{"id":10864,"date":"2018-06-18T09:32:54","date_gmt":"2018-06-18T12:32:54","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=1525"},"modified":"2018-06-18T09:32:54","modified_gmt":"2018-06-18T12:32:54","slug":"quem-matou-marielle-franco-e-anderson-gomes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10864","title":{"rendered":"Quem matou Marielle Franco e Anderson Gomes?!"},"content":{"rendered":"<p>Junho de 2018, Bruno Lima Rocha<\/p>\n<p>Na noite de 14 de mar\u00e7o de 2018, uma 4\u00aa feira no final do ver\u00e3o carioca, o centro da capital fluminense foi palco de um assassinato pol\u00edtico. Possivelmente um crime por encomenda, os assassinatos da vereadora pelo PSOL-RJ, Marielle Franco e o motorista substituto de seu gabinete, Anderson Gomes, logo ganharam difus\u00e3o internacional (ver BBC). Marielle era o exemplo do engajamento pol\u00edtico na cidade partida. Ex-aluna de Pr\u00e9 vestibular popular, formou-se em sociologia pela PUC do Rio e com mestrado Administra\u00e7\u00e3o (\u00eanfase em Administra\u00e7\u00e3o P\u00fablica),\u00a0 estudando justamente a espacializa\u00e7\u00e3o penal da pobreza favelizada no Rio de Janeiro. Negra (afrodescendente) foi m\u00e3e adolescente e se torna homoafetiva na idade adulta. Trabalhou no gabinete do deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ) e veio a se candidatar para vereadora nas elei\u00e7\u00f5es municipais de 2016. Quinta mais votada da cidade, ultrapassou os 46 mil votos e ultrapassou as barreiras geogr\u00e1ficas e culturais do munic\u00edpio. No\u00a0 mandato, acompanhava a muito criticada interven\u00e7\u00e3o federal, conhecedora que era da p\u00e9ssima experi\u00eancia no Complexo da Mar\u00e9, de onde provinha. Nos \u00faltimos meses antes de seu assassinato, conhecia e denunciava de perto os abusos e a viol\u00eancia estatal atrav\u00e9s do 41\u00ba BPM, aterrorizando a comunidade de Acari. Enfim, tinha todos os \u201catributos\u201d para se tornar tanto um alvo da repress\u00e3o \u2013 das mil\u00edcias, da chamada \u2018banda podre\u2019 da PM \u2013 como um s\u00edmbolo deste momento do pa\u00eds. No texto que segue este analista, mesmo que discordando de algumas cren\u00e7as e pr\u00e1ticas de sua legenda, reconhece todo o m\u00e9rito tanto de Marielle como de seus companheiros de jornada. Sigamos.<\/p>\n<p><strong>Rio de Janeiro, a capital nacional da hipocrisia<\/strong><\/p>\n<p>Marielle foi morta ultrapassando as estat\u00edsticas. Condenava o modelo violento de apartheid \u00e9tnico-social. Falava aquilo que todos sabem e ningu\u00e9m diz. No Rio de Janeiro todo mundo sabe de tudo, de tudo. N\u00e3o h\u00e1 o que revelar; a cidade e a regi\u00e3o metropolitana conhecem o papel das mil\u00edcias, a disputa pelas fac\u00e7\u00f5es no varejo, o arranjo \u2013 fracassado &#8211; das Unidades de Pol\u00edcia Pacificadora (UPPs), a evidente maior toler\u00e2ncia com uma fac\u00e7\u00e3o (TCP, Terceiro Comando Puro, herdeiro do TC dos anos \u201980) e menor &#8220;conviv\u00eancia&#8221; com o CVRL (herdeiro do Comando Vermelho, antes Falange Vermelha, origin\u00e1rio das galerias da Ilha Grande). Todo mundo conhece os termos Arrego e Esculacho, e a &#8220;vela&#8221;, consagrada no uso pelo Cabo Fl\u00e1vio na porta do Shopping Center Rio Sul em 1995 (VER), &#8220;porque ali era proibido roubar&#8221;. Depois de mais de 30 anos, virou uma cultura; o cotidiano de viol\u00eancia desmedida desde o in\u00edcio do governo Moreira Franco (ele mesmo, em mar\u00e7o de 1987, VER). Se quisermos seguir nesta linha do tempo, desde a Opera\u00e7\u00e3o Mosaico 1 (VER). N\u00e3o falta investiga\u00e7\u00e3o &#8220;jornal\u00edstica&#8221;, falta \u00e9 meter a m\u00e3o mesmo. E modificar o modelo policial, em todos os n\u00edveis.<\/p>\n<p>Ou seja, estamos falando de um problema estrutural e n\u00e3o de troca de comandos de batalh\u00f5es. Estamos afirmando que h\u00e1 risco de vida mesmo se a pessoa for detentora de mandato popular ou estiver sob a toga do aparelho judici\u00e1rio. N\u00e3o faz nenhum sentido. Porque Marielle n\u00e3o estava com escolta armada e andando em carro blindado? A vereadora atuava no Rio de Janeiro e denunciava a viol\u00eancia policial e das mil\u00edcias. O Brasil n\u00e3o \u00e9 a Escandin\u00e1via e o Rio tampouco \u00e9 Estocolmo ou Oslo. Se vale a compara\u00e7\u00e3o, do outro lado da Ba\u00eda de Guanabara, na Regi\u00e3o Oce\u00e2nica de Niter\u00f3i, as mesmas estruturas denunciadas por Marielle cobraram a vida da ju\u00edza Patr\u00edcia Acioli (VER). Era agosto de 2011, o pa\u00eds vivia o boom do crescimento econ\u00f4mico e havia uma alian\u00e7a esdr\u00faxula (estadual e nacional) bancando o esquema Cabral no Rio. Desde ent\u00e3o o modelo ruiu e o Rio foi \u00e0 fal\u00eancia, de novo.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 preciso respeitar o pertencimento e os v\u00ednculos de Marielle<\/strong><\/p>\n<p>Talvez seja emblem\u00e1tico reconhecer que no Rio de Janeiro, a for\u00e7a pol\u00edtica que polariza eleitoralmente \u00e0 esquerda \u00e9 o PSOL. A cidade, \u201cvanguarda cultural\u201d, convive com um prefeito neopentecostal e mil\u00edcias operando como Estado paralelo. Neste territ\u00f3rio a legenda de Marielle cresceu e como tal deve ser respeitada. Nestes tempos de internet \u201cpol\u00edtica\u201d, ataques n\u00e3o faltam.\u00a0 Solidariedade &#8211; a esquerda como um todo e o PSOL em particular est\u00e3o sofrendo um ataque covarde onde uma leva de &#8220;fascistoides digitais&#8221; afirmando que &#8220;agora o PSOL sofre do pr\u00f3prio rem\u00e9dio ao defender bandido e os direitos humanos&#8221;. Cada dem\u00eancia dessas \u00e9 um ataque direto \u00e0s mais de 6300 mortes violentas no estado do Rio em 2017 e os mais de 61.000 assassinatos do Brasil no mesmo ano.<\/p>\n<p>A militante era do PSOL e cabe a esta legenda reivindicar sua companheira, assim como toda a esquerda brasileira deve ser solid\u00e1ria, respeitando seu pertencimento e milit\u00e2ncia. Marielle era do PSOL e n\u00e3o de outra sigla. Era uma militante de esquerda e como tal deve ser reivindicada. Era negra e da Mar\u00e9 e os mandantes de sua morte por encomenda sabiam exatamente a quem atingir. S\u00f3 queria ressaltar a desconfian\u00e7a para as l\u00e1grimas de crocodilo da Globo assim como dos poderes de fato da rep\u00fablica; pior ainda \u00e9 quem defende a interven\u00e7\u00e3o federal no RJ como forma de solucionar &#8220;a viol\u00eancia no Rio&#8221;. Besteira. O problema todo mundo sabe: estrutura policial corrupta, fac\u00e7\u00f5es que mandam no sistema prisional, falta de servi\u00e7os sociais nas comunidades, racismo institucional na capital e metr\u00f3pole fluminense, al\u00e9m das mil\u00edcias como um grande neg\u00f3cio de dom\u00ednio territorial.<\/p>\n<p>Marielle conhecia esta realidade, tanto como algu\u00e9m que estudava os espa\u00e7os como atuava neles. O Rio \u00e9 a cidade das mil\u00edcias (VER) e pelo visto pouco ou nada serviu a CPI (VER) que abordou este tema e foi narrada no filme Tropa de Elite 2. Ao inv\u00e9s de recuarem, avan\u00e7aram na forma de franquia do crime. Agora disputam espa\u00e7os com as fac\u00e7\u00f5es (ADA, TCP, CVRL) do varejo do tr\u00e1fico e crimes conexos como roubo de cargas. A franquia das mil\u00edcias estaria em 37 bairros e 165 favelas da Regi\u00e3o Metropolitana, espacialmente controlando \u00e1rea equivalente a quase um quarto da capital fluminense, com mais de dois milh\u00f5es de pessoas sob seu dom\u00ednio de terror! Atuam em 11munic\u00edpios, tomando como ponto de partida a Zona Oeste do Rio, atingindo a bairros inteiros, contabilizando 608 mil domic\u00edlios. Obviamente a \u201cguerra do tr\u00e1fico\u201d n\u00e3o \u00e9 contra estas \u201cmil\u00edcias\u201d. N\u00e3o faltam den\u00fancias embora sejam poucos os denunciantes, e menos ainda \u00e0quelas a denunciar a partir dos espa\u00e7os mais penalizados. Logo, trata-se de um bando de hip\u00f3critas! O que mudou na PM do Rio e no sistema de seguran\u00e7a desde a CPI das Mil\u00edcias em 2008? Nada, simplesmente o quadro se agravou. Em novembro de 2010, o cerco na Vila Cruzeiro e depois no Complexo do Alem\u00e3o foram vistos como \u201ca guerra no Rio\u201d (VER), com emprego de tropas federais e o apoio integral das emissoras de televis\u00e3o. Passados oito anos, tudo s\u00f3 piorou. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Pelo que foi divulgado em diversas reportagens e links, a vereadora Marielle Franco exercia um real esfor\u00e7o de representar comunidades carentes sob o terror de Estado. A juventude, alvo da viol\u00eancia policial, constantemente recorria ao seu gabinete e mandato, para denunciar as situa\u00e7\u00f5es cotidianas que uma metade da cidade finge n\u00e3o saber que a outra passa. Insisto que este \u00e9 um momento grave. Mesmo quem discorde de algumas interpreta\u00e7\u00f5es desta legenda (como \u00e9 meu caso), incluindo o tema da seguran\u00e7a p\u00fablica e a &#8220;cren\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es&#8221;, ressalto que sua atua\u00e7\u00e3o \u00e9 importante e corajosa. A coragem sempre cobra um pre\u00e7o alto, como \u00e9 o caso de gera\u00e7\u00f5es em Acari (VER). \u00c9 a mesma comunidade das M\u00e3es de Acari. N\u00e3o custa lembrar a \u201cCHACINA DE ACARI\u201d, 26 de julho de 1990 (VER) &#8211; ap\u00f3s 25 anos do crime, o mesmo prescreveu (VER), e nenhum corpo foi encontrado. A m\u00e3e que come\u00e7ou o movimento foi assassinada em 1993, o ex-deputado estadual Emir Larangeira teria ordenado a execu\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m preso, todas as suspeitas sobre os Cavalos Corredores. A vereadora Marielle Franco tamb\u00e9m atuava em Acari e denunciava regularmente os supostos abusos cometidos por policiais militares lotados no 41\u00ba BPM, conhecido na regi\u00e3o como Batalh\u00e3o da Morte.\u00a0 Ou seja, mais do mesmo no Rio.<\/p>\n<p>Na tentativa de interpretar a trajet\u00f3ria intelectual e pol\u00edtica de Marielle, li trechos de sua disserta\u00e7\u00e3o de mestrado (VER) com o t\u00edtulo \u201cUPP \u2013 A REDU\u00c7\u00c3O DA FAVELAA TR\u00caS LETRAS: UMA AN\u00c1LISEDA POL\u00cdTICA DE SEGURAN\u00c7AP\u00daBLICA DO ESTADO DO RIODE JANEIRO\u201d defendida na UFF em 2014. O \u00faltimo par\u00e1grafo da conclus\u00e3o \u00e9 realmente emblem\u00e1tico.<\/p>\n<p>&#8220;A pol\u00edtica de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado do Rio de Janeiro mant\u00e9m as caracater\u00edsticas de Estado Penal segundo Loic Wacquant. Os elementos centrais dessa constata\u00e7\u00e3o est\u00e3o nas bases da a\u00e7\u00e3o militarizada da pol\u00edcia, na repress\u00e3o dos moradores, na inexist\u00eancia da constitui\u00e7\u00e3o de direitos e nas remo\u00e7\u00f5es para territ\u00f3rios perif\u00e9ricos da cidade (o que acontece em v\u00e1rios casos). Ou seja, a continuidade de uma l\u00f3gica racista de ocupa\u00e7\u00e3o dos pres\u00eddios por negros e pobres, adicionada do elemento de descartar uma parte da popula\u00e7\u00e3o ao direito da cidade, continua marcando a seguran\u00e7a p\u00fablica com o advento das UPPs. Elementos esses que s\u00e3o centrais para a rela\u00e7\u00e3o entre Estado Penal e a pol\u00edcia de seguran\u00e7a em curso no Rio de Janeiro.&#8221;<\/p>\n<p>Enfim, a militante assassinada dominava o tema em todos os \u00e2mbitos e corajosamente aplicava seu conhecimento e capital pol\u00edtico nesta tentativa de representa\u00e7\u00e3o, e tamb\u00e9m por isso seu assassinato e o imediato reconhecimento provocaram tanta ira e canalhice na direita.<\/p>\n<p><strong>A internet brasileira abre os port\u00f5es do inferno<\/strong><\/p>\n<p>Ao ler os coment\u00e1rios decorrentes de v\u00eddeos e postagens homenageando e reconhecendo o mart\u00edrio de Marielle Franco, chego a duas conclus\u00f5es. Ou estamos \u00e0s v\u00e9speras do fascismo, ou tem rob\u00f4 demais e ciberativistas sobrando a favor do pior do pa\u00eds. Ou a Casa Grande entronizou no ativismo de internet ou realmente tem muita gente trabalhando &#8211; sendo remunerada pelo Brasil Paralelo e as redes pr\u00f3-Bolsonaro &#8211; e a partir da\u00ed manipulando uma &#8220;audi\u00eancia&#8221; que vai ao encontro tanto do conservadorismo mais arraigado (do tipo a favor do exterm\u00ednio de massas e do neopentecostalismo) e de algumas bases sociais concretas. O inferno chegou \u00e0 consci\u00eancia do brasileiro e da brasileira m\u00e9dia, reproduzindo o pior das pr\u00e1ticas pol\u00edticas, indo ao encontro das desilus\u00f5es com a ruptura da alian\u00e7a de classes do governo deposto. A coisa est\u00e1 feia mesma, mas n\u00e3o t\u00e3o feia como supostamente &#8220;espelhada&#8221; nas redes sociais do Brasil.<\/p>\n<p>Nas horas que se seguiram \u00e0 difus\u00e3o do crime contra Marielle e Anderson vimos de tudo, desde teorias absurdas, passando por desembargadora do estado do Rio caluniando-a como \u201crepresentante de fac\u00e7\u00e3o\u201d, assim como uma responsabiliza\u00e7\u00e3o da v\u00edtima. A \u00faltima manobra, por sinal, \u00e9 t\u00edpica do opressor, pois naturaliza a condi\u00e7\u00e3o de dom\u00ednio ao ponto de n\u00e3o conceber outra forma de vida que n\u00e3o a reprodu\u00e7\u00e3o subordinada.<\/p>\n<p>Nas 48 horas seguintes, cheguei ao seguinte constructo: \u201ca direita vomita ao digitar\u201d. Isto ocorre quando a estupidez serve de combust\u00edvel para o \u00f3dio insano ser manipulado pelo proselitismo pol\u00edtico da extrema direita. Eu mesmo tive em meu perfil no Facebook gente n\u00e3o convidada, que entrou xingando-a de &#8220;amiga de maconheiros e defensora do CV&#8221;. Exclu\u00ed na hora, mas depois reparei que este tipo de comunica\u00e7\u00e3o est\u00e1 end\u00eamico nas redes sociais. O assassinato de reputa\u00e7\u00f5es n\u00e3o parou por a\u00ed.\u00a0 Outro perfil &#8211; tamb\u00e9m supostamente feminino \u2013 entrou me ofendendo dizendo que Acari \u00e9 do TCP e por isso a Marielle &#8211; suposta amiga de fac\u00e7\u00e3o rival &#8211; foi assassinada. Pronto, j\u00e1 inventaram o \u201csuspeito\u201d ideal. Que horror.<\/p>\n<p><strong>As manobras da m\u00eddia s\u00e3o mais sofisticadas, mas igualmente absurdas<\/strong><\/p>\n<p>Na sexta \u00e0 tarde (13 de mar\u00e7o de 2018) O porta-voz oficioso do governo ileg\u00edtimo, o \u00e2ncora e blogueiro\u00a0 Reinaldo Azevedo, condenou o PSOL e as esquerdas por estarem &#8211; estarmos &#8211; tentando &#8220;politizar&#8221; os assassinatos de Marielle e Anderson, refor\u00e7ando a cren\u00e7a de que n\u00e3o deveria estar ocorrendo a interven\u00e7\u00e3o federal no Rio (VER). Azevedo, assim como o comentarista de pol\u00edtica da Globonews, Valdo Cruz, disseram nesta tarde que &#8220;apenas a interven\u00e7\u00e3o federal pode conter a &#8216;viol\u00eancia&#8217; no Rio&#8221;. Azevedo foi al\u00e9m, em seu editorial radiof\u00f4nico, dizendo que o PROJACST\u00c2O, capitaneado por Caetano Veloso, est\u00e1 \u00e0 frente da &#8220;politiza\u00e7\u00e3o&#8221; do \u00f3bito. Ou seja, est\u00e3o acusando militantes pol\u00edticos &#8211; n\u00e3o me refiro aos artistas, globais ou n\u00e3o &#8211; de politizarem um assassinato que \u00e9 resultado de atua\u00e7\u00e3o e de escolhas POL\u00cdTICAS. N\u00e3o h\u00e1 desculpa para isso a n\u00e3o ser a tentativa de &#8220;acalmar os \u00e2nimos&#8221;, despolitizando algo que \u00e9 estruturalmente pol\u00edtico. O editorial do jornal O Globo de 17 de mar\u00e7o de 2018 passa a fronteira do rid\u00edculo, afirmando\u00a0 \u201cSectarizar morte de Marielle \u00e9 um desservi\u00e7o\u201d (VER). Pelo visto o Jardim Bot\u00e2nico e o Cosme Velho seguem na mesma toada de tentar fazer a panela subir a press\u00e3o e aliviar a rua, quando julgarem ser conveniente. Algo me diz que dessa vez n\u00e3o vai dar certo. O assassinato de uma militante \u00e9 um crime pol\u00edtico!<\/p>\n<p>Tanto \u00e9 pol\u00edtico o ato de fiscalizar e denunciar a seguran\u00e7a p\u00fablica voltada ao exterm\u00ednio e banaliza\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia, como \u00e9 hipocrisia pol\u00edtica alegar querer mexer na seguran\u00e7a fluminense sem alterar sua estrutura. Fal\u00e1cia perigosa, sinal da tens\u00e3o que alerta o Jaburu e as m\u00eddias ao seu redor.<\/p>\n<p><strong>Sobre seguran\u00e7a p\u00fablica e direitos humanos<\/strong><\/p>\n<p>Outra baboseira mil vezes repetida \u00e9 a afirma\u00e7\u00e3o de que a esquerda \u00e9 apenas a \u201cinimiga das pol\u00edcias\u201d. Trata-se de uma falsa pol\u00eamica, de um absurdo completo quando a imbecilidade \u00e0 direita taxa os &#8220;defensores de direitos humanos&#8221; como protetores de &#8220;bandidos&#8221;. \u00c9 justo o oposto. Mesmo dentre aqueles e \u00e0quelas que defendem os Direitos Humanos, h\u00e1 uma defesa intransigente do direito \u00e0 vida. Tamb\u00e9m h\u00e1 uma defesa intransigente dos direitos do preso, porque do contr\u00e1rio, quem est\u00e1 no sistema prisional vira ref\u00e9m das fac\u00e7\u00f5es e n\u00e3o ter\u00e1 chance alguma de reabilita\u00e7\u00e3o. Na esquerda da esquerda, quando h\u00e1 uma justa e profunda desconfian\u00e7a para com o aparelho repressivo, tamb\u00e9m h\u00e1 uma no\u00e7\u00e3o realista de que o pouco patrim\u00f4nio dos debaixo, assim como a vida de trabalhadoras e trabalhadores, deve ser defendido.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1 coniv\u00eancia com &#8220;bandidos&#8221; e sim den\u00fancia de quando as for\u00e7as policiais se comportam como tais. Quem j\u00e1 enterrou amigo, vizinho, parente ou aluno (menor de idade!) em fun\u00e7\u00e3o da inseguran\u00e7a urbana e de atos absurdos das for\u00e7as do Estado sabe o que estou afirmando. Se fosse para debater modelos de efici\u00eancia policial, se este fosse o caso da interven\u00e7\u00e3o federal Rio, estar\u00edamos &#8211; est\u00e3o eles &#8211; anos luz distantes do que melhor se produziu at\u00e9 hoje dentre os pesquisadores brasileiros &#8211; fardados, policiais, juristas e acad\u00eamicos &#8211; a este respeito. Se h\u00e1 d\u00favida, vejam os depoimentos e reflex\u00f5es nos \u00faltimos vinte anos pronunciados por sumidades no tema como o delegado H\u00e9lio Luz e Luiz Eduardo Soares. Ambos &#8220;acreditam&#8221; no aprimoramento do sistema e t\u00eam caracteriza\u00e7\u00f5es muito duras a este respeito.<\/p>\n<p>O modelo policial \u00e9 arcaico, corrupto e carcomido &#8211; o que n\u00e3o implica que todo policial assim se comporta &#8211; e especificamente no caso do Rio de Janeiro, j\u00e1 est\u00e1 tudo dito e nada foi feito. NADA. Eis o resultado. Falsa pol\u00eamica, grupos de exterm\u00ednio, preval\u00eancia das fac\u00e7\u00f5es no varejo do tr\u00e1fico e no sistema prisional, al\u00e9m da exist\u00eancia de mil\u00edcias. Se n\u00e3o acabar com o Arrego e o Esculacho no Rio, enquanto as comunidades n\u00e3o receberem todos os servi\u00e7os urbanos e pol\u00edticas p\u00fablicas, nada muda. Nada. O resto \u00e9 s\u00f3 hipocrisia e proselitismo fascistoide de eleitores de Bolsonaro ou defensores do indefens\u00e1vel governo golpista.<\/p>\n<p><strong>Apontando conclus\u00f5es: o assassinato de uma militante negra e o fim das ilus\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p>O assassinato de Marielle Franco, vereadora e militante negra do PSOL do RJ \u00e9 a ponta do novelo do show de horrores que \u00e9 o Brasil, em geral, e o Rio de Janeiro em particular. Toda a pirotecnia da interven\u00e7\u00e3o federal n\u00e3o acarreta mais &#8220;seguran\u00e7a&#8221; para a popula\u00e7\u00e3o, mas sim a incid\u00eancia de uma for\u00e7a externa &#8211; o Comando Militar do Leste, CML &#8211; ampliando prerrogativas para um governo ileg\u00edtimo e sua tenta\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria. Diante dos poderes de fato, dependendo de cada estado e capital brasileira, nada &#8220;protege&#8221; a milit\u00e2ncia, menos ainda os e as militantes afrodescendentes. N\u00e3o \u00e9 hora de disputar proposi\u00e7\u00e3o e fazer mesquinharia pol\u00edtica, mas \u00e9 preciso repetir algo que companheiras e companheiros das esquerdas eleitorais insistem em n\u00e3o ouvir. Todas as ilus\u00f5es do republicanismo n\u00e3o puderam evitar um golpe de Estado em 2016. Todas as ilus\u00f5es reformistas e &#8220;dentro da legalidade&#8221; n\u00e3o v\u00e3o garantir a vida de ningu\u00e9m. N\u00e3o d\u00e1 mais para seguir reclamando que &#8220;as institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o funcionam como deveriam&#8221;. Mentira. As institui\u00e7\u00f5es p\u00f3s-coloniais est\u00e3o funcionando perfeitamente bem. Defendem a Casa Grande e usam de todos os recursos para deixar a maioria &#8220;no seu lugar&#8221;. At\u00e9 quando vamos repetir a mesma mentira?!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Junho de 2018, Bruno Lima Rocha Na noite de 14 de mar\u00e7o de 2018, uma 4\u00aa feira no final do ver\u00e3o carioca, o centro da capital fluminense foi palco de um assassinato pol\u00edtico. Possivelmente um crime por encomenda, os assassinatos da vereadora pelo PSOL-RJ, Marielle Franco e o motorista substituto de seu gabinete, Anderson Gomes, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1526,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[3,7],"tags":[87,88,89,90],"class_list":["post-10864","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-artigos","category-politica-brasileira","tag-milicia-de-parapoliciais","tag-racismo","tag-rio-de-janeiro","tag-violencia-policial"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10864","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10864"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10864\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/1526"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10864"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10864"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10864"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}