{"id":10946,"date":"2023-03-06T16:57:27","date_gmt":"2023-03-06T19:57:27","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=3171"},"modified":"2023-03-13T21:57:49","modified_gmt":"2023-03-14T00:57:49","slug":"ouro-ilegal-minerio-para-exportacao-e-a-dependencia-colonial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10946","title":{"rendered":"Ouro ilegal, min\u00e9rio para exporta\u00e7\u00e3o e a depend\u00eancia colonial"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Beaklini (@blimarocha) \u2013 fevereiro\/mar\u00e7o 2023<\/p>\n\n\n\n<p>A viagem de uma delega\u00e7\u00e3o do governo eleito do Brasil para a Terra Ind\u00edgena Yanomami ainda no final de janeiro de 2023, revelou ao mundo o que j\u00e1 era intu\u00eddo pela opini\u00e3o p\u00fablica. Os caminhos do ouro ilegal alimentam uma ind\u00fastria que evade riquezas, destr\u00f3i biomas e pratica crimes ambientais e de lesa humanidade. N\u00e3o \u00e9 \u201cprivil\u00e9gio\u201d brasileiro, pois a rota do ouro n\u00e3o registrado (ou com registros fr\u00e1geis, ainda com notas fiscais em papel) opera a economia pol\u00edtica do crime em cinco pa\u00edses amaz\u00f4nicos (Brasil, Bol\u00edvia, Col\u00f4mbia, Equador e Peru). Desde <a href=\"https:\/\/www.cedib.org\/wp-content\/uploads\/2015\/08\/las-rutas-del-oro.pdf\">2015 h\u00e1 um robusto estudo a respeito<\/a> e as reportagens deste corrente ano s\u00f3 ratificam as bases de an\u00e1lise.<\/p>\n\n\n\n<p>Garimpo de ouro e pedras preciosas e minera\u00e7\u00e3o em escala industrial devem ser atividades econ\u00f4micas nacionalizadas, sob controle direto de comit\u00eas t\u00e9cnico-sindicais e com espa\u00e7o de consulta da popula\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios onde ocorrem estes processos. Do contr\u00e1rio, o crime abunda. As empresas <a href=\"https:\/\/reporterbrasil.org.br\/2021\/06\/hstern-ourominas-e-dgold-as-principais-compradoras-do-ouro-ilegal-da-ti-yanomami\/\">HStern, Ourominas e D\u2019Gold<\/a> \u2013 segundo inqu\u00e9ritos em andamento na Pol\u00edcia Federal \u2013 s\u00e3o as maiores compradoras do ouro ilegal extra\u00eddo em terra yanomami. J\u00e1 a maior mineradora do pa\u00eds, a Vale (antiga Cia. Vale do Rio Doce), foi vendida a pre\u00e7o de banana (em verdadeiro crime de lesa p\u00e1tria) e \u00e9 uma das respons\u00e1veis pelos crimes de <a href=\"https:\/\/www.brasildefato.com.br\/2022\/05\/06\/privatizacao-da-vale-25-anos-lucros-e-crimes-cometidos-evidenciam-mau-negocio-para-o-pais\">Brumadinho (2019) e Mariana (2015).<\/a> Em 23 de janeiro deste ano, a Justi\u00e7a Federal de Minas Gerais acatou den\u00fancia tornando <a href=\"https:\/\/www.poder360.com.br\/justica\/vale-tuv-sud-e-16-pessoas-viram-res-por-brumadinho\/\">r\u00e9s a 16 pessoas, incluindo o ex-presidente da Vale Fabio Schvartsman<\/a>, dando seq\u00fc\u00eancia no calv\u00e1rio de fam\u00edlias e v\u00edtimas destes dois crimes ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 urgente o controle coletivo sobre as empresas mineradoras operando no Brasil e a compra de toda a produ\u00e7\u00e3o de ouro pelo Estado brasileiro. Vejamos o caso de uma sociedade intrinsecamente ligada \u00e0 minera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A eterna luta pelo controle dos recursos minerais na Bol\u00edvia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De todos os exemplos latino-americanos, o pa\u00eds mais marcado pela explora\u00e7\u00e3o mineral \u00e9 a antiga Prov\u00edncia do Alto Peru, cuja primeira capital outrora chamada de \u201cLa Plata\u201d (n\u00e3o confundir com a hom\u00f4nima capital da Prov\u00edncia de Buenos Aires, Argentina) foi rebatizada como Sucre, ap\u00f3s o processo de independ\u00eancia. Pela guerra do salitre (ou do Pac\u00edfico, entre 1879-1893), perdeu o acesso ao litoral em uma guerra contra o Chile, onde esse \u00faltimo foi patrocinado pelo Imp\u00e9rio Brit\u00e2nico. Ap\u00f3s a Guerra Federal (guerra civil intra-olig\u00e1rquica de 1898 a 1899), o Kollasuyu (prov\u00edncia de maioria aymara cujo territ\u00f3rio praticamente equivale ao da Bol\u00edvia atual) se viu diante de uma nova explora\u00e7\u00e3o em escala industrial, com a extra\u00e7\u00e3o de estanho.<\/p>\n\n\n\n<p>Eram <a href=\"https:\/\/jornalggn.com.br\/politica\/os-baroes-do-estanho-na-bolivia\/\">tr\u00eas os grandes bar\u00f5es do estanho<\/a>: Simon Pati\u00f1o (cuja sede da empresa era em Paris), Carlos Aramayo (transferiu sua centralidade de capital para Genebra) e Moritz Hochschild (rebatizou-se Maur\u00edcio). O baronato pagava sal\u00e1rios miser\u00e1veis para a categoria de trabalhadores e trabalhadoras mineiros, comandava a cadeia de lealdades do sistema de oligarquia pol\u00edtica (e judici\u00e1ria e militar) chamado de La Rosca e tinha a palavra final por em cima de presidentes, partidos e generais. Por quase meio s\u00e9culo este trio de empres\u00e1rios (dois bolivianos e um imigrante alem\u00e3o de f\u00e9 judaica) comandaram <em>de facto <\/em>a terra de Juana Azurduy at\u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o de abril de 1952. Um levante comandado pela Central Oper\u00e1ria Boliviana (COB) e a Federa\u00e7\u00e3o Mineira simplesmente desmontou a capacidade repressiva do Ex\u00e9rcito (sempre respons\u00e1vel por massacres de mineiros durante o s\u00e9culo XX at\u00e9 a d\u00e9cada de \u201980) e empossou o \u201cmoderado\u201d presidente Victor Paz Estenssoro (do MNR em seu primeiro mandato).<\/p>\n\n\n\n<p>As minas de estanho e demais minerais foram nacionalizadas, mas os \u201cbar\u00f5es\u201d foram indenizados. O governo criou a Corpora\u00e7\u00e3o Mineira da Bol\u00edvia (<a href=\"https:\/\/www.comibol.gob.bo\/\">COMIBOL<\/a>) em outubro de 1952, como uma resposta \u00e0s corretas demandas da COB de substituir o Ex\u00e9rcito nacional pela estrutura de mil\u00edcias populares coordenadas pelos sindicatos e coordena\u00e7\u00f5es regionais. Mais de setenta anos depois, a unidade da categoria mineira est\u00e1 fragilizada e, infelizmente, o modelo de cooperativas \u00e9 onde h\u00e1 maior risco e informalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A explora\u00e7\u00e3o mineira na Bol\u00edvia se d\u00e1 ainda de tr\u00eas formas. H\u00e1 concess\u00e3o para empresas privadas, algumas transnacionais. O Estado tem outra parte, atrav\u00e9s da COMIBOL, a estatal mineira. Ambas operam com relativas condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a do trabalho e t\u00e9cnicas modernas de perfura\u00e7\u00e3o e extra\u00e7\u00e3o. Outro setor, enorme, \u00e9 o das cooperativas mineiras, onde mais de 70% da m\u00e3o de obra opera sem direitos trabalhistas e sequer t\u00eam acesso a ser membro cooperativado antes de cinco anos de trabalho duro dentro das minas.<\/p>\n\n\n\n<p>A hist\u00f3rica Potos\u00ed \u2013 a que j\u00e1 foi a \u201ccapital do mundo colonial mercantil\u201d \u2013 ainda tem 120 minas operando dentro e nos arredores do departamento (equivale a estado no Brasil) de mesmo nome. O total de mineiros nesta \u00e1rea ampliada passa de 15 mil. A extra\u00e7\u00e3o \u00e9 do complexo mineral composto por prata (ainda, mas pouco), zinco, estanho e chumbo. O pior \u00e9 o beneficiamento e refino. Da mescla mineral as cargas v\u00e3o para ind\u00fastrias privadas que decantam, separam e moem os min\u00e9rios. De l\u00e1 o caminho \u00e9 via caminh\u00e3o cruzando a alta montanha e o deserto andino no rumo dos portos chilenos de Arica (roubado do Peru na Guerra do Pac\u00edfico onde o Chile operou como cabe\u00e7a de ponte dos capitais ingleses) e ainda de Antofagasta (ex-Bol\u00edvia, roubado o acesso boliviano ao litoral no mesmo contexto). As cargas de min\u00e9rios saem preferencialmente pelo porto de Arica, atrav\u00e9s do Tratado de Amizade e Coopera\u00e7\u00e3o, porque a Bol\u00edvia n\u00e3o paga taxas aduaneiras nem de custos de utiliza\u00e7\u00e3o neste terminal portu\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Porque a Bol\u00edvia n\u00e3o tem um parque industrial de beneficiamento que comporte o volume total de extra\u00e7\u00e3o destes quatro min\u00e9rios? Considerando que o estanho j\u00e1 foi a base da economia boliviana por quase cinq\u00fcenta anos, quando o mineral era explorado pelos tr\u00eas bar\u00f5es \u201clocais\u201d, mas com capitais transnacionalizados, n\u00e3o haver ind\u00fastria para o setor cooperativo \u00e9 um absurdo. Dentro do estatuto de coopera\u00e7\u00e3o regional, um fundo comum atrav\u00e9s do Banco do Sul poderia resolver isso, qui\u00e7\u00e1 operando com <em>joint ventures<\/em> \u2013 uma talvez \u2013 com capital brasileiro e chileno (dois destinos destas <em>commodities<\/em> minerais).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A compra do ouro pelo Banco Central<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Banco Central de Bol\u00edvia (BCB) anunciou um projeto de lei <a href=\"https:\/\/abi.bo\/index.php\/noticias\/economia\/33507-bcb-proyecto-de-ley-sobre-compra-de-oro-fortalecera-las-reservas-internacionales-netas\">visando \u00e0 compra do ouro<\/a> produzido no pa\u00eds para ampliar as reservas externas nacionais. O metal precioso \u00e9 um ativo financeiro e pode operar como lastro e cr\u00e9dito em diversas transa\u00e7\u00f5es internacionais. O ouro em dep\u00f3sito \u00e9 t\u00e3o importante que as reservas venezuelanas foram roubadas \u2013 e seguem \u2013 pela Inglaterra, estimulando o finado governo ileg\u00edtimo de Juan Guaid\u00f3 e vetando o acesso a um valor estimado de US$ 1 bilh\u00e3o de d\u00f3lares. No ano de 2022, o volume de <a href=\"https:\/\/portaldobitcoin.uol.com.br\/compra-de-ouro-por-bancos-centrais-chega-ao-nivel-mais-alto-desde-1967\/\">compras de ouro pelos bancos centrais foi o maior desde 1967<\/a>, sendo liderada a aquisi\u00e7\u00e3o por Turquia, Uzbequist\u00e3o e Catar. Logo, ao inv\u00e9s de incentivar o crime ambiental como fez o derrotado Jair Bolsonaro (n\u00e3o por acaso maior aliado dos sionistas na hist\u00f3ria do Brasil), o governo central deveria adquirir o ouro e assim, podendo ampliar as reservas exteriores como diminuir a depend\u00eancia do d\u00f3lar e dos ataques especulativos cambiais.<\/p>\n\n\n\n<p>Tanto no ouro como na minera\u00e7\u00e3o \u00e9 preciso cortar o ciclo mineral exportador com ra\u00edzes coloniais. Ou a Am\u00e9rica Latina se unifica com projetos de interdepend\u00eancia complexa lideradas pelas economias mais fortes do Continente, ou ficaremos eternamente sob as garras de capitais externos associados com os parasitas \u201cnacionais\u201d de sempre.<\/p>\n\n\n\n<p> <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Garimpo de ouro e pedras preciosas e minera\u00e7\u00e3o em escala industrial devem ser atividades econ\u00f4micas nacionalizadas, sob controle direto de comit\u00eas t\u00e9cnico-sindicais e com espa\u00e7o de consulta da popula\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios onde ocorrem estes processos. Do contr\u00e1rio, o crime empresarial abunda. <\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":3812,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[6,28,36],"tags":[144,49,401,402],"class_list":["post-10946","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-america-latina","category-economia-politica","category-politica-internacional","tag-colonialismo","tag-entreguismo","tag-mineracao","tag-reservas-internacionais"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10946","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=10946"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10946\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":11793,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/10946\/revisions\/11793"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/3812"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=10946"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=10946"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=10946"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}