{"id":10775,"date":"2016-09-28T10:03:29","date_gmt":"2016-09-28T13:03:29","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=942"},"modified":"2016-09-28T10:03:29","modified_gmt":"2016-09-28T13:03:29","slug":"analise-de-conjuntura-lula-como-reu-da-lava-jato-e-a-disputa-pela-hegemonia-perdida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10775","title":{"rendered":"An\u00e1lise de conjuntura: Lula como r\u00e9u da Lava Jato e a disputa pela hegemonia perdida"},"content":{"rendered":"<p><em><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a>, 26 de setembro de 2016<\/em><\/p>\n<p>Finalmente aconteceu. Dentro do prazo previsto, a den\u00fancia foi acatada, conforme era esperado nos pol\u00edticos. O juiz federal S\u00e9rgio Moro aceitou, na tarde de 3\u00aa dia 20 de setembro, a den\u00fancia dos cruzados do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) de Curitiba. O ex-presidente Lula, dona Marisa Let\u00edcia, Paulo Okamotto e os diretores executivos da construtora OAS, j\u00e1 arrolados em outras den\u00fancias. \u00c9 inevit\u00e1vel especular sobre as poss\u00edveis consequ\u00eancias da condi\u00e7\u00e3o de Lula como r\u00e9u federal pela segunda vez neste ano. O fato \u00e9, quando e se Moro pedir a pris\u00e3o preventiva de Lula, o pa\u00eds pega fogo e a legitimidade do PT estar\u00e1 reconstru\u00edda por decreto.<\/p>\n<p>O Brasil vive uma reviravolta atr\u00e1s da outra. Quando pressupomos que haver\u00e1 alguma estabiliza\u00e7\u00e3o do governo usurpador, um novo fato da Lava jato acelera o moto cont\u00ednuo. Isso se d\u00e1 por diversas raz\u00f5es, dentre elas a decep\u00e7\u00e3o dos ex-reformistas ao constatar que o Estado burgu\u00eas, liberal-perif\u00e9rico e p\u00f3s-colonial n\u00e3o \u00e9 \u201cneutro\u201d, tendo em sua coluna vertebral, estamentos intoc\u00e1veis, o tempo todo brigando para aumentar o pr\u00f3prio poder de barganha. Quem faz a den\u00fancia contra o ex-presidente \u00e9 uma tecnocracia ascendente. Todas as hip\u00f3teses e suspeitas anteriores v\u00e3o se comprovando na medida do andar da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Trata-se da ascens\u00e3o de uma nova camada dominante, uma tecnocracia de Estado orgulhosa de sua pr\u00f3pria trajet\u00f3ria, ideologicamente liberal e pr\u00f3-EUA e realizando atividades formais que ultrapassam, e muito, as capacidades formais destes operadores jur\u00eddicos. N\u00e3o defendo em nada Lula ou o lulismo como pacto de classes, mas \u00e9 preciso estar atento e forte. Se na etapa atual o alvo \u00e9 o ex-sindicalista que n\u00e3o praticou a luta de classes \u00e0 frente do Poder Executivo, amanh\u00e3, com quem ser\u00e1?<\/p>\n<p>Logo, apontamos a conclus\u00e3o em duas dimens\u00f5es:<\/p>\n<p>&#8211; a primeira \u00e9 admitir que a Lava Jato supostamente opera de forma seletiva, ao menos quando os alvos s\u00e3o pol\u00edticos de carreira e o aceite ou n\u00e3o de dela\u00e7\u00e3o premiada quando o conte\u00fado delatado atinge o alto tucanato;<\/p>\n<p>&#8211; a segunda \u00e9 lamentar pelo fato de que a ex-esquerda ganhou na bandeja a hegemonia dos atos de Fora Temer, Contra o Golpe e por Elei\u00e7\u00f5es Diretas com a aceita\u00e7\u00e3o da den\u00fancia por parte de S\u00e9rgio Moro.<\/p>\n<p>Para entender o tamanho do fosso onde a ex-esquerda se metera e o debate estrat\u00e9gico o tempo todo escondido e postergado, \u00e9 necess\u00e1rio debater minimamente o tema da hegemonia.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><strong>Uma evid\u00eancia da derrota na luta pela hegemonia pol\u00edtico-cultural<\/strong><\/p>\n<p>O golpe branco consumado em 31 de agosto de 2016 no Senado foi o ponto culminante de um processo de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as mais \u00e0 direita no Brasil. Este processo, n\u00e3o come\u00e7ou na rebeli\u00e3o popular de 2013, mas sim logo ap\u00f3s, quando as \u201clideran\u00e7as\u201d formadas pelos institutos e grupos de press\u00e3o (<em>think tanks <\/em>vers\u00e3o colonial) aproveitaram a t\u00e1tica de mobiliza\u00e7\u00e3o via internet. J\u00e1 em 2014, passado o segundo turno de tipo plebiscit\u00e1rio, come\u00e7ou o processo de \u201cvenezueliza\u00e7\u00e3o\u201d do pa\u00eds, com o terceiro turno ultrapassando as ultrajantes negociatas pela tal da governabilidade e sofrendo press\u00e3o direta da nova direita ensandecida tentando aplicar o mapeamento pol\u00edtico dos EUA aqui.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o que pode ser extra\u00edda deste processo \u00e9 a necessidade de urgente de conceituar e disputar a hegemonia pol\u00edtico-cultural. N\u00e3o se trata de gaguejar verbetes de manual ultrapassado, mas sim de expurgar esta ideia nefasta que ideologia \u00e9 super-estrutura e como tal \u00e9 reflexo das condi\u00e7\u00f5es materiais de vida. Digo mais. A pr\u00f3pria representa\u00e7\u00e3o de super e infraestrutura, assim como a terminologia \u201ccondi\u00e7\u00e3o objetiva\u201d e \u201ccondi\u00e7\u00e3o subjetiva\u201d s\u00e3o perigosas fantasias. Se houvesse condi\u00e7\u00e3o objetiva na infraestrutura, o viralatismo n\u00e3o seria hegem\u00f4nico na classe m\u00e9dia, e n\u00e3o haveria entreguismo nas camadas dirigentes e dominantes. Por treze anos, pouco caso se fez das estruturas de poder societ\u00e1rios e das condi\u00e7\u00f5es de reprodu\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica, especialmente na rela\u00e7\u00e3o com os grandes grupos de m\u00eddia e a eterna pen\u00faria da comunica\u00e7\u00e3o alternativa.<\/p>\n<p>Com o golpe, supostamente os problemas estariam ultrapassados e as ilus\u00f5es liberal-democratas burguesas superadas, correto? N\u00e3o. Agora na etapa de resist\u00eancia, h\u00e1 disputa por esse protagonismo entre os adeptos do governo deposto e as oposi\u00e7\u00f5es mais \u00e0 esquerda (eleitorais ou n\u00e3o). No que diz respeito \u00e0 m\u00eddia alternativa, o problema \u00e9 maior. N\u00e3o apenas os chamados \u201cblogs sujos\u201d e oficiosos do lulismo (de linha adesista ou cr\u00edtica) padecem por escassos recursos, como n\u00e3o se chega perto de uma economia de sobreviv\u00eancia nem para a m\u00eddia oficiosa do governo moribundo. Sobram evid\u00eancias, mas uma realmente salta aos olhos.<\/p>\n<p>\u00c9 de praxe que dire\u00e7\u00f5es sindicais coloquem an\u00fancios pagos em ve\u00edculos dos conglomerados de m\u00eddia locais. Estes, em sua maior parte subsidi\u00e1rios dos grandes grupos, terminam por sugar escassos recursos advindos da contribui\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e, ajudando a financiar sua programa\u00e7\u00e3o. Enquanto operam como bomba de suc\u00e7\u00e3o do caixa de diretorias pouco ou nada combativas, ao mesmo tempo, desconstroem o direito de greve, defendem abertamente o fim da CLT, difundem ideologia individualista e burguesa, poluindo cora\u00e7\u00f5es e mentes com o mais nefasto imagin\u00e1rio capitalista. Os mesmos valores, se aplicados em cons\u00f3rcios locais ou estaduais de m\u00eddia alternativa, fariam toda diferen\u00e7a, tanto nas rotinas produtivas como na possibilidade de aumentar a democracia de base no seio da esquerda.<\/p>\n<p>A derrota pol\u00edtico-cultural j\u00e1 come\u00e7a na ex-esquerda, a partir mesmo de um l\u00f3cus de excel\u00eancia, as dire\u00e7\u00f5es sindicais quando transformadas em burocracia semipermanente. A mesma estrutura de mentalidade se nota na participa\u00e7\u00e3o em conselhos de administra\u00e7\u00e3o de estatais poderosas, ou a posi\u00e7\u00e3o acr\u00edtica quanto ao papel dos fundos de pens\u00e3o no per\u00edodo lulista, refor\u00e7ando, em \u00faltima inst\u00e2ncia, a jogatina financeira. O fosso deixou de ser epis\u00f3dico, tornando-se estrutural e estruturante. Remontar estas mentalidades vai implicar, necessariamente, sofrimento e ruptura, tudo simult\u00e2neo \u00e0 resist\u00eancia ao pacote de leis regressivas e os custos do golpe de Estado,\u00a0 em termos de dilapida\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico e o entreguismo vira-lata que atravessa o governo usurpador.<\/p>\n<p><strong>Apontando conclus\u00f5es: estamento, democracia indireta e a hegemonia \u00e0 esquerda \u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Quanto ao estamento judici\u00e1rio (hegem\u00f4nico, n\u00e3o totalit\u00e1rio), definitivamente nunca fui t\u00e3o convicto. \u00c9 necess\u00e1rio lutar por uma sociedade onde o Direito seja de todas e todos e n\u00e3o exclusivo aos tecnocratas que dominam o tecnicismo dos operadores jur\u00eddicos. O Direito \u00e9 diferente da Justi\u00e7a, distante da Lei e anos luz de seus operadores. Experi\u00eancias neste sentido existem na Am\u00e9rica Latina contempor\u00e2nea e ancestral; logo, urge conhece-las, incorporando-as nos programas pol\u00edticos de novas institui\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n<p>Quanto aos representantes de carreira e a vertente liberal da democracia (indireta e representativa), e presum\u00edvel que esta vers\u00e3o liberal-brasileira siga manipulando o voto popular em uma sociedade profundamente injusta e desigual; produzindo pol\u00edticos profissionais que tendam a legislar em causa pr\u00f3pria ou na defesa de seus patrocinadores. Logo, radicalizar a democracia disputando seu conceito-chave \u00e9 uma exig\u00eancia. Isto porque, na democracia direta, assentada sobre a igualdade s\u00f3cio econ\u00f4mica, o inverso da legisla\u00e7\u00e3o em causa pr\u00f3pria e da sobre representa\u00e7\u00e3o de elites e classe dominante, tamb\u00e9m seria verdadeiro.<\/p>\n<p>Vale lembrar a evid\u00eancia. \u00c9 esta legislatura que derrubou um governo eleito (com maioria de centro-direita) e ao qual a maioria parlamentar ent\u00e3o \u201caliada\u201d, tenta, em todo momento, explicitamente legislar em causa pr\u00f3pria. Sim, estamos diante de um golpe parlamentar, onde a fr\u00e1gil soberania popular est\u00e1 sendo ludibriada. N\u00e3o, Lula n\u00e3o \u00e9 um militante de esquerda e majoritariamente seu partido tampouco. Isso n\u00e3o invalida a tese do golpe e menos ainda a resist\u00eancia a este golpe.<\/p>\n<p>Estar contra o golpe n\u00e3o significa aderir a defesa de Lula, Dilma e cia. Estar contra o golpe e mais \u00e0 esquerda implica em lutar pela manuten\u00e7\u00e3o e amplia\u00e7\u00e3o dos direitos coletivos, assim como aprofundar o alinhamento do pa\u00eds com a Am\u00e9rica Latina e as rela\u00e7\u00f5es Sul-Sul. Ou seja, ir contra o viralatismo, o entreguismo, os imperialistas e toda uma cambada de colonizados.<\/p>\n<p>Enfim, \u00e9 poss\u00edvel estar contra o golpe sem reboquismo, estar contra o golpe sem pol\u00edtica de mal menor, e sem aderir ao lulismo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha, 26 de setembro de 2016 Finalmente aconteceu. Dentro do prazo previsto, a den\u00fancia foi acatada, conforme era esperado nos pol\u00edticos. O juiz federal S\u00e9rgio Moro aceitou, na tarde de 3\u00aa dia 20 de setembro, a den\u00fancia dos cruzados do Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF) de Curitiba. 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