{"id":1095,"date":"2009-09-11T12:01:27","date_gmt":"2009-09-11T12:01:27","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1095"},"modified":"2009-09-11T12:01:27","modified_gmt":"2009-09-11T12:01:27","slug":"alegrete-e-a-revolucao-farroupilha-entrevista-com-moacyr-flores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1095","title":{"rendered":"Alegrete e a Revolu\u00e7\u00e3o Farroupilha: entrevista com Moacyr Flores."},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/Moacyr Flores.JPG\" title=\"O Historiador Moacyr Flores logo ap\u00f3s a entrevista. - Foto:Acervo pessoal de Anderson R. P. Corr\u00eaa.\" alt=\"O Historiador Moacyr Flores logo ap\u00f3s a entrevista. - Foto:Acervo pessoal de Anderson R. P. Corr\u00eaa.\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">O Historiador Moacyr Flores logo ap\u00f3s a entrevista.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:Acervo pessoal de Anderson R. P. Corr\u00eaa.<\/small><\/figure>\n<p>Entrevista gravada com o Prof. Dr. Moacyr Flores, por Anderson Rom&aacute;rio Pereira Corr&ecirc;a e Milena de Souza da Silva. A entrevista aconteceu no Gabinete de Pesquisas de Moacyr Flores no P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o da PUCRS, no dia 28 de agosto de 2007. O assunto abordado na entrevista foi: O Alegrete e a Revolu&ccedil;&atilde;o Farroupilha e a cultura ga&uacute;cha (Hist&oacute;ria e mito).<\/p>\n<p>Por Anderson Rom&aacute;rio Pereira Corr&ecirc;a. <br \/>\nAlegrete, 11 de setembro de 2009. <br \/>\nHoje completam-se 173 anos da proclama&ccedil;&atilde;o da Rep&uacute;blica Rio-grandense. <\/p>\n<p>Pergunta Anderson: Considerando que a cidade de Alegrete, comemora os 150 anos de emancipa&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica, qual rela&ccedil;&atilde;o o senhor destaca entre a Revolu&ccedil;&atilde;o Farroupilha e o Alegrete? Resposta do Prof. Moacyr Flores: A participa&ccedil;&atilde;o de Alegrete &eacute; como terceira Capital, quando a Revolu&ccedil;&atilde;o j&aacute; estava no fim, quando ela j&aacute; estava em decad&ecirc;ncia, porque ela come&ccedil;a entrar em decl&iacute;nio em 1839.A&iacute; &eacute; uma quest&atilde;o de fazer a anistia. N&atilde;o houve tratado de paz nenhum, apenas a anistia. <br \/>\nAlegrete ent&atilde;o &eacute; a &uacute;ltima capital e onde vai acontecer a Assembl&eacute;ia Constituinte. Nessa Assembl&eacute;ia Constituinte vai haver um choque entre os exaltados chamados farroupilhas, o outro grupo de moderados,chefiado por Bento Gon&ccedil;alves da Silva. <br \/>\nNa realidade Bento Gon&ccedil;alves n&atilde;o queria a Constitui&ccedil;&atilde;o, tanto &eacute; que ele protelou a reuni&atilde;o da C&acirc;mara dos Deputados dizendo que tinha que reformar a casa; pintar a casa.. At&eacute; que os Deputados resolveram entrar e fazer a Assembl&eacute;ia. Bento, ent&atilde;o, resolveu colocar as tropas do ex&eacute;rcito junto &agrave; Assembl&eacute;ia. Os deputados protestaram, dizendo que isso a&iacute; era um abuso do poder. Bento disse que n&atilde;o, que era para defender a liberdade de discuss&atilde;o. Na realidade ele n&atilde;o queria dividir o poder. O projeto de constitui&ccedil;&atilde;o, um projeto liberal avan&ccedil;ado para a &eacute;poca, em que existiria o controle do poder executivo atrav&eacute;s do legislativo. Portanto, o presidente o Bento Gon&ccedil;alves, na &eacute;poca, perderia seus poderes discricion&aacute;rios, e isso ele n&atilde;o pretendia. O bloco que quer e defende essas mudan&ccedil;as todas &eacute; dos farroupilhas, dos exaltados que &eacute; o Paulino da Fontoura, amea&ccedil;ado de morte. Os deputados que ap&oacute;iam Paulino tamb&eacute;m se retiram e quando est&atilde;o tomando um chimarr&atilde;o, a tropa do ex&eacute;rcito entra no p&aacute;tio e atropela os que est&atilde;o chimarreando. Eles sem garantia de vida, sem fazer as reuni&otilde;es, se retiram da Assembl&eacute;ia e com isso, n&atilde;o se discute mais o Projeto de Constitui&ccedil;&atilde;o. <br \/>\nP. Anderson: Tem alguma coisa a ver com a morte de Paulino? <br \/>\nR. Moacyr Flores: Claro que tem que ver com a morte de Paulino, porque como ele era o mais exaltado e inimigo pessoal de Bento Gon&ccedil;alves. Antes da revolu&ccedil;&atilde;o os dois j&aacute; eram inimigos,. Ent&atilde;o o Paulino &eacute; atacado, no meio da rua, em frente a casa dele. Ele &eacute; socorrido por escravos (isso &eacute; interessante), s&atilde;o os escravos que vem e socorrem-no, e tamb&eacute;m correm com os assassinos e vem a morrer devido aos seus ferimentos. <br \/>\nO Onofre Pires da Silveira Canto, que era primo de Bento Gon&ccedil;alves, e tamb&eacute;m fazia parte da oposi&ccedil;&atilde;o &ndash; oposi&ccedil;&atilde;o &aacute; Bento Gon&ccedil;alves- desafia Bento. Chama o Bento Gon&ccedil;alves de ladr&atilde;o da honra e ladr&atilde;o da p&aacute;tria por ter tra&iacute;do os princ&iacute;pios liberais. Lemos toda a carta de Onofre Pires, n&oacute;s vemos que ele est&aacute; chamando de ladr&atilde;o da honra e ladr&atilde;o da p&aacute;tria, de ter tra&iacute;do os princ&iacute;pios pol&iacute;ticos revolucion&aacute;rios. N&atilde;o por roubo de gado, roubo de cavalo, nada disso,bem clara a carta do Onofre Pires que era alfabetizado (tem um grupo que diz que ele era analfabeto, n&atilde;o era n&atilde;o). O Onofre Pires era alfabetizado. Era primo do Bento, portanto, conhecia bem o Bento. Os dois v&atilde;o duelar e o Onofre Pires termina morrendo de gangrena. Nada daquilo de que estava arrependido e que Bento o deixou sangrar. Nada disso, ele morreu de gangrena. Aqui na &eacute;poca, por motivo dos ferimentos, a maioria morria porque n&atilde;o havia antiss&eacute;ptico. A morte por gangrena era quase certa, por quem tivesse ferido em combate ou com arma, seja l&aacute; qual for. <br \/>\nP. Anderson: Sobre a Constitui&ccedil;&atilde;o que seria votada em Alegrete? <br \/>\nR. Moacyr Flores: A Constitui&ccedil;&atilde;o ficou apenas no projeto, n&atilde;o chegou a ser plenamente discutida. &Eacute; uma pena, porque ela tem alguns princ&iacute;pios interessantes. Mas ela manteve a escravid&atilde;o porque fala em cidad&atilde;os livres. Se fala em cidad&atilde;os livres &eacute; porque haveria escravos. E outra coisa, quando ela fala de quem vota, d&aacute; a idade , d&aacute; o sexo masculino e tamb&eacute;m diz: os cidad&atilde;os livres. Portanto, est&aacute; se estabelecendo uma categoria de livres, porque existe uma de escravos. Depois vem l&aacute;: que escravos menores n&atilde;o votam; libertos n&atilde;o votam, portanto &eacute; um projeto de constitui&ccedil;&atilde;o que mant&eacute;m a escravid&atilde;o. O interessante s&atilde;o as atribui&ccedil;&otilde;es ao Poder Legislativo e o medo, que a gente nota nos artigos, da ditadura do Poder Executivo. E me parece que essa luta continua at&eacute; hoje, o que n&oacute;s temos no Brasil, na realidade &eacute; um choque entre o Poder Legislativo e o Poder Executivo. &Egrave; o que vem acontecendo at&eacute; hoje, come&ccedil;ou em 1823 e continua at&eacute; hoje. A gente v&ecirc; que &eacute; a maneira que o executivo tem de se manter &#8230;Agora est&atilde;o a&iacute;, com medidas provis&oacute;rias. Mas medidas provis&oacute;rias isso a&iacute; deveria ser a medida exclusiva do legislativo e n&atilde;o do executivo. Ent&atilde;o, me parece que ainda n&atilde;o conseguimos separar politicamente as atribui&ccedil;&otilde;es do legislativo e do executivo.Para mim toda a origem do conflito pol&iacute;tico no Brasil, e o fato de n&atilde;o termos partido pol&iacute;tico at&eacute; hoje, o que n&oacute;s temos s&atilde;o grupos de interesses, que jogam entre o executivo e o legislativo. <br \/>\nP. Anderson: Existia rela&ccedil;&atilde;o entre os republicanos &ldquo;ga&uacute;chos&rdquo; com os republicanos platinos (Prata)? <br \/>\nR. Moacyr Flores: A Revolu&ccedil;&atilde;o est&aacute; dentro de todas aquelas revolu&ccedil;&otilde;es que est&atilde;o acontecendo no mundo inteiro. &Eacute; uma revolu&ccedil;&atilde;o liberal. Agora, &eacute; evidente que revolucion&aacute;rios platinos ingressam do lado farroupilha e ingressam do lado imperial; que ambos utilizaram platinos na luta. Mas isso n&atilde;o quer dizer que tenham uma orienta&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica platina. Eles precisavam de acordo com Rivera com Oribe, por causa do porto de Montevid&eacute;u. Ent&atilde;o eles t&ecirc;m que estabelecer uma rela&ccedil;&atilde;o. Foi muito dif&iacute;cil a rela&ccedil;&atilde;o com Oribe, porque ele seguia mais as proibi&ccedil;&otilde;es do Imp&eacute;rio enquanto que o Rivera fazia jogo duplo. Rivera assinou quatro tratados com a Rep&uacute;blica, mas tamb&eacute;m aceitou dinheiro do Imp&eacute;rio para perseguir e n&atilde;o dar guarida aos revolucion&aacute;rios. Eu diria assim: que h&aacute; apenas uma coexist&ecirc;ncia entre fronteiras, n&atilde;o chega a ser uma influencia, agora as id&eacute;ias liberais s&atilde;o as mesma no Uruguai, na Argentina, no Brasil, na Fran&ccedil;a, na Inglaterra, elas s&atilde;o de todo o mundo. Elas n&atilde;o s&atilde;o produzidas aqui nem no Uruguai, s&atilde;o produzidas no mundo inteiro. <br \/>\nP. Anderson: Existiu a participa&ccedil;&atilde;o de imigrantes na Revolu&ccedil;&atilde;o Farroupilha (em Alegrete), &#8230;algum ingl&ecirc;s, italiano? Por Alegrete ser capital farroupilha? <br \/>\nR. Moacyr Flores: Olha, assim especificamente na cidade n&atilde;o sei, mas na Revolu&ccedil;&atilde;o sim. H&aacute; um bando de mercen&aacute;rios l&aacute; em Montevid&eacute;u, que se empregam tanto de um lado, quanto do outro, e n&oacute;s vamos ter do lado farroupilha at&eacute; 39, um mercen&aacute;rio que s&oacute; deu preju&iacute;zo a Revolu&ccedil;&atilde;o, que foi Joseph Garibaldi. Inclusive existe documenta&ccedil;&atilde;o hist&oacute;rica que mostra que no ataque de S&atilde;o Jos&eacute; do Norte, Garibaldi que estava encarregado de atacar a sexta trincheira, vergonhosamente fugiu, e isso, &eacute; um of&iacute;cio do Bento Gon&ccedil;alves da Silva. Ent&atilde;o, ele s&oacute; deu preju&iacute;zo, s&oacute; perdeu aqui. H&aacute; mercen&aacute;rios argentinos, uruguaios, tanto dum lado quanto do outro, imigrantes alem&atilde;es, que lutam do lado imperial, do lado farroupilha. (Alguns engajados a for&ccedil;a) <br \/>\nP. Anderson: Para concluir, fale sobre &ldquo;Mito e Hist&oacute;ria&rdquo; na Revolu&ccedil;&atilde;o Farroupilha. <br \/>\nR. Moacyr Flores: Bom, hoje a Revolu&ccedil;&atilde;o Farroupilha, &eacute; um verdadeiro mito. Passa a ser uma identidade, um testemunho da cria&ccedil;&atilde;o de uma identidade Riograndense. Ent&atilde;o, hoje, todo mundo &eacute; farroupilha, quando que na &eacute;poca, era uma minoria revolucion&aacute;ria. Cidades como Porto Alegre, Rio Pardo, Pelotas, Rio Grande, Ca&ccedil;apava (que foi a segunda capital), eram anti-farroupilha. Os primeiros a lutarem contra os farrapos foram os pr&oacute;prios riograndenses. Criou-se um mito que eles lutaram por causa do charque, (isso &eacute; uma besteira sem tamanho). Lutaram por id&eacute;ias e lutaram pelo poder. &Eacute; um grupo de fazendeiros, grandes comerciantes e oficiais superiores que querem ocupar o poder. O poder era sempre nomeado pela Coroa (Rio de Janeiro &ndash; Corte), agora o Rio Grande do Sul possu&iacute;a uma certa autonomia econ&ocirc;mica, mas n&atilde;o tinha autonomia pol&iacute;tica. Naquela &eacute;poca estava separado pela pr&oacute;pria geografia, ent&atilde;o, ele tinha que se formar sozinho e durante toda a sua forma&ccedil;&atilde;o, conflitos com os castelhanos. No dizer do Bento Gon&ccedil;alves, o Rio Grande do Sul era um acampamento militar. Toda a popula&ccedil;&atilde;o andava armada e era convocada desde os catorze anos at&eacute; os sessenta anos para combate. Ent&atilde;o, isso a&iacute;, vai at&eacute; a guerra do Paraguai, 80% da cavalaria que lutou l&aacute; foi riograndense. O maior comandante &eacute; o Os&oacute;rio, o grande soldado, o grande mentor, estrategista &eacute; o Os&oacute;rio e que comanda os riograndenses. Claro que tem outros no meio, baianos, h&aacute; outros volunt&aacute;rios da p&aacute;tria a&iacute; no meio, mas 80% s&atilde;o riograndenses. <br \/>\nEnt&atilde;o, no Rio Grande do Sul desde o in&iacute;cio, se formou uma sociedade inculta: n&atilde;o tinha teatro, n&atilde;o tinha jornais&#8230; Era uma sociedade r&uacute;stica, a casa muito pobre, mesmo o grande propriet&aacute;rio tinha uma casa muito r&uacute;stica, com pouco recurso, m&oacute;veis quase nenhum &Eacute; s&oacute; a gente olhar a rela&ccedil;&atilde;o dos testamentos que se v&ecirc;. Assim n&oacute;s vemos a pobreza destes grandes propriet&aacute;rios de terra. A pobreza no sentido de mobili&aacute;rio, at&eacute; de indument&aacute;ria. A riqueza era a terra, a quantidade de gado e escravos. Isso era a riqueza. Agora, n&atilde;o havia conforto, n&atilde;o havia escola. Criou-se aqui uma sociedade que praticamente n&atilde;o tinha igrejas. <br \/>\nL&aacute; no s&eacute;culo XVIII n&oacute;s t&iacute;nhamos uma igrejinha em Viam&atilde;o e outra em Rio Grande. A parte da moral, da &eacute;tica que a religi&atilde;o passa, essas pessoas ficaram sem. Muitos viviam a vida inteira sem ir a um ritual religioso, s&oacute; se sabia que ele existia porque morria, a&iacute; tinha que fazer o &oacute;bito, os policiais era quem comunicavam o &oacute;bito, para ser registrado no livro da igreja. <br \/>\nEnt&atilde;o, &eacute; um a sociedade que n&atilde;o tem conventos e semin&aacute;rios onde se estudava na &eacute;poca. Uma sociedade muito r&uacute;stica, e como ela &eacute; mobilizada constantemente contra os castelhanos, ela banalizou a morte. &Eacute; uma sociedade violenta, nada disso de brasileiro bonzinho, a pr&oacute;pria Revolu&ccedil;&atilde;o Farroupilha, n&atilde;o &eacute; isso que vemos no dia 20 de setembro. Esse desfile, com carro aleg&oacute;rico, aqui em Porto Alegre, est&aacute; se transformando em escola de samba. N&atilde;o foi nada disso, houve muita degola, com mortes, com pris&otilde;es. O que o pessoal n&atilde;o se d&aacute; conta, e eu acho incr&iacute;vel, &eacute; que n&oacute;s festejarmos uma revolu&ccedil;&atilde;o, quando n&oacute;s dever&iacute;amos estar festejando a paz. O massacre que houve das popula&ccedil;&otilde;es, e os que mais sofreram com a viol&ecirc;ncia foram as mulheres, que eram as primeiras, a serem violentadas, a serem raptadas, e que isso n&atilde;o &eacute; contado. Os nossos poetas, exaltam o hero&iacute;smo quando na realidade &eacute; pura pilhagem. Da pr&oacute;pria estrutura da sociedade, a estrutura social levava a isso. <br \/>\nPergunta de Milena de Souza da Silva: O senhor poderia falar da constru&ccedil;&atilde;o da imagem do &ldquo;ga&uacute;cho&rdquo;? <br \/>\nResposta de Moacyr Flores: Bom esta constru&ccedil;&atilde;o &eacute; feita por poetas, romancistas, e que foge da realidade. Ela come&ccedil;a a ser constru&iacute;da em 1877 com Oliveira Belo, com o romance Os Farrapos e que vai transformar o ga&uacute;cho em her&oacute;i. O romantismo europeu buscou fazer na hist&oacute;ria da Idade M&eacute;dia, no g&oacute;tico.Como n&oacute;s n&atilde;o tivemos idade m&eacute;dia &#8230;E agora como &eacute; que vamos fazer uma hist&oacute;ria de cavaleiros andantes de T&aacute;vola Redonda, se n&oacute;s n&atilde;o temos a Idade M&eacute;dia ? Jos&eacute; de Alencar, descobriu o &iacute;ndio que n&atilde;o existia mais no Rio de Janeiro e em S&atilde;o Paulo, e criou o romance . Agora, aqui no Rio Grande do Sul, o Oliveira Belo n&atilde;o podia fazer romance de &iacute;ndio, porque o &iacute;ndio era o pe&atilde;o de est&acirc;ncia, o domador, o tropeiro, o soldado. O &iacute;ndio existia aqui, ele n&atilde;o foi massacrado, como contam, ele se incorporou &agrave; popula&ccedil;&atilde;o.Tanto &eacute; que os top&ocirc;nimos do Rio Grande do Sul e do Uruguai, da Argentina e do Paraguai, s&atilde;o todos em guarani. E dados por quem? Pelos campeiros que eram guaranis. <br \/>\nEnt&atilde;o ele n&atilde;o podia botar um &iacute;ndio como her&oacute;i, a&iacute; se descobriu o seguinte, que n&atilde;o existia mais, o ga&uacute;cho, que o ga&uacute;cho terminou com a Guerra do Paraguai. Ele foi levado como volunt&aacute;rio, acorrentado mas foi, voluntariamente para o Paraguai. E tamb&eacute;m o pr&oacute;prio sistema no campo est&aacute; mudando, agora, est&aacute; chegando o brete, o arame fazendo os corredores da estrada. N&atilde;o d&aacute; mais para o indiv&iacute;duo ficar vagabundeando no campo, camperiando a&iacute;, ele agora, tem que entrar no corredor, na estrada e ele &eacute; identificado. Ent&atilde;o, para onde vai esse ga&uacute;cho, ele terminou indo para a Guerra do Paraguai, e ele terminou indo para os n&uacute;cleos urbanos, ele vai formar a popula&ccedil;&atilde;o pobre dos n&uacute;cleos urbanos. Como n&atilde;o tem mais o ga&uacute;cho em 1877, e ele andava a cavalo como o cavaleiro andante, ent&atilde;o, o qu&ecirc; que fazem os nossos rom&acirc;nticos? Pegam aqueles itens do romance de cavalaria e botam no ga&uacute;cho. O ga&uacute;cho deixa de ser incultos, e passa at&eacute; a filosofar. Ele passa a ser transformado dentro princ&iacute;pios do romantismo europeu. Assim como Jos&eacute; de Alencar, criou um &iacute;ndio que nunca existiu, aqui n&oacute;s criamos um ga&uacute;cho que nunca existiu. <br \/>\nO verdadeiro ga&uacute;cho n&atilde;o foi colocado na Literatura, porque este era o bandido, era o marginal, era o ladr&atilde;o. Ent&atilde;o se criou um ga&uacute;cho liter&aacute;rio, vamos dizer assim, que depois &eacute; desenvolvido por Jo&atilde;o Cenzimbra Jacques, ap&oacute;s a nossa sangrenta revolu&ccedil;&atilde;o de 93 a 95, que acharam que tinham que unir o ga&uacute;cho. Como unir esse riograndense? Atrav&eacute;s de uma identidade. Com uma identidade criada, e essa identidade n&atilde;o foi real&#8230;. porque se ela fosse real, s&oacute; os descendentes &eacute; que se identificariam. E ent&atilde;o ela tem que ser uma identidade, irreal, com arqu&eacute;ticos universais: coragem , &#8230;que a gente v&ecirc; em todos os livros did&aacute;ticos. E a&iacute; ent&atilde;o, um italiano, que nunca teve vida de ga&uacute;cho, veste a fantasia do ga&uacute;cho, do alem&atilde;o, e assim vai. Essa cria&ccedil;&atilde;o do ga&uacute;cho ela tamb&eacute;m tem um objetivo, que &eacute; o de unir a cultura no Rio Grande do Sul, porque o Rio Grande do Sul &eacute; um verdadeiro mosaico cultural, eu acho isso fabuloso. Eu sou contra a gauchiza&ccedil;&atilde;o, eu creio que n&oacute;s temos que preservar a nossa diversidade cultural. Inclusive para fins tur&iacute;sticos. Imagina o indiv&iacute;duo visita todo o Rio Grande do Sul e s&oacute; v&ecirc; churrasco, chimarr&atilde;o, ga&uacute;cho, bombacha e dan&ccedil;a do pezinho e do fac&atilde;o, mas o que &eacute; isso, perdemos toda a tradi&ccedil;&atilde;o, das culturas. Ent&atilde;o, este gauchismo que surge tamb&eacute;m com o objetivo de dar uma uniformidade ao Rio Grande do Sul de unir as diverg&ecirc;ncias oriundas l&aacute; das diverg&ecirc;ncias de 1893 e 1895. <br \/>\nP.Milena: O senhor acha que existiu o ga&uacute;cho? Que ga&uacute;cho? <br \/>\nR. Moacyr Flores: S&atilde;o dois ga&uacute;chos, que eu digo que seriam: um ga&uacute;cho hist&oacute;rico, bandido, ladr&atilde;o, que vivia da pilhagem e que s&oacute; tinha trabalho no per&iacute;odo de safra. Que vai de novembro a mar&ccedil;o na campanha. O restante do ano, ele tinha que gauderiar porque n&atilde;o tinha trabalho. Porque que ele tinha trabalho neste per&iacute;odo? Porque o trabalho de campo era feito em campo aberto, o rodeio era em campo aberto. Tinha que transportar o gado a p&eacute;, precisava de muita m&atilde;o de obra, e era contratada neste per&iacute;odo. Terminada a safra, ele n&atilde;o tinha emprego. Agora, quando se modifica a estrutura da pecu&aacute;ria, que vai ter brete, que vai ter os corredores, as mangueiras, os banheiros, enfim, muda a tecnologia, ent&atilde;o, a m&atilde;o de obra &eacute; dispensada. Esse ga&uacute;cho desaparece &#8230;.nem na safra tem mais trabalho, e depois o trem vai liquidar com o tropeiro, n&atilde;o se v&ecirc; mais tropa, &#8230;.vem de Alegrete, Bag&eacute;, aquela zona, o trem vai direto para Pelotas, ou ent&atilde;o, o trem sa&iacute;a dali do Santana do Livramento, do Swift Armour&#8230;, direto para Montevid&eacute;u, ent&atilde;o, n&atilde;o h&aacute; mais a necessidade do tropeiro. <br \/>\nP. Milena: E a respeito das bombachas? <br \/>\nR. Moacyr Flores: A bombacha surge na guerra do Paraguai. Ela era o uniforme da cavalaria brasileira, e quando eles d&atilde;o baixa, j&aacute; que 80% da cavalaria &eacute; do Rio Grande do Sul, eles trazem a bombacha para o Rio Grande do Sul. Ela surgiu como o uniforme da Guerra do Paraguai, antes n&atilde;o tem bombacha. &Eacute; a ceroula com renda de crivo, &#8230; e um chirip&aacute; &#8230; tipo minissaia, n&atilde;o &eacute; o frald&atilde;o aquele, &eacute; uma saia enrolada nos quadris. Isso era a indument&aacute;ria. <br \/>\nN&oacute;s temos que estabelecer diferen&ccedil;a entre hist&oacute;ria e mem&oacute;ria. A mem&oacute;ria &eacute; uma recria&ccedil;&atilde;o do passado, no caso esse ga&uacute;cho de CTG, ga&uacute;cho liter&aacute;rio, ele &eacute; uma recria&ccedil;&atilde;o. Ent&atilde;o o qu&ecirc; que se faz?!!! Como temos conhecimento do contexto hist&oacute;rico, e a Hist&oacute;ria n&atilde;o nos serve, a mem&oacute;ria come&ccedil;a a embelezar o passado. A mem&oacute;ria idealiza o passado, porque este passado vai ser um s&iacute;mbolo, uma entidade, ent&atilde;o, ele tem que sair idealizado dentro dos arqu&eacute;tipos universais. <\/p>\n<p>Anderson e Milena: Muito obrigado!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Historiador Moacyr Flores logo ap\u00f3s a entrevista. Foto:Acervo pessoal de Anderson R. P. Corr\u00eaa. Entrevista gravada com o Prof. Dr. Moacyr Flores, por Anderson Rom&aacute;rio Pereira Corr&ecirc;a e Milena de Souza da Silva. A entrevista aconteceu no Gabinete de Pesquisas de Moacyr Flores no P&oacute;s-Gradua&ccedil;&atilde;o da PUCRS, no dia 28 de agosto de 2007. 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