{"id":10766,"date":"2016-08-28T12:18:16","date_gmt":"2016-08-28T15:18:16","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=885"},"modified":"2016-08-28T12:18:16","modified_gmt":"2016-08-28T15:18:16","slug":"um-balanco-critico-e-politico-das-olimpiadas-do-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10766","title":{"rendered":"Um balan\u00e7o cr\u00edtico e pol\u00edtico das Olimp\u00edadas do Rio"},"content":{"rendered":"<p>26 de agosto de 2016, por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a><\/p>\n<p>Terminados os Jogos Ol\u00edmpicos do Rio em 2016, entendo que \u00e9 chegado o momento de realizar uma s\u00e9rie de balan\u00e7os e posicionamentos ap\u00f3s o grande evento. Para este texto, aporto duas considera\u00e7\u00f5es, uma de ordem territorial, observando o ordenamento da mancha urbana, suburbana e favelizada do Rio de Janeiro e o quanto a realiza\u00e7\u00e3o de eventos similares n\u00e3o modificou a situa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia policial, abandono de popula\u00e7\u00f5es inteiras e a pr\u00e1tica de racismo institucionalizado, disfar\u00e7ado de \u201ccaos urbano\u201d. Na sequ\u00eancia, fa\u00e7o um debate a respeito do modelo de desenvolvimento do esporte brasileiro visando o desempenho nos Jogos do Rio. A aus\u00eancia de uma institucionaliza\u00e7\u00e3o do esporte de base sempre foi a mais vis\u00edvel de nossas caracter\u00edsticas, e como tal, infelizmente, continua sendo.<\/p>\n<p><strong>Os Jogos Ol\u00edmpicos da distopia midi\u00e1tica e o \u201ccaos urbano\u201d no Rio<\/strong><\/p>\n<p>Vivemos as Olimp\u00edadas no auge de um anticl\u00edmax pol\u00edtico, econ\u00f4mico e social. \u00c9 como que ao fim de uma realidade fabricada, despert\u00e1ssemos todos diante do anunciado pesadelo da quebra do pacto de classes. Mais do mesmo, os conglomerados econ\u00f4mico-midi\u00e1ticos que venderam a ilus\u00e3o, agora vendem a resili\u00eancia, ao inv\u00e9s da realidade. Lembremos.<\/p>\n<p>Quando no long\u00ednquo ano de 2007, o Rio de Janeiro sediou os Jogos Panamericanos, o pa\u00eds vivia um ambiente pol\u00edtico diferente. O estado fluminense era governado pelo ex-tucano S\u00e9rgio Cabral Filho, homem vinculado a grupos empresariais arrivistas no per\u00edodo lulista, como a Delta Engenharia e o Grupo X, de Eike Batista. Como base da alian\u00e7a de governo de Cabral Filho, a presen\u00e7a do PT local e a pavimenta\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a com a legenda de Michel Temer. As realiza\u00e7\u00f5es do Rio vieram acompanhadas do lado mais b\u00e1rbaro e sinistro do Estado p\u00f3s-colonial brasileiro. Nos meses anteriores ao Pan, que quebrara recordes de superfaturamento nas obras e contratos emergenciais, o n\u00famero de mortos pela a\u00e7\u00e3o violenta da Pol\u00edcia Militar ultrapassara os do Iraque em plena guerra civil. Uma parte razo\u00e1vel destes dados macabros \u00e0 \u00e9poca podem ser conferidos no dom\u00ednio Rio Body Count 2 (<a href=\"http:\/\/riobodycount2.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/riobodycount2.blogspot.com.br\/<\/a>).<\/p>\n<p>Em outubro de 2009, se verificarmos as imagens registradas na 121\u00aa sess\u00e3o do Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional, veremos discursos do ent\u00e3o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, a presen\u00e7a do prefeito Eduardo Paes (o mesmo, j\u00e1 no PMDB), do governador S\u00e9rgio Cabral Filho, \u00e0 \u00e9poca presidente do Banco Central e hoje ministro da Fazenda do governo interino-golpista Henrique Meirelles, e do ent\u00e3o ministro do Esporte, Orlando Silva, hoje deputado federal pelo PC do B de S\u00e3o Paulo. Esta representa\u00e7\u00e3o da alian\u00e7a entre a centro-esquerda, oligarcas e financistas marcou o segundo mandato de Lula e a elei\u00e7\u00e3o da sucessora do ex-sindicalista, em outubro de 2010.<\/p>\n<p>Logo ap\u00f3s a primeira elei\u00e7\u00e3o de Dilma e Temer, o pa\u00eds assistiu a um espet\u00e1culo midi\u00e1tico chamado \u201cA Guerra do Rio\u201d, com as c\u00e2maras de TV projetando a ocupa\u00e7\u00e3o do Complexo do Alem\u00e3o, iniciando com a fuga de traficantes da Vila Cruzeiro, transmitida ao vivo pelas redes de TV l\u00edderes (neste link \u00e9 poss\u00edvel compreender o momento: <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=PDPMPesOaQg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=PDPMPesOaQg<\/a>). O impacto de ver centenas de homens armados de forma ilegal, em plena luz do dia, d\u00e1 uma impress\u00e3o de excepcionalidade. Longe disso, pois se trata simplesmente do cotidiano vivido por mais de tr\u00eas milh\u00f5es de pessoas apenas da Regi\u00e3o Metropolitana do Rio. A \u201cexce\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o \u00e9 o fato, e sim a transmiss\u00e3o.<\/p>\n<p>Com o acionar coordenado de m\u00eddia, tecnocratas do mundo jur\u00eddico-policial e ag\u00eancias de marketing digital a servi\u00e7o dos ultra liberais, a fr\u00e1gil alian\u00e7a de classes entre ex-reformistas, oligarcas, industriais e financistas foi rompida. Junto desta, podem estar indo para o ralo, tanto a diminuta soberania popular, assim como a maioria de nossos direitos trabalhistas e sociais. Eis as Olimp\u00edadas da distopia.<\/p>\n<p><strong>Apesar do bom desempenho, ainda n\u00e3o temos um modelo de desenvolvimento esportivo<\/strong><\/p>\n<p>Antes de escrever estas linhas e durante a exibi\u00e7\u00e3o das Olimp\u00edadas, as quais acompanhei com intensidade, revisei meus escritos a respeito do mesmo tema. A aus\u00eancia do Estado na promo\u00e7\u00e3o do esporte escolar como base para o desenvolvimento ol\u00edmpico nacional. Ou seja, buscando incessantemente as estruturas de Estado como garantidoras do direito ao esporte como parte fundamental da cidadania, especialmente como parte do direito \u00e0 inf\u00e2ncia e a adolesc\u00eancia. Se formos levar em conta este absurdo e os poucos centros de excel\u00eancia para o desenvolvimento esportivo brasileiro, veremos que os \u201cresultados\u201d em termos de competi\u00e7\u00e3o, resultam em verdadeiro \u201cmilagre\u201d nacional.<\/p>\n<p>O Brasil fechou sua posi\u00e7\u00e3o nos Jogos do Rio em 13\u00ba \u2013 mesmo levando em conta o absurdo que \u00e9 a contabilidade de ouros coletivos como equivalentes a ouros individuais. \u00c0 frente do pa\u00eds est\u00e3o, em ordem decrescente, EUA, Gr\u00e3 Bretanha, China, R\u00fassia (desfalcada do atletismo), Alemanha, Jap\u00e3o, Fran\u00e7a, Cor\u00e9ia do Sul, It\u00e1lia, Austr\u00e1lia, Holanda e Hungria. Nas sete posi\u00e7\u00f5es abaixo do Brasil est\u00e3o, Espanha, Qu\u00eania, Jamaica, Cro\u00e1cia, Cuba, Nova Zel\u00e2ndia e Canad\u00e1. Nas dez posi\u00e7\u00f5es sequentes est\u00e3o: Uzbequist\u00e3o, Cazaquist\u00e3o, Col\u00f4mbia, Su\u00ed\u00e7a, Ir\u00e3, Gr\u00e9cia, Argentina, Dinamarca, Su\u00e9cia e \u00c1frica do Sul; nas posi\u00e7\u00f5es de 31\u00aa a 40\u00aa, est\u00e3o: Ucr\u00e2nia, S\u00e9rvia, Pol\u00f4nia, Cor\u00e9ia do Norte, B\u00e9lgica, Tail\u00e2ndia, Eslov\u00e1quia, Ge\u00f3rgia, Azerbaij\u00e3o e Bielor\u00fassia. Assim, dentre os 40 primeiros pa\u00edses, verificamos sete Estados nacionais sem modelo de desenvolvimento desportivo, sendo estes: Brasil, Qu\u00eania, Jamaica, Col\u00f4mbia, Argentina, \u00c1frica do Sul e Tail\u00e2ndia. Como o que vale para o Comit\u00ea Ol\u00edmpico Internacional (COI) \u00e9 o n\u00famero de medalhas de ouro, alguns pa\u00edses, como Jamaica e Qu\u00eania, se especializam em determinadas modalidades ou provas espec\u00edficas de atletismo e a partir desta base modelam seu desempenho. Proporcionalmente em termos de recursos, instala\u00e7\u00f5es e n\u00famero de praticantes de base, o Brasil foi muito bem, dentro das quadras, deixando para o momento posterior a mesma situa\u00e7\u00e3o de incerteza e desespero fora dos locais de competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>O m\u00e9rito para tais resultados v\u00eam das pol\u00edticas de alto rendimento (incluindo a pol\u00eamica dos atletas \u201cmilitares\u201d, da abnega\u00e7\u00e3o de atletas dedicando-se ao profissionalismo e dos raros exemplos de confedera\u00e7\u00f5es que t\u00eam centros de excel\u00eancia, ligas profissionais e planejamento. Como modelo fechado, neste sentido, temos apenas a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira de Voleibol (CBV), n\u00e3o sendo \u00e0 toa a presen\u00e7a do cartola Carlos Arthur Nuzman na Presid\u00eancia do Comit\u00ea Ol\u00edmpico Brasileiro e que um dos seus dois sucessores na CBV , Ary Gra\u00e7a Filho, ocupe a Presid\u00eancia da Federa\u00e7\u00e3o Internacional de Voleibol (FIVB).<\/p>\n<p>Sendo a CBV o modelo para o desenvolvimento de modalidades ol\u00edmpicas no pa\u00eds, ressaltando que os esportes coletivos t\u00eam outra din\u00e2mica dos individuais (como por exemplo, a necessidade de tipos e atributos f\u00edsicos pr\u00e9-condicionados para os coletivos), nota-se que o desporto se desenvolve apesar da aus\u00eancia do Estado como formulador e implantando as pol\u00edticas necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>O ciclo de qualquer modalidade com ambi\u00e7\u00f5es ol\u00edmpicas \u00e9 difus\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o e competi\u00e7\u00e3o (o que na g\u00edria denomina-se no amadorismo ou nas divis\u00f5es inferiores como \u201catleta federado\u201d); partindo dos resultados desta \u00faltima selecionam-se o alto rendimento e da\u00ed os programas de incentivo e perman\u00eancia no desempenho ranqueado internacionalmente. Sem esta base, fazer do esporte brasileiro um direito de todas e todos \u00e9 simplesmente uma miss\u00e3o em vida de treinadores abnegados, como o t\u00e9cnico de boxe da comunidade do Vidigal \u2013 zona sul do Rio de Janeiro -, Raff Giglio. De seu projeto, al\u00e9m das centenas de crian\u00e7as que atendem aos treinamentos ao longo de mais de duas d\u00e9cadas, saiu um medalhista ol\u00edmpico e outros dois selecionados em 2016. J\u00e1 o aluguel de seu gin\u00e1sio, ap\u00f3s haver sido despejado, \u00e9 pago com o mecenato de um ator global! Hist\u00f3rias como estas e absurdos institucionais correspondentes, mais que justificam o choro e a raiva de atletas de alto rendimento e os t\u00e9cnicos de base.<\/p>\n<p><strong>Apontando duas conclus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>Aponto, por fim duas conclus\u00f5es deste texto. A primeira aponta para a injusti\u00e7a estrutural da mancha urbana do Rio como um espelho das distor\u00e7\u00f5es do pa\u00eds. Cada cidade brasileira e sua correspondente Regi\u00e3o Metropolitana; acostumaram a organizar grandes eventos e trabalhar com a possibilidade de atra\u00e7\u00e3o tur\u00edstica sem com isso modificar a injusti\u00e7a e a pobreza espacialmente dividida.<\/p>\n<p>J\u00e1 o modelo do esporte de base, ou pior, a aus\u00eancia deste, simplesmente exaure as for\u00e7as dos difusores das modalidades desportivas. Como resultado, al\u00e9m das narrativas t\u00edpicas do capitalismo, onde se destacam os empenhos e valores individuais de supera\u00e7\u00e3o, temos mais do mesmo. O Estado opera como modelo de acumula\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m atende, parcialmente, a alguns direitos sociais, todos incompletos. Como o direito ao esporte, infelizmente, trata-se do mesmo abandono e injusti\u00e7a estrutural.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>26 de agosto de 2016, por Bruno Lima Rocha Terminados os Jogos Ol\u00edmpicos do Rio em 2016, entendo que \u00e9 chegado o momento de realizar uma s\u00e9rie de balan\u00e7os e posicionamentos ap\u00f3s o grande evento. 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