{"id":10947,"date":"2023-03-06T17:11:23","date_gmt":"2023-03-06T20:11:23","guid":{"rendered":"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/?p=3175"},"modified":"2023-03-13T21:57:48","modified_gmt":"2023-03-14T00:57:48","slug":"terceirizacao-escravocrata-serra-gaucha-mitos-italo-brasileiros-e-caminhos-inadiaveis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=10947","title":{"rendered":"Terceiriza\u00e7\u00e3o escravocrata: serra ga\u00facha, mitos \u00edtalo-brasileiros e caminhos inadi\u00e1veis"},"content":{"rendered":"\n<p>Bruno Lima Rocha (@blimarocha) \u2013 mar\u00e7o 2023<br><br><\/p>\n\n\n\n<p>As den\u00fancias de trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o ocorridos em Bento Gon\u00e7alves, serra ga\u00facha (em regi\u00e3o de maioria italiana), t\u00eam um modus operandi: se d\u00e3o atrav\u00e9s de contratos terceirizados para colheita do vinho e apanha de aves (mas tamb\u00e9m na derrubada de \u00e1rvores para ac\u00e1cia negra e colheita da ma\u00e7\u00e3), trazendo \u00e0 tona um problema estruturante. Existe uma hegemonia conservadora (mit\u00f4mana, racista, xen\u00f3foba e com inclina\u00e7\u00f5es para a extrema direita) na regi\u00e3o sul do Brasil e, especificamente, em munic\u00edpios pequenos e m\u00e9dios, com popula\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria de origem italiana, alem\u00e3, polonesa e ucraniana. Mas, como chegamos a esse ponto? Quais os movimentos do capital t\u00e3o bem aplicado neste giro \u00e0 direita? Quais os erros fundamentais da esquerda social brasileira?<\/p>\n\n\n\n<p>Nas d\u00e9cadas de 1970, 1980 e 1990, a ascens\u00e3o das lutas sociais no campo tinham como sujeito social fundante a fam\u00edlia colona. Ou seja, basicamente fam\u00edlias de pequenos\/as agricultores, uma boa parte delas com origens italianas tentando escapar da invialidade do minif\u00fandio campon\u00eas diante da revolu\u00e7\u00e3o verde e do avan\u00e7o do capitalismo mecanizado e transnacionalizado no setor prim\u00e1rio. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, a tradi\u00e7\u00e3o de terras coletivas \u2013 de base origin\u00e1ria \u2013 se mesclava com as col\u00f4nias de povoamento compostas por imigrantes europeus (acima j\u00e1 citados), dando origem aos faxinais, terras faxinalenses (com maior incid\u00eancia no estado do Paran\u00e1 e com presen\u00e7a majorit\u00e1ria de poloneses e ucranianos).<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 as linhas de coloniza\u00e7\u00e3o e suas respectivas Igrejas formavam o sentido comunit\u00e1rio, especialmente em col\u00f4nias de origem alem\u00e3 e italiana, incluindo aquelas colocadas para al\u00e9m do Vale do Rio dos Sinos, subindo a Serra do Rio Grande do Sul. Com sabedoria maquiav\u00e9lica, o Imp\u00e9rio brasileiro \u201cimportou\u201d teutos e depois peninsulares, posteriormente chamados de italianos. A gera\u00e7\u00e3o de bisnetos e tataranetos dos oriundi est\u00e1 muito distante do imagin\u00e1rio de classe trabalhadora e da presen\u00e7a de luta social coletiva, t\u00e3o marcada no Brasil desde a preval\u00eancia do trabalho liberto (d\u00e9cada de 90 do s\u00e9culo XIX) at\u00e9 a primeira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI.<\/p>\n\n\n\n<p>Longe de querer fazer um debate de profundidade, quero constatar o \u00f3bvio e lembrar das possibilidades perigosas desta perda de hegemonia na classe trabalhadora de maioria eurodescendente do interior do sul brasileiro. Qualquer semelhan\u00e7a com a mobiliza\u00e7\u00e3o de fascistas se opondo ao resultado eleitoral de outubro de 2022, n\u00e3o \u00e9 nenhuma coincid\u00eancia. Quando o empresariado local \u00e9 hegemonia na perten\u00e7a cultural de um munic\u00edpio, isso garante a maioria \u2013 ao menos a maioria mobilizada \u2013 com capacidade de promover a ades\u00e3o \u201cpopular\u201d para a direita e a extrema direita.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mitos importantes e caminhos inadi\u00e1veis<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><br>Nas ra\u00edzes da luta popular brasileira ap\u00f3s a aboli\u00e7\u00e3o formal, est\u00e1 presente o anarquismo como forma de organizar o mundo de trabalho e promover a luta de classes \u00e0s \u00faltimas consequ\u00eancias. Assim como v\u00e1rios, cresci escutando um mito hist\u00f3rico equivocado, de que as ideias anarquistas chegaram ao Brasil atrav\u00e9s de navios imigrantes de maioria italiana. N\u00e3o \u00e9 verdade, pois al\u00e9m de alguma experi\u00eancia de insurrei\u00e7\u00f5es camponesas ap\u00f3s a unifica\u00e7\u00e3o, a maior parcela da imigra\u00e7\u00e3o aqui veio pela fome e pela expuls\u00e3o de lavradores de suas terras. Outra evid\u00eancia: mais da metade do anarquismo brasileiro de base sindical era afrodescendente, e 80% dos imigrantes italianos (da It\u00e1lia antes e logo ap\u00f3s a unifica\u00e7\u00e3o) eram analfabetos nas l\u00ednguas nativas (aqui vieram antes do idioma italiano moderno ser estipulado). Mas, repito: como mito fundador o esp\u00edrito de &#8220;lavoratore oirundi&#8221; era muito bom.<br><br>Hoje o mito \u00e9 outro. De que existe uma &#8220;ra\u00e7a superior&#8221; dedicada ao trabalho e de origem europeia (basicamente do Veneto da Pen\u00ednsula e de uma regi\u00e3o que hoje sendo Alemanha, antes da unifica\u00e7\u00e3o prussiana era disputada com a Fran\u00e7a). No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, a m\u00eddia sulista faturou mundos de dinheiro com a campanha &#8220;<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=S_aB76aucIU\">o Brasil de bombacha<\/a>&#8220;. Esses &#8220;ga\u00fachos bombachudos&#8221; (\u201c<a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=fti1T_MyrCg\">a saga da ra\u00e7a guerreira<\/a>\u201d) que desbravaram o Oeste brasileiro eram colonos, filhos, netos e bisnetos, a maioria sem terra, que foi beneficiada pela tese de expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola pela ditadura militar.<br><br>S\u00e3o t\u00e3o &#8220;ga\u00fachos&#8221; (homens sem lei nem rei na etimologia de origem, filhos e filhas bastardas da viola\u00e7\u00e3o de mulheres guaranis p\u00f3s Guerra das Miss\u00f5es), quanto os latifundi\u00e1rios brasileiros, croatas e alem\u00e3es de Santa Cruz de la Sierra (o celeiro boliviano sempre \u00e0s turras com o altiplano andino aymara e quechua, foco de infec\u00e7\u00e3o end\u00eamica de dengue e da extrema direita) s\u00e3o cambas de origem guaran\u00edtica. A mitologia \u201ccruce\u00f1a\u201d gerou as bases de uma quase interven\u00e7\u00e3o militar brasileira, quando do golpe promovido pelo \u201ccruce\u00f1o\u201d Hugo Banzer (agosto de 1971 a julho de 1978), assim como o financiamento da absurda elei\u00e7\u00e3o do ex-ditador na forma de \u201cpol\u00edtico modernizante\u201d, tamb\u00e9m sustentado pelo agroneg\u00f3cio para exporta\u00e7\u00e3o, do departamento de Santa Cruz de la Sierra, Bol\u00edvia. Qualquer semelhan\u00e7a entre a <a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/rs\/rio-grande-do-sul\/noticia\/2023\/02\/28\/entidade-industrial-de-bento-goncalves-diz-que-trabalho-escravo-esta-associado-a-falta-de-mao-de-obra-e-sistema-assistencialista.ghtml\">declara\u00e7\u00e3o racista da C\u00e2mara de Ind\u00fastria e Com\u00e9rcio (CIC) de Bento Gon\u00e7alves <\/a>\u2013 que tenta justificar os contratos terceirizados sem direitos trabalhistas \u2013 com a elei\u00e7\u00e3o do Comit\u00ea C\u00edvico pr\u00f3 Santa Cruz (<a href=\"https:\/\/www.abi.bo\/index.php\/noticias\/politica\/32938-lider-de-la-cod-de-santa-cruz-desafia-al-comite-civico-a-democratizarse-y-dejar-a-las-logias\">manipulada por pequenos grupos de oligarcas<\/a>) n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia.<br><br>Todo o respeito \u00e0 luta dos cambas cruce\u00f1os, liderados por her\u00f3is e hero\u00ednas latino-americanas, como Ignacio Warnes, Ana Barba, Florencia Mendoza (e dezenas de outras), assim como l\u00edderes guerrilheiros \u00e0 altura de Jos\u00e9 Manuel Mercado e Jos\u00e9 Manuel Baca (el Ca\u00f1oto). As for\u00e7as irregulares e mil\u00edcias ind\u00edgenas s\u00e3o as respons\u00e1veis, de fato, pela derradeira independ\u00eancia do Alto Peru (Bol\u00edvia). J\u00e1 no s\u00e9culo XX, nenhum respeito pelos que manipulam esse sentimento em nome da unidade &#8220;c\u00edvica&#8221; com o latif\u00fandio para exporta\u00e7\u00e3o. No s\u00e9culo XXI, menos respeito ainda pela mobiliza\u00e7\u00e3o da extrema direita \u2013 aproveitando os erros do MAS e de Evo Morales \u2013 que propiciaram um golpe de Estado protofascista entre novembro de 2019 at\u00e9 as elei\u00e7\u00f5es de outubro de 2020. N\u00e3o por acaso, os mesmos bolsonaristas que fingiam n\u00e3o ver o trabalho an\u00e1logo \u00e0 escravid\u00e3o no Brasil, <a href=\"https:\/\/outraspalavras.net\/outrasmidias\/bolivia-as-possiveis-digitais-brasileiras-no-golpe\/\">apoiaram o golpe de Estado na Bol\u00edvia<\/a>.<br><br>Esta mesma rela\u00e7\u00e3o aparece na serra ga\u00facha. O colonedo que deu ao pa\u00eds a base original da luta pela reforma agr\u00e1ria (e as primeiras bases do MST) vive sob captura econ\u00f4mica e ideol\u00f3gica do empresariado local, em todos os sentidos da vida comum. Eram minoria, consolidaram hegemonia e agora s\u00e3o maioria, o que explica o crescimento da extrema direita na regi\u00e3o.<br><br>Na base da pir\u00e2mide est\u00e3o as fam\u00edlias sistemizadas em projetos produtivos integrados no agroneg\u00f3cio voltado para exporta\u00e7\u00e3o. A lei de terceiriza\u00e7\u00f5es e a perda de direitos trabalhistas ap\u00f3s o golpe com nome de impeachment, ocorrido no Brasil em abril de 2016, s\u00e3o os instrumentos para recrutar trabalhadores de outros estados e pa\u00edses vizinhos. Uma parte do caminho inadi\u00e1vel \u00e9 revogar a chamada reforma trabalhista (que na verdade nos retira direitos), ampliar a fiscaliza\u00e7\u00e3o dos direitos do trabalho e acabar com as terceiriza\u00e7\u00f5es ilegais. Na outra parte, desmontar a estrutura mentirosa do \u201cagro \u00e9 pop, \u00e9 tech, \u00e9 tudo\u201d para criar um sistema nacional de abastecimento desvinculando do capitalismo agr\u00edcola transnacionalizado, valorizando e promovendo a agricultura familiar e camponesa (com base na agroecologia e autocertificada).<\/p>\n\n\n\n<p>Bruno Lima Rocha \u00e9 cientista pol\u00edtico, jornalista profissional e professor de rela\u00e7\u00f5es internacionais<\/p>\n\n\n\n<p>(<a href=\"mailto:blimarocha@gmail.com\">blimarocha@gmail.com<\/a> \/ <a href=\"https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/\">https:\/\/estrategiaeanaliseblog.com\/<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Existe uma hegemonia conservadora (mit\u00f4mana, racista, xen\u00f3foba e com inclina\u00e7\u00f5es para a extrema direita) na regi\u00e3o sul do Brasil e, especificamente, em munic\u00edpios pequenos e m\u00e9dios, com popula\u00e7\u00e3o majorit\u00e1ria de origem italiana, alem\u00e3, polonesa e ucraniana. 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