{"id":1098,"date":"2009-09-18T17:32:38","date_gmt":"2009-09-18T17:32:38","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1098"},"modified":"2009-09-18T17:32:38","modified_gmt":"2009-09-18T17:32:38","slug":"criticando-o-neoliberalismo-a-partir-de-seus-pressupostos-politicos-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1098","title":{"rendered":"Criticando o neoliberalismo a partir de seus pressupostos pol\u00edticos \u2013 3"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/milton_friedman4.jpg\" title=\"MIlton Friedman, o sorriso do ide\u00f3logo dos Chicago Boys \u00e9 a contraface dos gritos de supl\u00edcios no Est\u00e1dio Nacional e noutras masmorras das ditaduras pr\u00f3-neoliberais da Am\u00e9rica Latina. - Foto:conservativecancer\" alt=\"MIlton Friedman, o sorriso do ide\u00f3logo dos Chicago Boys \u00e9 a contraface dos gritos de supl\u00edcios no Est\u00e1dio Nacional e noutras masmorras das ditaduras pr\u00f3-neoliberais da Am\u00e9rica Latina. - Foto:conservativecancer\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">MIlton Friedman, o sorriso do ide\u00f3logo dos Chicago Boys \u00e9 a contraface dos gritos de supl\u00edcios no Est\u00e1dio Nacional e noutras masmorras das ditaduras pr\u00f3-neoliberais da Am\u00e9rica Latina.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:conservativecancer<\/small><\/figure>\n<p>18 de setembro de 2009, por Bruno Lima Rocha, cientista pol&iacute;tico <\/p>\n<p>Neste texto concluo as cr&iacute;ticas feitas por mim ao neoliberalismo, a partir da observa&ccedil;&atilde;o de conceitos-chave de alguns de seus fundadores e doutrinadores que os seguiram. Retomo a partir das observa&ccedil;&otilde;es de Milton Friedman, no texto basilar, The Methodology of Positive Economics (1953).<\/p>\n<p>&Eacute; &ldquo;interessante&rdquo; e incoerente (no sentido da incoer&ecirc;ncia conceitual) a maneira de formula&ccedil;&atilde;o de pensamento de Friedman. Este se arvorava dizendo que um modelo fantasioso se justificava se fosse preciso ao antecipar cen&aacute;rios. No quesito &ldquo;precis&atilde;o de progn&oacute;sticos&rdquo;, entendo que ocorre uma afirma&ccedil;&atilde;o inversa. A precis&atilde;o de an&aacute;lise e a predi&ccedil;&atilde;o de conjunturas dentro de um marco de constrangimento s&atilde;o poss&iacute;veis. J&aacute; o termo empregado por Friedman, a da &ldquo;representa&ccedil;&atilde;o descritiva tremendamente imprecisa&rdquo; n&atilde;o garante nenhuma certeza de altera&ccedil;&atilde;o estrutural no futuro. O que quero dizer &eacute; que o acerto na predi&ccedil;&atilde;o de largo prazo depende da incid&ecirc;ncia dos agentes e n&atilde;o da precis&atilde;o anal&iacute;tica. Ou seja, como todo texto das ci&ecirc;ncias humanas, o do economista de Chicago &eacute; mais uma ferramenta de interven&ccedil;&atilde;o (no caso, neoconservadora) do que uma plataforma &ldquo;cient&iacute;fica&rdquo; em linguagem matem&aacute;tica. <\/p>\n<p>Friedman foi &ldquo;<em>descritivamente impr<\/em>eciso&rdquo; no per&iacute;odo keynesiano, e na Am&eacute;rica Latina, na &eacute;poca dos Estados nacional-desenvolvimentistas. Ele se valeu de um eufemismo ao afirmar que, &ldquo;<em>as hip&oacute;teses realmente importantes e significativas possuem &lsquo;pressupostos&rsquo; que s&atilde;o representa&ccedil;&otilde;es descritivas tremendamente imprecisas da realidade<\/em>&rdquo;. Repito, o texto &eacute; de 1953. Nos Estados Unidos, trinta anos depois, em 1983, suas representa&ccedil;&otilde;es passam a ser levadas descritivamente em conta com a vit&oacute;ria eleitoral de Ronald Reagan. <\/p>\n<p>J&aacute; a &ldquo;precis&atilde;o dos modelos te&oacute;ricos&rdquo; advogada por Anthony Downs (este, doutrinador neoliberal, cuja obra citada &eacute; de 1957), a mesma se v&ecirc; com dificuldade de reprodu&ccedil;&atilde;o de seus pressupostos. &Eacute; interessante notar que o tamb&eacute;m economista Downs afirma que &ldquo;<em>todavia, se &eacute; para nosso modelo ter coer&ecirc;ncia interna, nele o governo deve ser pelo menos teoricamente capaz de desempenhar as fun&ccedil;&otilde;es sociais de governo<\/em> (nesse caso, a palavra governo se refere &agrave; institui&ccedil;&atilde;o, e n&atilde;o ao partido governante).&rdquo; <\/p>\n<p>Downs advoga um modelo onde o governo consiga ao menos ser responsivo. Na aplica&ccedil;&atilde;o do modelo &ldquo;puro&rdquo; de Friedman e seus seguidores, ocorreu o oposto. E, para acentuar a intencionalidade da imprecis&atilde;o descritiva, Friedman formula suas orienta&ccedil;&otilde;es b&aacute;sicas em plena era do Estado de Bem Estar Social. Um resumo de sua f&oacute;rmula de n&atilde;o responsividade de um governo para seus cidad&atilde;os se encontra na obra da jornalista Naomi Klein (A Doutrina do Choque, Record, 2007, p.73), que recolhe as palavras de Friedman: <\/p>\n<p>&ldquo;<em>Em primeiro lugar, os governos deveriam abolir todas as regras e regulamenta&ccedil;&otilde;es que se interpunham no caminho da acumula&ccedil;&atilde;o de lucros. Em segundo, deveriam vender todos os ativos que possu&iacute;am e que podiam ser administrados pelas corpora&ccedil;&otilde;es, com fins lucrativos. E em terceiro, precisavam cortar dramaticamente os fundos destinados aos programas sociais<\/em>.&rdquo; <\/p>\n<p>Mais adiante, um dos fundadores do neoliberalismo ainda especifica suas orienta&ccedil;&otilde;es. Como a aplica&ccedil;&atilde;o imediata de uma Grande Estrat&eacute;gia, as especifica&ccedil;&otilde;es geram medidas concretas para adaptar o aparelho de Estado na f&oacute;rmula tripartite: desregulamenta&ccedil;&atilde;o; privatiza&ccedil;&atilde;o e cortes de investimentos sociais. Dentro dessa predi&ccedil;&atilde;o, sua escolha apontava a isonomia impositiva, taxando em igualdade de grandeza a ricos e pobres; livre circula&ccedil;&atilde;o de produtos industrializados; e proibi&ccedil;&atilde;o dos governos defenderem e protegerem seus parques industriais. A id&eacute;ia de pre&ccedil;o era superior a de remunera&ccedil;&atilde;o, assim, o pre&ccedil;o do valor trabalho tamb&eacute;m seria ditado pelo &ldquo;mercado&rdquo; e n&atilde;o por uma base legal. <\/p>\n<p>O mais importante para esta seq&uuml;&ecirc;ncia de tr&ecirc;s artigos de difus&atilde;o &eacute; demonstrar que esta &ldquo;imprecis&atilde;o descritiva&rdquo; era profunda. Assim, aquilo que Friedman predizia n&atilde;o era dado, e a exist&ecirc;ncia dessa realidade seria fruto de um esfor&ccedil;o pol&iacute;tico de quase duas d&eacute;cadas. O programa de conv&ecirc;nio entre estudantes chilenos e a Universidade de Chicago &eacute; de 1956. Em 1965, a experi&ecirc;ncia se expande para toda a Am&eacute;rica Latina, com participa&ccedil;&otilde;es significativas de estudantes de Brasil, Argentina e M&eacute;xico. Enquanto o programa durou, um em cada tr&ecirc;s alunos de gradua&ccedil;&atilde;o em economia pela Universidade de Chicago era latino-americano. Eis a fonte da vida dos Chicago Boys. <\/p>\n<p>O golpe militar chileno encabe&ccedil;ado pelo general Augusto Pinochet foi em 11 de setembro de 1973. Neste regime, com &ecirc;nfase nos seus primeiros oito anos, o receitu&aacute;rio macro-econ&ocirc;mico derivava da matriz te&oacute;rico-epistemol&oacute;gica de Friedman e Hayek. At&eacute; a reuni&atilde;o anual da Sociedade de Mont-P&egrave;lerin, em 1981, ocorreu no balne&aacute;rio de Vi&ntilde;a Del Mar. &Eacute; outra comprova&ccedil;&atilde;o de que a &ldquo;previsibilidade de progn&oacute;stico&rdquo; de Friedman levou vinte anos para ocorrer e quase uma d&eacute;cada a mais para afirmar seu modelo. Al&eacute;m de todo o ju&iacute;zo moral que se possa fazer desta aplica&ccedil;&atilde;o em um determinado pa&iacute;s, refor&ccedil;o o argumento de que a imprecis&atilde;o descritiva, no meu modo de ver e analisar, n&atilde;o passa de ocultar a premissa ontol&oacute;gica\/ideol&oacute;gica. Afirmo que estas premissas s&atilde;o sempre existentes e s&atilde;o n&atilde;o-cient&iacute;ficas. Portanto, a cren&ccedil;a na &ldquo;racionalidade&rdquo; &eacute; uma constru&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica e seu intento de universaliza&ccedil;&atilde;o &eacute; uma prepot&ecirc;ncia intelectual imposs&iacute;vel de ser provada como hip&oacute;tese v&aacute;lida. <\/p>\n<p>O intento de universaliza&ccedil;&atilde;o do pensamento de matriz empresarial se encontra, de forma textual, nas pr&oacute;prias palavras de Downs (p. 313) <\/p>\n<p><em>Nossa principal tese &eacute; de que os partidos na pol&iacute;tica democr&aacute;tica s&atilde;o an&aacute;logos aos empres&aacute;rios numa economia que busque o lucro. De modo a atingir seus fins privados, eles formulam as pol&iacute;ticas que acreditam que lhes trar&atilde;o mais votos, assim como os empres&aacute;rios produzem os produtos que acreditam que lhes trar&atilde;o mais lucros pela mesma raz&atilde;o. Com a finalidade de examinar as implica&ccedil;&otilde;es dessa tese, tamb&eacute;m presumimos que os cidad&atilde;os se comportam racionalmente em pol&iacute;tica. <\/p>\n<p><\/em>A matriz se encontra na &uacute;ltima frase, que se reproduz a seguir. &ldquo;Com a finalidade de examinar as implica&ccedil;&otilde;es dessa tese, tamb&eacute;m presumimos que os cidad&atilde;os se comportam racionalmente em pol&iacute;tica&rdquo; (grifo meu). E, por racionalidade, se presume que o autor se refira a uma maximiza&ccedil;&atilde;o de ganhos e uma minimiza&ccedil;&atilde;o de perdas. O significado real que possa ter essas formas &oacute;timas e sub-&oacute;timas de benef&iacute;cios pessoais, considerando que &ldquo;a descri&ccedil;&atilde;o imprecisa pode ser a fonte para o acerto de progn&oacute;stico&rdquo; &eacute; uma receita de sabor horroroso e j&aacute; dezenas de vezes por n&oacute;s latino-americanos. <\/p>\n<p>Sejamos justos. As barb&aacute;ries do neoliberalismo assolam a todo o planeta, indo al&eacute;m da Am&eacute;rica Latina. No caso do Continente, a f&oacute;rmula se agrava ao sermos uma esp&eacute;cie de &ldquo;sub&uacute;rbio do Ocidente&rdquo;, reproduzindo o neocolonialismo justamente a partir da velha f&oacute;rmula do Imp&eacute;rio Portugu&ecirc;s em &Aacute;frica. N&atilde;o h&aacute; col&ocirc;nia sem metr&oacute;pole e n&atilde;o h&aacute; coloniza&ccedil;&atilde;o sem assimilados. Os Chicago Boys foram, em sua &eacute;poca, os assimilados do Sul que pensavam de forma mais ortodoxa do que a ortodoxia que os pariu. Os efeitos se viram na chamada d&eacute;cada perdida e nos limites das democracias de tipo liberal-burguesa, limitada e procedimental. <\/p>\n<p>Cedo ou tarde teremos de ajustar as contas com o pensamento colonial e seus reprodutores assimilados. Entendo ser esta tarefa uma das atividades-fim dos trabalhadores intelectuais latino-americanos comprometidos com a causa de seus povos. <\/p>\n<p>\n<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=25818\">Este artigo foi originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas da Unisinos (IHU) <br \/>\n<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MIlton Friedman, o sorriso do ide\u00f3logo dos Chicago Boys \u00e9 a contraface dos gritos de supl\u00edcios no Est\u00e1dio Nacional e noutras masmorras das ditaduras pr\u00f3-neoliberais da Am\u00e9rica Latina. 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