{"id":10930,"date":"2022-10-29T09:46:40","date_gmt":"2022-10-29T12:46:40","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=3054"},"modified":"2023-03-13T21:57:50","modified_gmt":"2023-03-14T00:57:50","slug":"segundo-turno-das-eleicoes-brasileiras-protofascismo-e-politica-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10930","title":{"rendered":"<strong>Segundo turno das elei\u00e7\u00f5es brasileiras: protofascismo e pol\u00edtica internacional<\/strong>"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Bruno Lima Rocha Beaklini<\/em> (@blimarocha@) &#8211; outubro 2022<\/p>\n\n\n\n<p>Escrevo este artigo faltando menos de quatro dias para o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil. Logo, todo o factual ficaria &#8220;velho&#8221; antes de uma semana, o que implicaria em contrasenso jornal\u00edstico. Assim, aproveitamos a oportunidade para contribuir de forma conceitual, localizando o pleito brasileiro dentro do contexto complexo da pol\u00edtica nacional, latino-americana e a rela\u00e7\u00e3o com o Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7amos pelo embate rumo do Planalto. O ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva poderia ser posicionado politicamente na centro-esquerda. No l\u00e9xico pol\u00edtico europeu, um social-democrata de centro, que apoia um pacto social. Seu arco de alian\u00e7as seria de centro, indo da direita neoliberal, com um vi\u00e9s liberal-democrata, at\u00e9 a esquerda reformista. A propens\u00e3o a aceitar as regras do jogo eleitoral e os poderes complementares da Rep\u00fablica \u00e9 total.<\/p>\n\n\n\n<p>O atual presidente, Jair Bolsonaro, est\u00e1 posicionado na extrema direita desde sempre, por\u00e9m, no conv\u00edvio entre partidos olig\u00e1rquicos. Nos cl\u00e1ssicos da ci\u00eancia pol\u00edtica, a denomina\u00e7\u00e3o de &#8220;baixo clero&#8221; \u00e9 onde temos pr\u00e1ticas paroquiais, localistas, da cultura prebend\u00e1ria do tipo &#8220;toma l\u00e1, d\u00e1 c\u00e1&#8221;. Quase sempre estas legendas s\u00e3o controladas por dirigentes pol\u00edticos \u00e0 frente de executivas estaduais e nacionais, com o controle de robustos or\u00e7amentos, tanto do fundo partid\u00e1rio como do fundo eleitoral. Para superar as lideran\u00e7as de oligarcas e das bancadas tem\u00e1ticas da b\u00edblia, do boi, da bala e de setores transversais, na defesa da educa\u00e7\u00e3o privada \u00e0 frente da p\u00fablica, dos planos de sa\u00fade \u00e0 frente do SUS e da amplia\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de mercado, com o objetivo de privatizar o servi\u00e7o p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolsonaro, no &#8220;baix\u00edssimo clero&#8221;, liderou um estilo de trabalho pol\u00edtico em que a bizarrice e a constru\u00e7\u00e3o de um personagem de tipo &#8220;freak show&#8221; garantiu uma plateia nacionalizada, girando em torno de temas pol\u00eamicos e preconceituosos. Uma vez na ascens\u00e3o concomitante \u00e0 crise pol\u00edtica de 2015, o ex-militar profissional (que quase foi expulso do ex\u00e9rcito brasileiro) adequou seu posicionamento aos tempos que viriam. O alinhamento das agendas com a nova extrema direita estadunidense marcou o discurso e a aglutina\u00e7\u00e3o de for\u00e7as reacion\u00e1rias carentes de lideran\u00e7a, sem travas, freios, e ainda disposto a propor uma ruptura \u00e0 direita.<\/p>\n\n\n\n<p>A literatura de pol\u00edtica e hist\u00f3ria dos anos 1920 e 1930 nos pa\u00edses ocidentalizados nos trazem elementos de identifica\u00e7\u00e3o do fascismo e do nazismo. Logo, temos um modelo hist\u00f3rico do que seria um &#8220;partido fascista&#8221;. As formas contempor\u00e2neas, com semelhan\u00e7as e diferen\u00e7as, podem ser denominadas de &#8220;protofascismo&#8221;, ao menos na aus\u00eancia de melhor defini\u00e7\u00e3o. Assim, os protofascistas pertencem a um sentido de coletividade atrav\u00e9s de distintas clivagens: fundamentalismo neopentecostal; apoio incondicional ao sionismo; elogio do papel moderador ou interventor das for\u00e7as armadas; defesa do excludente de ilicitude na defesa patrimonial; conservadorismo nas agendas de costumes; desconfian\u00e7a permanente aos poderes constitu\u00eddos republicanos; e uma ades\u00e3o \u00e0s teses mais obscuras, beirando a esquizofrenia anticient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p>Os efeitos s\u00e3o conhecidos, a exemplo do levante conservador do Capit\u00f3lio, nos EUA, no fat\u00eddico 6 de janeiro de 2021. Tal como nos anos &#8217;20 e &#8217;30 do s\u00e9culo passado, existe um alinhamento &#8211; com as devidas singularidades &#8211; entre as for\u00e7as que aglutinam o modelo de acumula\u00e7\u00e3o dos especuladores, da super explora\u00e7\u00e3o do trabalho prec\u00e1rio, do fim dos servi\u00e7os e pol\u00edticas p\u00fablicas, e do aumento da penetra\u00e7\u00e3o social da Teologia da Prosperidade, com aval (t\u00e1cito ou expl\u00edcito) para o avan\u00e7o da economia pol\u00edtica do crime ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>O pano de fundo mundial \u00e9 a neurast\u00eanica &#8220;agenda globalista&#8221;, em que os direitos sociais, individuais, coletivos e difusos, como o direito ao reconhecimento, s\u00e3o vistos como uma interfer\u00eancia dos usos e costumes condolidados pelo status quo ocidental. Cria-se, portanto, uma cultura pol\u00edtica proporcionada por uma leitura da &#8220;tradi\u00e7\u00e3o&#8221; que, como toda tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 simplesmente inventada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nada disso seria poss\u00edvel sem a presen\u00e7a de empresas transnacionais \u2013 a maioria de matriz estadunidense, mas n\u00e3o exclusiva \u2013 operando no capitalismo de plataforma, difundindo mensagens sem fim e quebrando o consenso forjado ou o consentimento for\u00e7oso, antes proporcionado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nicos. Assim como o fascismo fez, o conflito distributivo pelo controle de recursos e riquezas (a luta de classes) \u00e9 absorvido por uma luta em escala societ\u00e1ria. N\u00e3o nos iludamos. O fascismo \u2013 tanto o hist\u00f3rico como o atual \u2013 est\u00e1 baseado em mentiras sistem\u00e1ticas emitidas em linguagem noticiosa (fake news), que quebra a possibilidade de uma agenda liberal democr\u00e1tica, em que o debate p\u00fablico se imp\u00f5e sobre o interesse do p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A pol\u00edtica internacional no s\u00e9culo XXI<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do per\u00edodo entre guerras do s\u00e9culo XX, a maior parte dos territ\u00f3rios do mundo est\u00e1 sob alguma forma de reconhecimento total ou parcial da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU). Cem anos atr\u00e1s, embora o emprego regular e o trabalho industrial fossem preponderantes no ocidente, estes mesmos pa\u00edses eram sedes de imp\u00e9rios coloniais, fazendo com que a luta de classes no centro do capitalismo fosse compartilhada com a de liberta\u00e7\u00e3o nacional e anticolonial, na periferia do Sistema Internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s a Segunda Guerra e a Bipolaridade, com o fim da antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica, o mundo hoje tem pautas e agendas sobrepostas, n\u00e3o sendo a contraposi\u00e7\u00e3o de uma luta leg\u00edtima contra outra. Me explico. Ouso classificar como v\u00e1lidas ao menos tr\u00eas linhas gerais de defesa coletiva. Uma, a da autodetermina\u00e7\u00e3o dos povos, que implica necessariamente na soberania popular e na capacidade m\u00ednima de uma economia nacional garantidora dos des\u00edgnios do pa\u00eds. Ou seja: cada pa\u00eds, por mais que participe do sistema de trocas, s\u00f3 ser\u00e1 independente caso garanta condi\u00e7\u00f5es m\u00ednimas de infraestrutura e de economia industrial. \u00c9 isso ou quase nada, ficando ref\u00e9m das chantagens dos mercados de capitais, do imperialismo e dos interesses mesquinhos das classes dominantes locais.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra agenda importante e a mais percebida pela popula\u00e7\u00e3o de um territ\u00f3rio, s\u00e3o os direitos econ\u00f4micos e sociais. A humanidade tem experi\u00eancias de sociedades autorit\u00e1rias, sem direitos pol\u00edticos e civis, mas com excelente distribui\u00e7\u00e3o de ingresso e renda. No caso, os manuais da ci\u00eancia pol\u00edtica indicam que enquanto as condi\u00e7\u00f5es de vida forem razo\u00e1veis, as maiorias destas sociedades v\u00e3o aderir ao regime e \u00e0s suas institui\u00e7\u00f5es. No limite do modelo, pa\u00edses como a antiga Alemanha Oriental exemplificam o conceito.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira bandeira, n\u00e3o menos importante, \u00e9 a defesa dos direitos pol\u00edticos, civis, de reconhecimento e da diversidade. Quase sempre, a democracia \u00e9 apontada como um receitu\u00e1rio institucional, uma &#8220;venda casada&#8221; para a ades\u00e3o \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o ocidental comandada por Washington e Nova York, na d\u00e9cada de 1990 do s\u00e9culo XX. Evidente que a democracia pode e deve ser radicalizada, ampliando os direitos atrav\u00e9s da participa\u00e7\u00e3o direta e em busca de uma nova institucionalidade baseada na sociedade organizada, para a melhor distribui\u00e7\u00e3o de renda e poder.<\/p>\n\n\n\n<p>No plano da pol\u00edtica internacional, muitas vezes um capitalismo controlado pelo Poder Executivo que garanta a soberania nacional e econ\u00f4mica, \u00e9 mais eficaz para assegurar uma postura altiva e m\u00ednimas condi\u00e7\u00f5es materiais de sobreviv\u00eancia. N\u00e3o raras vezes, estes mesmos governos podem ser mais autorit\u00e1rios e repressores, ampliando a tens\u00e3o pelas amea\u00e7as reais de viola\u00e7\u00e3o de soberania e agress\u00e3o imperialista. Quando estes acontecimentos s\u00e3o transmitidos ou manipulados para a pol\u00edtica dom\u00e9stica brasileira, o n\u00edvel de desinforma\u00e7\u00e3o vai ao encontro das bandeiras nefastas do Minist\u00e9rio de Assuntos Estrat\u00e9gicos e Diplomacia P\u00fablica da entidade sionista europeia que ocupa a Palestina.<\/p>\n\n\n\n<p>O melhor dos mundos \u00e9 a jun\u00e7\u00e3o de autodetermina\u00e7\u00e3o com soberania popular, economia pujante com distribui\u00e7\u00e3o de renda e a democracia como valor inalien\u00e1vel, garantindo a participa\u00e7\u00e3o e o debate com liberdades civis, individuais e coletivas. No limite do modelo, territ\u00f3rios livres sem amea\u00e7as imperialistas ou viola\u00e7\u00f5es de soberania vindas de pot\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<p>Se no par\u00e1grafo acima definimos o &#8220;melhor dos mundos&#8221;, Bolsonaro, seus aliados, asseclas e seguidores, inlcuindo o apoio incondicional do sionismo, junta o pior dos mundos. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil superar esse tipo de dano profundo a uma sociedade concreta como a brasileira. E, definitivamente, a derrota do protofascismo vai muito al\u00e9m das urnas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bruno Lima Rocha Beaklini (@blimarocha@) &#8211; outubro 2022 Escrevo este artigo faltando menos de quatro dias para o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Brasil. Logo, todo o factual ficaria &#8220;velho&#8221; antes de uma semana, o que implicaria em contrasenso jornal\u00edstico. 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