{"id":1089,"date":"2009-08-28T11:21:32","date_gmt":"2009-08-28T11:21:32","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1089"},"modified":"2009-08-28T11:21:32","modified_gmt":"2009-08-28T11:21:32","slug":"criticando-o-neoliberalismo-a-partir-de-seus-pressupostos-politicos-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1089","title":{"rendered":"Criticando o neoliberalismo a partir de seus pressupostos pol\u00edticos \u2013 2"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/downs-anthony.jpg\" title=\"Anthony Downs \u00e9 um dos basti\u00f5es dos neo-neo-neo (neoinstitucionalistas, neoliberais, neocl\u00e1ssicos) e tem a pretens\u00e3o de exercer pensamento \u00fanico abolindo o debate sobre o poder, pressupondo um psicologismo universal nas expectativas de comportamento individual. Pura pe\u00e7a de propaganda. - Foto:cooperativeindividualism\" alt=\"Anthony Downs \u00e9 um dos basti\u00f5es dos neo-neo-neo (neoinstitucionalistas, neoliberais, neocl\u00e1ssicos) e tem a pretens\u00e3o de exercer pensamento \u00fanico abolindo o debate sobre o poder, pressupondo um psicologismo universal nas expectativas de comportamento individual. Pura pe\u00e7a de propaganda. - Foto:cooperativeindividualism\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Anthony Downs \u00e9 um dos basti\u00f5es dos neo-neo-neo (neoinstitucionalistas, neoliberais, neocl\u00e1ssicos) e tem a pretens\u00e3o de exercer pensamento \u00fanico abolindo o debate sobre o poder, pressupondo um psicologismo universal nas expectativas de comportamento individual. Pura pe\u00e7a de propaganda.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:cooperativeindividualism<\/small><\/figure>\n<p>27 de agosto de 2009, da Vila Setembrina, Bruno Lima Rocha <\/p>\n<p>Dou seq&uuml;&ecirc;ncia nesta semana para o conjunto das cr&iacute;ticas destinadas ao campo de saber e incid&ecirc;ncia ideol&oacute;gica apelidado ao mundo de neoliberalismo. Como quase sempre procuro fazer, exponho o pensamento da direita atrav&eacute;s de suas pr&oacute;prias palavras, em especial de algumas obras fundadoras e doutrinadoras. O eixo do debate passa pela coloniza&ccedil;&atilde;o da linguagem, como base de racioc&iacute;nio de recursos discursivos, obrigando aos reprodutores destas palavras a carregar consigo os conceitos que comp&otilde;em a parte intr&iacute;nseca do modo neoliberal de totalizar o pensamento.<\/p>\n<p>Isto se verifica no absurdo dos discursos de an&aacute;lise fazendo analogia com jogos de sal&atilde;o ou cassinos. A forma portadora das ferramentas de an&aacute;lise &eacute; atrav&eacute;s da linguagem, dos exemplos comparativos e das analogias. Na figura de linguagem macro, para os neoliberais o mundo se trataria de um grande cassino. Se observarmos com aten&ccedil;&atilde;o a justificativa de &ldquo;racionalidade da escolha racional&rdquo;, em texto original de Milton Friedman, j&aacute; encontramos as mesmas analogias. <\/p>\n<p>No livro cuja edi&ccedil;&atilde;o original &eacute; de 1990, <strong>Jogos Ocultos<\/strong>, George Tsebelis (1998, p: 44, para esta cr&iacute;tica utilizo a edi&ccedil;&atilde;o brasileira da EdUSP) apresenta o debate do pressuposto racional da sua escolha. Vejam que a afirma&ccedil;&atilde;o &eacute; nada sutil. Ao questionar se &ldquo;&eacute; realista o enfoque da escolha racional?&rdquo; exp&otilde;e a origem desta formula&ccedil;&atilde;o que logo viria a ser universalizada para o campo da ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica por Anthony Downs (em <strong>Uma Teoria Econ&ocirc;mica da Democracia<\/strong>, a obra original &eacute; de 1957, eu utilizo nesta cr&iacute;tica da edi&ccedil;&atilde;o da Edusp, datada de 1999). Segundo Tsebelis, a resposta mais freq&uuml;ente para a quest&atilde;o seria: <em>&ldquo;N&atilde;o importa; as pessoas agem &lsquo;como se&rsquo; fossem racionais&rdquo;. <\/p>\n<p><\/em>Um dos fundadores da matriz de pensamento neocl&aacute;ssico afirma exatamente o mesmo absurdo. Particularmente considero isso a doutrina e n&atilde;o teoria. Teoria &eacute; um conjunto de hip&oacute;teses coerentemente articuladas e test&aacute;veis (ao menos uma Teoria de M&eacute;dio Alcance, na dimens&atilde;o estrat&eacute;gica do conhecimento). As id&eacute;ias-guia s&atilde;o a forma mais sofisticada da ideologia, ou seja, doutrina. As palavras que seguem s&atilde;o base de doutrina&ccedil;&atilde;o pura, vejamos. Repito a pergunta. &ldquo;&Eacute; realista o enfoque da escolha racional? As pessoas em geral agem para maximizar ganhos materiais e minimizar estas mesmas perdas?&rdquo; A forma totalizante de responder a este questionamento se encontra no artigo do economista Milton Friedman, <strong>The Methodology of Positive Economics<\/strong>. Friedman (1953: 14) afirma: <\/p>\n<p><em>Descobrir-se-&aacute; que hip&oacute;teses realmente importantes e significativas possuem &lsquo;pressupostos&rsquo; que s&atilde;o representa&ccedil;&otilde;es descritivas tremendamente imprecisas da realidade, de modo geral, quanto mais significativa for a teoria, mais irrealistas ser&atilde;o os pressupostos (nesse sentido). [&#8230;] Para ser importante uma hip&oacute;tese deve ser descritivamente falsa em seus pressupostos. <\/p>\n<p>Friedman exemplifica em tr&ecirc;s exemplos diferentes para apoiar a &ldquo;F-twist&rdquo; (&ldquo;tend&ecirc;ncia F&rdquo;), como a tese do &lsquo;como se&rsquo; fossem racionais. <br \/>\n&#8211; os h&aacute;beis jogadores de bilhar, que executam suas tacadas &lsquo;como se&rsquo; soubessem as complicadas f&oacute;rmulas matem&aacute;ticas que descrevem a trajet&oacute;ria &oacute;tima das bolas; <br \/>\n&#8211; as firmas que agem &lsquo;como se&rsquo; fossem maximizadoras da utilidade esperada; <br \/>\n&#8211; as folhas de uma &aacute;rvore; Friedman (1953: 19) sugere &ldquo;a hip&oacute;tese de que as folhas se posicionam como se cada uma procurasse deliberadamente maximizar a quantidade de luz solar que recebe&rdquo;. <\/p>\n<p><\/em>Qualquer estudante de ci&ecirc;ncias econ&ocirc;micas, sociais e humanas que apresentasse este conjunto de hip&oacute;teses na forma de ensaio, sem se referir &agrave; cita&ccedil;&atilde;o de Friedman, seria ridicularizado e humilhado por pares e professores. Sejamos sinceros, por vezes (muitas vezes, majoritariamente) o campo acad&ecirc;mico costuma ser cruel nos seus ritos de passagem e aprova&ccedil;&atilde;o de membros mais novos. Se este novo membro a entrar em algum escal&atilde;o universit&aacute;rio utilizasse estes exemplos absurdos acima, a rea&ccedil;&atilde;o seria terr&iacute;vel, possivelmente causando traumas e dramas para o restante de sua vida. Mas, do alto de seu posicionamento de doutrinador, Friedman pode dar o exemplo estapaf&uacute;rdio e irracional que nada acontece a n&atilde;o ser a reprodutibilidade acelerada pelos seguidores com estilo das cabras e ovelhas de George Orwell. <\/p>\n<p>Retomando o conte&uacute;do da cr&iacute;tica, um dos pilares da aproxima&ccedil;&atilde;o da l&oacute;gica da escolha racional sobre as vari&aacute;veis da pol&iacute;tica e sua matriz hist&oacute;rico-estrutural &eacute; a obra de Anthony Downs (1999), <strong>&ldquo;Uma teoria econ&ocirc;mica da democracia&rdquo;<\/strong> . Como j&aacute; dissemos, o original da obra &eacute; de 1957, sendo a mesma escrita entre 1955 e 1956. &Eacute; interessante observar j&aacute; nos agradecimentos, a vincula&ccedil;&atilde;o te&oacute;rica, epistemol&oacute;gica e de suporte institucional que o economista contou para escrever o livro. Downs (1999), na p&aacute;gina, 21, Agradecimentos, presta o seguinte reconhecimento:<\/p>\n<p><em>&ldquo;Como todas as obras supostamente originais, este estudo deve muito de seu conte&uacute;do ao pensamento e esfor&ccedil;os de outras pessoas. [&#8230;] Tamb&eacute;m gostaria de agradecer Robert A. Dahl e Melvin W. Reder, que leram o manuscrito e fizeram muitas sugest&otilde;es que incorporei. [&#8230;] Finalmente, gostaria de agradecer ao Office of Naval Research pelo aux&iacute;lio que tornou este estudo poss&iacute;vel. [&#8230;].Anthony Downs, Stanford University, maio de 1956&rdquo;. <br \/>\n<\/em><br \/>\nComo se nota, o &ldquo;campo&rdquo; neocl&aacute;ssico e liberal se protege, consegue seus financiamentos e &eacute; auto referenciado. Nesta obra, Downs (1999, p. 43) se posiciona na mesma linha de Friedman e afirma que o artigo do economista de Chicago, publicado em uma obra cujo t&iacute;tulo coletivo &eacute; a de um &ldquo;ensaio&rdquo; (Essays of Positive Economics, 1953, Chicago Univ. Press) &eacute; uma &ldquo;excelente afirma&ccedil;&atilde;o desse ponto de vista&rdquo;. Segundo Downs, &ldquo;os modelos te&oacute;ricos deveriam ser testados primordialmente mais pela precis&atilde;o de seus progn&oacute;sticos do que pela realidade de seus pressupostos.&rdquo; Dessa forma, o autor concorda com Friedman e defende o pressuposto irreal como base para a Escolha Racional. <\/p>\n<p>O pressuposto deste progn&oacute;stico se notara ap&oacute;s o trabalho de coloniza&ccedil;&atilde;o de assimilados convertidos em doutrinadores operando na esfera pol&iacute;tica com discurso econ&ocirc;mico. O conv&ecirc;nio entre Friedman e seus seguidores oriundos majoritariamente da Universidade Cat&oacute;lica do Chile montou a base das &ldquo;piranhas vorazes&rdquo;, o outro apelido dado aos Chicago Boys, bra&ccedil;o &ldquo;econ&ocirc;mico&rdquo; da ditadura chileno de estilo prussiano de Augusto Pinochet e outros genocidas. <\/p>\n<p>O questionamento desses dois trabalhos n&atilde;o &eacute; pelo fato de seus pressupostos serem irreais. Entendo que esta postura te&oacute;rica-epistemol&oacute;gica deve existir, mas diz respeito &agrave;s dimens&otilde;es ontol&oacute;gicas (ideol&oacute;gicas) da teoria. No campo operacional da pol&iacute;tica, a dimens&atilde;o ideol&oacute;gica, ap&oacute;s um largo per&iacute;odo de desenvolvimento, sistematiza id&eacute;ias-guia no sentido de doutrina. Todas as id&eacute;ias-guia das modestas, mas incisivas an&aacute;lises que fa&ccedil;o, assim como suas filia&ccedil;&otilde;es tanto te&oacute;ricas como metodol&oacute;gicas e ontol&oacute;gica, foram discutidas em artigos anteriores e est&atilde;o sempre expostas. Assim, abro a tomada de posi&ccedil;&atilde;o do analista. Entendo que a honestidade intelectual deve partir de que o pressuposto &ldquo;subjetivo&rdquo; &eacute; irracional por estar o mesmo vinculado ao campo das filia&ccedil;&otilde;es, do inconsciente, das aspira&ccedil;&otilde;es. Como o inconsciente &eacute; um &uacute;nico irredut&iacute;vel, &eacute; um objeto pr&oacute;prio da esfera ideol&oacute;gica. Por serem as ci&ecirc;ncias humanas e sociais de natureza aparadigm&aacute;tica, simplesmente n&atilde;o existem disciplinas e saberes das humanidades que n&atilde;o contenham em seu universo intr&iacute;nseco uma dimens&atilde;o ontol&oacute;gica, portanto, n&atilde;o-cient&iacute;fica. <\/p>\n<p>&Eacute; interessante a maneira de formula&ccedil;&atilde;o de pensamento de Friedman. J&aacute; no quesito &ldquo;precis&atilde;o de progn&oacute;sticos&rdquo;, entendo que ocorre uma afirma&ccedil;&atilde;o inversa. A precis&atilde;o de an&aacute;lise e a predi&ccedil;&atilde;o de conjunturas dentro de um marco de constrangimento s&atilde;o poss&iacute;veis. J&aacute; o termo empregado por Friedman, a da &ldquo;representa&ccedil;&atilde;o descritiva tremendamente imprecisa&rdquo; n&atilde;o garante nenhuma certeza de altera&ccedil;&atilde;o estrutural no futuro. O que quero dizer &eacute; que o acerto na predi&ccedil;&atilde;o de largo prazo depende da incid&ecirc;ncia dos agentes e n&atilde;o da precis&atilde;o anal&iacute;tica. Coube aos neoliberais o papel de conspiradores internacionais, usando como eixo de for&ccedil;a as absurdas f&oacute;rmulas matematizadas. Friedman e seus seguidores s&atilde;o o exemplo vivo da for&ccedil;a das materialidades das id&eacute;ias, por mais absurdas que estas possam parecer. <\/p>\n<p>Estamos em trincheiras diferentes, por sorte. Cabem aos analistas e trabalhadores acad&ecirc;mico-cient&iacute;ficos da Am&eacute;rica Latina se posicionar perante as mazelas, virtudes e desafios do Continente. Nossa lida passa por buscar e produzir as ferramentas necess&aacute;rias para teorizarmos sa&iacute;das visando a radicaliza&ccedil;&atilde;o da democracia, o empoderamento dos sujeitos sociais organizados, a expans&atilde;o de direitos e liberdades e a derrota em todos os n&iacute;veis das oligarquias (nacionais e estaduais), das transnacionais, da jogatina dos banqueiros e do Imp&eacute;rio. <\/p>\n<p>\n<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=25209\">Este artigo foi originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas da Unisinos (IHU) <\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Anthony Downs \u00e9 um dos basti\u00f5es dos neo-neo-neo (neoinstitucionalistas, neoliberais, neocl\u00e1ssicos) e tem a pretens\u00e3o de exercer pensamento \u00fanico abolindo o debate sobre o poder, pressupondo um psicologismo universal nas expectativas de comportamento individual. Pura pe\u00e7a de propaganda. 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