{"id":10777,"date":"2016-10-10T18:59:43","date_gmt":"2016-10-10T21:59:43","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=954"},"modified":"2016-10-10T18:59:43","modified_gmt":"2016-10-10T21:59:43","slug":"entrevista-o-primeiro-turno-das-eleicoes-municipais-de-2016","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10777","title":{"rendered":"Entrevista: o primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es municipais de 2016"},"content":{"rendered":"<p>O cientista pol\u00edtico e professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais,\u00a0<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a>, em entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos (IHU), sobre as elei\u00e7\u00f5es municipais de 2016.\u00a0Confira:<\/p>\n<p><strong>O que mais lhe surpreendeu nas elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano de modo geral?<\/strong><\/p>\n<p>Era imaginado que os n\u00fameros de nulos, brancos e absten\u00e7\u00f5es seriam gigantescos. Mas, confesso que o volume foi surpreendente. Cito tr\u00eas evid\u00eancias. Em nove capitais, a soma de votos n\u00e3o v\u00e1lidos e aus\u00eancias chegaram \u00e0 frente dos candidatos vencedores. Isto se verifica em S\u00e3o Paulo (SP); no Rio de Janeiro capital (somados os votos no primeiro e no segundo colocados, n\u00e3o alcan\u00e7aria o total de votos n\u00e3o contabilizados e absten\u00e7\u00f5es); al\u00e9m dos dois maiores col\u00e9gios eleitorais do pa\u00eds, este padr\u00e3o se repete em Belo Horizonte (MG), Porto Alegre (RS), Curitiba (PR), Bel\u00e9m (PA), Cuiab\u00e1 (MT), Campo Grande (MS) e Aracaju (SE). Se ampliarmos os dados, votos n\u00e3o contabilizados e aus\u00eancia tiraram primeiro ou segundo em vinte e duas capitais. Al\u00e9m das citadas acima, temos Florian\u00f3polis (SC), Goi\u00e2nia (GO), Palmas (TO), Macei\u00f3 (AL), Recife (PE), Natal (RN), S\u00e3o Luis (MA), Fortaleza (CE), Macap\u00e1 (AP), Boa Vista (RO), e Salvador (BA) com os votos nulos, brancos e absten\u00e7\u00f5es alcan\u00e7ando o segundo lugar. J\u00e1 a terceira coloca\u00e7\u00e3o para este mesmo padr\u00e3o eleitoral se d\u00e1 em Rio Branco (AC), Vit\u00f3ria (ES), Jo\u00e3o Pessoa (PB), Teresina (PI) e Manaus (AM). Realmente, \u00e9 uma mensagem evidente das urnas afirmando uma profunda desconfian\u00e7a quanto ao processo eleitoral, ao mecanismo de consulta e o pr\u00f3prio estatuto de representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A soma dos votos nulos, brancos e de absten\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m n\u00e3o implica necessariamente em ades\u00e3o a uma tese rebelde, mas sim um potencial de trabalho no sentido da desobedi\u00eancia civil e posi\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia diante da retirada de direitos coletivos. Organizar este potencial \u00e9 o desafio ao menos at\u00e9 a largada da corrida presidencial de 2018. \u00a0O volume de brancos e absten\u00e7\u00f5es, al\u00e9m do pr\u00f3prio mulo, \u00e9 relacionado com este posicionamento d\u00fabio. Ou seja, a incredulidade em todo o processo n\u00e3o \u00e9 apenas obra da aguerrida milit\u00e2ncia de inspira\u00e7\u00e3o anarquista de 2013 e outras agrupa\u00e7\u00f5es \u00e0 esquerda. Tamb\u00e9m est\u00e1 correlacionada com o golpe institucional e a compreens\u00e3o de que um sistema pol\u00edtico-eleitoral com uma profus\u00e3o de siglas n\u00e3o gera coes\u00e3o alguma, e menos ainda governabilidade para al\u00e9m da conven\u00e7\u00e3o de interesses imediatos com as estruturas de poder permanentes.<\/p>\n<p><strong>Como interpreta o resultado das elei\u00e7\u00f5es de Porto Alegre, e a disputa do segundo turno entre Marchezan e Melo?<\/strong><\/p>\n<p>Primeiro \u00e9 preciso reconhecer a capacidade enorme da direita se repaginar. Nelson Marchezan J\u00fanior jamais renegou a heran\u00e7a pol\u00edtica do pai, Nelson Marchezan, arenista hist\u00f3rico e um dos deputados que votou contra a Lei da Anistia, por exemplo. J\u00e1 o advogado Gustavo Paim, concorre como uma nova lideran\u00e7a do PP, sendo esta legenda no RS, assumidamente arenista e representante em n\u00edvel estadual da direita agr\u00e1ria. Marchezan afirma um discurso gerencialista e assim ele se afasta da imagem de Sebasti\u00e3o Melo, o vice-prefeito do PMDB e um operador pol\u00edtico muito tradicional em Porto Alegre. Em termos de identifica\u00e7\u00e3o, Melo se aproxima das vilas e bairros, da gente comum, ainda que em termos program\u00e1ticos, ambos se assemelham.<\/p>\n<p>Ressaltada esta diferen\u00e7a, n\u00e3o podemos excluir a possibilidade de relacionar a vit\u00f3ria de um discurso \u201cjovem e gerencial\u201d com o avan\u00e7o da nova direita. Esta foi projetada atrav\u00e9s do MBL, que elegera o vereador Ricardo Gomes (PP), assim como o tucano e um dos fundadores do mesmo \u201cmovimento\u201d, Ramiro Ros\u00e1rio. Outro representante da milit\u00e2ncia neoliberal veio atrav\u00e9s do Partido Novo, com Felipe Camozzato, co-fundador da Banda Loka Liberal. Este perfil de votos se soma ao de Marchezan, sendo que o deputado federal tucano ultrapassa e muito apenas esta clivagem. A direita neoliberal mais agressiva n\u00e3o se resume ao apoio a Marchezan, tendo sido reeleito o vereador Valter Nagelstein (PMDB), um dos entusiastas do projeto Escola Sem Partido (junto com o deputado estadual licenciado Marcel Van Hattem, do PP) e com \u00a0fortes rela\u00e7\u00f5es junto ao Instituto Liberdade.<\/p>\n<p>Infelizmente, n\u00e3o foi apenas em Porto Alegre. O MBL, que se afirmava apartid\u00e1rio e anti-partid\u00e1rio, conseguiu eleger oito vereadores dos quarenta e cinco que disputaram o pleito. Al\u00e9m da nova direita, a representa\u00e7\u00e3o plutocrata tamb\u00e9m avan\u00e7ou, com a elei\u00e7\u00e3o de 23 prefeitos milion\u00e1rios, puxando a lista os prefeitos eleitos de Betim (MG), Vitorio Meddioli (PHS) e o de S\u00e3o Paulo capital, Jo\u00e3o D\u00f3ria Jr. (PSDB).<\/p>\n<p>Podemos interpretar sem exagero algum que h\u00e1 uma inclina\u00e7\u00e3o como botim pol\u00edtico da prefer\u00eancia pelo voto de protesto ou a absten\u00e7\u00e3o e na sequ\u00eancia, com o elogio da nova direita ou um retrocesso a favor da presen\u00e7a do capital transnacional no Brasil, representado organicamente pelo PSDB atrav\u00e9s de suas maiores lideran\u00e7as.<\/p>\n<p><strong>A que atribui os resultados do PT e do PSOL na capital ga\u00facha?<\/strong><\/p>\n<p>Entendo que, como j\u00e1 afirmei em outras ocasi\u00f5es, a dire\u00e7\u00e3o nacional do PT perdeu sua grande chance de ao menos tentar retomar a coes\u00e3o interna por n\u00e3o verticalizar as alian\u00e7as apenas com as siglas que n\u00e3o apoiaram o golpe. Assim, o encolhimento do PT, ou o medo deste, seria a alega\u00e7\u00e3o para n\u00e3o impor condi\u00e7\u00f5es sobre os diret\u00f3rios municipais na verticaliza\u00e7\u00e3o. Ocorreu justamente o inverso. O voto difuso n\u00e3o gerou coes\u00e3o e a crise pol\u00edtica, a injusta persegui\u00e7\u00e3o exclusiva ao PT e a heran\u00e7a do lulismo como co-governo com a oligarquia compuseram o estrago.<\/p>\n<p>Ao PT, no meu entendimento, lhe faltou grandeza pol\u00edtica para, em Porto Alegre, tentar uma aproxima\u00e7\u00e3o com o PSOL, inclusive oferecendo a cabe\u00e7a de chapa. Mas, para isso, seria necess\u00e1rio um momento anterior de autocr\u00edtica p\u00fablica e uma abertura para um debate tanto program\u00e1tico e com revis\u00e3o de pr\u00e1ticas pol\u00edticas. Caso fosse consolidada uma improv\u00e1vel alian\u00e7a entre PSOL, PT e PC do B na capital ga\u00facha, eu entendo que haveria uma aposta em um dos candidatos da coaliz\u00e3o \u00e0 direita e a centro-esquerda eleitoral estaria no segundo turno.<\/p>\n<p><strong>Como interpreta o n\u00famero de mais de 382 mil absten\u00e7\u00f5es, entre brancos e nulos, em Porto Alegre?<\/strong><\/p>\n<p>Eu entendo que j\u00e1 abordei este tema em outras perguntas desta mesma entrevista, mas h\u00e1 ao menos uma soma de quatro fatores espec\u00edficos: a crise pol\u00edtica gerando esta sensa\u00e7\u00e3o de virada de mesa; a fragmenta\u00e7\u00e3o do voto da centro-esquerda e do reformismo, diminuindo a convocat\u00f3ria pelo \u00fatil por \u201cesquerda\u201d; a campanha midi\u00e1tica antipetista como espelho da puni\u00e7\u00e3o seletiva atrav\u00e9s da Lava Jato e por fim, n\u00e3o menos importante; a sensa\u00e7\u00e3o de abandono da cidade e a descren\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es oficiais, refor\u00e7adas pela repress\u00e3o pol\u00edtica promovida pelo governo Tarso Genro (PT) no ano de 2013. Se levarmos em conta outras cidades da Regi\u00e3o Metropolitana, o n\u00famero \u00e9 ainda maior. No munic\u00edpio de Cachoeirinha, por exemplo, cujo Sindicato dos Municip\u00e1rios \u00e9 bastante ativo e polariza pelo classismo a pol\u00edtica da cidade, tivemos um \u00edndice de 42% de eleitores que ou se abstiveram, ou votaram nulo e branco. A prefeitura de Cachoeirinha j\u00e1 foi um dos s\u00edmbolos de gest\u00e3o popular com o PT \u00e0 frente do modelo na d\u00e9cada de \u201990 e aos poucos suas lideran\u00e7as foram migrando de legendas e hoje tem a avalia\u00e7\u00e3o dos moradores como mais uma gest\u00e3o convencional, atrelada \u00e0s pr\u00e1ticas pol\u00edticas convencionais, para dizer o m\u00ednimo. \u00c9 este desgaste que me leva a interpretar o voto de protesto em seu sentido mais amplo, tanto em Porto Alegre como na Regi\u00e3o Metropolitana e as cidades polo do Rio Grande do Sul.<\/p>\n<p><strong>Como a esquerda deve se rearticular depois do resultado das urnas em geral?<\/strong><\/p>\n<p>O eleitorado \u00e0 esquerda, especificamente o do PSOL, embora tenha tido um crescimento consider\u00e1vel e pode ser sim a nova alternativa eleitoral dos votos petistas e p\u00f3s-petistas, necessita de um sistema pol\u00edtico-eleitoral consolidado para afirmar suas bases. O tema das experi\u00eancias de governo \u00e9 importante, assim como a proposta de construir a tal da governabilidade sem transacionar. Na d\u00e9cada de &#8217;80, o fantasma que pairava nos debates de Lula eram o governo Jango e Allende. Hoje, o fantasma dos golpes do s\u00e9culo XXI s\u00e3o muito mais presentes, a julgar pelos golpes institucionais contra Fernando Lugo no Paraguai (junho de 2012) e antes Manuel Zelaya Rosales em Honduras (junho de 2009).<\/p>\n<p>Na mesma esfera da capacidade de exerc\u00edcio de governo a partir de institui\u00e7\u00f5es do Estado burgu\u00eas e p\u00f3s-colonial est\u00e3o as condi\u00e7\u00f5es de organizar o protesto pol\u00edtico tendo tamb\u00e9m como base o abandono da arena burguesa de democracia indireta. Catalisar o voto nulo, e tamb\u00e9m o branco e as absten\u00e7\u00f5es \u00e9 uma tarefa dura, herc\u00falea, mas proporcional a gerar ades\u00e3o dos eleitores ao governo de esquerda ou de centro-esquerda. Est\u00e1 mais que provado ser imposs\u00edvel entrar na dimens\u00e3o substantiva interna (como distribui\u00e7\u00e3o de renda) ou crescimento econ\u00f4mico duro (como o modelo liberal-perif\u00e9rico do lulismo) sem gerar uma tens\u00e3o interna quase insuport\u00e1vel e uma hostilidade externa vinda do Imp\u00e9rio (mesmo que de forma indireta).<\/p>\n<p>Assim, entendamos de uma vez por todas que se h\u00e1 alguma vontade da centro-esquerda de abrir uma base de di\u00e1logo com os partidos e organiza\u00e7\u00f5es \u00e0 esquerda ou no extremo da esquerda pol\u00edtica, esta passa por uma profunda autocr\u00edtica de pr\u00e1ticas conden\u00e1veis. Estas, n\u00e3o s\u00f3 fizeram o &#8220;jogo da direita&#8221; como governaram lado a lado e ombro a ombro com a direita. Al\u00e9m de fazerem isso, o fizeram sem ter nenhuma condi\u00e7\u00e3o de freio ou poder de veto, sequer contando com a mobiliza\u00e7\u00e3o popular de um lado e um eficiente servi\u00e7o de intelig\u00eancia que fosse confi\u00e1vel. Fora desse par\u00e2metro, tudo \u00e9 ilus\u00e3o, e qualquer conversa, n\u00e3o passa de propor uma ades\u00e3o sentimental contra o golpe (onde todas as for\u00e7as est\u00e3o de acordo) e alguma forma de resist\u00eancia contra o pacote de leis regressivas, quase todas j\u00e1 gestadas no segundo governo Dilma.<\/p>\n<p><strong>Como voc\u00ea interpreta o fen\u00f4meno Jo\u00e3o D\u00f3ria em S\u00e3o Paulo, que inclusive obteve mais votos que o PT nas periferias paulistas?<\/strong><\/p>\n<p>Tenho uma pista de interpreta\u00e7\u00e3o. Comparemos as agendas. Ap\u00f3s o golpe a agenda regressiva entrou pesada, dura, tentando modificar o desenho do Estado brasileiro. Esta \u00e9 a dimens\u00e3o substantiva do golpe e creio que h\u00e1 concord\u00e2ncia geral com isso. Mas o inverso n\u00e3o \u00e9 verdadeiro. O governo anterior \u2013 o per\u00edodo lulista ampliado \u2013 n\u00e3o questionou a natureza do aparelho de Estado e menos ainda seu car\u00e1ter estamental. Tampouco n\u00e3o mexeu no chamado entulho autorit\u00e1rio, como por exemplo em nosso horroroso modelo de pol\u00edcia. Esta pode ser uma pista, uma poss\u00edvel chave de interpreta\u00e7\u00e3o para ver como se d\u00e1 o espelhismo \u00e0s avessas, quando a imagem de um herdeiro rentista, midi\u00e1tico, se apresenta para a periferia de S\u00e3o Paulo como um empres\u00e1rio, um empreendedor (\u00e9 herdeiro, lembro) ganha dos demais concorrentes na periferia de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Voltando ao caso da viol\u00eancia policial ou sua omiss\u00e3o estrutural, como o lulismo n\u00e3o mexeu em nada nas institui\u00e7\u00f5es, estas s\u00e3o notadas como o Estado, tanto em sua aus\u00eancia ou incapacidade de gerar o servi\u00e7o p\u00fablico, como tamb\u00e9m um elemento de privil\u00e9gio e abuso, exemplificado pela a\u00e7\u00e3o repressiva que faz do Brasil o pa\u00eds mais violento do mundo. Como o cotidiano das favelas e periferias muitas vezes refor\u00e7a o individualismo, oscilando entre la\u00e7os de solidariedade e uma economia predat\u00f3ria ou de sobreviv\u00eancia, as pr\u00e1ticas ideol\u00f3gicas passam por cima da identidade popular. N\u00e3o posso fechar esta resposta sem citar novamente a exposi\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica de narrativa anti-petista e a puni\u00e7\u00e3o seletiva oriunda da Opera\u00e7\u00e3o Lava Jato. Estas condi\u00e7\u00f5es externas, somadas ao fato do desgaste e do elitismo do prefeito Fernando Haddad (PT), assim como a concorr\u00eancia de Martha Suplicy (ex-petista hist\u00f3rica) tamb\u00e9m relacionada ao elitismo ilustrado, ajudam a misturar as representa\u00e7\u00f5es de classe. Assim, as prefer\u00eancias pelo voto tamb\u00e9m identificam a sobreviv\u00eancia e uma escolha limitada entre uma ala ou outra do andar de cima. Ainda que n\u00e3o seja uma verdade factual, a impress\u00e3o pode ser esta para as periferias de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p><strong>Neste momento, a esquerda se volta para o Rio de Janeiro na possibilidade de eleger Freixo, do PSOL. Como v\u00ea a possibilidade de ele ser eleito e o qual \u00e9 o significado de sua poss\u00edvel elei\u00e7\u00e3o para a esquerda nesse momento? Que diferen\u00e7as evid\u00eancia entre ele e Crivella, por exemplo? Alguns t\u00eam comentado que a Globo possivelmente apoiar\u00e1 Freixo porque Crivella \u00e9 ligado \u00e0 Igreja Universal do Reino de Deus.\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Esta elei\u00e7\u00e3o para a prefeitura do Rio de Janeiro tem elementos \u00fanicos, porque aponta ao menos dois elementos de tens\u00e3o. Uma \u00e9 ideol\u00f3gica, onde a esquerda eleitoral tem o desafio de derrotar um eleitorado consolidado, mas com teto. No segundo turno ao governo do estado, em 2014, Marcelo Crivella, senador pelo PRB, se confrontou com Eduardo Pez\u00e3o (PMDB), hoje afastado do cargo por licen\u00e7a de sa\u00fade. Na ocasi\u00e3o, a corrida eleitoral foi marcada pela disputa intra pentecostal e neopentecostal, com Eduardo Cunha defendendo seu correligion\u00e1rio e dividindo o voto da pobreza conservadora. Agora, nesta elei\u00e7\u00e3o, h\u00e1 uma alian\u00e7a entre o cl\u00e3 Garotinho \u2013 do ex-governador e ex-prefeito de Campos, Anthony Garotinho (PR), vinculado \u00e0 Assembleia de Deus e logo podendo marcar um voto conservador mais coeso.<\/p>\n<p>O inverso tamb\u00e9m \u00e9 verdadeiro. Haver\u00e1 uma evidente alian\u00e7a por esquerda no munic\u00edpio do Rio em torno da candidatura do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL). O problema \u00e9 o perfil do voto \u00e0 esquerda no Rio, onde o perfil de classe m\u00e9dia, ou ao menos de instru\u00e7\u00e3o formal, vai ser contraposto ao conservadorismo popular. Um dos maiores desafios da campanha de Freixo no segundo turno ser\u00e1 em \u00e1reas de viol\u00eancia deflagrada, em especial na Zona Oeste, onde a a\u00e7\u00e3o das chamadas mil\u00edcias \u2013 organiza\u00e7\u00f5es de parapoliciais \u2013 podem ser um impeditivo para o corpo e com\u00edcios. O mesmo pode ocorrer em comunidades de favela, em especial onde exista uma situa\u00e7\u00e3o de caos e conflito ap\u00f3s a implanta\u00e7\u00e3o da Unidade de Pol\u00edcia Pacificadora (UPP), uma estrat\u00e9gia evidentemente desgastada e in\u00f3cua, sen\u00e3o em sua totalidade, ao menos na etapa atual.<\/p>\n<p>Desafiar o voto conservador com arraigo popular \u00e9 tamb\u00e9m romper com os ex-aliados do lulismo, como o pr\u00f3prio Crivella, ele pr\u00f3prio art\u00edfice do racha do antigo PL, fundando o PRB, assim como foi ex-ministro da Pesca da presidenta Dilma Rousseff, em seu primeiro mandato. \u00c9 preciso compreender que h\u00e1 penetra\u00e7\u00e3o social das institui\u00e7\u00f5es neopentecostais, que estas movimentam um volume de verba astron\u00f4mico e conseguindo de alguma forma vincular e orientar o voto. Logo, o munic\u00edpio ver\u00e1 a dificuldade do pensamento \u00e0 esquerda de forma muito notada, ainda que o candidato Freixo seja um elemento bastante conhecido e midiatizado.<\/p>\n<p>Por fim, a posi\u00e7\u00e3o de Rede Globo me parece um objeto de an\u00e1lise muito interessante. Seu elenco tende a aderir \u00e0 campanha de Freixo, tal como o fizera em 1989, onde hegemonicamente a categoria art\u00edstica engajou na campanha do ent\u00e3o candidato Luiz In\u00e1cio \u00e0 Presid\u00eancia. Agora, como Crivella \u00e9 vinculado \u00e0 Rede Record em sua matriz, e est\u00e1 sendo \u00a0apoiado por um not\u00f3rio desafeto como Garotinho, a Globo pode optar &#8211; \u00a0de forma indireta \u00e9 claro \u2013 pelo mal menor, ou ent\u00e3o \u201cliberar sua linha editorial\u201d para as prefer\u00eancias das chefias intermedi\u00e1rias. O fato inequ\u00edvoco \u00e9 que a Globo n\u00e3o se sente \u00e0 vontade com nenhuma das candidaturas, e quaisquer elementos de di\u00e1logos t\u00eam uma base inicial muito delicada.<\/p>\n<p>Caso o PSOL ven\u00e7a as elei\u00e7\u00f5es, esta vit\u00f3ria ter\u00e1 o mesmo impacto da elei\u00e7\u00e3o de Luiza Erundina em 1988, quando correu pelo PT. Na ocasi\u00e3o, S\u00e3o Paulo capital foi o grande teste final de um modelo de governo, que s\u00f3 veio a ser aprimorado com os mandatos consecutivos em Porto Alegre. Antes, a gest\u00e3o do aparelho de Estado municipal como um motor do conflito social era uma tend\u00eancia quando o partido estava ainda mais \u00e0 esquerda. Como teste, houve o mandato de Maria Lu\u00edza Fontenele em Fortaleza (capital do Cear\u00e1), terminando em verdadeiro desastre embora com interessante experimentalismo na proposta de gest\u00e3o. Refor\u00e7o, uma hipot\u00e9tica vai ser o teste derradeiro da passagem do PSOL para a disputa da hegemonia da esquerda eleitoral, marcando tanto uma cr\u00edtica ao lulismo como o contraponto ao conservadorismo, popular ou n\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>O que as urnas revelam sobre a situa\u00e7\u00e3o da esquerda no pa\u00eds em geral?<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1ria uma reflex\u00e3o. Se h\u00e1 um limite evidente para qualquer governo distributivo, nacional popular ou reformista na Am\u00e9rica Latina, logo, esta \u00e9 uma vari\u00e1vel determinante para o c\u00e1lculo pol\u00edtico das esquerdas, eleitorais ou n\u00e3o. Ou seja, h\u00e1 sempre que se levar em conta a possibilidade de virada de mesa. E a consequente necessidade de resposta a esta. Assim, concorrer nas elei\u00e7\u00f5es pode ser ou n\u00e3o uma escolha das for\u00e7as pol\u00edticas \u2013 eu entendo que esta t\u00e1tica acaba prevalecendo sobre a dimens\u00e3o estrat\u00e9gia, \u00e9 no m\u00ednimo controversa, e gera mais dissabores do que frutos de m\u00e9dio e longo prazo. Considerando a dificuldade de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as no momento vivido, a \u201cvit\u00f3ria\u201d de brancos, nulos e absten\u00e7\u00f5es pode indicar um amplo setor do eleitorado, quase 40%, as esquerdas podem interpretar esta como uma excelente chance para radicalizar a democracia.<\/p>\n<p>Se estamos diante de leis regressivas e tentativa de desmonte e terceiriza\u00e7\u00e3o das fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do Estado, assim como o pouco controle social que temos \u2013 como no SUS \u2013 \u00e9 necess\u00e1rio levantar a bandeira da democracia participativa mesmo dentro do servi\u00e7o p\u00fablico de carreira. Esta pode ser uma pista para a acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as concomitante a necess\u00e1ria resist\u00eancia contra as bandeiras da direita e o pre\u00e7o do golpe, que j\u00e1 est\u00e1 saindo bem caro para a maioria das brasileiras e dos brasileiros.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m do objetivo finalista e uma estrat\u00e9gia permanente subordinada, s\u00f3 resta o jogo da direita em si. Um conjunto de manobras de ordem t\u00e1tica que se adequam conforme a situa\u00e7\u00e3o sem marcar um modelo vi\u00e1vel de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as e um rumo a ser atingido. A pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 uma ci\u00eancia e tamb\u00e9m arte simples e \u00e9 esperado uma sensa\u00e7\u00e3o de p\u00e2nico e flagelo diante da ascens\u00e3o da direita e em especial uma nova-velha direita, jovial, repaginada e arrivista. Mas, se n\u00e3o for debatido o finalismo, a acumula\u00e7\u00e3o ser\u00e1 apenas o pr\u00f3ximo cap\u00edtulo, at\u00e9 o pr\u00f3ximo ciclo de crescimento com a nova rearticula\u00e7\u00e3o conservadora e o golpe a seguir.<\/p>\n<p>Governar por esquerda no Brasil e na Am\u00e9rica Latina implica em levar em considera\u00e7\u00e3o que a esquerda est\u00e1 muito al\u00e9m do jogo eleitoral burgu\u00eas e a correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as ultrapassa a legalidade aparente. N\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade o que afirmo, n\u00e3o \u00e9 nada que a maioria afro-brasileira n\u00e3o saiba e depreenda de suas dur\u00edssimas condi\u00e7\u00f5es de sobreviv\u00eancia. Enfim, n\u00e3o fazer o jogo da direita \u00e9 antes de tudo n\u00e3o reproduzir o jogo segundo as regras da fr\u00e1gil institucionalidade burguesa, aderindo a um legalismo republicano que \u00e9 mais &#8220;legal&#8221; do que a fr\u00e1gil legalidade arbitrada pelo estamento Judici\u00e1rio brasileiro e os arb\u00edtrios policiais deste pa\u00eds.<\/p>\n<p><strong>Deseja acrescentar algo?<\/strong><\/p>\n<p>Estou afirmando que estamos em um momento meio de \u201csubdemocracia\u201d. Entendo que a luta ideol\u00f3gica tamb\u00e9m passa pela caracteriza\u00e7\u00e3o e a disputa etimol\u00f3gica. Assim, estou for\u00e7ando este neologismo para demonstrar uma dimens\u00e3o ainda mais inferior do que a democracia liberal, indireta, burguesa, delegativa e representativa. Nesta subdemocracia brasileira, o golpe \u00e9 um cala boca na cren\u00e7a cega e injustificada na institucionalidade republicana, caracterizando o rompimento do pacto amarrado na Abertura e Transi\u00e7\u00e3o, al\u00e9m da assinada na Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Esta \u00e9 a crise pol\u00edtica que vivemos hoje. Com o sistema de cren\u00e7as p\u00f3s-reformista (a ex-esqureda) descendo ladeira abaixo e deixando um v\u00e1cuo no espa\u00e7o. Compreender este momento e vejo como necess\u00e1rio a formula\u00e7\u00e3o de an\u00e1lises, mas tamb\u00e9m propostas, que ultrapassem os m\u00ednimos limites da subdemocracia. Entendo ser esta uma urg\u00eancia das for\u00e7as pol\u00edticas mais \u00e0 esquerda, em especial aquelas que n\u00e3o compuseram o governo de coaliz\u00e3o que sofreu o golpe, sendo estas eleitorais ou n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cientista pol\u00edtico e professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais,\u00a0Bruno Lima Rocha, em entrevista para o Instituto Humanitas Unisinos (IHU), sobre as elei\u00e7\u00f5es municipais de 2016.\u00a0Confira: O que mais lhe surpreendeu nas elei\u00e7\u00f5es municipais deste ano de modo geral? Era imaginado que os n\u00fameros de nulos, brancos e absten\u00e7\u00f5es seriam gigantescos. 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