{"id":10857,"date":"2018-06-09T14:37:47","date_gmt":"2018-06-09T17:37:47","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=1503"},"modified":"2018-06-09T14:37:47","modified_gmt":"2018-06-09T17:37:47","slug":"honduras-governo-ilegitimo-e-regime-autoritario-civil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10857","title":{"rendered":"Honduras: governo ileg\u00edtimo e regime autorit\u00e1rio civil"},"content":{"rendered":"<p><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a>, junho de 2018<\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina est\u00e1 diante de uma nova guinada \u00e0 direita, em um per\u00edodo quando o mecanismo eleitoral, a fr\u00e1gil soberania popular parcialmente tolerada pela democracia indireta liberal-burguesa, se v\u00ea amea\u00e7ado. At\u00e9 a ilus\u00e3o de indicar um mandat\u00e1rio em formato quase plebiscit\u00e1rio est\u00e1 concorrendo contra sutis manipula\u00e7\u00f5es (atrav\u00e9s de algoritmos e fake news) culminando com fraudes escancaradas e grosseiras, como \u00e9 o caso atual de Honduras.<\/p>\n<p>Em 26 de novembro de 2017 foram realizadas elei\u00e7\u00f5es gerais no pa\u00eds centro-americano que nos anos \u201980 foi base territorial para a chamada \u201ccontra revolu\u00e7\u00e3o\u201d da Am\u00e9rica Central, com \u00eanfase na presen\u00e7a imperialista contra o regime sandinista na Nicar\u00e1gua. Durante a aplica\u00e7\u00e3o da \u201cteoria do domin\u00f3\u201d na Era Reagan acompanhada do emprego da guerra de exterm\u00ednio de terra arrasada, Honduras foi o pa\u00eds que recebeu maior contingente de contras nicaraguenses e cujos oficiais de carreira nas for\u00e7as armadas t\u00eam a maior propor\u00e7\u00e3o de pessoal militar treinado nos EUA.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria das elei\u00e7\u00f5es de 2017 tem rela\u00e7\u00e3o direta com o passado pr\u00f3-imperialista dos anos \u201980. O presidente Juan Orlando Hern\u00e1ndez (JOH, eleito em janeiro de 2014, oligarca e pr\u00f3-yankee do Partido Conservador) modificou a constitui\u00e7\u00e3o do pa\u00eds garantindo o estatuto da reelei\u00e7\u00e3o. Vale lembrar que em junho de 2009, o ent\u00e3o presidente Jos\u00e9 Manuel Zelaya Rosales (um oligarca remodelado do Partido Liberal), eleito em 2006, tentou modificar a carta magna do pa\u00eds (escrita por generais formados na Escola das Am\u00e9ricas, liderados pelo ditador-general Policarpo Paz Garc\u00eda, e decretada em janeiro de 1982) e a resposta da Suprema Corte de Justi\u00e7a foi autorizar a interven\u00e7\u00e3o militar e empossar a Ricardo Micheletti \u2013 cujo governo n\u00e3o foi reconhecido internacionalmente &#8211; at\u00e9 a elei\u00e7\u00e3o do conservador Porf\u00edrio Lobo (em um pleito onde foi proibido a Zelaya de concorrer) em 2010. Desde ent\u00e3o a presen\u00e7a pol\u00edtica do Partido Liberal &#8211; que em um t\u00edpico giro latino e centro-americano se torna uma legenda progressista e de centro-esquerda \u2013 vem sendo tolhida pela for\u00e7a do aparelho de Estado e com a cumplicidade de \u00f3rg\u00e3os internacionais. O pr\u00f3prio Zelaya Rosales retornou ao pa\u00eds ap\u00f3s o golpe, ficando protegido dentro da Embaixada do Brasil em Tegucigalpa por mais de quatro meses, at\u00e9 partir para o ex\u00edlio definitivo. Zelaya participou em 2017 da campanha vitoriosa e fraudada pelo Partido Conservador e hoje coordena a desobedi\u00eancia civil contra o golpe eleitoral.<\/p>\n<p>N\u00e3o bastasse mudar as regras do jogo com a partida em andamento, JOH concorreu contra Salvador Nasralla (Partido Liberal e indicado pol\u00edtico de Zelaya Rosales), e estava perdendo na contagem de votos quando houve um mais que suspeito apag\u00e3o el\u00e9trico no pa\u00eds (a contagem de votos \u00e9 manual e as c\u00e9dulas em papel), levando ao Tribunal Supremo Eleitoral de Honduras (TSE) a suspender o an\u00fancio do vencedor. Passados 17 dias, a corte eleitoral dominada por partid\u00e1rios de JOH e apoiadores do golpe de 2009 reconhece a vit\u00f3ria da situa\u00e7\u00e3o, convertendo Honduras em uma aut\u00eantica ditadura civil. O fato pol\u00edtico, uma fraude eleitoral evidente atrav\u00e9s de um governo que alterna a Constitui\u00e7\u00e3o \u2013 permitindo a auto reelei\u00e7\u00e3o e n\u00e3o \u00e9 impedido pela Suprema Corte, o oposto do que ocorrera em 2009 \u2013 implica em um novo padr\u00e3o na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p>Honduras reproduziu na Am\u00e9rica Central uma vergonhosa fraude eleitoral como a ocorrida no pleito presidencial do M\u00e9xico em 2006. Na ocasi\u00e3o Felipe Calder\u00f3n (concorrendo pelo Partido da A\u00e7\u00e3o Nacional, PAN, de corte neoliberal e que rompera com mais de 70 anos de dom\u00ednio priista) ganhou a corrida fraudando as urnas contra Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador (do Partido da Revolu\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica, PRD, ent\u00e3o ex-governador do Distrito Federal de Cidade do M\u00e9xico). Novamente a fraude se seu na contagem eleitoral levando o pa\u00eds tanto ao impasse como definindo a ilegitimidade do governo \u201celeito\u201d. Os votos da cidadania mexicana come\u00e7aram a ser contados em seis de julho e os resultados s\u00f3 foram confirmados em setembro de 2006. Em Honduras ocorreu algo muito semelhante, somado ao requinte de um suspeito acidente de helic\u00f3ptero onde estava a irm\u00e3 do presidente JOH e mais cinco pessoas, mas no momento exato em que o candidato eleito Nasralla estava em Washington pedindo o apoio &#8211;\u00a0 n\u00e3o concedido \u2013 do Departamento de Estado e da Organiza\u00e7\u00e3o\u00a0 dos Estados Americanos (OEA).<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da coaliz\u00e3o eleitoral que ganhou, mas n\u00e3o levou, se verifica diariamente em Honduras um cont\u00ednuo estado de desobedi\u00eancia civil e indigna\u00e7\u00e3o coletiva, iniciados em julho de 2009 quando do primeiro golpe civil com aval da Suprema Corte. Tal padr\u00e3o se mant\u00e9m e ganhou intensidade na virada do ano de 2017 e agora em 2018. Mais da metade da popula\u00e7\u00e3o sequer reconhece o governo reeleito atrav\u00e9s da fraude e o Poder Executivo \u201cgoverna\u201d atrav\u00e9s do fr\u00e1gil apoio das for\u00e7as armadas do pa\u00eds e com o aval da Casa Branca.<\/p>\n<p>Como o governo ileg\u00edtimo de Juan Orlando Hernandez atua de forma discricion\u00e1ria e assina uma s\u00e9rie de parcerias p\u00fablico-privadas, sistemas de concess\u00f5es e privatiza\u00e7\u00f5es de quase toda a fr\u00e1gil infraestrutura existente no pa\u00eds, j\u00e1 se afirma que o Partido Conservador em conson\u00e2ncia com os EUA instalaram um regime. Este teria como base um poder autorit\u00e1rio civil, elei\u00e7\u00f5es fraudadas, fr\u00e1gil legitimidade e, ao mesmo tempo, um consenso de elite local de desmonte das condi\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas do pa\u00eds aderir ao Sistema de Integra\u00e7\u00e3o Centro-Americano (SICA) e o Mercado Comum do istmo, mas de forma livre e independente, sem abrir para a presen\u00e7a do capital transnacional de forma absurda, sem controle algum e com aus\u00eancia de soberania. A grande possibilidade do povo hondurenho, do pa\u00eds e dos pa\u00edses vizinhos de alcan\u00e7ar um desenvolvimento baseado em suas pr\u00f3prias necessidades e demandas, seria justamente o oposto, promovendo uma integra\u00e7\u00e3o horizontal entre os pa\u00edses centroamericanos e sempre defendendo os recursos naturais e a infraestrutura j\u00e1 existentes.<\/p>\n<p>Trata-se de um pa\u00eds com quase dez milh\u00f5es de habitantes,\u00a0 convivendo\u00a0 com um alt\u00edssimo \u00edndice de extrema pobreza. O presidente ileg\u00edtimo JOH aplica de forma integral o novo modelo de domina\u00e7\u00e3o latino-americana: judicializa\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica e fraudes dentro do fr\u00e1gil sistema de consulta eleitoral.\u00a0 No centro decis\u00f3rio, as metas estrat\u00e9gicas de desmonte das capacidades nacionais e privatiza\u00e7\u00e3o de \u00e1reas estrat\u00e9gicas como setor el\u00e9trico, vias p\u00fablicas, \u00e1guas. O regime executa mais de 500 projetos privatizantes ap\u00f3s a fraude eleitoral.<\/p>\n<p>Honduras se apresenta como o laborat\u00f3rio da distopia neoliberal latino-americana, com o aumento do custo de vida e da pobreza, assim como da rebeli\u00e3o permanente.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha, junho de 2018 A Am\u00e9rica Latina est\u00e1 diante de uma nova guinada \u00e0 direita, em um per\u00edodo quando o mecanismo eleitoral, a fr\u00e1gil soberania popular parcialmente tolerada pela democracia indireta liberal-burguesa, se v\u00ea amea\u00e7ado. 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