{"id":10868,"date":"2018-06-23T22:25:16","date_gmt":"2018-06-24T01:25:16","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=1538"},"modified":"2018-06-23T22:25:16","modified_gmt":"2018-06-24T01:25:16","slug":"o-sentido-da-brasilidade-atraves-do-futebol-e-da-selecao-resistir-e-preciso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10868","title":{"rendered":"O sentido da brasilidade atrav\u00e9s do futebol e da sele\u00e7\u00e3o: resistir \u00e9 preciso"},"content":{"rendered":"<p>23 de junho de 2018, <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/blimarocha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Lima Rocha<\/a><\/p>\n<p>Pode parecer um tema repetitivo, ou redundante, por vezes quase uma tentativa desesperada de &#8220;salvar a significa\u00e7\u00e3o&#8221; do mundo da bola para o pensamento cr\u00edtico ou, porque n\u00e3o, um intento meio que desesperado de sair do lugar comum. Mas, em \u00e9pocas de Copa do Mundo da FIFA (sim, a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 organizada pela URGH, FIFA) percebo que h\u00e1 algo al\u00e9m de uma transmiss\u00e3o monopolizada &#8211; na TV, aberta &#8211; ou o duop\u00f3lio das transmiss\u00f5es radiof\u00f4nicas ou nos canais por assinatura.<\/p>\n<p>O entorno de uma Copa implica uma gigantesca movimenta\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, cotas astron\u00f4micas de patroc\u00ednio e a tentativa de ades\u00e3o acr\u00edtica para a emissora l\u00edder sem concorrentes em rede aberta. Logo, podemos afirmar que os descaminhos do capitalismo ajudam a perder o impacto do jogo. Na Copa do M\u00e9xico, 1986, por exemplo, a Globo, disputava audi\u00eancia com a Bandeirantes (ainda com Luciano do Valle \u00e0 frente), com o cons\u00f3rcio SBT-Record e a extinta TV Manchete. Ainda viv\u00edamos o per\u00edodo do &#8220;papo de esquina&#8221; sem cair na mesmice da assepsia social &#8211; est\u00fadios &#8220;clean&#8221; &#8211; com um pacote de mauricinhos (esteticamente falando) conversando com &#8220;seriedade&#8221; e, na rede aberta, o processo t\u00e9trico de &#8220;leiferiza\u00e7\u00e3o&#8221; das transmiss\u00f5es esportivas, onde a magia e a po\u00e9tica do mais abrasileirado de todos os esportes se encontra ref\u00e9m da disputa na base do &#8220;vale tudo pela audi\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p>Ou seja, a falta de concorr\u00eancia aumenta o abuso de f\u00f3rmulas consagradas, onde reduzir a aleatoriedade da mudan\u00e7a de telespectadores termina sendo o mais importante. E, ao mesmo tempo, conduzir o debate nas segundas telas &#8211; as &#8220;redes sociais&#8221; do embate contra quem trabalha na m\u00eddia &#8220;esportiva&#8221; &#8211; \u00e9 a garantia da navega\u00e7\u00e3o multiplataforma, mantendo a audi\u00eancia no sentido de seguimento e subordina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por um lado, \u00e9 fato, a cr\u00f4nica esportiva \u00e9 t\u00e3o constitutiva do jogo e do entorno como as institui\u00e7\u00f5es club\u00edsticas, a cartolagem e a matriz africana da forma de se movimentar do futebol brasileiro. Por outro, a mesma assepsia dos est\u00fadios de TV se verificam na &#8220;falta de amor \u00e0 camisa&#8221;, onde uma carreira r\u00e1pida e muito arriscada pode implicar a salva\u00e7\u00e3o financeira de uma fam\u00edlia, ou a condena\u00e7\u00e3o \u00e0 sobreviv\u00eancia perene, considerando que o pa\u00eds deixou atr\u00e1s o per\u00edodo da bonan\u00e7a do boom das commodities e do pacto de classes interno.<\/p>\n<p>\u00c9 importante notar que v\u00e1rios aspectos da cr\u00f4nica esportiva brasileira eram pontos de contato com a linguagem popular, na simbiose das \u00f3peras do povo em est\u00e1dios lotados atrav\u00e9s de ingresso barato. Todos n\u00f3s sabemos &#8211; e criticamos &#8211; a euforia da ditadura com o futebol e a cria\u00e7\u00e3o de gigantescos est\u00e1dios ap\u00f3s a conquista do tri em 1970. Mas, \u00e9 preciso reconhecer que os templos futebol\u00edsticos como Coliseus modernos continha todas as classes e, por algumas horas, mesmo com todos os conflitos inerentes a uma sociedade escravocrata e p\u00f3s-colonial, o &#8220;povo&#8221; ganhava forma, com a nata se rendendo \u00e0 massa, em todos os aspectos. Findo o &#8220;espet\u00e1culo&#8221;, a sa\u00edda das partidas j\u00e1 demarcava pertencimentos, fazendo da ida ao jogo uma aventura e o retorno &#8211; em especial de partidas noturnas &#8211; uma loteria.<\/p>\n<p>Com a elitiza\u00e7\u00e3o do acesso aos est\u00e1dios, e a receita vinculada aos direitos de transmiss\u00e3o, mais do que a renda da venda dos ingressos, o p\u00fablico passa a ser parte do que \u00e9 vendido. Pasteurizaram demais, n\u00e3o a ponto de matar a paix\u00e3o ou a espontaneidade, mas sim no exagero das formas de controle privatizado. Para quem julga exagero, reconhe\u00e7o que ningu\u00e9m deve sentir falta do risco permanente de \u201ctomar um banho de urina\u201d em copos de cerveja preenchidos com o l\u00edquido humano ainda quente. Por outro lado, vender lanche nas \u201cmodernas arenas\u201d como se fosse comida de setor internacional de aeroportos \u00e9 uma viol\u00eancia contra a popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00f3 reclamar n\u00e3o adianta, mas \u00e9 preciso uma constata\u00e7\u00e3o realista para apontar sa\u00eddas, ou mesmo as cr\u00edticas necess\u00e1rias. Enfim, a manipula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica grosseira, como a feita pela ditadura em 1970, ou o ufanismo irrespons\u00e1vel e anti-atl\u00e9tico, como a &#8220;invas\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o&#8221; do Brasil em 1950, s\u00e3o fen\u00f4menos execr\u00e1veis. Baixarias assim creio que n\u00e3o se repetem mais, ao menos n\u00e3o de forma t\u00e3o escancarada. A maior cr\u00edtica resulta mesmo na forma mercadoria do acesso aos est\u00e1dios e na insistente sobrevida da cartolagem sob muita suspeita e o esquem\u00e3o FIFA-CBF. Estando a Confedera\u00e7\u00e3o Brasileira em desgra\u00e7a, a Federa\u00e7\u00e3o Internacional segue monetizando ao m\u00e1ximo, mas sem tanta participa\u00e7\u00e3o dos herdeiros pol\u00edticos tanto de Jo\u00e3o Havelange como de Jos\u00e9 Maria Mar\u00edn e do impag\u00e1vel Nabi Abi Chedid.<\/p>\n<p>Para al\u00e9m da economia pol\u00edtica do esporte mais entranhado na cultura do povo brasileiro, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer o sentido de brasilidade gestado por meio s\u00e9culo ou mais, consagrado em 1958, passado o trauma de 1950. H\u00e1 muito ainda para se reivindicar. Destaco a est\u00e9tica brasileira e a identidade coletiva baseada no gesto da massa, na linguagem corporal afro-brasileira com ou sem a bola nos p\u00e9s e a cr\u00f4nica futebol\u00edstica como forma de ind\u00fastria cultural tang\u00edvel da maioria. Tudo isso \u00e9 diariamente maculado por for\u00e7as muito poderosas e piorou. A camisa da sele\u00e7\u00e3o brasileira, fruto de escolha popular ap\u00f3s o Maracana\u00e7o, foi blasfemada pela nova-velha direita no transe pol\u00edtico reacion\u00e1rio iniciado no terceiro turno de 2014, culminando no golpe coxinha de 2016. A blasf\u00eamia da coxinhada e a s\u00edndrome do viralatismo merecem um texto exclusivo e o mesmo logo sai. Reconhe\u00e7o, est\u00e1 dif\u00edcil falar s\u00f3 de bola e mais complicado ainda em ver poesia para al\u00e9m da nostalgia. Mas, resistir \u00e9 preciso, e a alegria do povo no patrim\u00f4nio imaterial da maioria de Palmares e Pindorama \u00e9 inegoci\u00e1vel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>23 de junho de 2018, Bruno Lima Rocha Pode parecer um tema repetitivo, ou redundante, por vezes quase uma tentativa desesperada de &#8220;salvar a significa\u00e7\u00e3o&#8221; do mundo da bola para o pensamento cr\u00edtico ou, porque n\u00e3o, um intento meio que desesperado de sair do lugar comum. 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