdquo;, &ldquo;por gratid&atilde;o e amor&rdquo;. A seguinte alforria mostra bem essa situa&ccedil;&atilde;o: <br \/>\nAnt&ocirc;nio; crioulo; Sr. Joaquim Rodrigues Jacques; dt. conc. 26-07-44; dt. reg. 25-04-45 (Livro 1, p. 120v). Desc.: A carta foi concedida em raz&atilde;o do escravo ter &ldquo;servido em toda sua inf&acirc;ncia na minha companhia. Declaro que desta data em diante fica liberto com a condi&ccedil;&atilde;o unicamente de n&atilde;o poder sair de minha companhia durante sua exist&ecirc;ncia e para cujo fim ser&aacute; igualmente durante a minha, esta condi&ccedil;&atilde;o se limita simplesmente ao princ&iacute;pio de estima&ccedil;&atilde;o e grau de aten&ccedil;&atilde;o que merece este crioulo a bem de seu tratamento na velhice. Devendo de minha parte congratular-me por seus servi&ccedil;os e alguns que me fa&ccedil;a com um sal&aacute;rio mensal equivalente ao seu vestu&aacute;rio&rdquo;. O senhor declara n&atilde;o haver Tabeli&atilde;o P&uacute;blico pr&oacute;ximo a sua resid&ecirc;ncia. <br \/>\nNessa carta de alforria, a declara&ccedil;&atilde;o de grande estima e aten&ccedil;&atilde;o que merece o escravo, foi o jeito encontrado pelo senhor para justificar a tutela sobre o cativo. Entretanto, o escravo continuava ligado ao seu propriet&aacute;rio, prestando servi&ccedil;os. Isso mostra que mesmo as cartas mostrando certo paternalismo, enaltecendo a amizade e o amor que os propriet&aacute;rios possu&iacute;am com seus escravos, essas alforrias n&atilde;o eram, em sua maioria, um ato fraterno. <br \/>\nDessa forma, o escravo n&atilde;o era liberto, mas sim um libertando, o que garantia sua fidelidade ao senhor que tinha dom&iacute;nio sobre ele e o restante de seus escravos. Nas palavras de Pires (2006. p. 146) &ldquo;a concess&atilde;o gratuita de uma alforria sob condi&ccedil;&atilde;o constitu&iacute;a-se muito mais numa estrat&eacute;gia de controle do que numa demonstra&ccedil;&atilde;o de generosidade por parte dos senhores&rdquo;. Assim, muitos escravos se comportavam, na esperan&ccedil;a de tamb&eacute;m conseguir uma carta de alforria. <br \/>\nAs alforrias condicionais acabavam sendo compensadas com &aacute;rduo trabalho. Mas, mesmo sob condi&ccedil;&otilde;es, a alforria foi o resultado de uma negocia&ccedil;&atilde;o cotidiana com o senhor. As mais recentes perspectivas historiogr&aacute;ficas, principalmente &agrave;quelas ligadas &agrave; an&aacute;lise do escravismo, est&atilde;o mostrando uma vis&atilde;o muito diferente sobre a escravid&atilde;o que mostravam o escravo apenas como v&iacute;timas, como uma coisa e n&atilde;o como agente. Os escravos reagiam de diferentes maneiras diante da viol&ecirc;ncia e da opress&atilde;o provocadas pelo sistema escravista. Da mesma forma que promoviam fugas e revoltas, aproveitavam a exist&ecirc;ncia de pequenos espa&ccedil;os para a negocia&ccedil;&atilde;o. Por meio de v&aacute;rias estrat&eacute;gias, que iam desde o enfrentamento direto at&eacute; a obedi&ecirc;ncia e a fidelidade para com o senhor, encontravam formas para alcan&ccedil;ar a liberdade. Uma delas a carta de alforria. <br \/>\nPara os autores Libby e Paiva (2000) a manuten&ccedil;&atilde;o do sistema escravista brasileiro, por mais de tr&ecirc;s s&eacute;culos e meio, exigiu um paciente jogo de equil&iacute;brio no quais os senhores manipulavam os escravos, mas tamb&eacute;m eram manipulados por eles. Essas manipula&ccedil;&otilde;es aparecem com mais nitidez quando se examina um dos aspectos do escravismo brasileiro que mais o distingue dos outros sistemas escravistas do Novo Mundo: a freq&uuml;&ecirc;ncia das alforrias alcan&ccedil;adas pelos escravos. <br \/>\nNas alforrias plena pagas, o escravo devia pagar uma quantia em dinheiro ou em produtos. Isso pode ser percebido na seguinte carta de alforria: <br \/>\nIsidoro; pardo; 20; Sr. Rufino Ant&ocirc;nio Guterres; dt. Conc. 14-10-74; dt. Reg. 19-10-74 (Livro 7, p. 24r). Desc: A carta foi concedida mediante pagamento, pelo escravo, de 1:000$. <br \/>\nEssa carta mostra que o escravo ficou livre, isso ap&oacute;s o pagamento ao propriet&aacute;rio. Como escravos conseguiam acumular bens? Os escravos ajuntavam economias com o trabalho realizado fora do expediente normal. Assim, com o dinheiro acumulado puderam comprar suas alforrias por remunera&ccedil;&atilde;o. Geralmente, utilizando os dias livres de trabalho para desenvolver atividades em seu pr&oacute;prio benef&iacute;cio. No meio rural, a concess&atilde;o de dias livres foi acompanhada pelo plantio de pequenas ro&ccedil;as, onde os escravos produziam o que lhes conviesse. Ao utilizar os domingos, os feriados religiosos e, &agrave;s vezes, dias reservados ao descanso, os escravos podiam suplementar a dieta com a produ&ccedil;&atilde;o de suas pr&oacute;prias hortas, vender o excedente nos mercados locais ou ao propriet&aacute;rio, e guardar o dinheiro ganho para fazer compras ou poupar para acabar comprando a pr&oacute;pria liberdade. Nas palavras de Schwartz (2001, p. 99): <br \/>\n&ldquo;O sistema de tarefas e sua integra&ccedil;&atilde;o com o desejo de tempo livre dos escravos, sempre dedicado a pequenos lotes para subsist&ecirc;ncia, proporcionavam algum espa&ccedil;o social aos escravos, uma oportunidade de viver melhor e, em alguns casos, de participar diretamente dos mercados locais. Tal atitude poderia, tamb&eacute;m, significar a promessa de liberdade&rdquo;. <br \/>\nEssa pr&aacute;tica era t&atilde;o comum que podemos encontrar exemplos de escravos libertos ou filhos de escravos herdando de seus pais o direito de plantar nessas terras. A seguinte carta de alforria, mesmo n&atilde;o sendo uma alforria plena paga, mostra bem tal situa&ccedil;&atilde;o: <br \/>\nBraz; preto; Sr. Ant&ocirc;nio do Prado Lima; dt. conc. 01-01-73; dt. reg. 03-11-73 (Livro 7, p. 5v). Desc.: A carta concede plena liberdade, em raz&atilde;o &ldquo;do tempo que nos acompanha sempre fiel [&#8230;] outrossim tem em meus terrenos uma ch&aacute;cara j&aacute; povoada que de suas cercas para dentro gozar&aacute; dela [liberdade] at&eacute; sua morte&rdquo;, onde os herdeiros do senhor n&atilde;o poderiam o retirar, a n&atilde;o ser por sua morte. <br \/>\nA leitura dessa carta de alforria pode dar alguns ind&iacute;cios. A refer&ecirc;ncia &ldquo;ch&aacute;cara&rdquo; deixa claro que o escravo tinha acesso a lotes ou parcelas de terras, de onde certamente podia extrair alimentos ou criar animais, diminuindo os custos de produ&ccedil;&atilde;o de seu senhor, e talvez algum excedente que seria vendido ao mercado. A men&ccedil;&atilde;o &ldquo;tem em meus terrenos uma ch&aacute;cara j&aacute; povoada&rdquo;, indica terras j&aacute; plantadas e animais criados, portanto, trabalho esse realizado nos dias santos e domingos, quando liberado por seu senhor. Entretanto, quando o senhor estabelece que dentro da ch&aacute;cara, o escravo goza de plena liberdade, isso pode levar a interpreta&ccedil;&atilde;o que o escravo continuava a prestar servi&ccedil;os para o senhor, podendo nesse caso haver um acordo entre ambos. Assim, a exist&ecirc;ncia do direito do escravo &agrave; propriedade e certo grau de autonomia, poderia resultar de uma s&eacute;rie constante e mut&aacute;vel de acordos e negocia&ccedil;&otilde;es. Tais negocia&ccedil;&otilde;es que variavam de uma regi&atilde;o para outra, ou mesmo de um latif&uacute;ndio para outro, com o tempo. <br \/>\nAt&eacute; este ponto, salientei a quest&atilde;o do pec&uacute;lio dos escravos atrav&eacute;s de liga&ccedil;&otilde;es com o trabalho agr&iacute;cola em Alegrete, n&atilde;o necessariamente que essa fosse a &uacute;nica forma dos cativos de adquirir alguma renda para comprar a liberdade. Este costume, todavia, variava de uma regi&atilde;o para outra, dependendo da atividade econ&ocirc;mica desempenhada. As hip&oacute;teses aqui apresentadas est&atilde;o necessariamente se baseando que durante o s&eacute;culo XIX, mesmo Alegrete tendo um com&eacute;rcio ativo, era uma cidade que tinha a economia baseada no meio rural. Isso tamb&eacute;m pode ser observado no relato do C&ocirc;nego Jo&atilde;o Pedro Gay, Reverendo P&aacute;roco de Alegrete, em 02 de abril de 1849, apud Trindade (1985, p. 90): <br \/>\n&ldquo;A povoa&ccedil;&atilde;o atual da Vila de Alegrete podia avaliar em 1.500 habitantes, a da campanha que lhe pertence &eacute; superior e excede talvez a 4.000 habitantes. Na Vila a maior parte dos moradores emprega-se no com&eacute;rcio, que &eacute; muito consider&aacute;vel&rdquo;. <br \/>\nNessa &eacute;poca a maioria da popula&ccedil;&atilde;o se encontrava na campanha. Alegrete mesmo tendo um com&eacute;rcio ativo, tinha sua economia baseada na pecu&aacute;ria, isso fica claro em outra observa&ccedil;&atilde;o do C&ocirc;nego Gay, se referindo a cidade em 1849, apud Trindade (1985, p. 89): <br \/>\n&ldquo;O terreno de Alegrete &eacute; muito f&eacute;rtil e as pastagens de qualidade superior ao dos outros munic&iacute;pios da Prov&iacute;ncia. Nele se cria grande quantidade de gado, de eq&uuml;inos e assinos. O gado vacum acha-se atualmente ali em maior n&uacute;mero e em melhor qualidade e estado sanit&aacute;rio do que em qualquer outra Prov&iacute;ncia, e &eacute; levado as charqueadas de Porto Alegre e de Pelotas. Os animais muares s&atilde;o levados em tropa para a Prov&iacute;ncia de S&atilde;o Paulo&rdquo;. <br \/>\nDessa forma, com a maior parte dos moradores concentrados nas &aacute;reas rurais da cidade, em est&acirc;ncias, pode sugerir que a maioria dos escravos se encontrava tamb&eacute;m nesses estabelecimentos, pois era onde estava o centro da economia e os grandes propriet&aacute;rios com condi&ccedil;&otilde;es de adquirir escravos. Nestes termos, analisando as cartas de alforria de Alegrete no per&iacute;odo de 1832 a 1886, sendo ainda essa pesquisa de car&aacute;ter preliminar, apareceram alguns casos que as manumiss&otilde;es eram compradas com reses. Diante disso, a proposta &eacute; tentar desnaturalizar o entendimento a respeito dessas escrituras notariais de liberdade. Deste modo, nada mais oportuno que iniciar a exposi&ccedil;&atilde;o a partir de um exemplar deste tipo de documento: <br \/>\nJuli&atilde;o; preto; crioulo; 39; Sr. Severino Ant&ocirc;nio da Cunha Pacheco; dt. conc. 18-05-72; dt. reg. 29-10-72 (Livro 6, p. 16 v). Desc.: A carta foi concedida mediante pagamento de 1:128$, sendo 900$ de Dom Manoel Baltar e 100$ pelo escravo, que tamb&eacute;m entregou 16 &ldquo;reses de criar [&#8230;] no valor cada uma r&ecirc;s de 8$. O escravo foi comprado da j&aacute; falecida irm&atilde; do senhor, Maria Ant&ocirc;nia da Cunha. <\/p>\n<p>A leitura dessa carta de alforria suscita muitos questionamentos, pois mostra que o escravo Juli&atilde;o pagou pela alforria, primeiramente em esp&eacute;cie, sendo que a maior parte da quantia foi paga por um terceiro, ou seja, mostra la&ccedil;os de solidariedade e arranjos cotidianos entre escravos e brancos para a conquista da liberdade. Entretanto o interessante nesta situa&ccedil;&atilde;o &eacute; que o restante do pagamento foi feito com animais de cria&ccedil;&atilde;o que o escravo possu&iacute;a. Isso pode revelar que a pr&aacute;tica de escravos como Juli&atilde;o possu&iacute;rem reses n&atilde;o era generalizada, sendo apenas uma minoria de cativos que recebiam esse tipo de incentivo. Mas por que, apenas uma pequena parcela de escravos conseguiam tal benef&iacute;cio? Essa pergunta &eacute; que come&ccedil;ou a ser feita durante a pesquisa. Essa possibilidade de alguns possu&iacute;rem alguma quantidade de gado acabava configurando certa margem de autonomia a estes cativos. <br \/>\nDentre as alforrias analisadas, aparecem casos que as cartas de liberdade s&atilde;o concedidas atrav&eacute;s de a&ccedil;&otilde;es movidas por escravos. Estas s&atilde;o muito interessantes, pois transmitem diversos aspectos dos entendimentos dos cativos acerca de suas condi&ccedil;&otilde;es. Um exemplo e a seguinte carta de alforria: <br \/>\nFirmino; preto; Sra. Baronesa de Cambai; dt. conc. 06-04-78; dt. reg. 06-04-78 (Livro 8, p. 37r). Desc: A carta foi concedida pelo Juiz de &Oacute;rf&atilde;os, o Dr. Alberto Gon&ccedil;alves Pereira de Andrade, &ldquo;que por parte do mesmo preto [&#8230;] me foi dirigida uma peti&ccedil;&atilde;o na qual alegou ter entregue animais de sua propriedade na Fazenda de Santa Eug&ecirc;nia de propriedade da dita Baronesa, cujos valores s&atilde;o superiores a quantia de 600$, por que foi avaliado, e tendo este ju&iacute;zo verificado e expedido veio ao conhecimento da verdade alegada pelo dito preto, havendo ainda um saldo de 12$ em [seu] favor&rdquo;. <br \/>\nA carta de alforria al&eacute;m de ter sido uma a&ccedil;&atilde;o movida pelo escravo, mostra mais uma vez a possibilidade de alguns escravos possu&iacute;rem pequenos rebanhos, o que faz pensar em uma certa autonomia. Ao que parece, os senhores buscavam legitimar seu dom&iacute;nio n&atilde;o s&oacute; atrav&eacute;s dos castigos, mas tamb&eacute;m de espa&ccedil;os de incentivo e autonomia, limitados a poucos. A permiss&atilde;o de reses para alguns escravos poderia ser uma forma exemplar e de incentivo ao trabalho a outros cativos. <br \/>\nEssa forma de uma minoria de escravos adquirirem pec&uacute;lio com reses em Alegrete, para os senhores poderia ser uma forma de dom&iacute;nio, principalmente pela quest&atilde;o pol&iacute;tica da rela&ccedil;&atilde;o. Os propriet&aacute;rios precisavam legitimar e justificar o sistema de domina&ccedil;&atilde;o. Entretanto, a legitimidade do sistema n&atilde;o poderia ser somente a base da viol&ecirc;ncia e castigo, mas precisava tamb&eacute;m ser feita atrav&eacute;s de incentivos. Assim, o fato dos senhores permitirem que alguns de seus escravos tivessem alguns animais, deveria ser uma pr&aacute;tica restrita, pois em rela&ccedil;&atilde;o aos outros que continuavam cativos, deveria servir de exemplo a ser seguido se quisessem almejar alguma melhoria em suas condi&ccedil;&otilde;es de vida, o que no final das contas, materializava-se no horizonte aberto pela possibilidade da manumiss&atilde;o, condicionada a um bom comportamento. <\/p>\n<p>\nREFER&Ecirc;NCIAS BIBLIOGR&Aacute;FICAS <\/p>\n<p>\nFontes Prim&aacute;rias <\/p>\n<p>Cartas de Alforria, Livro Notariais de Transmiss&otilde;es e Notas e de Registros Diversos do 1&ordm; Tabelionato de Alegrete: 1832-1886. <\/p>\n<p>Livros <\/p>\n<p>CAMPOS GRAF, M&aacute;rcia Elisa de. Nos Bastidores da Escravid&atilde;o: Conviv&ecirc;ncia e Conflito no Brasil Colonial. In: SILVA, Maria Beatriz Nizza da (org.). Brasil: Coloniza&ccedil;&atilde;o e Escravid&atilde;o. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000. <br \/>\nISABELLE, Arsene. Viagem ao Rio Grande do Sul, 1833-1834; Tradu&ccedil;&atilde;o e Notas de Dante de Laytano. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1983. <br \/>\nLIBBY, Douglas Cole e PAIVA, Eduardo Fran&ccedil;a. A escravid&atilde;o no Brasil: rela&ccedil;&otilde;es sociais, acordos e conflitos. S&atilde;o Paulo: Editora Moderna, 2000. <br \/>\nPIRES, Maria de F&aacute;tima Novaes. Cartas de Alforria: &ldquo;para n&atilde;o ter o desgosto de ficar em cativeiro&rdquo;. Revista Brasileira de Hist&oacute;ria. Volume 26, n&deg;52. S&atilde;o Paulo: ANPUH, 2006. <br \/>\nSCHWARTZ, Stuart B. Escravos, roceiros e rebeldes. Bauru: EDUSC, 2001. <br \/>\nTRINDADE, Miguel Jacques. Alegrete do S&eacute;culo XVII ao S&eacute;culo XX. Volume I. Porto Alegre: Editora Movimento, 1985.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Comboio de escravos, s\u00e9culo XIX. Foto:Aguarela de Rugendas. 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