{"id":10885,"date":"2018-07-19T18:13:08","date_gmt":"2018-07-19T21:13:08","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=1594"},"modified":"2018-07-19T18:13:08","modified_gmt":"2018-07-19T21:13:08","slug":"notas-de-conjuntura-pre-campanha-eleitoral-uma-visao-a-esquerda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10885","title":{"rendered":"Notas de conjuntura pr\u00e9-campanha eleitoral: uma vis\u00e3o \u00e0 esquerda"},"content":{"rendered":"<p>19 de julho de 2018, Bruno Lima Rocha<\/p>\n<p>Trago estas notas analisando um problema de fundo. Estamos em plena crise pol\u00edtica, uma crise que abala as institui\u00e7\u00f5es da chamada &#8220;Nova rep\u00fablica&#8221;, fruto da transi\u00e7\u00e3o inaugurada a partir da Abertura Lenta, Gradual e Segura de tipo GGG (Geisel e Golbery, elogiada por Gaspari) e garantida pela Anistia, Ampla, Geral e Irrestrita &#8211; na sua segunda vers\u00e3o e atrav\u00e9s de jurisprud\u00eancia obtida com o fim do AI-5. Na sequ\u00eancia, o Brasil quebrou mas, simultaneamente, a classe trabalhadora aparecia na cena pol\u00edtica atrav\u00e9s do reformismo radical, ent\u00e3o de base e leg\u00edtimo. Gra\u00e7as a essa luta social intensa &#8211; mesmo que discorde das op\u00e7\u00f5es, as quais sigo em discord\u00e2ncia &#8211; tivemos a vers\u00e3o substantiva da transi\u00e7\u00e3o do autoritarismo na metade dos anos &#8217;80, atrav\u00e9s da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988. Pois bem, \u00e9 esta vers\u00e3o de democracia liberal com tra\u00e7os olig\u00e1rquicos e elementos, contraditoriamente, substantivos e representados at\u00e9 h\u00e1 pouco, na tentativa de controle do or\u00e7amento p\u00fablico que est\u00e1 em jogo. E estamos perdendo o jogo.<\/p>\n<p>Algu\u00e9m pode afirmar que a disputa entre neoliberais e social-democratas n\u00e3o \u00e9 para a esquerda se meter. No embate pol\u00edtico eleitoral entendo que a afirma\u00e7\u00e3o est\u00e1 correta. Na disputa pelos rumos da sociedade brasileira, \u00e9 justo ao rev\u00e9s. Minha maior preocupa\u00e7\u00e3o neste momento \u00e9, modestamente, fornecer capacidade anal\u00edtica por esquerda tentando, ao mesmo tempo, n\u00e3o ficar a reboque dos apoiadores do governo deposto atrav\u00e9s de um golpe jur\u00eddico-midi\u00e1tico-parlamentar e, menos ainda, colocando quem atua pela esquerda da pol\u00edtica ainda mais \u00e0 margem da centralidade dos acontecimentos.<\/p>\n<p>Infelizmente, circula um discurso obtuso por uma parte da esquerda brasileira &#8211; minorit\u00e1ria, \u00e9 verdade &#8211; que confunde o momento estrutural vivido no pa\u00eds &#8211; o da crise pol\u00edtico-institucional, quebra do modelo econ\u00f4mico do capitalismo perif\u00e9rico e a ascens\u00e3o das carreiras jur\u00eddicas como setores protagonistas no Estado brasileiro &#8211; com a radicalidade discursiva. Entendo, respeito e repito ser a capacidade de alinhamento fundamental para fazer pol\u00edtica, ainda mais importante quando o sistema de cren\u00e7as tem de estar acima das aloca\u00e7\u00f5es de recursos de poder dispon\u00edveis na concorr\u00eancia permitida no liberalismo. Mas, como costumo afirmar, a melhor posi\u00e7\u00e3o \u00e9 combinar serenidade, frieza anal\u00edtica e fervor ideol\u00f3gico. Acontece, que tal combina\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, bem dif\u00edcil.<\/p>\n<p><strong>Antes nem farda nem toga. Agora, nem toga e nem farda.<\/strong><\/p>\n<p>Recentemente afirmei em programa local de TV &#8211; local, digo, transmitido para a Regi\u00e3o Metropolitana de Porto Alegre\/RS &#8211; que n\u00e3o me entusiasmava um ambiente pol\u00edtico onde as pessoas sabiam de cor nomes de magistrados, ministros de tribunais superiores, delegados da PF e procuradores federais. Isso por si s\u00f3 j\u00e1 caracterizava a presen\u00e7a de uma &#8211; algumas &#8211; tecnocracias de carreira em franca ascens\u00e3o dentro do aparelho de Estado. E, estas carreiras, pelo pr\u00f3prio poder da caneta e da toga, podem operar como &#8211; de fato &#8211; Poder Moderador nos atos da rep\u00fablica. Acontece que o caldo j\u00e1 entornou e hoje, quem estiver fazendo pol\u00edtica &#8211; mais dentro do que fora das urnas &#8211; necessariamente deve contar com bases e contatos no mundo jur\u00eddico.<\/p>\n<p>Neste sentido, h\u00e1 algum paralelo com os anos &#8217;50, quando o Estado-Maior do Ex\u00e9rcito estava dividido em Progressistas, Nacionalistas, &#8220;Democratas&#8221; e Intervencionistas. Estes \u00faltimos, gestando na Escola Superior de Guerra (ESG) dois partidos pol\u00edticos, duas fac\u00e7\u00f5es <em>interna corporis<\/em> e que viriam a disputar todo o poder do Estado para al\u00e9m da capacidade de governo. Na d\u00e9cada em que Vargas pela primeira vez eleito presidente viria a se matar para n\u00e3o ser deposto, as for\u00e7as pol\u00edticas profissionais contavam com marechais &#8211; como o Marechal Henrique Teixeira Lott e o golpe preventivo que garantiu a posse de JK eleito -, aviadores &#8211; como os golpistas Jo\u00e3o Paulo Moreira Burnier, Haroldo Veloso e sua refer\u00eancia pol\u00edtica Eduardo Gomes -, e navais como o contra-almirante C\u00e2ndido Arag\u00e3o (progressista) ou o almirante fascista Penna Botto -, dentre centenas de outros militares.<\/p>\n<p>O outro paralelo se d\u00e1 na interna do desenho de Estado no Brasil. Se a Nova Rep\u00fablica acabou, e acabou mesmo, e h\u00e1 uma evidente e brutal regress\u00e3o de direitos, logo, \u00e9 de se esperar um embate dentro das elites pol\u00edtica, caos na interna do Estado e algum tipo de conflito social organizado. Mas, este \u00faltimo, o mais relevante para estruturar a sociedade debaixo para cima, precisa ser organizado e ter alguma refer\u00eancia para al\u00e9m do reboquismo ou a retomada do pacto anterior do governo deposto. E isso est\u00e1 bem dif\u00edcil, embora sempre desejado. Talvez seja esta a dimens\u00e3o mais complicada que torna vitoriosa a pauta baseada na luta pela recondu\u00e7\u00e3o do governo deposto e, ao mesmo tempo, a necessidade de articula\u00e7\u00e3o cada vez maior das esquerdas mais \u00e0 esquerda &#8211; onde me incluo como analista e apoiador.<\/p>\n<p><strong>Cabe observar o perigo real de avan\u00e7o fascista em nossa sociedade. Explico.<\/strong><\/p>\n<p>N\u00e3o se trata \u201capenas\u201d da aventura de Bolsonaro no rumo da Presid\u00eancia, embora este fen\u00f4meno por si s\u00f3 j\u00e1 assuste o bastante. Mas a difus\u00e3o de um punitivismo baseado no pior do conservadorismo colonial &#8211; racista, elitista, nababo, mis\u00f3gino, entreguista, viralata &#8211; que agarra cora\u00e7\u00f5es e mentes, tanto na gera\u00e7\u00e3o de concurseiros profissionais, como da classe m\u00e9dia para cima, na pir\u00e2mide que se entende olhando de cima para baixo &#8211; mesmo quando n\u00e3o passamos de uns pobres coitados com diploma, rezando para o m\u00eas acabar antes da chegada do pr\u00f3ximo boleto de contas atrasadas &#8211; e vendo a maioria com asco e dist\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Nunca \u00e9 demais recordar que o famigerado general Hamilton Mour\u00e3o Filho, o militar que comandou a coluna golpista que desceu a estrada Rio-Bahia no sentido do Rio de Janeiro, era, na d\u00e9cada de &#8217;30, membro do setor de intelig\u00eancia da A\u00e7\u00e3o Integralista Brasileira. Ou seja, a difus\u00e3o das estupidezes de Pl\u00ednio Salgado e Gustavo Barroso &#8211; este por sua vida retr\u00f3grada era um anti-crist\u00e3o na Restaura\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, esp\u00e9cie de vers\u00e3o brasileira do franquismo &#8211; penetrou, e fundo, no Estado Brasileiro, em especial no per\u00edodo da ditadura getulista ainda sob a Lei de Seguran\u00e7a Nacional e depois no Estado Novo.<\/p>\n<p>Se vale a compara\u00e7\u00e3o, ao difundir as cloacas jorrantes da nova-velha direita na Am\u00e9rica Latina &#8211; vers\u00f5es atuais dos Chicago Boys e posturas demenciais a favor do proto-fascismo militar &#8211; tais manifesta\u00e7\u00f5es de pensamento entram com vigor no aparelho de Estado, assim como sempre seguiram atuando no aparelho policial deste nosso pa\u00eds campe\u00e3o em execu\u00e7\u00f5es extra-judiciais. A manilha de esgoto j\u00e1 estourou, os d\u00f3lares gastos pela funda\u00e7\u00e3o dos Irm\u00e3os Koch, a lavagem cerebral promovida pela Atlas Network e adjac\u00eancias j\u00e1 penetrou em camadas sociais m\u00e9dias e a ideologia do empresariado selvagem pode vir a superar a velha panaceia olig\u00e1rquica nacional.<\/p>\n<p>Aconte\u00e7a o que acontecer em outubro de 2018, a cancha est\u00e1 aberta em 2019 e tudo, absolutamente tudo, pode vir a acontecer. A esquerda mais \u00e0 esquerda ter\u00e1 tanta chance de influenciar nos acontecimentos \u00a0quanto mais for\u00e7a social e organiza\u00e7\u00e3o de base devidamente articulada e fazendo sentido com a maioria, estes setores puderem incidir. A campanha eleitoral formal ainda n\u00e3o come\u00e7ou, mas a luta antifascista n\u00e3o espera soar o gongo para entrar no ringue.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>19 de julho de 2018, Bruno Lima Rocha Trago estas notas analisando um problema de fundo. 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