{"id":1112,"date":"2009-10-24T23:30:02","date_gmt":"2009-10-24T23:30:02","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1112"},"modified":"2009-10-24T23:30:02","modified_gmt":"2009-10-24T23:30:02","slug":"a-queda-do-helicoptero-e-os-problemas-insoluveis-do-rio-de-janeiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1112","title":{"rendered":"A queda do helic\u00f3ptero e os problemas insol\u00faveis do Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/nalatino_batman.jpg\" title=\"Natalino, Jerominho, Carminha, Quebra-Ossos, Sprinter, Fazendinha e outros ign\u00f3beis fazem parte da solu\u00e7\u00e3o para-estatal no quesito ordem pol\u00edtica e social. Os para-policiais dominam e executam em lugar da for\u00e7a do Estado e tomam conta de territ\u00f3rios para se locupletarem e ao mesmo tempo colaborarem com os poderes vigentes.  - Foto:globo\" alt=\"Natalino, Jerominho, Carminha, Quebra-Ossos, Sprinter, Fazendinha e outros ign\u00f3beis fazem parte da solu\u00e7\u00e3o para-estatal no quesito ordem pol\u00edtica e social. Os para-policiais dominam e executam em lugar da for\u00e7a do Estado e tomam conta de territ\u00f3rios para se locupletarem e ao mesmo tempo colaborarem com os poderes vigentes.  - Foto:globo\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">Natalino, Jerominho, Carminha, Quebra-Ossos, Sprinter, Fazendinha e outros ign\u00f3beis fazem parte da solu\u00e7\u00e3o para-estatal no quesito ordem pol\u00edtica e social. Os para-policiais dominam e executam em lugar da for\u00e7a do Estado e tomam conta de territ\u00f3rios para se locupletarem e ao mesmo tempo colaborarem com os poderes vigentes. <\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:globo<\/small><\/figure>\n<p>24 de outubro de 2009, por Bruno Lima Rocha <\/p>\n<p>No s&aacute;bado dia 17 de outubro o Brasil foi lembrado de que sua antiga capital, com mais de 6 milh&otilde;es de residentes, &eacute; um conjunto de territ&oacute;rios retalhados pela disputa de dom&iacute;nio e soberania de poderes formais e paralelos. O ataque executado por narcotraficantes e que resultou na derrubada de um helic&oacute;ptero da Pol&iacute;cia Militar (PMERJ), no Morro dos Macacos, no bairro de Vila Isabel, Rio de Janeiro, n&atilde;o &eacute; uma exce&ccedil;&atilde;o &agrave; regra do cotidiano de cariocas (moradores da capital do estado) e fluminenses (residentes no antigo Estado do Rio). Todo o Grande Rio, ultrapassando os 10 milh&otilde;es de habitantes, vivem um cotidiano de n&atilde;o-governo em espa&ccedil;os geogr&aacute;ficos onde o Estado entra de forma negociada ou &agrave; for&ccedil;a. Conforme afirmam a maioria dos especialistas e rep&oacute;rteres da editoria de pol&iacute;cia, derrubar um helic&oacute;ptero com arma de grosso calibre implica um aumento em escala e n&atilde;o da natureza do conflito. Vejamos.<\/p>\n<p><strong>Breve retrospectiva da hist&oacute;ria que se repete <br \/>\n<\/strong><br \/>\nA invas&atilde;o de morros dominados por redes de quadrilhas rivais, cujo eufemismo da m&iacute;dia corporativa insiste em chamar de &ldquo;fac&ccedil;&otilde;es criminosas&rdquo; como se isso resolvesse algo, &eacute; um costume na cidade. Desde o final dos anos &rsquo;70 que duas redes de quadrilhas se organizam por la&ccedil;os de coa&ccedil;&atilde;o e coer&ccedil;&atilde;o de dentro do sistema penal e levam suas lealdades e associa&ccedil;&otilde;es para os morros da cidade. As mais conhecidas, o Comando Vermelho (CV) e seu eterno rival, Terceiro Comando (TC), j&aacute; deram em dezenas de desdobramentos, cujo ramo mais conhecido &eacute; a Amigos dos Amigos (ADA). No in&iacute;cio dos anos 2000, a a&ccedil;&atilde;o de para-policiais evolui em forma organizada e, com o benepl&aacute;cito das for&ccedil;as da &ldquo;ordem&rdquo; (protagonizadas pelo Comando Azul, a cor do uniforme da PMERJ), instaura o regime de &ldquo;mil&iacute;cias&rdquo; (para desgra&ccedil;a dos milicianos da Revolu&ccedil;&atilde;o Espanhola dentre outras forma&ccedil;&otilde;es de tipo povo em armas), dominando &aacute;reas de comunidade de favela. <\/p>\n<p>O uso de caminh&otilde;es-ba&uacute;, aplicando t&aacute;ticas de tipo &ldquo;cavalo de tr&oacute;ia&rdquo; &eacute; empregado desde a guerra no Complexo da Mar&eacute; (conjunto de 13 favelas, mais de 100 mil pessoas, localizado ao lado dos aterramentos da Ba&iacute;a de Guanabara), entre 1999 e 2000, quando veteranos da guerra civil angolana operaram a servi&ccedil;o do TC contra uma das redes do Comando Vermelho. J&aacute; o desvio de armas de uso exclusivo das For&ccedil;as Armadas (FFAA) &eacute; outra constante, uma vez que o Rio segue concentrando quart&eacute;is militares das tr&ecirc;s for&ccedil;as e absorvendo em larga escala a m&atilde;o de obra tempor&aacute;ria de jovens em idade de servi&ccedil;o militar obrigat&oacute;rio. Ao serem dispensados das FFAA como reserva n&atilde;o-remunerada, alguns tem um n&iacute;vel t&eacute;cnico profissional, servindo em unidades operacionais como a Brigada de Infantaria P&aacute;ra-quedista (BPqd). Ao sa&iacute;rem da caserna, muitos s&atilde;o empregados como soldados do tr&aacute;fico. Por distintos motivos, o Rio segue sendo um centro militar de import&acirc;ncia, embora a zona deflagrada para controle de fronteiras n&atilde;o esteja na antiga capital. O que gera esse contra senso? Um costume de militarizar a cidade, no conv&iacute;vio de vizinhos entre quart&eacute;is e locais sob comandos outros que n&atilde;o o do Estado de Direito sob regime de democracia liberal burguesa. Os efeitos de tamanho desvario se notam na presen&ccedil;a de armas de grosso calibre nas m&atilde;os de menores de idade, com pouca ou nenhuma escolaridade e m&iacute;nima expectativa de vida. <\/p>\n<p>J&aacute; a passagem de comboios de homens armados numa cidade como essa, revela algo de maior profundidade. Com a tecnologia de GPS, a instala&ccedil;&atilde;o de radares e os grupamentos t&aacute;ticos m&oacute;veis, &eacute; praticamente imposs&iacute;vel que os &ldquo;bondes&rdquo; n&atilde;o sejam notados. Os &ldquo;bondes&rdquo; s&atilde;o formados por caravanas de autom&oacute;veis, caminhonetas e at&eacute; caminh&otilde;es ba&uacute; (do tipo caminh&otilde;es de mudan&ccedil;a de longa dist&acirc;ncia) e trafegam sem discri&ccedil;&atilde;o. Embora n&atilde;o se pode afirmar de forma leviana que houve conluio na tentativa de invas&atilde;o do &uacute;ltimo fim de semana (s&aacute;bado dia 17 e domingo 18 de outubro), mas no m&iacute;nimo neglig&ecirc;ncia. 150 homens armados n&atilde;o trafegam na segunda cidade mais importante da 11&ordf; economia do mundo sem serem notados por profissionais da seguran&ccedil;a p&uacute;blica. A&iacute; h&aacute; um problema de fundo, incluindo o aproveitamento pol&iacute;tico das opera&ccedil;&otilde;es policiais e a fragmenta&ccedil;&atilde;o das for&ccedil;as de seguran&ccedil;a, t&atilde;o ou mais respons&aacute;veis pela guerra de favelas do que as redes de quadrilhas que a m&iacute;dia corporativa insiste &ndash; equivocadamente &ndash; em denominar de crime &ldquo;organizado&rdquo;. <\/p>\n<p><strong>Ra&iacute;zes do problema <br \/>\n<\/strong><br \/>\nN&atilde;o &eacute; por falta de militariza&ccedil;&atilde;o que a cidade vive sob p&acirc;nico. H&aacute; milico de sobra, a come&ccedil;ar pelo absurdo de termos como policiamento ostensivo uma for&ccedil;a descendente do Guarda Real de Pol&iacute;cia (nascida em 1809) e cuja obra magistral foi despejar moradores do Rio para alojar os fuj&otilde;es da fam&iacute;lia real portuguesa que cruzaram o Atl&acirc;ntico correndo de medo da invas&atilde;o da Fran&ccedil;a napole&ocirc;nica. No Brasil, vivemos sob o segundo absurdo de ter a pol&iacute;cia judici&aacute;ria (a Civil) coexistindo com uma for&ccedil;a castrense com patentes e hierarquias semelhantes &agrave; infantaria do Ex&eacute;rcito. Isto tem de dar errado, porque &eacute; feito para criar injusti&ccedil;a e viol&ecirc;ncia estatal. <\/p>\n<p>O conv&iacute;vio e influ&ecirc;ncia de militares profissionais e conscritos com o universo policial e da bandidagem fornece a representa&ccedil;&atilde;o ideol&oacute;gica que motivar&aacute; a carne de canh&atilde;o que usa uniforme. N&atilde;o por acaso, o famoso e temido Batalh&atilde;o de Opera&ccedil;&otilde;es Especiais (BOPE) da PMERJ realiza seus primeiros treinamentos dentro da unidade dos Toneleros, batalh&atilde;o de elite da For&ccedil;a de Fuzileiros de Esquadra do Corpo de Fuzileiros Navais. Em ocasi&otilde;es recentes, chegaram a ensaiar o emprego ostensivo e permanente da BPqd para a seguran&ccedil;a no Rio. O desastre s&oacute; iria aumentar. <\/p>\n<p>Sendo direto, a verdade &eacute; que tanto a capital como sua Regi&atilde;o Metropolitana vive um estado cotidiano de guerra civil, motivada pelo controle cl&aacute;ssico de territ&oacute;rio, o que inclui sua popula&ccedil;&atilde;o, recursos e o pr&oacute;prio terreno. O descaso vem de antes, da d&eacute;cada de &rsquo;50, quando os esfor&ccedil;os por urbaniza&ccedil;&atilde;o n&atilde;o levaram em conta os moradores de morros. J&aacute; os morros, nascem no final do s&eacute;culo XIX e aumentam a popula&ccedil;&atilde;o com os despejos em massa de corti&ccedil;os e mocambos cujo &aacute;pice foi a Revolta da Vacina (1904). Durante o per&iacute;odo da ditadura militar (1964-1985) nada se fez para melhorar as condi&ccedil;&otilde;es de vida daqueles que sobreviviam em condi&ccedil;&otilde;es prec&aacute;rias &ndash; com desemprego estrutural &#8211; e numa forma de vida razoavelmente aut&ocirc;noma para com o Estado em seus distintos regimes. E, para desespero coletivo, a situa&ccedil;&atilde;o de controle territorial por parte de quadrilhas organizadas em torno da baixa economia do tr&aacute;fico se agrava desde 1983! No meu entendimento, esta &eacute; a raiz de todos os problemas de ordem p&uacute;blica da &ldquo;Cidade Maravilhosa&rdquo;. <\/p>\n<p>\n<strong>Em busca de conclus&otilde;es poss&iacute;veis <br \/>\n<\/strong><br \/>\nPode parecer um pensamento extremo, mas em situa&ccedil;&otilde;es como as do Rio, somente as solu&ccedil;&otilde;es extremas s&atilde;o poss&iacute;veis de serem aplicadas. Vale lembrar que o descontrole tamb&eacute;m &eacute; um ramo importante de neg&oacute;cios. As for&ccedil;as da &ldquo;ordem&rdquo; do Rio sempre coexistiram com o Jogo do Bicho. O perigo constante era o de bandidos independentes, com aten&ccedil;&atilde;o especial para os assaltantes de banco. Esse &eacute; o per&iacute;odo anterior &agrave;s lealdades de falanges da cadeia que vieram a se transformar em &ldquo;comandos&rdquo;. <\/p>\n<p>O desmando &eacute; filho da desigualdade com a injusti&ccedil;a. Isto porque a viol&ecirc;ncia policial-estatal, a que garante a impunidade do andar de cima da sociedade brasileira, &eacute; a mesma que regiamente cobra o arrego semanal dos gerentes de boca de fumo e fornece m&atilde;o de obra para as &ldquo;mil&iacute;cias&rdquo;. No quesito ordem urbana, trata-se de uma forma de vida e amplo setor de economia organizada em paralelo ao sistema impositivo. O fornecimento de servi&ccedil;os, indo al&eacute;m da venda de drogas ilegais, complementa a renda e lavam o dinheiro do tr&aacute;fico ou da extors&atilde;o para policial. Implicam em fornecimento de g&aacute;s, no transporte de passageiros em Vans e Kombis, redes de gatos nos pontos de energia e cabeamento pirata das TVs por assinatura. Na hora do neg&oacute;cio, o bra&ccedil;o armado do Estado em paralelo &ldquo;vende&rdquo; os morros de porteira fechada, com a popula&ccedil;&atilde;o e o quociente eleitoral dentro. <\/p>\n<p>Seria necess&aacute;rio um amplo e profundo movimento civil dos moradores dessas &aacute;reas, como foi na &eacute;poca da Abertura, quando a Federa&ccedil;&atilde;o de Associa&ccedil;&otilde;es de Moradores de Favelas (Faferj) era um espa&ccedil;o massivo de luta popular, indo al&eacute;m da corrida eleitoral a cada dois anos. Tampouco bastariam maquiagens ou obras inacabadas como o antigo projeto Favela Bairro, todos sabem que o problema &eacute; de ordem estrutural.<\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=26839\">este artigo foi originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas da Unisinos (IHU)<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Natalino, Jerominho, Carminha, Quebra-Ossos, Sprinter, Fazendinha e outros ign\u00f3beis fazem parte da solu\u00e7\u00e3o para-estatal no quesito ordem pol\u00edtica e social. Os para-policiais dominam e executam em lugar da for\u00e7a do Estado e tomam conta de territ\u00f3rios para se locupletarem e ao mesmo tempo colaborarem com os poderes vigentes. 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