{"id":1148,"date":"2010-01-22T22:26:04","date_gmt":"2010-01-22T22:26:04","guid":{"rendered":"http:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/?p=1148"},"modified":"2010-01-22T22:26:04","modified_gmt":"2010-01-22T22:26:04","slug":"uma-definicao-adequada-da-categoria-ideologia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/?p=1148","title":{"rendered":"Uma defini\u00e7\u00e3o adequada da categoria ideologia"},"content":{"rendered":"<figure class=\"image-container image-post-defautl\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/paris_68.jpg\" title=\"A categoria ideologia reflete-se no cotidiano das significa\u00e7\u00f5es, particulares e coletivas. - Foto:overmundo\" alt=\"A categoria ideologia reflete-se no cotidiano das significa\u00e7\u00f5es, particulares e coletivas. - Foto:overmundo\" class=\"image\"><figcaption class=\"fig-caption\">A categoria ideologia reflete-se no cotidiano das significa\u00e7\u00f5es, particulares e coletivas.<\/figcaption><small itemprop=\"copyrightHolder\" class=\"copyright\"> Foto:overmundo<\/small><\/figure>\n<p>21 de janeiro de 2010, da Vila Setembrina, Bruno Lima Rocha <\/p>\n<p>A tem&aacute;tica ligada &agrave; defini&ccedil;&atilde;o de ideologia e o uso ou n&atilde;o desta categoria &eacute; fruto de largas pol&ecirc;micas, tanto nos c&iacute;rculos acad&ecirc;micos como em partidos e organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. Neste trabalho de difus&atilde;o cient&iacute;fica (fruto de tese de doutoramento em ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica) venho abordando o tema, partindo j&aacute; de uma defini&ccedil;&atilde;o da interdepend&ecirc;ncia da esfera Ideol&oacute;gica como pr&oacute;pria do mundo das representa&ccedil;&otilde;es, dos s&iacute;mbolos, das significa&ccedil;&otilde;es, das interpreta&ccedil;&otilde;es do mundo da vida e todo o universo ao que diz respeito da mem&oacute;ria, da identidade e do sentido de pertencimento. J&aacute; em textos anteriores afirmamos, atrav&eacute;s do texto de Althusser (apud Coelho, 1968), ser o inconsciente um objeto pr&oacute;prio, &uacute;nico e transversal ao sistema de domina&ccedil;&atilde;o e da estrutura de classes. Portanto, seus frutos, n&atilde;o podem ser &ldquo;jogo de espelhos e nem falsifica&ccedil;&atilde;o de realidade material&rdquo; porque a forma&ccedil;&atilde;o do homem, de homin&iacute;deo em produto civilizat&oacute;rio humanizado e humanizante passa pela constru&ccedil;&atilde;o dos significados.<\/p>\n<p>Repito o que j&aacute; foi dito e reafirmo a posi&ccedil;&atilde;o n&atilde;o para desconsiderar a pol&ecirc;mica a respeito da categoria ideologia. Reconhe&ccedil;o os debates e os embates, mas me atenho &agrave;s defini&ccedil;&otilde;es aqui expostas. Entrar nesse tema com profundidade &eacute; mais uma janela aberta a partir deste esfor&ccedil;o de cria&ccedil;&atilde;o epistemol&oacute;gica de base ontol&oacute;gica libert&aacute;ria, a tese de doutoramento, fruto de &aacute;rduo trabalho te&oacute;rico-pol&iacute;tico e somado ao di&aacute;logo realizado atrav&eacute;s das obriga&ccedil;&otilde;es profissionais e de of&iacute;cio acad&ecirc;mico. <\/p>\n<p>Voltando ao foco deste breve artigo, a defini&ccedil;&atilde;o recente que mais se aproximou daquilo que este trabalho e seu autor t&ecirc;m como express&atilde;o ideol&oacute;gica, eu a encontrei em um texto da argentina Susana Murillo (2008). <\/p>\n<p>Em seu trabalho, equivalente ao Cap&iacute;tulo 1 &ldquo;Acerca de La Ideolog&iacute;a&rdquo;, do livro Colonizar el dolor. La interpelaci&oacute;n ideol&oacute;gica del Banco Mundial en Am&eacute;rica Latina. El caso argentino desde Blumberg a Croma&ntilde;on (2008), a autora conterr&acirc;nea de gente da estirpe de Emilio Uriondo e Mauricio Malamud nos traz uma boa defini&ccedil;&atilde;o do conceito de ideologia. Nesta, ela nega a id&eacute;ia de &ldquo;falsa consci&ecirc;ncia&rdquo; e tampouco estabelece uma distin&ccedil;&atilde;o ontol&oacute;gica entre a ordem econ&ocirc;mica e o ordenamento pol&iacute;tico. Isto vai ao encontro da defini&ccedil;&atilde;o de Foucault (apud Murillo, 2008), quando este afirma que &ldquo;as pr&aacute;ticas sociais constroem objetos, conceitos, t&eacute;cnicas e formas de subjetividade&rdquo;. Vou ao encontro desta defini&ccedil;&atilde;o e fa&ccedil;o acordo com Murillo quando a mesma afirma que &ldquo;desde essas perspectivas, a ideologia caracterizada como falsa consci&ecirc;ncia nada aportaria; sobretudo porque esta caracteriza&ccedil;&atilde;o se baseia sobre a distin&ccedil;&atilde;o fict&iacute;cia dentre a super-estrutura jur&iacute;dico-pol&iacute;tica e a infra-estrutura econ&ocirc;mica&rdquo;. <\/p>\n<p>&Eacute; justamente esta cr&iacute;tica e a afirma&ccedil;&atilde;o da interdepend&ecirc;ncia e n&atilde;o da met&aacute;fora de super e infra-estrutura que me aproxima de seu conceito de ideologia. Neste conceito, Murillo afirma que a valoriza&ccedil;&atilde;o do mesmo tem como fim o avan&ccedil;o te&oacute;rico na compreens&atilde;o de diversos processos. S&atilde;o eles (de forma resumida): <\/p>\n<p>1) vislumbrar de que modo o ser que nasce de um ventre humano se hominiza, n&atilde;o somente por raz&otilde;es biol&oacute;gicas mas tamb&eacute;m por raz&otilde;es culturais; <\/p>\n<p>2) compreender por que no processo de hominiza&ccedil;&atilde;o, os mecanismos positivos ou produtivos de poder, desenvolvidos em formas de dispositivos, se constituem em ideais subjetivos; <\/p>\n<p>3) ajuda a evitar o cinismo (Zizek apud Murillo 2008) que, mesmo sabendo da domina&ccedil;&atilde;o de umas for&ccedil;as sociais sobre outras (grifo meu), por omiss&atilde;o naturaliza este processo de dom&iacute;nio; <\/p>\n<p>4) analisar como os mecanismos de poder s&atilde;o espa&ccedil;os de luta que transformam e s&atilde;o transformados pelas subjetividades individuais e coletivas (tamb&eacute;m constitu&iacute;das dentro destes espa&ccedil;os) em diversos momentos da hist&oacute;ria; <\/p>\n<p>5) aporta luz sobre a compreens&atilde;o de processos onde, por vezes, grupos humanos em situa&ccedil;&otilde;es de extrema vulnerabilidade, aderem a propostas de car&aacute;ter autorit&aacute;rio; <\/p>\n<p>6) permite revisar uma no&ccedil;&atilde;o de &ldquo;subjetividade&rdquo; onde esta aparece como produto &ldquo;passivo&rdquo;, isto para repens&aacute;-la, as subjetividades, como um produto ativo e construtivo, algo que se faz tamb&eacute;m a partir das pr&aacute;ticas sociais. <\/p>\n<p>Esta larga defini&ccedil;&atilde;o em defesa do conceito de ideologia e da import&acirc;ncia de seu desenvolvimento te&oacute;rico me parece mais que satisfat&oacute;ria. Isto porque aproxima a ci&ecirc;ncia pol&iacute;tica neste trabalho praticada da no&ccedil;&atilde;o de que como seres humanos, n&oacute;s estamos al&eacute;m de uma suposta dicotomia entre &ldquo;esp&iacute;rito&rdquo; e &ldquo;corpo equivalendo a uma m&aacute;quina&rdquo;. A pr&oacute;pria no&ccedil;&atilde;o foucaultiana de corpo, de corpos, &eacute; algo que se constitui desde a mirada e a aprecia&ccedil;&atilde;o hist&oacute;ricas. A esfera ideol&oacute;gica &eacute; parte constitutiva de uma carne humana que se faz sujeito, mas n&atilde;o de forma transparente ou necessariamente &ldquo;consciente&rdquo;, como pleno de raz&atilde;o pura. &Eacute; um processo simult&acirc;neo, compartimentado onde toda a condi&ccedil;&atilde;o de exist&ecirc;ncia acarreta algum grau, maior ou menor, de imagin&aacute;rio, que &eacute; constitutivo da exist&ecirc;ncia mesma. <\/p>\n<p>Aqui apresento a Interdepend&ecirc;ncia de Tr&ecirc;s Esferas onde o pol&iacute;tico-jur&iacute;dico-militar aparece como lugar de s&iacute;ntese, mas n&atilde;o como determinante, e tampouco o &eacute; determinante a esfera de trocas e produ&ccedil;&otilde;es, como &eacute; a economia. Uma boa defini&ccedil;&atilde;o do papel da Esfera Ideologia (conceito ampliado) se encontra na obra de Castells (2003, El Poder de La Identidad), especificamente no cap&iacute;tulo 1: Para&iacute;sos comunales: identidad y sentido em la sociedad red, mais especificamente no sub-t&oacute;pico &ldquo;La umma contra el yahil&iacute;ia: El fundamentalismo isl&acirc;mico&rdquo; (pp. 42-51), quando o autor espanhol afirma que &ldquo;o resultado hist&oacute;rico de uma ideologia n&atilde;o se mede em votos ou pastas ministeriais, ou nem sequer em apoio popular organizado, mas sim em sua capacidade de modificar cren&ccedil;as, desafiar os valores dominantes e alterar as rela&ccedil;&otilde;es de poder globais&#8230;&rdquo; <\/p>\n<p>Mesmo estando Castells se referindo ao chamado fundamentalismo isl&acirc;mico, ou integrismo (termo de minha prefer&ecirc;ncia pois me parece de maior rigor), entendo que o exemplo conceitual acima &eacute; perfeitamente an&aacute;logo &agrave;s constru&ccedil;&otilde;es de identidades latino-americanas. Assim, a defini&ccedil;&atilde;o do poder de uma ideologia aportado por Castells, nos remete &agrave; sua pr&oacute;pria condi&ccedil;&atilde;o de existir como categoria. Isto porque o c&acirc;mbio profundo de mentalidades n&atilde;o pode ser fruto de uma rela&ccedil;&atilde;o passiva e de subordina&ccedil;&atilde;o &agrave;s demais rela&ccedil;&otilde;es e pr&aacute;ticas sociais. <\/p>\n<p>Estas formas de disputa e contra-peso da esfera, conceito e categoria determinada e pr&oacute;pria chamada ideologia ocupa um lugar central no desenvolvimento de qualquer modelo de organiza&ccedil;&atilde;o pol&iacute;tica. Este peso redobra em import&acirc;ncia e gravita&ccedil;&atilde;o, a ponto de deformar o campo e referenciar aos demais, (seguindo o conceito de Bourdieu 1997, p.60), e sua aplica&ccedil;&atilde;o pode significar um fator decisivo na rela&ccedil;&atilde;o conflitiva entre a radicaliza&ccedil;&atilde;o democr&aacute;tica e a limitante e limitadora ordem constitu&iacute;da. <\/p>\n<p>\n<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/index.php?option=com_noticias&amp;Itemid=18&amp;task=detalhe&amp;id=29158\">Este artigo foi originalmente publicado no portal do Instituto Humanitas Unisinos (IHU) <\/a><\/p>\n<p><u>Bibliografia utilizada: <br \/>\n<\/u><br \/>\nALTHUSSER, Louis, Freud e Lacan. 3&ordm; cap&iacute;tulo da 3&ordf; parte (Psican&aacute;lise) do livro de COELHO, Eduardo Prado, Estruturalismo, antologia de textos te&oacute;ricos, pp. 229-255. Rio de Janeiro, Martins Fontes, 1968. <br \/>\nBOURDIEU, Pierre. Sobre a televis&atilde;o. Rio de Janeiro, Zahar, 1997. <br \/>\nCASTELLS, Manuel El Poder de La Identidad. Ciudad de M&eacute;xico, Siglo XXI, 2003 <br \/>\nMURILLO, Susana. Cap&iacute;tulo I. Acerca de La ideolog&iacute;a. Em publica&ccedil;&atilde;o: Colonizar el dolor. La interpelaci&oacute;n ideol&oacute;gica del Banco Mundial en Am&eacute;rica Latina. El caso argentino desde Blumberg a Croma&ntilde;on. MURILLO, Susana CLACSO: Conselho Latinoamericano de Ciencias Sociales, Buenos Aires, abril de 2008. ISBN: 978-987-1183-90-6. Documento eletr&ocirc;nico encontrado em: http:\/\/bibliotecavirtual.clacso.org.ar\/ar\/libros\/becas\/murillo\/01Murillo.pdf arquivo consultado em 08 de agosto de 2008.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A categoria ideologia reflete-se no cotidiano das significa\u00e7\u00f5es, particulares e coletivas. Foto:overmundo 21 de janeiro de 2010, da Vila Setembrina, Bruno Lima Rocha A tem&aacute;tica ligada &agrave; defini&ccedil;&atilde;o de ideologia e o uso ou n&atilde;o desta categoria &eacute; fruto de largas pol&ecirc;micas, tanto nos c&iacute;rculos acad&ecirc;micos como em partidos e organiza&ccedil;&otilde;es pol&iacute;ticas. Neste trabalho de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1148","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-sem-categoria"],"jetpack_publicize_connections":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1148","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=1148"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/1148\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=1148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=1148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/estrategiaeanalise.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=1148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}